Os Poderes Perdidos
1 Capítulo 1: Ganho um relógio barato do meu irmão
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Ganho um relógio barato do meu irmão
SABE, quando você tem doze anos, você espera que sua vida siga um ritmo como ir à escola, sair com a família, jogar videogames, ler livros, jogar bola... essas coisas. Mas acredite, nem todo mundo vive assim.
Meu nome é Erick, Erick Griffin. Sou de uma família normal e não muito rica do Rio Grande do Sul. Moro em Porto Alegre em um apartamento pequeno com minha mãe. Pai? Assunto complicado, minha mãe sempre diz que ele nos abandonou quando eu era pequeno o que me faz sentir muita, muita raiva dele. Tios? Avós? Amigos? Bem meus tios (por parte de mãe, nunca conheci os parentes do meu pai, minha mãe disse que ele era filho único e que seus pais haviam morrido) não gostam de mim. Eu e minha mãe somos o lado pobre da família. Minha avó é legal comigo (a única) e com minha mãe, ela está sempre querendo ajudar, mas minha mãe nunca aceita, ela sempre diz que é melhor assim como vivemos.
Como vivemos? Bem, levamos uma vida normal. Minha mãe trabalha em uma pastelaria como garçonete, o salário não é bom, mas é o suficiente para nos sustentar e pagar as contas da casa. Levamos a vida numa rotina. Levantamos juntos, ela vai para o trabalho e eu para escola, chegando na escola eu estudo e depois almoço e então volto para casa. Enquanto minha mãe não chega eu dou uma arrumada na casa (o que não demora muito já que só tem quatro peças: meu quarto, quarto da minha mãe, banheiro e a cozinha e a sala são juntas) depois olho TV, ou leio um pouco os livros que ganho da vovó (livros de historias antigas, a maioria sobre mitos).
Minha vida “mais ou menos” começou a mudar naquela noite de terça-feira. O dia seguinte ia ser o ultimo dia de aula na A.P.P.A (quer dizer Escola Preparatória Para Adolescentes), que eu chamo de A.P.P.D (Escola Preparatória Para Delinquentes), por que é só isso que você encontra lá. Estava lendo um livro que vovó me deu antes de dormir, o livro se chamava contos antigos e eu estava na parte de mitologia grega. Nessa parte explicava um pouco sobre os deuses que dominavam o Olimpo e tal. Já tinha decorado isso, mas continuava lendo porque achava interessante.
– Erick – minha mãe me disse entrando no meu quarto. Seus cabelos loiros escuros na altura do ombro um pouco emaranhados, olhos azuis, com sua camiseta da pastelaria (compre o de frango e ganhe o de carne, escrito ao centro e com pasteis por toda ela), calça jeans e de chinelo de dedos. – Está na hora de ir dormir. Amanhã temos um longo dia em.
O que eu mais gostava em minha mãe é que mesmo com as coisas indo mal, ela nunca desanimava, sempre com um sorriso no rosto e me animando. Esse mês ela teve dificuldade com as contas da casa, então eu fui fazer um “bico” no mercadinho da esquina. O dono é legal, conhece a gente, então às vezes quando precisamos, ele me deixa ficar de empacotador e me dá uns trocados. Não é muita coisa, mas já ajuda.
– Não estou com sono mãe.
– Deite, você vai ver, vai ficar com sono logo.
Não contrariei. Escovei os dentes, abracei minha mãe e fui dormir. Demorei um pouco para pegar no sono, mas quando dormi tive um sonho estranho.
Estava de pé em uma sala com muitas armaduras antigas (gregas ou romanas, tem figuras assim nos livros da vovó), espadas, escudos de diferentes tamanhos. Alguns escudos eram quadrados de madeira com desenhos de águias, espadas cruzadas e fogo. Outros eram redondos de bronze ou couro com desenhos abstratos.
No fim da sala estava um homem sentado em uma cadeira. Cabelos curtos, como os de um militar, pretos, olhos castanhos claros, pele clara, e uma leve barba mal aparada. Usava roupas semelhantes às de acampar, uma camiseta preta, calça jeans e botas. Ele sorria com o canto da boca para mim.
– Olá irmão? Como vai? – ele perguntou. Apenas depois que ele falou que percebi a lança enorme em suas mãos. Sua voz era um tanto rouca e suave
– Desculpe, acho que você se enganou, eu sou filho único.
Depois que eu disse isso fui perceber o quão estúpido e ignorante isso soava.
– Até onde eu sei – me corrigi, afinal meu pai não me mandou noticias, mas acho que aquele cara tinha idade para ser meu pai, aparentava ter seus o que? Vinte e sete, vinte e oito anos? Teria que ter sido pai bem cedo, admito.
Ele riu, seus dentes eram brancos como a neve e seu sorriso tranquilizador.
– Você tem mais irmãos do que pensa.
– Serio? Tipo, quantos?
– Não sei ao certo, mas mais de cinco. Seu pai tem muitos filhos.
Comecei a pensar quantos anos meu pai tinha. Eu sempre o imaginava como minha mãe o descrevia, bem parecido comigo (cabelos loiros, olhos azuis cor do céu lá com seus vinte e sete anos quando me abandonou, mas pelo jeito havia algum engano nessa historia...)
– Eu sou Erick. – disse estendendo a mão para o homem, ele apertou respondendo:
– Me chamo Marte. Sabe por que eu te trouxe aqui Erick?
Estava tão ocupado pensando na idade de meu pai que não havia percebido que estava longe de casa sozinho com um cara esquisito. Por mais que eu quisesse, eu não conseguia sentir medo dele.
– Não. Por que me trouxe aqui?
– Você vai encarar muitos desafios criança. Você tem um futuro nebuloso e com muitos perigos. Seu futuro porem é importante, muito importante, para ser sincero, queria que um de meus filhos ocupasse seu lugar.
Fala serio, o cara estava pirado. Futuro nebuloso, futuro importante (filhos? caramba era tio e nem sabia).
– Como é que é?
– Você enfrentará muitos monstros garoto. E temo que a força do nosso pai não sege o suficiente para te proteger até os dezesseis anos.
– O que quer dizer, eu vou morrer?
– Espero que não herói, você é importante. Você ainda não sabe do que é capaz. Enfim, eu te trouxe aqui para te ensinar a lutar.
– Ensinar a lutar?
Ele assentiu.
– Você precisará de toda a ajuda que conseguir, pois seus inimigos são muito poderosos. Venha, pegue uma espada, vamos treinar um pouco.
Ele saiu e eu o acompanhei. Ele me deu uma espada, pesada para burro, e depois procurava o escudo certo em meio a vários na mesa. Ela analisava cada um cuidadosamente, como se estivesse procurando o perfeito na grande mesa no meio da sala. Ele pegou um escudo na mão. Era redondo de bronze e liso, apenas com um grande Alfa circulado no meio.
– Um presente – ele anunciou – as imagens de suas aventuras ficarão gravadas conforme elas forem acontecendo.
– Minhas... aventuras?
– Sim, você vivenciará muitas. E precisará estar pronto para elas, por isso vim treinar você.
– Como posso confiar em você?
– Vai ter que confiar maninho. Se não tiver minha ajuda, dificilmente vai conseguir outro deu... outra pessoa para te ajudar.
– Quando... hã, vai começar minhas aventuras?
– Temo que esta semana rapaz.
Ele se virou para mim e pude ver sua lança com clareza. Sua lança era feita de couro no cabo e tinha uma faixa vermelha enrolada em espiral por todo o comprimento que resultava em cerca de um metro e largura de vinte e cinco cm. A ponta era sombria. Tinha forma de um bico de um de foguete porem um tanto afiada. Ali, perto da ponta, havia o desenho de um javali de olhos vermelhos.
De repente sua lança começou a se transformar até virar uma espada parecida com a minha. Ele me atacou, e eu levei um corte no braço.
Ele sorriu.
– Viu porque precisa de minha ajuda?
– Escute – eu disse tocando o ferimento – eu queria saber mais sobre o nosso pai.
O sorriso desapareceu de seu rosto. Ele ficou com a expressão fria e seria. Ele acariciou a lamina da espada e desviou o olhar para o chão. Ele pareceu pensar um pouco sobre assunto.
– Vamos fazer um acordo, se você colaborar e se sair bem hoje, eu te conto alguma coisa sobre nosso pai, tudo bem?
– Está bem, mas, se eu sobreviver a você, posso saber tudo sobre ele?
– Ainda é cedo garoto, cedo demais, mas te concederei uma pergunta.
Fiquei pensando em qual pergunta eu faria. Quem ele é? Não, muito estranho, e ele podia me responder comé uma pessoa. Onde ele mora? Não iria visitar ele mesmo. O que ele faz? É... podia ser, eu nunca soube nada sobre a profissão do meu pai.
– Pronto para começar? – ele disse com a espada em mãos. Os aspectos eram idênticos aos da lança só que menores (o desenho do javali continuava na lamina da espada, o cabo de couro, e a faixa vermelha enrolada no cabo) – Temos muito trabalho.
Eu assenti. Ele veio para cima de mim, eu desviei (para o lado errado) e ele me acertou no ombro direito.
– Você precisa olhar alem do que vê em uma luta.
– Como assim? – estava espantado, eu estava com dois cortes, mas eles sequer doíam. Eles não sangravam, não ardiam, era como se eu não estivesse ferido. Olhei para meu braço e dei um pulo para traz, pois o machucado estava cicatrizando, só havia um leve resquício do ferimento que já estava sumindo. – Eu não... me machuquei.
– Você não se machuca a menos que eu queira. Mas como eu dizia, você tem que ver alem da luta. Você nasceu com um dom para lutar, mas não é o suficiente sem treinamento. Você já se sentiu como se às vezes não conseguisse ficar parado alguma vez? Ou como se tudo estivesse passando mais devagar e você não estivesse no mesmo ritmo que todos?
Eu assenti. Senti isso muitas vezes. Parecia que tudo era devagar e que isso me angustiava, o tempo não se alterava, mas eu parecia a mil por hora.
– Então, esses são seus instintos. Você tem isso por que é um modo de se manter vivo em uma guerra. Se você conseguir usar esse seu “poder” você pode lutar melhor. Tente.
– Como faço isso?
– Concentre-se, defenda-se. Você é capaz de se defender.
Ele veio me atacar, tentei me concentrar e consegui. Por uma fração de segundo eu consegui ver o seu próximo movimento. Quero dizer, não ver claramente, mas o seu movimento para a direita. Coloquei o escudo na frente, ele trocou de lado e eu bloqueei novamente e o golpeei tão rapidamente em seu braço que ele não pôde desviar. O mais estranho é que minha espada sequer o feriu. Foi como se eu batesse com ferro em ferro.
Me afastei de olhos arregalados e boquiaberto. Ele parecia normal (tirando o fato de ser completamente misterioso, vim me visitar do nada dizendo que é meu irmão e saber lutar como um profissional falando das minhas aventuras futuras) não de ferro.
– Eu não machuco você e você não me machuca, justo?
Assenti, mas anda assim achei estranho.
– Tudo bem, mas – tentei procurar a palavra certa – você é de ferro?
– Fico vulnerável quando quero. Vamos continuar o treinamento irmão, daqui a pouco você vai acordar e...
Caramba, me distraí tanto com os assuntos, lutas e tal que nem percebi que estava sonhando. Agora tudo fazia sentido, um louco que lutava, falava coisas sem sentido, de certo eu estava misturando com os livros que li antes de dormir.
– Isso é real ou é um sonho? – perguntei
– Você está sonhando, mas é real.
– Ah, claro – murmurei – ótimo, entendi tudo agora.
Ele atacou de novo, mais rápido desta vez, mas me concentrei e desviei novamente, e o ataquei, ele desviou facilmente dizendo:
– Não está com a espada certa garoto, quando estiver vai ser melhor.
Ele continuou me ensinando táticas de guerra por horas, como onde posicionar o escudo no inicio da luta, ataques novos, como desarmar oponentes, os pontos em que se deve golpear quando estiver lutando para desmaiar, paralisar instantaneamente e até matar.
***
Ele se sentou, não parecia cansado ao contrario de mim que estava encharcado de suor, exausto, com as pernas bambas, as mãos tremulas, e a cabeça girando. Ele me mostrou outra cadeira ao seu lado e eu sentei largando o escudo e a espada no chão e me avançando na garrafa da água que ele me deu.
Houve uns minutos de silencio enquanto apreciava o campo e as armas e olhava minha perna arranhada que ainda não havia cicatrizado.
– Então, – eu disse enfim – como me saí?
– Para um primeiro dia bem, muito bem. Vou treina-lo todas as noites que eu puder.
Aquilo não foi uma pergunta, mas respondi assim mesmo.
– Por mim tudo bem, até que foi legal. Bem, já que você disse que eu fui bem...
– Estava esquecendo de uma coisa – ele disse rapidamente com intenção clara de me interromper – esse escudo, seja lá como você vai chama-lo, ele é seu.
– Meu? Mas tipo, como eu vou andar pela casa ou pela rua com um negocio deste tamanho?
– Deseje, deseje que ele encolha.
– Como assim? Ele vai encolher?
– Erick me diga, você tem relógio?
– Não, mas...
– Gostaria de ter? Um modelo barato não muito chamativo.
– É... ta
– Então, pegue o escudo – eu obedeci – Você está vendo este símbolo no centro dele?
Assenti
– O Alfa? A primeira letra do alfabeto grego.
– Sim, muito bem, encoste sua mão nela e imagine um relógio, simples.
Fiz o que ele me falou, imaginei um relógio normal que vi na vitrine de uma loja não devia custar mais de vinte reais e o escudo magicamente se transformou nele. Fiquei surpreso, mas não muito (afinal era sonho mesmo).
– E como faço para ele virar escudo de novo?
– Coloque os dedos sobre os botões de Alfa e deseje que ele vire.
– Simples assim?
– Simples assim. Que horas são?
– Seis horas da manhã.
– Está na minha hora irmão. Tchau Erick, nos veremos amanhã à noite em seus sonhos. Vê se dorme cedo para podermos ter mais tempo.
– Tchau Marte.
– Treine e ganhe a guerra!
Um trovão rugiu nos céus, um raio caiu perto de nós, a imagem de Marte desapareceu de vez e eu acordei assustado na minha cama. Foi um sonho, pensei, então olhei minha perna e ela ainda estava cicatrizando.
Quase caí da cama, o ferimento ia se fechando lentamente até cicatrizar por completo. Foi um sonho, comecei a repetir para mim mesmo tentando me convencer. Olhei minha mão, nela estava um relógio barato igual ao que vi no sonho. Não, isso não foi sonho, foi real.
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