Os Quatro Reinos E O Que Não Era Pra Ser
1 Como tudo começou
Notas iniciais
Havia um tempo em que a Luz reinava soberana. Não havia guerra, trevas ou tristeza. O povo daquela terra cantava, dançava e amava Andrômeda como seus ancestrais nunca puderam. Como uma oferenda, uma prova de gratidão, eles entregaram ao Imperador dos Céus sua amada terra. Quando cada uma de suas Três Filhas completaram dois mil anos, ele deu uma parte de seu domínio para que elas tomassem conta em seu lugar.
Rafaella, a mais velha delas, ganhou a casa de seu pai, o Império dos Céus. Ela guiava o Sol e a Lua, chamava e expulsava as nuvens, e era a Senhora de todas as estrelas. Os ventos a obedeciam, e os trovões a ela pertenciam. Havia um mito entre os mortais de que, quando ela tinha misericórdia de algum viajante perdido, ela se disfarçava do povo dele para guia-lo, como fazia com os marinheiros quando estava sentada em seu trono, guiando-os com as estrelas, dando-a o nome de A Feiticeira das Estrelas. Ela protegia suas duas irmãs a todo custo, e, quando salvou sua irmã do meio de um grupo de feiticeiros, ganhou dela os dragões, seres poderosos que cruzavam os céus e a terra, símbolo da aliança entre elas. Seu reinado foi próspero e rico, ficando conhecido mais tarde como a Era de Ouro.
A filha do meio, Elisa, era conhecida como A Caçadora da Lua. Governava o reino da terra e toda a natureza. Os animais eram seus amigos e ela cuidava até dos mais selvagens, como o urso e o lobo. As plantas e flores a obedeciam e a amavam, protegendo-a dos perigos. Já foi conhecida como a Filha mais próxima da humanidade, ajudando nas colheitas e na criação de animais. Mas ela, assim como a própria natureza, tinha seu limite. Todo o desprezo que a humanidade estava mostrando por seus amigos estava a corroendo por dentro. As árvores estavam sendo derrubadas e apodrecendo os solos e, ela se encheu de tristeza. Depois de muitas tentativas falhas de avisar os mortais das consequências de suas ações, ela se voltou contra eles, seu coração contaminado de tristeza e raiva como as plantas mortas são contaminados pelos fungos, e destruiu tudo o que eles haviam construído, fazendo nascer uma floresta doente, refletindo o coração de sua criadora, e, junto com seus dois lobos fiéis, caçava todos os caçadores ou lenhadores que ousavam entrar em seus domínios à luz da lua, ganhando tanto seu nome quanto o medo dos mortais.
Júlia era a mais nova e a mais amada pela família, e ganhou de seu pai o Reino do Mar e o Reino Inferior. Governava com sabedoria e justiça, dando a cada um a eternidade que ele merecia e amando cada um de seus súditos. As sereias eram suas melhores amigas, e ela conhecia o mar e cada concha, a terra e cada diamante assim como a palma de sua mão. Quando sua irmã abandonou a humanidade, Júlia permaneceu neutra, em oposição a sua irmã primogênita, que condenava sua atitude. Deu de presente à Rainha dos Céus o arco-íris, estabelecendo uma rede de comunicação entre as três. Sempre que algum trabalho sujo precisava ser feito, ela o confiava a Elisa, que havia jurado vingança aos mortais mas ainda era extremamente fiel a suas irmãs, que não tinha receio de fazê-lo. Pedia ajuda a Rafaella quando precisava fazer uma decisão difícil, confiando na sua sabedoria, apesar da irmã insistir que ela sabia o que era melhor para seu reino mais do qualquer outra.
Mas a mesma ganância e desprezo que levou a humanidade a se afastar da Segunda Filha trouxe o mal para o mundo. Homens poderosos e influentes, que apodreceram uma geração inteira de homens que não enxergavam além de seus próprios interesses. Por anos eles se prepararam e se tornaram mais fortes. Seu objetivo era claro e aparentemente impossível de não se alcançar. Estava tudo pronto.
Foi num daqueles dias que você sente que o sol brilhante e o céu claro tentam esconder alguma coisa ruim. A tensão e ansiedade no ar eram quase palpáveis. Na borda da floresta, homens e mulheres sedentos por sangue e vingança, e com os objetivos claros em sua mente: a morte da Segunda Filha. Mas aqueles tolos que pensavam que ela não sabia, não poderiam estar mais enganados. Ela vira e acompanhara todos os planos, todos os treinamentos e todas as reuniões contra ela, e seu coração chorava de tristeza, lembrando de todos os momentos que ela esteve ali, cuidando dos avós deles quando ainda eram crianças e brincando com eles, os ensinando como andar nas trilhas da floresta, como falar com os animais e cuidar das plantas. Mas já não eram mais as crianças, nem ligavam mais para seu reino. Agora, com suas esposas e filhos, essa geração tinha aprendido a odiá-la. Mas um coração como o dela não voltaria atrás. Alguns dizem que foi injusto dela, outros dizem que ela estava certa.
Quando eles entraram na floresta, nada de estranho aconteceu. Deram mais alguns passos e, com suas espadas e arcos prontos, esperaram as ordens de seu capitão, Cleiton. Ele era um homem fino e magro, encurvado como um urubu, e fedia como um. Não se via ele comendo ou bebendo, mas alguns disseram ter visto ele se alimentando de animais ainda vivos, escondido no topo de pedras altíssimas e difíceis de escalar, mas as fontes eram duvidosas, então ignoravam, tolamente, esses boatos. Ele deu três passos à frente, e disse numa voz fina, baixa e áspera, “Prossigam como acharem melhor. Daqui para rente estão livres de todos os compromissos com si mesmos. A Rainha está no castelo, e a única coisa que eu exijo é que ela morra. Se ela não morrer, vocês morrerão. Andem, suas mulas”, ele cuspiu.
Quando estavam recomeçando a avançar, as árvores começaram a se mexer, como homens levantando de suas camas, seus galhos formando braços e pernas, e seus troncos, bem, seus troncos, e os olhos se abriram. Fitando-os com o ódio que só uma arvore muito velha pode ter. Formaram uma barreira, e permaneceram lá, mesmo quando, com um grito ensurdecedor de guerra, eles correram e lançaram suas armas contra elas. Ouviu-se uma voz, e então tudo ficou quieto. Uma figura começou a surgir de longe, por entre a névoa que agora predominava e limitava a visão dos homens, e ela foi se aproximando, e de repente se dividiu em três, e continuavam chegando mais perto. Segundos se passaram, mas mais pareceram anos. As figuras se revelaram, e os mortais puderam olhar no rosto de seres que há muito só se ouvia falar. As três filhas estavam lá, e não pareciam muito felizes. Rafaella parecia serena, como se estivesse lutando para manter a postura, oposto de Elisa, que tinha marcas visíveis de lágrimas em suas bochechas, que eram perpetuamente sujas de terra, resultado de muitas horas de choro de raiva pelas ações humanas. Júlia estava impassível, e nenhum tipo de emoção podia ser vista em seu rosto. “Eu avisei aos seus avós do que aconteceria se eles não mudassem, mas eles não me ouviram. Então darei essa última chance a vocês: saiam de meu reino, e eu fingirei que nada disso aconteceu. Não acreditem no que um urubu diz: ele se supre apenas de carniça, então carniça é o que ele fala. Ele traiu o Imperador, e vem mentindo para gerações e gerações afim de se vingar. Não se enganem, ele não vai recompensá-los.”
Cleiton deu um passo à frente, e sua sombra pareceu ter três metros, apesar de ele mesmo só ter um metro e cinquenta. “Mentira! Mentirosa! Ele me expulsou por que seu reinado é falho e de terror! Ataquem! Agora, seus idiotas! Ataquem!”. A multidão avançou e não pretendia parar. Enganação os consumia naquele momento, e eles não pensaram nas consequências, tentando pular no pescoço da Rainha da Floresta das Trevas, e sendo agarrados pelos braços das arvores. Ficaram presos no ar, se debatendo, e a Rainha ria com sarcasmo. Virou para suas irmãs e falou, “Eu não falei? Vocês acham que eu nunca tentei? Não há esperança para eles. Com sua permissão, minha Rainha, eu os punirei como acho que eles merecem”, dirigiu-se a Rafaella. Ela pensou, e por fim respondeu, “Não os mate. Eles ainda são amados por nosso Pai. Deixe Cleiton comigo. Ele não morrerá tão cedo. Venha, Júlia. Ele vai para seu reino.”
Elisa olhou para aqueles humanos, um dia seus filhos, agora rebeldes, e suas lágrimas não conheciam mais barreiras. Era como uma mãe que tinha que punir seu filho, mas ela não se sentia mais uma mãe. Eles não a consideravam mais como uma mãe, e se era uma Rainha Má que eles queriam, isso que teriam.
Estava levantando sua voz para dar o comando as arvores, quando Cleiton gritou. Ela olhou para trás, e o que viu demorou para sair de sua mente. Rafaella estava com uma lança atravessada em seu coração e fincada na terra, o sangue manchando suas vestes brancas. Não podia sentir a aura de Júlia, o que significava ou que Júlia tinha escapado, ou que ele tinha feito algo com ela. Sentiu as árvores chorando, e quando foi virar para socorrê-las, sentiu a flecha envenenada se alojando em seu abdômen. Seus joelhos fraquejaram e ela caiu sobre eles. Cleiton levantava as mãos, seus olhos agora pretos. Ele estava lançando seu feitiço final, mas ela não saberia, já que as árvores a cobriram, protegendo-a às custas de suas próprias vidas. Um estrondo ressoou no ar, então tudo ficou silencioso. Quando as cinzas caíram em volta e por cima dela, misturando-se com o sangue, e ela abriu os olhos, não havia mais humanos ou Feiticeiro.
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