Os Poderes Perdidos

10 Capítulo 10: Quase sou esfaqueado


FUI ATÉ O campo principal. Meus amigos e todos os outros estavam lá pegando as armas. Não falaram nada, mas eu sabia que era o cristal da água que iríamos atrás, porque a alguns dias atrás eu ouvi o traidor dizer, em sonho, que contava com a ajuda de Poseidon para me matar, e ontem ele disse que hoje era minha morte. Então tudo se encaixou.

Aron nos advertiu de que não seria bom colocar as armaduras agora, talvez nós fossemos cair na água, e a armadura pesaria muito e talvez pudéssemos nos afogar. Principalmente eu que sempre me afogo, e só agora sabia o motivo. Poseidon comentou sobre uma profecia no Olimpo. Comentou algo sobre um príncipe mestiço, um filho de Zeus, e o traidor disse isso ontem, me chamou de príncipe. Na profecia citada por Poseidon, o príncipe mestiço o destronaria, então ele queria me matar.

– Eu odeio água – Selina murmurou. É verdade, Poseidon também não gosta de Atena, ele deve ter perseguido ela também.

– Eu também não – murmurei de volta

Ela sorriu, não sei porque, mas ela sorriu. Aron estava de mal humor (como sempre) e não explicou nada, apenas mandou nós passarmos por um portal. Na verdade ele nos empurrou porque empacamos na frente do portal olhando a cena.

Era um oceano, nada alem de água cercava um pequeno barco. O mar estava agitado e chovia muito, raios fracos e trovoes extremamente barulhentos dava para ouvir apenas de ficar na frente do portal. Aron me deu um chute (o que foi estranho já que ele tem cascos) e eu caí para dentro do barco. O barco estava imundo. Garrafas quebradas, barris de rum espalhados pelo meio do navio, os mastros estavam apoiados a duas caixas de ferro para não caírem.

O volante do navio estava metade comido por cupins, o convés estava cheio de musgos e algas marinhas. O cheiro mar encobria um pouco o cheiro de peixe podre, mas o barco parecia que havia sido retirado de baixo da água a pouco tempo e alguém tentasse remenda-lo.

Corri para dentro da parte de baixo do barco. Lá conseguia ser pior, imundo, pratos com comidas podres cheio de mosquitos e moscas, teias de aranha enormes nas entradas das portas, mesas comidas de cupins, peixes pequenos e mortos no chão. Havia uns quartos com beliches espalhados lá em baixo, a maioria das pessoas foram se deitar, afinal tínhamos acabado de levantar.

Não quis arriscar dormir em um navio. Desde que pisei no barco comecei a me sentir mal, estava sob o domínio de um inimigo, não queria arriscar dormir e ficar indefeso. Selina pareceu querer a mesma coisa, ela se recusou a dormir embora ficasse bocejando o tempo todo.

Aron ficou na chuva conduzindo o barco, outros mestiços que não quiseram dormir (acho que um ou dois no máximo) foram ficar no beliche, estavam cansados. Na verdade eles andavam meio que com medo da gente, não se misturavam muito, ficavam sempre afastados.

Selina sentou á mesa, antes ela olhou para ver se não havia nenhuma aranha na mesa ou na cadeira. Ela disse que ela tinha fobia de aranhas desde pequena. Eu comecei a analisar as coisas que ficavam em cima das prateleiras com lampiões. Haviam alguns pergaminhos que estavam tão velhos que não deu para ler, outros estavam molhados, havia também uma caixa molhada, eu abri e tinha umas cartas. Um baralho antigo mas seco.

– Sabe jogar pife? – perguntei a Selina

– Sim, por que? – ela respondeu enquanto bocejava

– Eu achei cartas, um baralho.

Eu peguei as cartas e sentei á mesa. Começamos a jogar pife e conversar. Estava frio, estávamos de armaduras e espadas embainhadas, de frente um pro outro e bocejando de cinco em cinco minutos jogávamos sem prestar muita atenção.

– O que você quer ser quando crescer? – perguntei para puxar assunto

– Eu? Viva – ela disse e sorriu, sorri também. A possibilidade de ficar viva até crescer e cursar uma faculdade não parecia possível

– Eu também, mas se você conseguir sobreviver, que profissão quer seguir?

– Ah, sei lá. Quero trabalhar em alguma coisa que eu entenda, bióloga talvez. Não marinha, claro.

– É, interessante, assim você poderia ficar perto das arvores e plantas.

– E você?

– Ah... acho que quero ser... na verdade eu não sei. Primeiro tenho que pensar em sair daqui... acho que talvez vamos ser liberados daqui a alguns dias, eu sonhei...

– Bati! Ah, desculpa, continue.

Contei o sonho para ela enquanto dava as cartas. Enquanto contava, confesso que fiquei com ciúmes, Atena foi até um acampamento e pediu ajuda a um filho de um de seus maiores inimigos para resgatar a gente (claro que a preocupação dela não era eu, era Selina) e Ares sequer comunicou um filho dele para me ajudar.

– Temos que nos manter o máximo de tempo no acampamento porque...

– Bati!

– ... se nós sairmos de lá, Dean e os outros não vão nos achar.

– Espera, conhece ele?

– É, bem... mais ou menos. É que antes de eu vir para cá, eu e minha irmã conhecemos algumas pessoas, mas isso foi a muito tempo, antes de Atena, antes de tudo.

O barco quase virou, nós dois caímos com as cadeiras um por cima do outro enquanto o barco tombava e eu senti que havíamos chegado ao nosso destino. Mas estava errado porque Aron gritou lá de fora:

– Sem pânico, foi só um... iceberg.

– Só porque eu estava quase batendo – resmunguei

– Mas eu estava com o seu nove de ouro

– Mas eu tinha comprado o nove de paus. Ah, eu não quero mais jogar. O que aconteceu com você e sua irmã afinal?

– Bem, – levantamos as cadeiras e sentamos de novo um de frente para o outro – o meu pai era mortal...

– Você e sua irmã são mestiças?

– Claro que não! Ela e mortal, olho de vidro, mas mortal.

– Olho de que?

– Olho de vidro Erick, são as pessoas que podem ver alem do que vemos. São mortais que enxergam mais que mestiços, eles enxergam a verdadeira forma de qualquer um, sendo deus, monstro disfarçado pela visão mortal, qualquer um.

– E sua irmã é assim. É raro achar pessoas assim?

– Não sei, talvez, no inicio que nos perseguiam por causa dela até Atena me escolher. – ela sussurrou a parte de Atena, ainda era um segredo, só eu e outras poucas pessoas sabiam disso – Nosso pai e minha madrasta, mãe da Clara, morreram em um acidente de carro e... os parentes da minha madrasta eles... ficaram com clara, mas não quiseram ficar comigo. – ela tentou disfarçar a tristeza no rosto, mas não conseguiu. Eu conseguia entende-la, sabia como era duro você ser rejeitado pela própria família. – Então eu tive que fugir, achar um lugar para mim, e conheci alguns mestiços no caminho, Dean foi um deles.

– Nossa, que... que tristeza, meus pêsames.

– Ah, tudo bem, já faz quatro anos. E você, como era sua vida antes de vir pra cá?

Contei sobre minha vida, contei sobre a proteção de Marte e sobre meu primo. Descrevi ele a ela e perguntei se ela tinha algum palpite de quem ele poderia ser filho.

– Talvez se eu o visse pessoalmente – ela respondeu ainda triste, acho que lembrar do passado era ruim para ela – A aparência indica um pouco Apolo, mas não acho que seja.

Pedro entrou na sala que estávamos e olhou para as cartas no chão, ele parecia confuso e perdido. Usava a camiseta vermelha da equipe e armadura por cima, mas parecia diferente.

– Vocês não estão com sono?

– Não – respondi e bocejei – Ah, é que eu não quero dormir. Eu to falando alto demais?

– Não, é que eu... estou me sentindo estranho.

– Pedro – Selina disse calmamente – deixa eu ver seu braço.

– O que? Por que?

– Só deixe-me ver.

Ele ia esticar o braço, mas parou instantaneamente. Seus olhos se amarelaram completamente e ele puxou sua faca e veio devagar na direção minha e de Selina. Nós dois levantamos correndo e fomos nos afastando conforme ele vinha.

– Pedro – eu gaguejei – cara, nós somos amigos lembra.

Selina levou a mão no bolso e pegou a coruja, mas Pedro com uma velocidade incrível tomou a coruja dela e jogou minha espada longe, ele queimou a mão a tocar na Omega mas não pareceu ligar para o ferimento. Continuamos recuando até encostar na parede. Ele levantou a vaca de caça de trinta centímetros.

Selina segurou minha mão. Em circunstancias diferentes eu teria ficado envergonhado, mas segurou na minha mão como se pedisse ajuda. Eu queria ajudar, mas não sabia o que fazer. Pensei gritar, mas Pedro me olhava com os olhos extremamente amarelos que diziam: se gritar eu mato os dois. Ele baixou a faca rapidamente, mas conseguimos pular para o lado.

Achei que ele fosse nos perseguir ou nos esfaquear enquanto levantávamos, mas o que ele fez realmente me surpreendeu. Ele estava completamente em transe escrevendo com a faca em uma prateleira de madeira. Eu e Selina nos entreolhamos. Eu peguei minha espada e ela resgatou a coruja.

Paramos ao lado da porta olhando ele escrever. Apenas seu braço se mexia, o resto do corpo estava imóvel, completamente imóvel. De repente Pedro largou a faca no chão e caiu no chão. Fui correndo ver o que havia acontecido com ele, ele já havia acordado, como... como se alguma coisa o tivesse possuído e o largado naquele instante.

– Cara, – ele disse – que dor de cabeça! Por que você está tão pálido?

– E-Erick – Selina gaguejou – Olhe isso.

Me aproximei da mesa, havia muitas palavras, palavras em grego antigo que começaram a se transformar em palavras em português.

– As quatro relíquias juntas estarão, caso contrario dez dos treze cairão. Os quatro únicos juntos os poderes devem resgatar e no prazo da morte as relíquias tende aos donos se juntar. – repeti – Isso é...?

– Sim – Selina respondeu tremula –, isso é uma profecia.