Notas iniciais
Olaáá
Sem baboseira para dizer aqui, entao...
Bo leitura!

Cap. 10 — O curioso Sr. Collins

Biloxi, Mississipi

Manhã de Novembro

Alice adoçou seu café sem muita vontade, como fazia todas as manhãs. Hoje, exceção dos outros dias, ela havia descido antes de Jasper ir trabalhar. Quando chegara a mesa, ambos pareciam que lamentavam aquilo. Jasper fizera pouco caso de sua presença, respondendo apenas o bom dia extremamente baixo.

Fazia tempo que ela mal o via. Ele, agora, fazia questão de chegar tarde o suficiente para ela já ter jantado. E, quando subia para o quarto, ela já estava deitada.

Às vezes, ele sequer subia.

Haviam noites em que ele ficava na biblioteca até o inicio da madrugada, revendo documentos de contratos de compra, compromissos, deveres.

Mas mesmo com uma aparência seriamente cansada e estressada, ela não deixou de o olhar de rabo-de-olho para admirar sua beleza masculina outra vez.

Fazia tempo que não fazia mais aquilo.

Ela suspirou baixo, sentindo um chato aperto no peito, outra vez, levando sua xícara de café mal adoçado à boca. Tinha, definitivamente, um dos maridos mais lindos de toda aquela cidade estúpida. E, pela primeira vez desde que se casara com ele, sentiu vontade de que ele e toda aquela realidade que Jasper trazia junto, pertencessem a ela.

Ela parou abruptamente, sentindo o café descer rasgando em sua garganta. A maneira como Jasper a estava tratando, despertara emoções tão primitivas em Alice que a assustou. Por que, mesmo que ele não falasse com ela, Alice gostava da presença dele na mesa junto dela, comendo ao seu lado, como no início ele fazia questão.

Mas aquele pouco tempo que estavam tendo juntos estava acabando e isso Alice percebeu quando ele dera a ultima golada em seu próprio café.

Ela realmente lamentou sobre sua torrada, outro café-da-manhã. Quando teria chance de conversar com ele outra vez? De pedir para ele deixar de trabalhar e voltar a dormir no quarto?

Ela se perguntou se estava apenas preocupada com ele ou se era a falta de sua presença no mesmo aposento que ela que a estava chateando.

E ambas hipóteses lhe admiraram.

_ Você vai acabar pegando alguma friagem ou entortando o pescoço se insistir em dormir na poltrona daquela biblioteca – ela disse quando ele fez menção de se levantar.

E aquilo o parou no mesmo instante.

Talvez fosse pelo fato de ela estar sendo audaciosa o suficiente para falar com ele quando o olhar de seu rosto dizia a qualquer um que não o fizesse, Alice pensou.

Ele permaneceu sentado, mesmo que seu olhar pudesse a desconcertar.

_ Estou perfeitamente bem do modo como estou – ele mentiu, tomando o cuidado para ser verdadeiro o suficiente. Ficar trabalhando a noite inteira o enchia a cabeça com coisas demais. Mas a maior dificuldade era pensar em entrar no quarto e, como ele não conseguia evitar, olhar para ela, pois ele sabia que não conseguiria esconder a raiva pelo beijo. O maldito beijo que ainda o tirava o sono. Mas antes que começasse a perder o controle da raiva outra vez, ele continuou — E quanto a sua sugestiva preocupação por uma possível friagem, creio que se atrasa, pois Lilly me levou um cobertor, ontem.

Alice parou abruptamente de rodar sua xícara e o olhou.

_ L...Lilly? – ela perguntou, sua indiferença treinada sumindo de sua voz.

Jasper arqueou as sobrancelhas pela reação dela.

- Sim. Ou Consoelo, não sei. Seja qual delas foi, veja você que já estou muito bem servido de atenciosidade e preocupação – ela sentiu em si própria a força que Jasper empregara naquelas palavras. Parecia que jogava em sua cara que as criadas se importavam mais com ele do que ela mesma, como se a punisse. Mesmo que Alice já fizesse isso consigo própria. Mas as palavras dele a chocou tanto que ela não pôde pronunciar nada — E se não tem mais nada a falar, tenha um bom dia – disse ele, um pouco mais nervoso do que o inicio, saindo antes mesmo de ela lhe devolver seu cumprimento.

E quando ela ficou completamente sozinha naquela mesa, ela soluçou, de repente. Seus olhos ficaram turvos, sua garganta fechou. Ela não queria chorar por causa de Jasper.

Não devia chorar por causa dele.

Mas ela já não estava agüentando mais. O que havia feito de tão ruim que o indignara daquela forma? Havia implicado demais com ele ou sido difícil demais de se lidar? Deus, que ela era irritante ele já sabia, pois deixara isso claro na primeira vez que haviam se encontrado. Mas... ele sempre soube que era o seu gênio. E que era completamente tolerável.

Ela apoiou os cotovelos na mesa, cobrindo o rosto com as mãos, tentando segurar o choro preso na garganta.

Não iria chorar por Jasper.

Não...não iria chorar por Jasper.

N-Não...iria..c-chorar por Jasper.

_ Não! – ela grunhiu, sua voz cortando a sala de jantar. Em um gesto brusco, ela empurrou seu pires com sua torrada para longe, bagunçando a mesa e espalhando migalhas e geléia pela toalha.

_ Sra. Witlock? – Lilly aparecera na sala de jantar, surpresa ao olhar para Alice e sua repentina reação.

Alice encarou a mulher e tão logo voltou a si. Naquele momento, queria era estar só naquela enorme casa estúpida para poder expressar sua raiva sem que aparecesse ninguém para lhe olhar chocada.

Por fim, ela suspirou. Se levantou da mesa, deixando seus pensamentos e desejos evaporarem, pois jamais poderia fazer aquilo. Mas antes que saísse da sala de jantar e subisse, ela virou-se para a criada, a voz sem vida alguma.

— Lilly, poderia levar outro cobertor para a biblioteca? Hoje parece-me que esfriará mais que ontem – ela pediu, já esperando a expressão confusa da mulher.

- Claro, Sra., mas.... outro? Tem cobertores na biblioteca?

- Sim, Lilly – ela disse para a mulher, que ainda a olhava como se aquilo ainda não fizesse sentido para ela. Dizer o resto de seu pedido para ela fora a parte mais difícil para Alice. Mas ela preferiu daquela maneira, mesmo — E faça-me um favor, quando o Sr. Witlock lhe agradecer por ele, você.... sorria e acene, por favor – pediu, sua voz ficando rouca. E então virou-se.

_

Alice estava enlaçando seu enorme cabelo preto em uma trança mal trabalhada, pois sua mente estava longe. Ela não sabia em exatamente o que.

Ou quem.

Mas seus pensamentos levavam à pensamentos e ela acabava pensando em diversas coisas que nem sabia que poderia pensar.

Alice riu quando se viu pensando em exatamente aquilo e sua mente estava tão confusa quando sua trança. Ela se encarou no espelho e ficou contente em ver a si própria sorrindo outra vez. Se as coisas não estivessem tão estranhas e tensas entre ela e seu marido conservador e frio, ela sabia que aquilo não iria importar, naquele momento.

Com um suspiro, Alice retirou seu penhoar de seda branca e o depositou de qualquer jeito em sua estante. Jasper não dormiria naquele quarto, então ela não sentiu a necessidade de deixá-lo arrumado ou pouco organizado.

Olhou para a colcha e os diversos lençóis bem dobrados e dispostos no tapete, ao lado da cama. A cama que ela mesma arrumara para ele, quando ainda não o deixava dormir com ela na cama, mas que se importou o suficiente para não deixá-lo dormir mais no apertado sofá.

Estava intacta e fria.

Ela pensou que qualquer dia teria que guardá-las de volta, pois Jasper não precisaria mais delas.

Com um aperto no peito, Alice se dirigiu para sua cama. Encarou uma rachadura distante na parede da janela até o sono vir.

Ela nem percebeu quando as imagens em sua cabeça ficaram tão confusas e distantes. Mas ela conseguia ver Fortunato Black no meio de névoas esbranquiçadas que a impediam de ver muita coisa.

Ele trazia um olhar mortal e cheio de ódio, direcionada a alguém que Alice não conseguia ver quem era. Sentiu seu peito dar um solavanco pela pessoa da qual ela não reconhecia.

Fortunato Black carregava algo nas mãos.

Ao seu redor, apareceram diversos outros homens encapuzados, seus corpos tensos e dotados de uma rudeza que fizera o coração de Alice acelerar.

Ela temia por alguém naquele lugar.

“_Ela é minha! – ela ouviu Fortunato vociferar para o solitário homem desconhecido. Alice não sabia de quem ele falava, mas sentiu algo nela tremer por completo.

_ Jamais a tomará de mim, seu imundo! – o outro homem rosnou de volta, claramente provocando Fortunato Black de uma maneira óbvia. Não teve certeza, mas parecia conhecer aquela voz grave e determinada.

Sabia que sim.

_ Maldito seja! – Fortunato Black esbravejou ensurdeceramente e uma veia em sua têmpora latejou, tamanho o ódio que Alice vira em seus olhos negros.

Ele apontou o objeto que tinha nas mãos na direção do homem que, de repente, passara a ser os olhos de Alice.

Havia uma arma apontada em sua direção, conseqüentemente.

E então ele atirou.

_Jasper! — Alice ofegou alto, sobressaltando-se na cama, o coração acelerado. Fora automático o nome dele sair de sua boca, mesmo ela tendo a absoluta certeza que não o vira em seu sonho perturbador.

Por alguns segundos ela ficara tão assustada que teve que olhar ao redor para se certificar que não havia Fortunato, nem armas nem homens encapuzados naquele quarto.

Apenas ela e sua respiração ofegante.

Alice fechou os olhos, aspirando ar para tirar o vazio de seu peito.

_ Deus, eu não agüento outro desses! – ela exclamou em um sussurro, apertando seu lençol nas mãos.

Então ela escutou passos no assoalho do corredor.

_ Oh... Deus! – ela sussurrou, ficando congelada em sua posição. Encarou a porta, pensando que seus sonhos estavam ficando reais demais.

Os passos pararam na porta de seu quarto e, então, a trinca rodou. Alice fechou os olhos de medo, aplicando o que ela e suas irmãs combinavam quando eram crianças em situações como aquela.

Fingir que estava dormindo.

Ela tentou deixar sua respiração o mais controlada que conseguia e se surpreendeu pelo sucesso. Ouviu a porta ranger fracamente quando fora aberta. Ela engoliu em seco, sentindo o coração acelerar outra vez.

A porta fora fechada.

Os passos duros continuaram vagarosos dentro do quarto. Alice se perguntou se a pessoa de seu sonho estava evitando fazer muito barulho para ela não acordar.

Mas... Hãn?

Ela tentou pensar com racionalidade. Mas ela falhou nessa parte quando pensou que, talvez, fosse Jasper ali dentro.

Mas não fazia muito sentido.

Com uma hesitação que beirava o desespero, ela abriu vagamente os olhos, apenas para confirmar. Era mesmo Jasper, alto e belo como sempre. Ele estava vestido, ainda, com seu casaco, usando seu colete cinza e suas botas cheias de folhas incrustadas.

Divino, com a naturalidade masculina que mexia com os sentidos de Alice até deixá-la zonza!

Ele estava parado frente ao espelho, como ela mesma ficara no inicio daquela noite. Ela o acompanhou com o olhar retirar seu casado, seu colete e desabotoar toda a camisa branca que usava.

Ele fez isso tão vagarosamente que Alice sentiu seu sono evaporar, pois não conseguiu desviar seus olhos semi-abertos de seus movimentos, depositando neles toda a atenção que se permitia.

Deus, ele era...divino! Tudo o que Alice sempre pensara sobre os soldados de Michigan, com quem fantasiava.

Jasper superava.

Seu peitoral causava em Alice uma queimação nas mãos só de imaginar tocando-o de leve.

Ela segurou um suspiro quando a camisa dele fora ao chão e ele passou a andar pelo quarto semi-nu, retendo seus passos.

Ele iria mesmo dormir ali?

Alice ficara acelerada com aquela idéia. Fazia tanto tempo que... Bom, ela nem mesmo sabia o motivo de suas reações.

Ele sumira dentro do armário e só voltara quando já estava vestido com suas roupas de dormir.

O que se resumia apenas em uma calça de finíssimo tecido.

Alice mantinha os olhos quase tão fechados que Jasper não perceberia que ela estava acorda se não olhasse em sua direção. Ela o viu ir novamente até o espelho, mas não olhara para ele. Parou junto a penteadeira, seus olhos olhando para algum ponto do chão.

Ela presumiu que ele encarava alguma rachadura no piso de madeira inglesa, mas quando ele se abaixou e pegou o que olhava tão intensamente, ela sentiu o coração acelerar outra vez.

Ele trazia nas mãos seu penhoar de seda branco.

Deveria ter escorregado da penteadeira até o chão. Alice tentou entender o motivo de ele segurar aquele penhoar da forma estranha como fazia.

Seu olhar sobre ele também lhe era um enigma.

Ela disse para si mesma, a fim de não alimentar esperanças, que ele apenas ficara irritado por tê-lo encontrado repousado no chão.

Devia estar a repreendendo em pensamento por ser tão desleixada e pouco atrativa.

Mas ela parou abruptamente seus pensamentos rancorosos quando ele levou a outra mão até seu penhoar, passando levemente seus dedos por ele. Ele o remexeu nas mãos, como se gostasse de como era delicado e sedoso.

A cabeça de Alice virou um turbilhão de pensamentos, um mais incoerente do que o outro. Seu peito começou a acelerar quando ele começou a aproximar seu penhoar de si, subindo vagarosamente em direção ao seu rosto.

Alice se viu intensamente necessitada de saber o que ele faria.

Mas então, ele virou a cabeça em direção à ela na cama. Não para averiguar se ela dormia, mas para... olhar rapidamente a ela.

Alice apenas teve tempo de fechar os olhos, pois se ele a visse olhando-o, ela nunca saberia o que ele pretendia. Mas não adiantou muito, pois ela não soube o momento certo em que poderia abrir os olhos.

Durou alguns segundos o momento em que ela começou a ouvi-lo andar novamente. Abriu os olhos para vislumbrar seu penhor repousado aos pés da cama, no colchão, e Jasper deitando-se em sua colcha.

Ela bufou baixo, uma frustração lívida. Seus olhos não saíram dele, deitado a alguns metros dela, no chão. Queira tanto que as coisas voltassem a ser como estavam antes. Queria muito pedir isso a ele. Queria dizer o quanto aquela maneira dele de agir com ela, de repente, a estava magoando mais do que o normal.

Mas nada disso aconteceria e Alice se pegou dizendo isso para si mesma em pensamento. Era irracional. Era querer demais.

Sem muita vontade, ela o observou pela ultima vez, pois não saberia quando faria aquilo de novo, enquanto ele dormia. E, então, ela fechou os olhos, desejando estar tão tranqüila quanto ele.

Jasper suspirou tão baixo que ele próprio duvidou que o havia feito. Desistiu de lutar contra seus olhos e os abriu, apenas para ver a cama, ao lado de sua colcha, e vê-la dormindo sobre ela. Se perguntou quando perdera o controle. Quando as rédeas de seu casamento, que ele estava começando a descobrir, sumira de vez.

Mas o fato era que ele sabia, sim. Fora no momento em que Alec tivera a audácia de beijar ela, de provar algo que Jasper mal teve o sucesso. Estava tão indiferente no altar, enquanto se casava com ela, que nem sequer dera muito vazão aquele ato quando ele próprio o fizera.

E odiava Alec a cada dia mais por perturbá-lo tanto.

A fim de não pensar mais em nada, ele se virou bruscamente de lado, dando as costas a cama e fechando os olhos com raiva, não querendo mais perder sonos com aquela historia. Arderia em seu estomago o quanto devesse arder.

Mas ele sabia que não queria dormir, realmente. Seus olhos se abriram outra vez, e a rachadura da parede bem a sua frente era a maneira como ele achou de passar até o verdadeiro sono vir. Atrás, bem as suas costas, um par de olhos castanhos vivos se abriu também. Por sobre o ombro de Jasper, eles passaram a encarar a mesma rachadura da parede, enquanto era seguro manter os olhos abertos.

~•~•#•~•~

Biloxi, Mississipi

Fim da tarde

Alice estava arrumando as flores que trocara dos vasos quando alguém bateu na porta, naquela tarde. Ela a olhou, ainda trancada, como uma perfeita estúpida. Por um segundo, vira Alec do outro lado.

Outra vez.

Conhecendo Alec como conhecia, ele podia ser um insistente irritante, se quisesse.

E ele queria.

Mesmo com sua mente gritando para que ela fosse para trás da pilar e chamasse Consoelo imediatamente, Alice sentiu que precisava dar um fim naquela historia que nem sequer tivera um começo. Precisava dizer para Alec esquecê-la e parar de ir até sua casa, pois ela não precisava que seu casamento ficasse mal falado.

Enchendo-se de determinação pela necessidade, ela abriu a porta abruptamente para poder intimidar.

_ Vá embora e não volte aqui! – ela exclamou com a voz alta, cruzando os braços sobre o peito.

Mas não era Alec que estava parado à sua porta, mantendo uma segura distancia de Alice, confuso e um tanto chocado.

_ Oh, você não é... – ela balbuciou, as bochechas corando violentamente. Deus, se continuasse desta maneira, ela teria a imagem de grosseira por todos os habitantes de Biloxi.

O homem era alto e lembrava a Jasper neste quesito. Porem, tinha cabelos pretos e sua forma física não superava a de seu marido.

Mas fora a farda que ele usava que chamou sua atenção.

_ Não, eu não sou...quem quer que seja – ele murmurou em bom humor, curvando-se levemente em sinal de respeito.

_ Hãn... – ela colocou a mão no pescoço, tentando não demonstrar seu nervosismo e seu constrangimento – Bom, e o que deseja?

_ Sou Peter Collins. Sou de Michigan. Sou... bom, amigo do Sr. Witlock – ele sorriu, um pouco sem jeito, pois Alice o encarava.

Ainda.

_ Treinamos juntos e fazíamos parte do mesmo grupo de soldados, em Michigan – ele continuou, como se soubesse que Alice esperava muitas identificações para desarmar sua expressão.

Bem que Jasper falara...

_ Eu... – ele remexeu em sua farda. Deveria ser como o inferno conseguir chegar àquela mulher. Por um segundo, ele pensou no trabalho de Jasper e sentira pena – Eu juro-lhe que não sou nenhum saqueador e que não roubarei suas flanelas – ele brincou e riu nervosamente a fim de descontrair o clima desconfiado dela.

Mas Alice não era tão fácil assim.

Ela o encarou e segurou os olhos para que não revisassem. Definitivamente, ela estava decepcionada. Aquele homem de brincadeiras estranhas estava destruindo a imagem dos soldados de Michigan que ela carregava na mente desde menina.

_ Desculpe, mas o Sr. Witlock está no trabalho, agora – ela lhe respondeu diretamente, mostrando que ele não precisava fazê-la rir como, fracassadamente, ele esteve tentando.

Peter deu um longo suspiro, mas ele pensou que podia esperá-lo. Quer dizer, uma xícara de chá ou uma torrada não seria tão ruim.

_ Será que se incomodaria se eu esperasse? – ele perguntou. E só então se lembrou que aquela era a esposa de seu melhor amigo. E se ele fosse levar em consideração tudo que Jasper já falara sobre ela a ele, seria mais favorável ele esperar no portão.

Alice encarou o homem por alguns segundos. Será que pareceria atirada e vergonhosa se o deixasse esperar mesmo, bem em sua sala de estar?

Por um momento, ela pensou em pedir, educadamente, claro, que ele esperasse perto de seu cavalo, a alguns passos da rua. Mas não queria parecer mal educada. E, bem, aquele era amigo de seu marido.

_ Bom, tudo bem – ela o respondeu e não gostou muito da expressão surpresa do homem.

Mas, talvez, ter concordado com aquilo tivesse sido uma idéia um pouco equivocada. Bom, a julgar pelo estado da sala de estar.

Alice estava sentada, com uma postura intocável, no sofá bem em frente ao homem alto e de terno. Ele estava sentado rígido e ereto, claramente um pouco desconfortável.

Eles se olhavam vez ou outra e davam sorrisos gentis. E então voltavam, cada um, a olhar os detalhes ao redor, desde o lustre, até as pequenas formigas que passeavam pela madeira do assoalho.

Ela bebia seu chá. Ele mordiscava seu biscoito.

_ Está calor, não? – ele perguntou uma hora.

Alice deu de ombros, levando sua xícara de flores à boca.

_ Sempre é calor nessa época do ano.

Ele assentiu silenciosamente e ambos voltaram a fazer o que estavam fazendo.

O sol ia cada vez mais desaparecendo no horizonte e Consoelo e Lilly já começava a ascender algumas velas.

Alice bebera três xícaras de chá e Peter já havia comido todos os biscoitos da tigela quando ela falara de novo.

_ Então o Sr. veio de Michgan? – ela perguntou casualmente, pouco se importando em saber a resposta ou não. Mas já estava ficando constrangedor demais aquela situação.

_ Oh, sim – ele sorriu, parecendo um pouco mais aliviado por estarem conversando outra vez. Talvez Jasper houvesse exagerado, afinal de contas – Eu e minha esposa, Charlotte. Eu vim apenas por questões emergenciais de trabalho.

Alice assentiu, sorrindo falsamente para ele. Há muito seu chá já havia perdido o sabor e ela bebia como se fosse água.

_ Certamente.

E, então, calaram-se outra vez.

Alice cruzou e descruzou as pernas sob o vestido por algumas vezes, enquanto ele balançava as dele.

Mas alguns minutos se passaram e agora já era noite, as ruas estavam escuras e o céu coberto de nuvens negras demais.

Cinco minutos depois, Alice se cansou. Levantou-se em um rompante.

_ Gostaria de mais biscoitos? – perguntou abruptamente ao homem, recolhendo a tigela nas mãos com a rapidez de uma piscadela.

_ Oh, eu...

_ Só um minuto, eu já lhe trago – ela saira daquela sala antes que ele desse outra tragada de ar.

Segura em sua cozinha, ela respirou. Era a pior esposa que alguém poderia ter, afinal de contas. Não sabia nem ao menos receber uma visita, Santo Deus!

Nervosa, Alice riu sozinha, escorada em sua enorme mesa. Ela repassou muitas de suas aulas de etiqueta que tivera aos 15 anos.

E não lembrara de quase nada.

Ela pensou que Jasper tinha razão. Ela quase não tinha modos. Alice balançou a cabeça outra vez, rindo com ela mesma.

Mas então parou.

Talvez Jasper gostasse um pouco mais dela como esposa, se ela fosse tão delicada e receptiva quanto as outras mulheres da cidade. Alice não gostava de lembrar que nunca tivera tantos modos quanto Jane Volture ou Jessica Stanley ou até mesmo suas irmãs.

Seu sorriso desaparecera de sua face, dando lugar a uma amargura em seu peito. Jamais poderia lutar contra Jane pela admiração de seu próprio marido.

Perturbada, Alice puxou uma cadeira para se sentar. Sentiu o estomago parecer diminuir e sua cabeça inteira queimar.

Não tinha a menor idéia do que estava acontecendo com ela.

Alice ficara tão desnorteada com a idéia de Jasper pensando em Jane como uma esposa melhor do que ela, que nem vira quando Jasper chegara. Apenas escutou sua voz de longe.

_ Peter? O que faz aqui? – ele perguntou para o homem. Mesmo na cozinha, Alice notou o tom de surpresa na voz dele.

Desanimada e desiludida, Alice pegou a tigela e voltou, encarando o chão e tentando não começar a chorar, até a sala.

_ Você disse que... – Jasper parou de falar quando ela entrou na sala. Os dois homens a olharam ao mesmo tempo e isso a intimidou. Jasper semicerrou os olhos para Alice enquanto ela estava parada diante deles, a respiração um pouco alterada.

Mas seus olhos eram apenas dele.

Ela parecia nervosa de uma maneira que quase fizera Jasper esquecer a raiva que estava dela e suas oscilações de temperamento, e abraçá-la.

Mas como se estivesse prestes a gritar, ela colocara a tigela rapidamente sobre a mesinha de centro, dando alguns passos descoordenados para trás.

_ Com licença – ela murmurou e em seguida deu as costas para os dois, subindo a escada com passadas rápidas, não olhando mais para trás.

Jasper ficou intrigado, se perguntando o que havia acontecido a ela.

Peter também estava tão intrigado quanto ele.

_ Ela esqueceu os biscoitos que fora pegar? – disse ele.

_

_ Sabe, essa é uma boa casa – Peter comentou enquanto olhava as mobílias, em pé – Minha casa em Michigan não é deste tamanho todo.

_ Pare de despejar inveja sobre mim, seu miserável – Jasper zombou, esfregando os olhos devido ao cansaço. Parecia que seus ombros pesavam setenta quilos.

Peter riu antes de se virar para seu velho amigo, sentado atrás de uma enorme mesa, parecendo importante demais.

_ Você levou uma punhalada em cada olho, irmão? – o amigo perguntou com a testa franzida. Não lembrava daquelas marcas sob os olhos dele.

Jasper suspirou.

_ Só estou cansado – ele disse baixo.

Peter puxou a cadeira de frente a ele e voltou a encará-lo, a ruga ainda presa em sua testa de mármore.

_ Essa maldita vida de negócios, não? – ele disse sarcasticamente – È tão mais saudável carregar armas debaixo dos braços e guerriar – ele deu de ombros e, assim, conseguiu arrancar uma risada satisfatória de Jasper em semanas.

_ Você tem razão, seu bastardo sortudo – disse Jasper serenamente. Ele levantou o olhar para o amigo – E quanto a Sra. Collins? – perguntou, lembrando-se da adorável mexicana por quem Peter fora enfeitiçado.

O olhar do amigo brilhou momentaneamente e Jasper sentiu uma pontada de inveja do amigo que até mesmo lhe surpreendeu. A relação de Peter com sua esposa era tão intensa que um não vivia sem o outro por muitas horas. Jasper se lembrava de como Charlotte ficava todo dia que antecedia uma missão.

_ Ah, deixei minha querida Charlotte aos prantos! – ele lamentou – Ela realmente queria vir, sabe? Conhecer a Biloxi e rever você, seu cretino.

Jasper sorriu enquanto rodava um isqueiro em suas mãos.

_ E quanto àquela enfermeira do batalhão? – Jasper perguntou entusiasmado ao se lembrar dos velhos tempos em campos de concentração.

Peter o olhou de forma maliciosa, pensando que seu amigo talvez não mudasse nunca.

_ Oh, Jasper, se soubesse o quanto Maria o praguejou! – Peter exclamou, deveras animado – Disse que você desgraçara sua vida e que desejava com todos os nervos que você morresse engasgado com sua própria língua!

Os dois gargalharam alto, cada um com sua imagem da mulher praguejando ao vento.

_ Eu não desgracei a vida dela – Jasper disse com dificuldade – Sempre fui honesto, honrado. Não lhe propus casamento nem muito menos a tomei na força – esclareceu enquanto Peter também tentava se recompuser – Sempre tomei aquilo que me fora dado por própria vontade.

Os dois continuaram rindo, parando com dificuldade apenas um tempo depois. Peter foi o primeiro a voltar a falar.

_ Por que não paramos de falar das mulheres de Michigan e passamos a falar das mulheres de Biloxi? – ele propôs sugestivamente para Jasper.

Jasper engoliu seu riso, desviando os olhos dos perspicazes olhos do amigo.

_ E como anda a idéia de ser um homem casado? – ele começou o interrogatório constrangedor, enquanto Jasper começava a emburrar – Ainda mais com a Srta. encrenca?

_ Não quero falar sobre Alice – ele disse baixo, como um garoto que cortara laços com algo.

E isso entusiasmou os ânimos de Peter.

_ Eu imagino o inferno que é, não?

Jasper escutou aquilo e acabou admitindo para si mesmo que a convivência com Alice não era tão ruim, afinal de contas.

Era apenas aquele maldito ocorrido que ainda o perturbava.

_ Esse nem é tanto o meu problema – ele murmurou, tacando o isqueiro sobre a mesa, que ainda rodava em suas mãos, com força desnecessária – Mas eu não consigo olhá-la sem sentir raiva desde que...

Peter semicerrou os olhos para o amigo, sua curiosidade tão aguçada que ele até se inclinou mais em sua direção.

_ Desde o que?

Jasper estava propenso a falar tudo e Peter gostou daquilo.

Tanto quanto se aproveitou.

_ Você consegue acreditar que Alec Black, o maldito Alec Black... ele... ele a beijou?!- Jasper disse entre dentes, a expressão tão amigável de momentos atrás desaparecendo.

_ Alec Almofadinha Black? Aquele pequeno e pegajoso pedaço de homem? – Peter repetiu, descrente.

_ Sim! Aquele miserável!

Peter balançou a cabeça, completamente perplexo, por um tempo. Mas então algo estalou em sua cabeça.

_ Não está com ciúmes dele por isso, está? – Peter pouco acreditou em suas palavras. Mas a maneira como Jasper se expressara quando tocou naquele assunto era o mesmo de um homem clamando por algo que o pertencia e que era vigiado de perto por outro.

_ Obviamente que não, não é? – Jasper respondera um pouco rudemente.

_ Então isso aí é inveja por ele ter feito e você, certamente, nem chega perto de conseguir isso – Peter parecia que não se importava muito em confrontar e zombar de Jasper, pois estava fazendo isso com um gosto sobre humano.

Era a primeira vez que sua sinceridade desgarrada irritava a Jasper.

_ E por que toda essa presunção em dizer que eu nem mesmo chego perto de conseguir isso? – Jasper indagou mal educadamente. Peter estava chegando perto do ponto.

_ Oras, pois quando você chegou aqui ela olhou para você como se você fosse pimenta para seus olhos – disse ele como se aquilo fosse a coisa mais obvia do mundo – E subiu pro quarto!

Jasper abriu a boca para retrucar, mas não encontrou palavras para isso. Então desviou o olhar do inquisidor olhar de Peter, emburrado.

_ Me responda uma coisa, meu irmão...

_ Não – Jasper murmurou, encontrando outro objeto para entreter suas mãos e dedos.

_ Você a quer beijar, também? – Peter o ignorou e perguntou com as sobrancelhas arqueadas – Por que certamente nunca fez isso. Não decentemente, pelo menos.

Jasper engoliu em seco diante da pergunta tão direta. Nunca havia se feito essa pergunta e ouvi-la assim, quando não estava com a cabeça preparada, não ajudava.

Ele sentiu um calor em seu sangue ao pensar naquela idéia que teve que segurar um suspiro.

E seu silencio fora realmente interpretado por Peter.

_ Oh Deus, você a quer beijar na boca! – ele se desencostou da cadeira, assombrado quando Jasper apenas se remexeu em sua própria – È isso mesmo, não é? Oh, céus!

_Obviamente que não!

_Obviamente que sim, seu bastardo! – Peter riu, mas estava tão indignado que aquele ato fora apenas reflexo – O que aconteceu com tudo aquilo que você disse dela, naquela feira livre?

Jasper encarou o amigo, as lembranças daquela conversa voltando para ele como uma assombração.

_ Pois ela ainda é tudo aquilo, entendeu bem? – ele disse tentando passar credibilidade em suas palavras, mas naquele momento ele era uma enorme confusão. Peter bateu a mao na mesa, adorando retrucar a seu amigo, que sempre fora bom demais com as palavras e com o papo.

_ Você dizia que ela era terrível, grosseira e desprovida de modos! – ele o jogou na cara, rindo – Vamos! Negue, seu miserável!

_ Fale baixo, ela pode escutar!

_ Oras, Jasper, ela está no quarto, jamais escutará um só palavra. Pois se escutasse se assustaria, pobre mulher, com todas as coisas terríveis que você falou dela.

Jasper encarou o amigo, fuzilando-o. Estava com muita vontade de quebrar-lhe os dentes.

_ Pois é muito capaz de ela aparecer aqui nesse exato momento, se quer saber – ele disse – Ela é imprevisível, Peter. Você se surpreenderia.

Peter riu novamente, colocando pouca fé no assombro do amigo.

_ Bom, depois da recente descoberta de um de seus desejos para com ela, ela não parece-me tão terrível assim – ele comentou, novamente retrucando Jasper em suas palavras.

_ Ela é tão terrível quanto sempre!- Jasper rosnou entre dentes – Ela me colocou para dormir no chão!

Peter encarou o amigo com uma expressão empedrada no rosto, como se estivesse absorvendo as incrédulas palavras de Jasper.

E então riu.

Peter começou a tremer, o fôlego lhe faltando, as gargalhadas quase se engasgando na garganta. Rira tão alto que, certamente, ate os moradores do cemitério de Biloxi o ouvira.

_ Deus, Peter, como eu o odeio! – Jasper rosnou sob o fôlego, levantando-se de sua cadeira, tomando distancia, tomando ar.

_ Eu.... não...a-acredito – Peter murmurou com dificuldade, limpando algumas lágrimas do canto dos olhos – Não dormem juntos na cama? – ele perguntou retoricamente – Jasper, o que aconteceu com você? – por trás de sua zombaria, Peter estava realmente curioso e um tanto chocado – Está perdendo o jeito, é isso? – riu – Ou Alice lhe está colocando nas rédeas?

Jasper ignorou o amigo, colocando as mãos nos bolso. De repente, ele queria muito mandá-lo pastar e ir dormir.

_ Bem que eu disse no dia de seu casamento – Peter disse um tempo depois – Que você teria trabalho com essa mulher...

_

_ Bom, dê lembranças minhas a Charlotte – Jasper disse com pouca vontade. Toda a conversa com Peter estava latejando em sua cabeça.

Peter, que ainda carregava um sorriso de escárnio na face, assentiu, recolocando seu chapéu e descendo os degraus.

_ Repasse a Alice as minhas graças, sim?

Jasper acenou para ele, balançando a cabeça, mas sabia que seria difícil encontrar Alice acordada para dizer aquilo.

Quando chegou no portão, Peter voltou-se para seu amigo na sacada.

_ Mostre a ela quem é o homem, Jasper – ele disse, claramente incentivando o amigo a terminar com suas perturbações fazendo o que estava claramente morrendo por fazer – Apenas... faça o que tem que fazer.

Com uma piscada sugestiva e um sorriso malicioso, Peter deu as costas, montou em seu cavalo e galopou até fora das vistas de um Jasper perturbado, aborrecido e em meio a uma violenta guerra entre sua cabeça e seu coração....

Notas finais
E entao, o que acharam?
Espero que tenha gostado!!! Eu gostoooo muito desse cap., particularmente skapksaps
MAs, espero que tenham gostado tbm!!!!
Bjsssss
:*