Os Pães Do Poeta

1 Os pães do poeta


Acordar cedo, na madrugada fria e silenciosa, assar o pão,pois dona Maria gostava do pão quentinho,por isso mesmo era sempre a primeira cliente do dia. Lá pelas seis os pães ficavam prontos,ajeitava-os na bicicleta,equilibrando-os dentro de cestas enormes de vime, a frente e atrás,partia ladeira abaixo.

Chegava ao centro da cidade aí por umas sete e meia e soltava já o versinho:

"Olha o pão,pão quentinho,

Tem para a mamãe,

E tem para o Juninho,

Eu sei que gostam todos,

Até o passarinho.

Olha que hoje tá barato :

Moça bonita compra o pão e leva um versinho"

— Dia D. Maria!

- Dia Zé,tem pão quente aí?

-Tem sim Sá Maria.

- Dá-me cinco.

- São 50 centavos.

E prosseguia de porta em porta, soltando o versinho. Subia a rua Direita, virava na Avenida Dom Bento Santigo, e saía saracoteando pelas ruelas,pelos bairros,pelas chácaras...Parava na porta da casa amarela, ah! A casa amarela,das portas verdes,um lugarzinho perdido no meio de uma selva de flores,canteiros desordenados,explodindo em cores. E na janela, já com o café preto à mão e vendo a vida passar,lá estava a menina Candinha,que gostava do pão torradinho que o Zé lhe guardava sempre no fundo do cesto.

— Oh Zé,tem correspondência

Sim. Havia correspondência. O coração do pobe padeiro disparava só em ver aquele anjo,aquela Eva,a esperar por seu pãozinho quente à janela, a amá-lo pensando-o outro, a trocar com ele versos e flores,pensando-o o noivo que mora na cidade. E as cartas do padeiro eram tão lindas,tão cheias de vida,as vidas das quais ele fazia parte por alguns minutos enquanto percorria a cidade ansiando por aquele momento, a entrega do último pão, sempre mais moreninho de que D. Candinha tanto gostava de besuntar com manteiga e tomar com seu café preto,preto como a D. Bárbara, uma vizinha sua que lhe ajudava a escrever as cartas para o anjo daquele bosque que roubou,que roubou seu coração.

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