Notas iniciais
Oiiii :)
Bem, amanhã cedo eu tenho uma prova fu*****, entao nao vou enrolar aqui, hj.
Espero que gostem do cap.
Boa leitura.
:*Aç

Cap. 14- Alguém à porta

Biloxi, Mississipi

Sala de estar, mansão Whitlock.

Alice ficara parada, encarando Jasper com os olhos descrentes. Fora criada completamente a parte desses assuntos brutos de homens, como as guerras que viviam estourando nas redondezas.

Mas, agora, aquela carta a deixava cara-a-cara com aquela realidade que a fazia estremecer.

_ Oh Deus, estão guerreando? – ela perguntou com a voz transbordando preocupação e choque.

Jasper olhou para a carta, ainda entre suas mãos, e automaticamente sua mente já começara a imaginar como estaria o campo de acampamento onde seu ex-exercito estaria.

Quantos já haviam sofrido...

_ Aparentemente – ele murmurou com a voz dura – Os novos soldados imigrantes não estão conseguindo lutar. O Capitão Carlisle está pedindo ajuda com eles. E, também – ele levantou o olhar novamente para Alice, enquanto ela escutava atentamente – As desavenças estão piores.

Alice engoliu em seco, apertando a mão na gola de seu vestido, nervosa.

_ As desavenças entre quem? – ela perguntou.

_A revolução industrial esquentou as lutas pelas terras disponíveis para o plantio, pois estas são negadas pelos poderosos do governo – Jasper estalou a língua, os nervos alterando-se. Estava ficando perturbado com aquela repentina historia. Deus, seus amigos.... – Ao que parece – ele a olhou com intensidade – A situação está terrível.

_ Eu entendo – ela murmurou com um sentimento ruim no peito. Aquela historia era muito pesada, a guerra era muito pesada. Sabia que Jasper deveria estar o inferno de preocupado com os amigos – Sinto muito.

Mesmo diante da preocupação em que se encontrava, Jasper dera um sorriso curto para Alice, gostando muito de sua solidariedade.

_ Eu sei – disse ele, colocando a carta na mesinha ao lado do sofá com lentidão. Agora, seus dedos pareciam pesar 300 kg e aquele pedaço de papel o dobro.

_ Bem – Alice suspirou audivamente. Pegou o pulso dele a fim de fazê-lo olhar para ela – Você não quer deitar-se? Vejo como essa noticia lhe roubou os ânimos. Podemos esperar por noticias amanhã – ela sorriu, incentivando-o a aceitar sua proposta, pois sua expressão caíra tão drasticamente que ela quase começou a puxá-lo escada acima.

Com um sorriso fraco, Jasper manteve-se exatamente em seu lugar. Viu Alice olhá-lo com uma ruga na testa que não combinava muito com ela. Ele virou seu pulso em sua delicada mão e acariciou o próprio pulso dela, cuja a circulação do sangue ali ele notara o exato momento em que alterara.

Com a outra mão, ele colocou seu dedo em sua testa, desfazendo a ruga que ainda permanecia ali.

_ Sim, você está certa, minha cara – disse ele de uma maneira que deixou Alice alerta. Estava estranha demais aquela situação – Me roubou completamente os ânimos. Mas não irei deitar-me agora – com uma lentidão proposital, Jasper puxou seu rosto para perto dele, sua boca na altura de seus olhos – Eu preciso arrumar minhas malas. Eu irei para Michigan – disse e, então, deu um delicado e casto beijo em sua testa.

Mas não previu a reação de Alice.

Ela se afastara bruscamente dele, o olhar mais acusador do que nunca.

_ Você não está absolutamente pensando em ir, está? – ela lhe perguntou chocada, a pulsação em suas veias aumentando drasticamente, mas dessa vez por um motivo que gelou sua espinha.

Jasper detestou ver aquilo nos olhos castanhos vivos de Alice. Estava prevendo que estouraria uma guerra ali pior do que a de Michigan.

Mas ele não poderia evitar, dessa vez.

_ Sim, Alice – disse cuidadosamente, analisando todas as reações dela – Eu irei.

Alice ficou encarando-o incrédula. Não estava realmente acreditando que Jasper estava disposto a ir, a entrar de cabeça à algo tão perigos, tão brutal.

Ele estava disposto a rivalizar com a morte.

Ela ofegou, de repente, a mente virando um turbilhão confuso.

_ Você ficou completamente fora de si? – ela exclamou alto, a voz aguda. Afastou-se mais um passo dele e foi nesse momento, onde a tensão da sala de estar aumentava drasticamente, que Jasper temeu perder o controle da conversa e deixar Alice com raiva dele.

_ Alice, você precisa entender – ele tentou argumentar, se aproximando o mesmo passo que ela se afastara. Mas Alice maneava a cabeça, os olhos que ele gostava tanto de ter sobre ele, perplexos – Eles precisam de minha ajuda!

_ Você não pertence mais ao exercito deles, Jasper! – Alice bateu o pé no assoalho começando a ficar com os olhos turvos. Deus, aquela historia dele ir para a guerra, onde tantos jamais voltavam, lhe era tão aguda e terrível que a estava fazendo querer chorar – Não tem que ir a lugar algum!

Jasper praguejou baixo, não querendo ser duro com ela, pois era evidente que ela estava transtornada pela noticia. Mas, ele precisava fazê-la entender e aceitar que ele precisava ir ajudar seus amigos.

_ Alice, eu devo muito a eles – disse passivamente. Pegou sua mão trêmula entre as suas próprias em um ato impulsivo – Eu sinto muito, mas preciso ajudá-los. Eles estão... estão perdendo a luta.

Mesmo com a voz mortalmente preocupada e temerosa, Alice não quis entendê-lo. Puxou sua mão com rispidez, encarando-o fundo.

_ È perigoso, Jasper! – ela quase gritou, sua voz falhada. Jasper parecia decidido em ir mesmo sob os protestos dela e aquilo estava começando a desesperá-la. Ela virou de costas para ele, pois não queria que ele continuasse a ver seu estado – Você só deseja ir por que é tremendamente cheio de si!

Jasper fechou os olhos. Pela primeira vez desde que haviam se conhecido, ele não se preocupou em ficar irritado com ela por suas errôneas deduções sobre o que ele fazia.

Não era por ego que ele estava disposto a ir para a guerra.

Mas não estava sendo tão agradável partir brigando com Alice. Ao menos, não dessa vez. Pois, se se preocupasse em como ela estaria chateada com ele e certamente transbordando seu coração de ódio dele, ele não se concentraria em suas lutas da maneira como deveria.

E aquilo sim era o perigo.

_ Não é por isso – Jasper murmurou aproximando poucos passos de suas costas. Estava com vontade de abraçá-la – Estou pensando em meus irmãos de luta. Se eu não ajudá-los, algo muito mais terrível pode acontecer. E, se acontecer Alice, eu jamais dormirei em paz novamente.

Alice fechou os olhos, desejando que voltassem ao momento do gramado. Haviam sido segundos precisos.

Seu coração estava tão apertado que Alice colocou a mão sobre ele.

_ È... uma... guerra! – ela grunhiu.

_ Alice...

Alice se virou bruscamente para ele, uma raiva cega fazendo suas mãos se fecharem em punhos defensivos.

_ Você sabe o que acontece com as pessoas nesses lugares? Elas morrem, Jasper, morrem! — ela explodiu, a ponto de começara a chorar feito uma cachoeira.

Jasper sentiu seu peito apertar pelo pânico em que ela falava aquilo. Ele sabia daquela realidade. Sabia que ir para uma guerra poderia significar jamais uma volta.

Mas ele sabia, também, que não tinha escolha.

Alice, não conseguindo continuar sustentando o olhar dele, que pedia desculpas mudas, ela virou-se abruptamente e se encaminhara para as escadas. A casa estava silenciosa, a não ser pela discussão acalorada deles dois em plena sala de estar. Alice deduziu que as serviçais estivessem assustadas demais para aparecer e pensar em intervir.

Alice agradeceu internamente por aquilo, pois não queria ser grosseira com elas, também.

_ Alice, eu preciso ir – Jasper disse decidido, a primeira passada no primeiro degrau da escada.

Alice se virou novamente para ele, um pouco acima nos degraus.

_ Não, você não precisa ir! – ela retrucou, ainda retraída demais para ver o lado dele. Então, como se buscasse uma maneira covarde de fazê-lo sentir-se culpado, ela semicerrou os olhos para ele – Ou isso tudo não é absolutamente relacionado à guerra em si? – ela balançou a cabeça freneticamente – Deus, a convivência comigo lhe é tão intragável que você prefere ir guerrear? – ela lhe deu as costas novamente, seguindo a duras passadas escada acima.

Mas as palavras dele a pararam instantaneamente.

_ Eu morreria para ficar aqui com você.

Com uma dificuldade que quase a paralisara, Alice fechou os olhos, absorvendo as palavras dele com dor.

Se virou lentamente até poder encará-lo.

_ Então fique – disse, a esperança de que aquelas palavras dele fossem uma possível desistência.

Deus, jamais pensara sentir tão de perto o choque da guerra.

Jasper ficou em um silencio quase mortal, a guerra começando a matar antes da hora.

Nunca a possibilidade de desistir de uma batalha passara pela sua cabeça como, naquele momento tenso, passava.

Mas era seu ex-capitão, Carlisle. Era Peter, lá, seu amigo desde sempre.

E era Mike, Sam, Jerad...

_ São meus amigos desde muleque, Alice – ele disse lamentoso – E eles precisam de minha ajuda, agora. Eu tenho que ir ajudar.

Alice virou-se imediatamente, recomeçando a subir as escadas duramente sem realmente enxergar. Passou os corredores com raiva a fim de chegar em seu quarto. Logo atrás, ela escutou as passadas de Jasper, também.

_ Alice, pare! – ele chamou no momento em que haviam chegado a seu quarto.

_ Você é corajoso e estúpido! – ela disse de repente, a voz embargada por ter perdido a batalha e ter que admitir que ele iria guerrear e que ela teria que preparar-se para o pior – Ouviu? Corajoso e absurdamente estúpido!

Encantado, Jasper sorriu. De uma maneira meio mórbida, ele não se importou em como sua estadia naquela guerra acabaria, pois ele via Alice com a guarda completamente baixa.

Ele estava conseguindo chegar nela.

Automaticamente, ele pegou seu braço para virá-la. Mas Alice o puxou bruscamente, virando-se para ele com um olhar mortal, magoado, aborrecido.

Ele segurou seu braço outra vez e outra vez ela afastou-se bruscamente.

“Deus do céu, como pode ser tão turrona?”, ele pensou, puxando novamente seu braço, dessa vez com mais força.

E Alice amoleceu.

Ele a apertou contra si, tomando-a em um abraço nunca dado antes. Era tão confortável tê-la ali, entre seus braços, a altura de onde ele podia reconfortá-la, senti-la próximo a seu coração.

Ela parecia ter sido moldada para ser abraçada por ele.

E, segurando suas mãos na camisa das costas dele, ela fechou os olhos, se permitindo aspirar seu cheiro tão de perto que até perdera os sentidos.

_Quando? –perguntou arrastadamente, seu rosto escondido em seu peito, mesmo que achasse aquela cena tão inacreditável quanto natural..

_ Amanhã.

Alice se sobressaltou, chocada com a rapidez. Tentou afastar seu tronco do dele para poder indagar o porquê daquela pressa, tentando se convencer de que a situação não estava tão desesperadora daquela maneira.

Mas Jasper não deixou que ela saísse do circulo de seus braços, mantendo aquele caloroso abraço, temendo que não tivesse outras possibilidades de fazer em um futuro próximo.

~•~•#•~•~

Biloxi, Mississipi

Dia seguinte

Alice estava parada perto da escada olhando para Jasper, enquanto ele calçava suas botas. Ela, agora pela manhã, estava se sentindo um pouco culpada por tê-lo feito ficar quase que toda a noite contando para ela como aconteciam essas batalhas e como ele se mantivera vivo dentre muitas.

Ela só dormiu quando ele a tranqüilizou dizendo que refaria seus passos.

Sentia-se culpada, também, pelo ataque que havia dado quando ele dissera que iria para a guerra. Ainda não entendia o porquê ficara tão amedrontada, mas deduziu que deveria ser pelo horror que significava uma guerra tão bruta e violenta como, com toda a certeza, aquela seria.

Mas Jasper a tranqüilizara sobre isso, também, dizendo que sua mãe vivia tendo aqueles ataques e que, certamente, ele havia matado a maioria dos nervos que ela tinha.

Porem, com a realidade da manhã, ela se deu conta de que ainda estava amedrontada, estarrecida e temerosa. Jasper se preparava para sair por aquela porta e ela corria o risco de se tornar uma jovem viúva de um soldado.

Alice fechou os olhos contando até 10. Precisava manter a calma.

_ Tudo vai ficar bem, Alice – Jasper disse um momento, enquanto travava uma de suas botas no tornozelo. Parecia ler os pensamentos dela. Ou sentia, de algum modo, sua angustia.

Alice assentiu com a cabeça, porem estava pouco convencida. Que Deus a ajudasse, ela precisava deixar a tensão ou imploraria para que ele desistisse daquilo.

Definitivamente, estava desejando que a esposa de Jasper, naquele momento e apenas naquele momento, fosse Jane, para que ela sofresse aquela angustia toda.

Mas ela precisava se acalmar, pois ainda tinha umas boas semanas pela frente sem noticias. Estaria só e dependeria de sua fé e de sua esperança por um final rápido e indolor.

_ Bem, está na hora – Jasper anunciou levantando-se. Faltava apenas pegar seu casaco, ainda pendurado, pois sua pequena bolsa já estava amarrada à Ramos, que esperava no portão.

Alice engoliu em seco, tentando controlar sua respiração. Ele a olhou, como se não soubesse o que dizer. E, na realidade, não sabia mesmo. Nunca enfrentara despedidas como aquela. Nunca alguém ficara tão desnorteada como Alice havia ficado.

Era tudo muito novo para ela.

Bem, sua mãe era acostumada com ele em campos de batalha, em pleno treinamento e, com ela, era tudo muito mais fácil.

Mas, naquele momento, ele sentiu que algo o prendia no assoalho.

E era a imagem de Alice o olhando com um grama de medo; com toneladas de insegurança.

_ Eu... eu... – Alice pigarreou, dando um passo à frente – Bem, eu coloquei um pedaço de bolo de abobora em uma vasilha e, também, tem um pouco de chá na garrafa – ela sorriu, incerta – Sabe, caso sinta fome no caminho ou até mesmo enquanto estiver guerreando e, não, bem... você não irá comer enquanto estiver guerreando, claro, por que...o, Deus, apenas coma quando... quando – ela bufou -... quando tiver fome – se ainda estiver vivo para senti-la– ela emendou em pensamento, sempre cogitando as piores desgraças e se machucando com isso.

Jasper sorriu. Oh, céus, ele pensaria naquelas bochechas coradas o tempo todo.

_ Obrigado, é muita gentileza – ele agradeceu, quase se entregando a loucura de levá-la com ele, apenas para evitar aquela eminente separação.

Pareciam um casal casado à anos!

Mas quando nenhum dos dois disse mais coisa alguma, ele se viu obrigado a se apressar, pois dali até Michigan à cavalo eram boas horas de cavalgadas.

Jasper se dirigiu para o cabide onde eles penduravam seus casacos, lenços e os xales de Alice. Ele pegou seu casaco marrom, que era quase de seu tamanho, feito de um coro tão quente quanto impenetrável.

Então, bem abaixo de seu grosseiro casado, estava o xale rosa que Alice tanto gostava, que tanto usava e que tanto guardava seu cheiro, como se estivesse sendo envolvido com o marrom quente de seu casaco de couro.

Ele parou por alguns segundos, pensando consigo mesmo um turbilhão de coisas ao mesmo tempo. Ele bem sabia que sentiria uma falta infernal do cheiro que aquele xale tinha.

Pois ele guardava o próprio cheiro de Alice.

E, era com aquele cheiro, o que o cabelo preto de Alice também guardava tão bem, que ele conseguiria dormir durante as noites, mesmo em colchões mais duros do que seus ossos, enquanto o zumbido de armas, tiros e bombas ecoassem fora das tendas.

Jasper puxou seu casaco com astucia, tendo o cuidado de enroscar o xale rosa dela, fino, delicado e frágil, entre seus dedos, novamente sendo guardado pela escuridão de seu casaco.

Então Jasper se dirigiu para a porta, pronto para sair. Mas parou quando soube que precisava fazer algo antes. Com um suspiro resignado, ele virou-se para ela, encarando seus olhos castanhos opacos.

Voltou até ela, incapaz de ignorar suas necessidades, e a beijou, puxando sua cintura para a dele. Alice fechou os olhos, suas mãos sabendo que deveriam segurar seus ombros. Ela se deixou levar pelo gosto reconfortante que tinha a boca de Jasper.

Suspirou muito levemente, acompanhando-o quando ele entreabriu os lábios para ela. Jasper a segurava com tanto cuidado que ela quase desejou aquele beijo.

Mas ainda detestava muito a ele para admitir aquilo.

Perdeu o ar quando ele passou sua língua entre a união de suas bocas, estremecendo levemente as pernas dela. Era tao... bom.

E ela fizera o mesmo.

Alice, muito timidamente, encostou sua língua também, e fora como uma explosão de choque por todo seu corpo. Fora tão rapidamente que havia sentido elas se tocando assim, cruamente, que ela até se assustou.

E, surpreendendo ela mesma, ela queria mais. Queria, realmente, aprofundar aquilo.

Porem, Jasper precisava ir e, não seria agora, em meio à pressa, que ele permitiria aprofundar aquele beijo sordidamente, se não fosse para continuar.

Com lentidão, ele desencostou seus lábios dos vermelhos e úmidos lábios dela, porem manteve seu rosto a milímetros do seu.

_ Apenas para não perder o costume – ele dera um curto sorriso cafajeste, olhando fixamente para todos os traços que ela tinha no rosto, como se ele quisesse memorizá-los para fazer uma boa reserva para as próximas semanas.

_ Eu já o mandei parar com isso – ela murmurou e, pela primeira vez, Jasper a viu sorrir em concordância após ele roubar-lhe um beijo.

Ainda sorrindo, Jasper soltou seu corpo, agora dando lugar à seu casaco em seus braços.

_ E quem disse que eu lhe obedeço? – ele respondeu com um bom humor, não que fosse forçado, mas que não era totalmente sincero.

Seu clima estava tenso.

E então, Jasper saiu pela porta... cruzou o portão... subiu em Ramos. Cavalgou pelo fim da rua até sumir entre a poeira.

Ele não quis mais olhar para sua sacada.

_

Biloxi, Mississipi

Naquele mesmo dia.

Alice estava sentada em sua cadeira de balanço, calma em sua sacada, sua respiração leve conforme o vento ia e vinha em seu rosto. Já estava postada ali à boas horas, olhando ela já nem sabia para onde.

Em um silencio que camuflava seu verdadeiro estado.

Ela suspirou, pensando no que faria naqueles próximos dias para que mantivesse a cabeça ocupada, longe de Michigan e nas bombas que estariam estourando na guerra que ela tanto temeu.

Ela fechou os olhos, pensando em quantas perdas aquilo não deixaria.

Alice balançou a cabeça como se pudesse limpá-la daqueles pensamentos. Deus socorresse os nervos de sua mãe quando ela soubesse que seu adorável Jasper havia ido guerrear apenas com uma bota enorme e uma bolsa cheia de chá e bolo.

_Argh! Seu grandioso estúpido! – ela murmurou entre dentes, sentindo a necessidade gritante de brigar com ele, e ofendê-lo e implicar com seu cabelo rebelde.

Pelos menos significaria que ele estaria seguro sob aquele teto, e não jogado à sorte.

Temendo chorar, Alice levantou-se abruptamente, decidindo fazer alguma coisa. Aquilo não estava ajudando.

Pensou, então, em um perfeito lugar para ir, enviando para os soldados daquela terrível guerra, um pouco de fé.

Decidida, Alice trocou suas vestes e pegou seu terço de madeira entre as mãos.

Iria para igreja. Iria rezar.

Descendo as escadas com passadas determinadas, ela anunciou sua saída para Consoelo, que aguava algumas plantas de vasos na sala de estar, e foi-se em direção ao seu cabide atrás de seu xale preferido.

Rezaria com tanta fé quanto sua avó costumava rezar.

Mas Alice parou frente ao cabide, encarando-o. Ele levava pendurado apenas um lenço de cabelos, um chapéu de Jasper e um casaco branco dela própria.

Mas nada de seu xale rosa.

Alice praguejou baixo, tentando se lembrar se o tinha tirado dali, mesmo que tivesse certeza que ele ficara ali todo o tempo.

_ Consoelo, viu meu xale?

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Fronteira de Biloxi

Período de guerra de 1901

Jasper galopou sobre Ramos em uma velocidade que ele não fazia idéia. As estradas eram rodeadas de montanhas e o silêncio de palavras assombrava Jasper, às vezes.

Ele ouvia apenas os animais pouco distantes, na mata, como se cochichassem. Ouvia, também, o zumbido do vento passando por seus ouvidos.

A mente dele estava concentrada em seu rumo e em seu destino – a guerra — e o horizonte, assim que as árvores, foram desaparecendo, dando lugar a um enorme campo deserto, com capim seco ao longo das laterais da estrada de terra. A poeira que Ramos levantava quase encobria sua própria imagem.

O sol ia descendo pelas enormes montanhas, que já delimitavam o fim de Biloxi. Se continuasse naquele ritmo veloz e constante, ele chegaria em seu destino antes do imaginado.

Com esse pensamento, Jasper impulsionou a Ramos e o convenceu a correr ainda mais. O cavalo cheio de personalidade guinchou, balançando a crina antes de pôr-se a correr ainda mais rápido, cortando o longo horizonte empoeirado e silencioso com concentração.

Mas o que Jasper não sabia era que o silêncio e a solidão de sua jornada eram apenas opcionais, era apenas planejado. No alto de um precipício, olhando para seu rastro de poeira de cima, diversos pares de olhos astutos, treinados, vorazes.

Os cavalos, devidamente ensinados a manter a descrição enquanto o observavam, estavam postos nas bordas da boca daquela montanha, olhando para Jasper, enquanto este pouco se dava conta de sua companhia.

_ È aquele? – um dos homens da ponta, sobre o cavalo mais feroz e robusto, disse com a voz grave.

_ Sim, é sim Sinhô – outro, parecendo certamente um dos mais baixos no nível de hierarquia daquele bando mal encarado, respondeu.

_ Para onde dá aquele caminho? – o homem áspero voltou a perguntar, jamais deixando de acompanhar Jasper com os olhos mirrados.

_ Certamente para os lados de Michigan, Sr. – outro homem respondeu, cobrindo os olhos por conta do sol poente.

Um sorriso diabólico apareceu no canto da boca levemente deformada com uma cicatriz.

_ Perfeito – murmurou ele, satisfeito. Muitas coisas passavam por sua cabeça com aquela informação e, com seu espírito mal intencionado, boa parte dessas coisas não estava ligado diretamente com a ordem que recebera – Já sabem a ordem.

Um dos homens olhou para o da cicatriz.

_ Vamos nos dividir?

Enquanto Jasper ia tornando-se um pequeno ponto no meio do deserto, o homem coçou o queixo coberto de uma grotesca e negra barba.

_ Sim – disse sem parar para olhar para o outro homem – Metade ficará aqui, esperando por ele em sua volta – ele sorriu, sua mente imaginando trezentas maneiras diferentes de fazê-lo gritar – E eu e os outros voltaremos para a cidade. Há uma ovelha sem seu pastor e o lobo a quer pegá-la para si – disse, sua voz cheia de mistérios.

Então, com as vestes surradas e maltrapilhas, o chapéu furado, a pele queimada pelo sol e o enorme casaco recheados de facas, armas e adagas afiadas e mortais, o homem da cicatriz deu meia volta, sendo seguindo de perto por outros homens, e voltou para a cidade com a mente turbilhando perversidades.

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Biloxi, Mississipi

À noite

Alice havia ido até a igreja para orar juntamente com Pe. Charlie durante toda a tarde. Ambos pediam para que a lei dos homens não fosse tão cruel. Que não levasse muitas vidas e que reconfortasse e acalentasse os corações de todas as outras famílias daqueles bravos e destemidos soldados.

E estúpidos, como Alice dissera no meio da oração.

Mas, particularmente, ela orava com ainda mais fervor por seu jovem marido ex-soldado. Pedia para que ele voltasse inteiro, sem que lhe faltasse um só pedaço de coro.

Apertando seu lenço rendado em volta do pescoço, ela fechou os olhos, terminando suas orações. Distribuídas nos outros bancos da igreja, outras pessoas rezavam baixo, com outras perturbações, com outros pedidos e com outras angustias.

E agradecendo Pe. Charlie pela reza, ela saiu silenciosamente da igreja, temendo enfrentar o vazio em sua vida novamente.

_

Ernest a havia deixado á porta de sua residência, enquanto ia para os fundos, em seu afastado casebre, perto das hortaliças, distante o bastante da casa principal.

Ela entrou retirando suas sapatilhas e seu véu calada. Ouvia Consoelo e Lilly na cozinha, talvez preparando algo para que ela comesse.

Outra vez.

Como seu dever, ela foi até a cozinha, apenas verificar se as serviçais estavam bem com o serviço. Como ela havia previsto, elas estavam mesmo preparando um delicioso caldo de galinhas com batatas para seu solitário jantar. Tudo com tanta precisão e cuidado que ela se escorou no batente da porta e sorriu.

Tentaria passar bons momentos com suas serviçais durante aquelas semanas.

Talvez até pudesse pedir para que elas rivalizassem com a morte enquanto tentavam ensiná-la a cozinhar algo. Alice aprovou sua própria idéia, pensando que deveria mesmo, pois apenas assim manteria sua mente ocupada com outra coisa que não fosse em Jasper e em como estaria se encontrando no meio daquela guerra.

E, novamente, seu pensamento era tomado pela angustia de não ter noticias.

_ Ah, olá Sra. Witlock – Lilly fora a primeira a vê-la parada ali e a cumprimentou efusivamente. Alice se perguntou o quanto Jasper azucrinara aquela pobre mulher para ela tentar ser empolgada o suficiente para animar a ela.

Jasper era um tolo que parecia não entender nada sobre as mulheres.

Ou, talvez nada sobre Alice.

Com um sorriso em resposta, Alice deu um passo para o interior da cozinha, o cheiro de temperos e caldos tão concentrado em seu maravilhoso aroma que até conseguira fazer Alice salivar.

_ Olá – ela respondeu – Eu estava na igreja – Lilly assentiu, como se concordasse com sua motivação para fazer aquilo – Bem, e enquanto eu estive fora chegou algo para mim? Ou um visitante, talvez? – mesmo que fosse loucura esperar por uma carta ou qualquer outra forma de noticia naquele dia, ela não conseguia evitar.

_ Oh, não chegou nada, Sra., nada! – Consoelo se lamentou, sua expressão sempre mais cansada do que qualquer outra serviçal.

Talvez por sua idade superar as outras.

Alice suspirou, quase bem por que já esperava aquela resposta.

_ Bom, então vamos jantar, pois esse caldo e essas batatas estão cheirando tentadoramente bem.

Lilly corou levemente e Consoelo, como se houvesse dito um palavrão frente a ela, abaixou a cabeça.

_ Desculpe, Sra. Witlock, mas não podemos sentar-se com a Sra. à mesa – Lilly murmurou, um pouco sem jeito.

_ E por que não? – Alice indagou com a testa franzida.

_ Bem, por que a Sra. é a dona da casa e isso é errado – Consoelo, com sua voz arrastada e fina, parecendo um esquilo, murmurou outra vez, tentando segurar um riso nervoso.

Alice revirou os olhos, achando quase cômico o ataque de pânico e o constrangimento de suas serviçais.

_ Isso é uma grande bobagem – ela disse – Com a autoridade que eu tenho nessa casa, principalmente com... com a ausência de meu marido – Alice limpou a garganta quando falar aquilo lhe incomodou. Esperava ardentemente que dizer aquilo fosse apenas momentâneo – Dou-lhes a ordem de sentarem naquela mesa e jantarem juntamente comigo o delicioso caldo que vocês fizeram e... – Alice cortou Lilly antes que essa abrisse a boca – E, se não forem, direi ao meu marido quando ele retornar que vocês não fiscalizaram a minha alimentação e me deixaram ficar sentada na sacada durante todo o mês.

Consoelo e Lilly a olharam chocadas diante de sua ameaça.

Ninguém poderia competir com Alice em fazer aquilo.

_

Biloxi, Mississipi

22:03 horas daquela noite

Alice estava com os olhos fechados, a cabeça escorada no beiral da enorme banheira de madeira. Depois que ela, Lilly e Consoelo haviam jantado, em meio a poucas palavras trocadas e muitas velas queimadas, ela subira para tomar um longo e relaxante banho e, logo, tentar dormir o mínimo que fosse.

Mas, até mesmo quando fechava os olhos no meio de seu banho, pensava em Jasper. Ele nem sequer deveria ter chegado à Michigan e ela já sofria.

_ Oh céus – ela murmurou quando imaginou que, talvez, ele não voltasse nunca mais.

Alice, por mais que tentasse explicar, não conseguia entender de onde vinha toda aquela dor por saber que Jasper poderia morrer. Apenas sabia muito bem que não estava preparada para aquilo.

Mas, estava contando com a experiência que ele tinha, todo o conhecimento que ele tinha. Toda a artimanha que aquele homem tinha.

Bem, ao menos ele conseguira se manter vivo durante tantas outras guerras.

Com aquele pensamento, Alice tentou manter-se calma e serena como já estava conseguindo.

E, na realidade, conseguiu. Quando a noite já chegara a altas badaladas do relógio, Alice saiu da banheira e enrolou-se em uma toalha branca.

Seu enorme quarto estava completamente escuro quando ela chegara até ele. A colcha de Jasper estava recolhida e seu travesseiro estava junto com o dela na enorme cama. Mas antes que começasse a pensar no quanto sentiria falta de vê-lo deitado em sua cama mal-feita, com a lisa e dura costa ao ar livre, inticando-a, ela balançou a cabeça, procurando por sua camisola e seu penhoar branco.

E, fora exatamente nesse momento, em que sua toalha escorregada até o chão, que ela escutou uma espécie de grunhido abafado muito fracamente, vindo de algum lugar perto de sua janela.

O coração de Alice parou no mesmo segundo. Todos os pêlos de seu corpo se arrepiaram enquanto ela gelava. Encarou a janela, que apenas mantinha-se mal fechada, encostada uma lateral de vidro à outra, enquanto a cortina de um finíssimo tecido branco agitava-se muito levemente por causa do vento noturno.

Ela não conseguiu enxergar nada pela sombra escura da janela e, com isso, ela tentou voltar a respirar.

Já estava começando a delirar.

Balançando a cabeça com força, Alice voltou-se, ainda um pouco rígida, para sua penteadeira, procurando por sua camisola. A vestiu e, em seguida, colocou seu penhoar em volta do corpo.

Logo sua mente voltou a estar distraída, enquanto ela pensava em coisas paralelas. Porem, quando ela estava começando a pentear seu cabelo, ouviu outro ruído, agora em sua sacada, logo atrás da janela de vidro.

Alice estancou no lugar, começando a pensar que não estava tendo delírios, realmente. Seu coração começou a bater acelerado, enquanto o medo paralisava suas pernas gélidas.

Não estava sozinha, ali.

Com um ofego, ela encarou a janela novamente, tentando ver além da cortina finíssima e da escuridão da noite de Biloxi. Apertou os olhos atentos sem desviá-los.

Estava sensível a qualquer outro barulho que pudesse escutar.

E, de repente, enquanto ela encarava a janela, uma sombra se mexeu do lado de fora.

_ Santo... Deus – ela sussurrou, começando a ficar pálida. Agora o medo vinha a tona em seu corpo com intensidade e ela estremeceu.

Com um lento passo para trás, ela se moveu, tentando chegar o quanto antes á porta. Pareciam quilômetros de onde estivera até a entrada de seu quarto, mas ela finalmente chegara depois de quatro passadas arrastadas.

Outra sombra se moveu, de repente, agora perto da cortina.

Alguém a olhou ali por trás.

O coração de Alice disparou e ela reprimiu um grito de puro pânico. Girando a maçaneta, ela abriu a porta com as mãos trêmulas.

O pânico se assolava mais e mais de Alice a medida em que ela começou a escutar ruídos cada vez mais altos do lado de fora de sua casa, como se alguém estivesse em seu jardim, escalando suas paredes, tentando abrir janelas.

_ Oh céus! – ela sussurrou desnorteada, suas pernas parando, de repente, ao escutar uma voz dizendo algo, muito baixo, a uma segunda – Não! Não! Não! – ela gemeu, completamente assustada, seguindo em direção as escadas. Tinha que arranjar um modo de sair dali.

Mas antes, deveria avisar suas serviçais.

Algo, como se fosse uma pesada passada em falso, fizera um ruído contra o assoalho das escadarias da porta principal.

Alice ofegou, pensando que só poderiam ser saqueadores, brutos e tenebrosos, pois apenas um homem e realmente pesado, poderia fazer algum ruído em seu assoalho novo.

Foi então que Alice notou uma sombra escura se mover vagarosamente, astutamente, como uma serpente, pelo minúsculo vão entre a enorme porta de madeira e o chão de sua sala.

Com um assombro terrível, Alice começou a descer as escadas com passos leves, mesmo que seu medo quisesse congelá-la. Seu instinto dizia que seria melhor se eles não se dessem conta, realmente, de que ela sabia que eles estavam ali.

Ela deveria se segurar para não gritar em pânico.

_ Deus, Jasper, por que você não está aqui! – ela lamentou, sentindo vontade de sentar no chão e chorar.

Mas a batida na parede, como se ela houvesse sido chutada com força, a fez virar-se de imediato, assustada.

Muito mais assustada.

Agora a realidade de que tinha mesmo alguém ali, tentando entrar em sua casa, se abateu sobre Alice e, como se tudo dependesse daquilo, ela terminou de descer as escadas em passadas rápidas e desesperadas, seus arquejos sendo reprimidos pelos, agora, constantes barulhos nas janelas e no andar de cima.

Alguém entrara em seu quarto.

Em completo choque, Alice correu pela sala em direção à sala de jantar e a cozinha, pois assim acordaria Consoelo e Lilly para que elas pudessem sair dali o mais depressa que suas pernas permitissem.

Mas ela começava a pensar que, talvez, elas não conseguiriam sair.

Porem, quando ela passara correndo pela sempre esquecida mesa do vaso de flor, o laço de seu penhoar enroscou nele e o levara ao chão, espatifando-se contra o assoalho com um ruído oco e alto. Tanto ela quanto as pessoas do lado de fora silenciaram-se por terríveis segundos.

E, então, os barulhos ficaram mais altos, como se empurrassem, tentassem quebrar e derrubar algo para conseguir entrar sem querer mais usufruir de discrição.

Alice soltou o ar preso por muito tempo no pulmão com força e continuou correndo em direção ao escuro e estreito corredor dos quartos dos empregados.

Ela sentia como tudo nela passara a tremer sem precedentes, como suas mãos estavam geladas devido ao medo e como sua visão ficou fosca, enquanto ela sentia que haviam olhos sobre si.

Quando finalmente ela chegou frente ao dormitório de Consoelo e Lilly, bateu com força, sussurrando seus nomes em completo pânico.

A porta da sala batera com violência.

Alice abafou um grito, batendo com mais força frente a porta de suas serviçais. Lá dentro, ela escutou passos vagarosos, como se estivesse despertando.

Fora Consoelo quem aparecera na porta.

_ Sra. Witlock?- ela perguntou, suas rugas evidenciando-se quando esta franziu a testa– Está pálida, Santo Deus!

Alice respirou com força, enquanto olhava para a penumbra curva do corredor.

_ Consoelo, nós preci... – suas palavras foram cortadas quando um vidro se quebrou e Alice deduziu que fosse um dos pequenos vidros da janela da sala de estar.

_ Ah, o Sr. Witlock já chegara? – a Sra. perguntou, um sorriso singelo que, em outro momento, Alice apreciaria.

_ Não! – Alice murmurou em pânico, o suor escorrendo devagar por suas têmporas – Vamos, Consoelo, você e Lilly! – ela pegou a mão da Sra. com força e a de Lilly também, que acabara de chegar com os mesmos pés arrastados, junto a porta.

Suas expressões eram uma completa confusão.

Alice as puxou com pressa de volta no corredor por onde ela passara. Porem, ela estancou no lugar, o pânico se assolando em todo o ambiente, e ela escutara a tranca de sua sala se quebrada.

_ O que...

_ Vamos! – Alice puxou as mulheres pela direção contrária, sua mente desesperada enquanto tentava lembrar de algum lugar para se esconderem.

Ali dentro de sua enorme casa.

De algum modo, mesmo que fosse adiar o inevitável, ela deveria ao menos tentar salvar a si própria e as suas serviçais, tão a parte de qualquer coisa daquele tipo.

Eram tão pacatas que Alice sentia o dever de protegê-las, também.

Porem, ela estava completamente assustada e não tinha a menor idéia de como faria para salvar sua vida, a de Consoelo e a de Lilly.

E automaticamente pensou em Jasper, alto, forte e bem treinado, à léguas de distancia delas, naquele momento.

Deus, como queria sua proteção, naquele momento.

Porem, ela escutou outro vidro quebrado e outro chute em sua porta e, dessa vez, ela tinha absoluta certeza de que, quem quer que estivesse chutando-a, havia conseguido seu intuito.

A porta fora quebrada.

No andar de cima, as três escutaram diversas passadas pesadas, rápidas e precisas, pois logo tomariam o corredor e suas escadas.

Em um piscar de olhos, eles estariam em seus calcanhares.

Tomada pelo medo, Alice correu, puxando Consoelo e Lilly pelos pulsos, por entre corredores estreitos e completamente escuros.

“Alguém lugar. Algum lugar com porta, trancas e chaves!”, ela pensava freneticamente.

Ela engoliu em seco quando os passos dos desconhecidos já estavam em sua escada de madeira talhada, quando os restos de vidro do vaso que ela quebrara foram pisados e algo fora tacado contra a parede.

O corredor por onde corriam era separado apenas por uma parede da sala de jantar, onde eles quebravam diversas coisas.

E, então, Alice vira uma pequena porta no canto, completamente escura, velha e esquecida.

Se ali tivesse algum armário, ela se enfiaria dentro e daria um jeito de fazer o mesmo com Consoelo e Lilly.

Abrindo a porta com rapidez, ela entrara.

_ O que está acontecendo, Sra. Witlock? – Lilly perguntou enquanto Alice trancava a trinca da fraca porta, as mãos tremendo.

Algo foi tacado contra a parede com força, estremecendo toda ela. Consoelo, Lilly e Alice ofegaram completamente assustadas, abaixando-se automaticamente.

_ Pessoas entraram na propriedade. Estão, neste exato momento, aqui dentro e eu não sei o que querem, mas certamente é melhor ficarmos escondidas sem fazer barulho – ela sussurrou, enquanto o silencio lutava com o medo de dentro daquela pequena saleta de moveis velhos. Lá fora, diversas coisas sendo quebradas, passos rápidos, vozes altas e grossas.

Procuravam alguma coisa.

Confusa e amedrontada, Alice olhou por todos os cantos do quarto onde haviam entrado. Era um tanto empoeirado, como se fosse uma espécie de quarto para guardar coisas velhas.

Guardava, também, muito pó.

Havia cadeiras cobertas com lençóis brancos e lustres sem lâmpadas. Havia, também, armários de louças e diversos cabides com roupas velhas.

Um quarto bagunçado e pobremente iluminado.

Alice pensou que, talvez, a falta de luz ali dentro fosse algo a favor delas. Assim, se aqueles homens chegassem a entrar ali dentro, elas poderiam ficar escondidas em algum lugar, debaixo de alguma coisa, camuflando-se na escuridão.

Ela olhou para Consoelo e Lilly e as viu completamente brancas; o mesmo medo que, certamente, estava em seus olhos, também encontrava-se, agora, nos olhos das duas mulheres completamente amedrontadas.

_ Não se preocupem – Alice sussurrou tremulamente – Eles não vão nos pegar – ela assegurou, porem sabia que uma hora ou outra eles chegariam até elas.

As duas assentiram, mas Alice sabia que nem mesmo elas acreditavam naquilo.

Uma porta fora escancarada com força.

Algo de vidro fora quebrado novamente e Alice sentiu o peito apertar. Estava tentando respirar o mais silenciosamente que conseguia, mesmo que visse que Consoelo e Lilly não estavam tentando o mesmo, pois suas respirações eram ruidosas.

_ Tudo bem – a voz de Alice, um filete fino, cortou a escuridão, transbordando pânico – Vamos nos agachar ali naquele canto – ela apontou em direção à uma mesa velha, no canto mais afastado e mais escuro de todos.

E, quando as três já estavam sentadas no canto, bem debaixo da mesa, ficaram em silencio, escutando a correria e a destruição de vários moveis e louças de sua casa na parede logo atrás de suas cabeças.

Escutavam, ainda, a marcha brusca avançando, procurando em todos os cantos que poderiam dentro de sua casa.

Era uma questão de tempo.

Fechando os olhos com força, Alice não quis acompanhar Consoelo e Lilly em uma reza baixa e agoniada, atropelando as palavras da oração devido ao nervosismo. Com todo o corpo apossado pelo medo, Alice sentiu que estava prestes a chorar.

Estava com um desgaste que ela nem sequer sabia de onde vinha.

Fora tão de repente que a imagem de suas irmãs apareceram na cabeça de Alice que ela até se sobressaltou.

“Bella e Rose... Edward e Emmett!”, ela pensou, uma ansiedade e uma inquietação lhe apertando o peito.

Deus, se suas irmãs e seus cunhados chegassem ali, talvez afugentassem os saqueadores, os fizesse recuar devido ao flagrante e ao inevitável escândalo.

_ Oh Deus! – Alice exclamou, contando com aquilo com todas as forças de seu ser.

Se encontrasse um telefone naquele quarto velho, poderia usá-lo para ligar para a propriedade de suas irmãs, pedir ajuda o mais depressa que pudesse.

Movida pela pressa, Alice começou a engatinhar pelo chão cheio de objetos e cheio de poeira, procurando pela coisa grotesca, fino no meio e com grandes bolas de som, um para se escutar outra para se falar.

Ainda não sabia usar muito inteligentemente aquele negocio, mas sabia que tinha muito a ver com rodar os números no enorme circulo do meio.

Tateando as cegas vários objetos, ela chegou até uma poltrona, rodeada de livros velhos e uma mesa coberta por uma toalha rendada. E, sobre essa mesa, sobre a toalha, sobre uma camada de pó, Alice viu o telefone.

_ Ah, obrigada, Santo Deus! – ela sussurrou, sorrindo tropegamente pela imagem do objeto em questão. Às suas costas, Consoelo e Lilly a encaravam, confusas com o que sua patroa tinha em mente.

Com um ofego audível, Alice agachou-se bem abaixo da mesa e puxou o gancho do enorme aparelho dourado.

Só precisava lembrar-se de como ligar.

Com a mente à mil, desesperada e com os pensamentos perturbados, Alice sentia o corpo tremer tamanha a tensão em que aquele pequeno momento em um inferno real causava. Por trás daquela parede, pessoas que ela não sabia quem eram estavam dentro de sua casa, quebrando coisas e projetando o medo nas três indefesas mulheres que se encontravam escondidas naquele quarto moribundo.

Baixas, as vozes de Consoelo e Lilly ainda rezando, podiam ser ouvidas assim mesmo por Alice, pois envoltas naquela penumbra, ela poderia escutar qualquer coisa.

Até mesmo seu coração batendo acelerado.

Quando o telefone começara a enviar a ligação, Alice sentiu uma ânsia tão grande em seu estômago que precisou botar a mão sobre a boca.

O tamanho nervosismo, juntamente com o alivio brutal ao escutar o barulho do outro lado.

Mas os passos pesados iam e vinham pelo piso de toda a casa, como se procurassem incansavelmente por alguém dentro dela.

E, quanto mais se demorava para a voz do outro ser ouvida, o tempo das três diminuía consideravelmente. Agora, Alice podia escutar as vozes grossas e furiosas.

E, de repente, alguém chutou a parede bem atrás de Alice. Com o susto, ela soltou um grito sufocado e quase derrubara o telefone do gancho.

Porem, uma bandeja de prata, que estava sobre a mesma mesa, caíra displicente no chão, fazendo um barulho realmente alto se comparado ao silencio daquele quarto abafado.

Alice tapou a boca com força, os olhos arregalados, o suor escorrendo preguiçosamente.

Olhou petrificada para suas serviçais do outro lado do quarto, olhando-a com dificuldade, devido a penumbra.

Porem, Alice podia ver o pânico das duas se assolando ainda mais de seus corpos.

Mesmo que ainda pudesse escutar a destruição em alguns cantos de sua casa, ela podia quase sentir a presença bem do outro lado de sua parede, como se estivesse esperando escutar outro barulho.

Alice nem mesmo respirou, naquele momento.

Deus, estavam a um passo de descobrir onde elas estavam. Fechando os olhos com força, encolhendo-se, rodando os joelhos com os braços brancos, ela rezou.

E foi então que uma voz sonolenta apareceu do outro lado.

_ BELLA! – ela exclamou, talvez um pouco alto demais. Seus olhos perderam o foco por alguns segundos, tamanho seu alívio.

_ Alice? – Bella pareceu estranhar aquela ligação. O telefone chiou descontroladamente – O que há?

_ Bella – Alice voltou para a realidade, pois a tensão deveria ser mais levada em consideração do que seu alivio, que ainda não era o suficiente – Escute, Bella, ligue para Rose e Emmett! – ela murmurou para que não pudesse ser ouvida pela presença do outro lado da parede, o desespero deixando sua voz rápida e sua respiração ainda mais arquejada – Ligue para eles! Chame o Sr. seu marido! Pessoas entraram em minha casa, eu...

Antes de terminar sua frase, o telefone ficara mudo. Alice, perplexa demais, ainda o segurou rente à sua orelha com a esperança de que ele voltasse ao normal.

Mas ele não estava voltando.

_ Não! – ela sussurrou, a voz chorosa. Aquilo não poderia estar acontecendo. Não com ela, que sempre pagara suas rezas com fidelidade.

Mas aquele aparelho deveria ser como todas as outras coisas que estavam esquecidas dentro daquela saleta escura.

Velho e sem muito uso.

Com o telefone que acabara de morrer em suas mãos, ela encostou-se na poltrona empoeirada, uma desesperada vontade de chorar.

Naquele momento, queria a segurança inevitável que sentia quando Jasper estava por perto.

Ela fungou muito fracamente, sentindo que agora já não estava mais tão assustada. Agora que a única coisa com que contava era o esquisito aparelho telefônico e ele já não adiantava de nada, ela perdera as esperanças.

Estava apenas esperando-os as encontrarem ali.

_ Venha, Sra. Witlock – Consoelo a chamou com pressa. A forma como ela ainda tinha esperanças de passar despercebida, assim, apenas em ficar escondida naquela sombra, abaixo daquela mesa no canto mais afastado, quase fez Alice sorrir pela sua inocência – Fiquemos aqui, quietas.

Com um suspiro reprimido, Alice voltara, ainda engatinhando, para junto delas. Quando o silencio novamente se tornou mortal e apavorante, Alice se concentrou nos passos que as pessoas desconhecidas que haviam tomado sua casa, davam.

Entre passadas rápidas, eles subiam as escadas e andavam de um lado à outro no andar de cima e, também, em sua cozinha. Elas escutaram eles remexendo nas gavetas.

Talvez estivessem procurando facas...

Alice engoliu em seco, apertando os joelhos ainda mais junto de si. Deus, como ela queria que aquilo fosse apenas um pesadelo. Um enorme e muito real pesadelo.

Ela podia escutar claramente muitas portas serem abertas e fechadas com exagerada força.

Cada vez mais perto daquela saleta.

Alice ficou encarando a fresta da porta, esperando o momento em que alguma sombra aparecesse por ali.

Olhando fixamente...

Olhando fixamente...

Olhando....

O assoalho do começo daquele corredor fizera barulho e, muito perto agora, elas podiam escutá-los no quarto de Consoelo e Lilly.

Alice começou a tremer novamente.

Podia quase senti-los ali dentro. Eles já estavam no mesmo corredor da saleta delas... a alguns metros no corredor.

Zangados, impacientes, motivados.

Eles batiam as portas, rosnavam alto, jogavam coisas ao chão.

Cada vez mais perto...

Quietas e apavoradas, as três apenas tentavam controlar a respiração, preparando-se para quando eles irrompessem por aquela fraca porta.

E então aconteceu e a fresta começou a ser tomada por uma forma escura.

Alice soltou um “oh” muito fracamente, empurrando a si mesma cada vez mais contra a parede.

Não haviam palavras atrás da porta, apenas a enorme sombra negra que ia encobrindo sua fresta.

Havia alguém logo ali.

O suor de Alice tornara-se frio e ela deduziu que fosse a morte se aproximando. Sem respirar, ela vira a maçaneta ser girada com paciência, como se a pessoa estivesse sentindo que elas estavam escondidas ali e pretendesse destruir o controle delas lentamente.

Quando notara que ela estava trancada por uma velha trinca, o homem do outro lado rosnou ameaçadoramente. E, usando de uma força brutal, ele rodara a maçaneta com uma força tremenda e estraçalhou-a. A porta começou a se abrir e a luz do corredor adentrou o quarto demasiadamente escuro como se fosse algo bom.

Mas nenhuma das três a viram daquele modo.

Consoelo e Lilly gemeram de pânico enquanto Alice tentou fazê-las ficarem o mais silenciosas que conseguiam. Duas botinas surradas e sujas deram um passo para dentro, como se desconfiasse do silencio, como se desconfiasse da escuridão.

Ela sabia que ele podia quase sentir o cheiro de seu medo.

_ Eu sei que você está aqui – a voz dele era grosseira. Seu timbre quase estrondoso. Ele deu outro passo para dentro do quarto, projetando outra sombra frente a luz que adentrara pela porta aberta – Eu posso sentir seu cheiro...

Alice o escutou aspirar ar teatralmente. Agora, além de terrivelmente assustada, ela estava, também, confusa.

Ele queria a ela?

Com o medo crescendo em todo o seu corpo, Alice considerou a possibilidade de sair dali debaixo e indagar ao homem.

Talvez, ela pudesse livrar Consoelo e Lilly.

_ Alguém chegou aí! – um homem, pelas canelas finas parecia mirrado e desajeitado – Tem pessoas entrando pelo portão, chefe! E um deles é quase maior que o Sr. próprio!

Alice pôde sentir o medo na voz do pobre o homem. As botinas surradas pararam, parecendo analisar o que seria melhor. Por fim, com um rosnado e um palavrão muito fora da etiqueta, ele fora dando meia volta.

Mas Alice sabia que ele estava esperando-a sair de onde estava.

_ Alice? – Alice reconheceu a voz de Bella longe, chamando-a lá em sua sala de estar.

Parecia muito preocupada e, a julgar pelo espírito dela ser quase idêntico ao de sua mae, ela sabia que Bella estaria facilmente com o coração na boca da garganta.

Com um sorriso esticando-se em sua pele, Alice escutou a voz alta e grossa de Emmett e a autoritária de Edward.

Estavam todos em sua sala, procurando por ela.

Porem, Alice temeu sair dali e encontrar com as pessoas que haviam tentado matá-la a minutos atrás.

Porem, ela não escutou mais os passos no andar de cima e, muito provavelmente, ela deduziu que houvessem saído as pressas pelas janelas e portas dos fundos.

_ Alice? Apareça, por Deus! – agora era a voz de Rose que ela escutava e o alivio tomou conta de seu corpo, agora.

Ainda um pouco entrevada pela rigidez do pânico que havia tido, ela levantou-se e ajudou Consoelo e Lilly a saírem debaixo da mesa. E, então, depois de fazer aquilo, saira correndo pelo corredor escuro, rumo a sua sala.

Quando atravessou toda a sua casa em uma corrida mortal, Alice chegara aos trancos e barrancos até sua sala. Seu penhoar branco estava completamente empoeirado e sujo, seus cabelos arrepiados e molhados pelo suor.

Seu pulmão ia e vinha em seu peito.

Chocou-se contra Bella com força, respirando ruidosamente.

_ Oh meu Deus, o que aconteceu aqui? – Bella indagou, assustada – E você, minha irma? Você está bem? Deus, diga-me que está!

Alice soltou-se de Bella para encarar sua família. Todos estavam confusos e altamente surpresos, alem de chocados, enquanto a encaravam.

_ Entraram aqui! – ela exclamou – Acho que deveria ser algum grupo de saqueadores. Ladrões, apenas – ela tentou afirmar suas palavras, porem ela mesma duvidava do que, realmente, aqueles homens queriam em sua casa.

_ E onde está Jasper? – Emmett perguntou enquanto olhava para todos os lados, uma astucia que Alice não reconhecia em seu cunhado mais extravagante.

Ela suspirou, a lembrança de Jasper guerreando em Michigan a assombrando novamente.

_ Jasper fora para Michigan – ela disse fracamente – Ele foi para a guerra.

Rose tapou a boca e Bella arregalou levemente os olhos, perplexa.

_ Para a guerra?

_ Olhem, não falemos sobre isso agora, sim? – Alice pediu, pois acabara de sair de um momento que matara seus nervos, pensar em Jasper naquele momento não a faria bem de forma alguma – Falemos disso pela manha. Agora, eu apenas gostaria de pedir que fiquem comigo essa noite.

Todos assentiram prontamente, olhando ao redor. Bella e Rose foram até Alice com os braços estendidos.

_ O que você fez com seu cabelo? – Rose perguntou, mesmo que o momento fosse inoportuno, enquanto tocava os cabelos molhados de sua irmã.

Alice sorriu fracamente, deixando os braços de Bella em volta de si a apertarem calorosamente.

— Falemos disso amanhã, também – ela pediu novamente, fechando os olhos cansados – E, por favor, não digam sobre isso para a mamãe. Não quero que ela se apavore por pouco.

Mesmo que todos achassem Alice equivocada demais em achar que aquela invasão terrorista e violenta houvesse sido pouco, eles assentiram novamente, deixando-a confortável.

_ Vamos ficar aqui com você, Alice – Bella murmurou rente ao seu ouvido, acariciando os cabelos do topo de sua cabeça certeiramente – Todos os dias. Enquanto Jasper não voltar.

Alice não disse absolutamente nada, mas seu peito se acalentou de uma maneira que ela nem saberia explicar.

Um alívio do tamanho do céu.

Porem, Edward e Emmett trocaram um olhar sério, temendo que aquilo não fosse algo isolado, único e nem que houvesse morrido ali. Sabendo que aquilo não poderia ter sido normal, nem natural.

E que Alice e Jasper, talvez, corressem mais riscos do que realmente faziam idéia.

Notas finais
Então???
Segurem os corações fracos skapska
Espero que tenham gostado!!
Bjsssss
:*