Os Poderes Perdidos

8 Capítulo 8: Conheço meu pai


EU ANDAVA acostumado com pesadelos ou visões ultimamente, então nada do que vi quando estava desmaiado me abalou muito.

Apareci em um campo, estava de noite, a lua cheia brilhando no céu escuro com poucas estrelas, o vento frio passava como navalha pelas minhas costas. Estava em frente a uma floresta com poucas arvores e um homem escorado em um muro afiando a lamina da espada contra a parede. Sua imagem estava tremula e eu não o via com clareza por causa da escuridão.

– Ah, Erick! Que bom que você veio! – a voz era conhecida, era a voz de Marte.

– Marte! – eu me afastei, o que andei vendo sobre ele ultimamente era perturbador. – Eu... eu não sei como vim, na verdade você veio.

– Cara, quem está com você é muito poderoso – ele dizia atropelando as palavras, ele parecia descontrolado, fiquei com medo de ele perder o controle como fez no Olimpo e me matar –, foi muito difícil para mim quebrar as barreiras para falar com você.

– Ei, mas você é Ares, o deus da guerra, como pode ser difícil?

– Quem está com você é mais poderoso até que eu, irmão.

– Se você é Ares e é meu irmão, então quer dizer que eu sou filho...

– Sim – a imagem dele desapareceu por uns dois segundos e depois reapareceu atrás de mim – Você é um semideus. Por isso está aí, por isso todos estão. Eu não tenho muito tempo, escute, tome cuidado com o traidor.

– Você sabe quem é? Pode me dizer?

– Eu não sei, essa barreira de poderes me impede de ver, mas mesmo que eu soubesse não poderia dizer, estou proibido de interferir em seu futuro irmão. Uma coisa, não confie na cria de Atena, ela pode querer me prejudicar através de você.

Ele desapareceu como uma imagem holográfica, o comentário final dele me lembrou do dia terrível que eu passei. A morte de uma amiga, o ferimento de outros. Em quem eu poderia confiar agora? Marte, ou Ares, não poderia mais me ver, Selina havia morrido, Pedro... não sei, mas ele não parece um cara bom para dar conselhos.

Quanto ao fato de eu ser semideus, acho que no fundo eu já sabia, quero dizer, isso explicava o que eu fiz com a bandeira, com a espada e com a placa de metal, explicava o fato de minha mãe dizer que meu pai nos abandonou, explicava o fato de Marte dizer que nosso pai cuidava do mundo e explicava o fato da minha família não me querer por perto, afinal eu devia ser um ima de monstros ambulante quando não estava sob a proteção de Marte.

Fiquei por mais uns dois minutos escorado na arvore pensando em tudo, depois apareci no Olimpo novamente. O lugar magnífico era aconchegante, o vento passava levemente por mim, o ar da noite estava bom e o céu minado de estrelas com uma meia-lua no canto. Todos os deuses estavam reunidos cada um em seu trono, e haviam colocado uma cadeira de madeira preta e velha no canto da direita.

Zeus, meu pai (pai de Ares na mitologia então é meu pai também. Como é deus do ar, explica como movi a bandeira, a espada e a placa de metal apenas com a mente), se levantou. Ele vestia a mesma túnica branca, uma coroa de louros na cabeça e um raio majestoso nas mãos.

– Que comece a votação! – ele berrou. Eu senti raiva, muita raiva. Minha opinião sobre ele não havia mudado porque ele é um deus, para mim ele continua sendo um canalha, sem compromisso e cafajeste. Só que agora ele é um deus canalha, sem compromisso e cafajeste. – Todos sabem que estamos aqui para votar sobre a proposta de Atena. Ela sugere que, para evitar a profecia, os três grandes se desfaçam temporariamente de seus poderes. Vamos começar a votação, deve ser dito se vota contra ou a favor e porque.

Aquilo me lembrou um paredão do big brother, vota em quem e porque.

– Hades, o trouxemos aqui porque o assunto se trata principalmente de mim você e Poseidon. Diga seu voto.

Hades se levantou. Usava roupas vermelho sangue, sandálias, uma coroa negra como a escuridão e um cinto de caveira.

– Zeus, meu irmão, meu voto é contra. Acho que esta não é a melhor maneira de evitar uma guerra. Se a interpretação da profecia estiver errada e a guerra acontecer de outros meios, como poderemos nos defender dos ataques inimigos?

O Olimpo ficou em silencio, todos pareciam pensar a respeito. A voz de Hades saiu tão suave e convincente que todos os deuses e deusas pensaram na ideia.

– Poseidon – Zeus disse enfim –, vote

– Concordo com o nosso irmão, creio que a profecia pode estar sendo interpretada errada.

Os votos foram seguindo, alguns contra e outros a favor. Marte votou contra, acho que para contrariar Atena, porque ele parecia sem opinião sobre o assunto. Estava empatado quando chegou na vez de meu pai. Ele franziu as sobrancelhas, mordeu o lábio e pensou por alguns instantes, ele encarou o mundo lá fora como se o imaginasse sendo um cenário de guerra.

– Eu voto a favor da proposta. – ele disse enfim, houve revoltas, alguns deuses quiseram se levantar mas ele bateu com o raio no chão e todos ficaram quietos – A profecia é muito perigosa, estamos falando de uma segunda titanomaquia, lamento que a prevenção seja por medidas drásticas, mas é uma situação de emergência.

– Como vamos nos desfazer dos poderes? – indagou Poseidon – Não podemos joga-los fora.

– Pensei em uma forma – Atena disse – de aprisionar os poderes, em uma forma simples e deixa-los no mundo mortal, em algum lugar que eles não os encontrem.

– Se deixarmos no mundo mortal eles vão ser roubados.

– Esconda eles em algum lugar mágico ou os proteja de algum modo. Coloque um guardião, um monstro que nenhum mortal seja capaz de derrotar.

– É, de fato, – meu pai disse – uma boa ideia, esconder em ilhas mágicas e colocar guardiões para ninguém jamais possa pegá-lo. Vamos aprisionar nossos poderes em pedras e guarda-los bem, onde ninguém possa pegá-los. O juramento.

– Repitam – Atena disse

– Eu juro pelo rio Estige – os três falaram juntos (o rio Estige é poderoso, se você faz um juramento em nome dele, não pode quebra-lo)

– Aprisionar meus poderes – Atena dizia e eles repetiam – em formas simples, juro que só o resgatarei depois de 100 anos, juro que nunca ousarei pegar os poderes de meus irmãos.

Um relâmpago rugiu nos céus. Uma luz começou a sair dos três irmãos, uma luz azul de Poseidon, uma luz vermelha de Hades e uma luz azul céu de Zeus. Em frente aos deuses os quatro cristais flutuavam, idênticos aos que vi no dia que cheguei ao estranho acampamento.

– A partir de agora – Zeus anunciou – os poderes estarão escondidos e aprisionados, a profecia deve ser evitada por estes cem anos.

Houve uns sorrisos, uns protestos, mas Zeus bateu seu raio mais uma vez no chão, pediu silencio e dispensou os outros deuses.

Acordei com dor de cabeça na ala hospitalar do acampamento que andava ficando nos últimos dias. Bruno estava ao meu lado me olhando firme com os olhos cinzas chumbo. Quando acordei me peguei gemendo comida.

– Aí, Erick! – ele bufou como se fosse um alivio me ver acordado – Cara, eu achei que você não fosse mais acordar.

– Por quanto tempo eu...?

– A dois dias. Você estava meio que vegetativo, comia pouco, mas não acordava nem nada do tipo.

– E o Minotauro? Ele morreu? E o cristal?

– Ele está morto, o cristal estava em um de seus... cascos de touro. Você o matou! – ele me deu alguma coisa enrolada em um pano, desenrolei e era a ponta do chifre do monstro – A ponta do chifre, difícil de cortar. Deve ficar com você, você lutou muito bem naquele dia.

– Bem, eu o acertei no peito.

– No coração Erick. O coração é o lugar mais difícil de se acertar em uma luta, ele está sempre protegido. Depois que você apagou, ele se dissolveu em fumaça.

– E... – eu titubeei, era difícil para mim falar em morte – E Selina, ela...?

– Com o tempo temos que aprender a superar a perda de alguns amigos. – ele disse colocando a mão em meu ombro. Eu estava confuso, triste, culpado, mas não sabia direito o que fazer. – Mas felizmente não perdemos alguns amigos.

Ele puxou a cortina que dividia a minha cama a da do lado e lá estava Selina com o braço enfaixado, camiseta vermelha, calças jeans, cabelos presos em uma trança, sentada, olhando os remédios.

– Não vou te dar esse gostinho tão cedo, cabeça de vento! – ela disse sorrindo.

– Mas como você...? Ah, você... você está viva!

– Pois é, eu meio que nasci de novo a dois dias. Caí nas pedras que estavam cobertas de areia, talvez por isso não tenha morrido. Mas eu é que não vou reclamar!

– Puxa eu achei que você tinha morrido.

– Eu vou chamar o Aron e dizer para ele que você acordou – Bruno disse – Selina, da o remédio para ele.

Ela assentiu, pegou um vidro escrito: revigorante Medeia, anima até morto-vivo!

– Eu já disse que odeio esses negócios da Medeia? Ei, eu não preciso tomar isso, preciso?

– Na verdade sim, mas não parece bom. – ela serviu um copo da água e me deu o comprimido verde que cheirava a hortelã com melancia podre – É melhor você beber.

Relutantemente eu bebi, o gosto era de mais ou menos de melancia podre. Aquilo desceu queimando na minha garganta, quis vomitar mas não consegui.

– Tem gosto de que? – Selina perguntou com uma careta

– Melancia podre

– Já comeu melancia podre?

– Não, mas é esse o gosto.

Selina olhou para o chifre do Minotauro em cima da minha cama, pegou ele na mão com cuidado e depois o largou de novo em cima da cama.

– Fiquei sabendo que você matou o monstro.

– É, mais ou menos.

– Solte ela, quando eu estava a 4 metros do chão foi o máximo que você pôde pensar?

– Ah, você poderia ter dito obrigado por me salvar.

– E então – ela olhou em volta para ter certeza de que estávamos sozinhos – você sonhou mais alguma coisa? Quero dizer, deve ter sido bastante, afinal dois dias dormindo.

Fiquei meio com medo. O traidor não havia se revelado e eu sequer tinha algum palpite sobre ele. Não confie na cria de Atena, Marte dissera, mas Selina era minha única amiga naquele lugar, se alguém ali pudesse escapar ou liberar todo o mundo, esse alguém era ela. Quando ia começar a contar Aron entrou na sala com cara de preocupação. Os cabelos pretos emaranhados e a barbicha para o lado, os olhos escuros estavam apreensivos e ele olhava para mim fixamente.

– Garoto, achei que você não ia mais acordar. Que bom que está vivo, vamos jantar. A comida está servida, adolescentes chatos!

Saímos e fomos para o templo meio-destruído. A comida estava boa, eu não estava com muita fome e ainda pensava em meus sonhos. Se aquilo realmente fosse real, talvez os cristais não fossem apenas poderes dos elementos, talvez possa ser os poderes dos deuses. E Marte, o jeito como ele agiu no Olimpo, parecia sanguinário e violento, talvez aquele fosse o jeito normal dele e ele fingia para mim. E ainda tinha o traidor, eu não o vi nestes dias que passei desmaiado, mas creio que ele continue agindo e eu precisava desmascará-lo rápido antes que fosse tarde demais e eu estivesse morto. Pensei em Selina, como ela podia ter sobrevivido? Talvez ela fosse a traidora, talvez ela tenha usado o elmo da escuridão para escapar, ou pelo fato de ser filha de Hades ela não morresse. Mas Hades é o deus dos mortos, não explica o fato de ela controlar as arvores. Pedro, arqueiro, não estava na hora da bandeira, eu contei a ele sobre os sonhos, parecia o mais apavorado de todos, talvez fosse esta a jogada dele, parecer o bobo, o por fora, tentou incriminar Selina...

Era dia nosso de lavar a louça, mas Aron dispensou a mim e a Selina porque ela estava com o braço quebrado e eu estava com tonturas e estava realmente fraco, então Pedro e os azuis foram lavar a louça e nós e os outros fomos dispensados para fazermos o que quiséssemos. Era umas nove horas da noite, a noite estava refrescante, a lua crescente no centro do céu, as estrelas brilhando intensamente na escuridão da floresta.

Selina estava ao meu lado, estávamos indo para a cabana, não havíamos conversado durante o jantar, apenas ficamos conversando com Pedro e Bruno que ficaram falando de que Aron tropeçou no próprio casco enquanto nós estávamos desmaiados. Chegamos na cabana, estava mais frio lá dentro. Eu sentei no beliche, a parte de baixo do de Pedro onde eu andava dormindo nos últimos dias. Ficamos em silencio, Selina olhava inquietamente para sua miniatura de coruja como se tentasse decifrar algum código no objeto.

– Presente de Atena? – eu perguntei quebrando o silencio – A coruja, é presente de Atena?

Ela me fitou como se eu fosse mais um enigma que ela quisesse desvendar mas não conseguisse, depois assentiu devagar e voltou a olhar para a coruja.

– Presente de Ares? O escudo.

Aquilo soou mais como um afirmação, como se ela soubesse a muito tempo. Ela parecia estar mudada, diferente, fisicamente não, mas alguma coisa a incomodava profundamente.

– O que foi? – eu perguntei – No que está pensando?

– Eu... eu não entendo, não entendo o que estou fazendo aqui.

– Você é filha de Atena...

– Filha não! Atena não tem filhos, ela caracterizada por ter se comprometido a nunca se casar.

– Ta e essa marca em seu braço?

– Ela fez comigo o que Ares fez com você. Eu sou inteligente sim, mas não entendo porque me querem aqui, eles tem os planos, eu não tenho função específica aqui, e minhas visões foram bloqueadas.

– Você quer dizer que você não sonha mais?

Ela fez que não com a cabeça. Ela me disse isso em um tom confiante, mas me pareceu que não era só isso que a incomodava, havia mais alguma coisa.

– Estão com a sua mãe? – perguntei um pouco sem graça, quer dizer, eu não gosto muito de falar em família.

– Não, minha mãe... estão com meu pai, ele está preso e eu.... eu não sei se vou conseguir salvá-lo. Há alguns anos antes quando... – ela se interrompeu como se aquilo fosse uma má lembrança – Você continua sonhando?

Assenti, contei os meus últimos sonhos tirando a visita de Ma... de Ares. Ela me olhava apreensivamente enquanto eu contava sobre a proposta de Atena. Ela disse para eu pular os detalhes do Olimpo, talvez ela já soubesse? Talvez ela já tivesse sonhado com isso, não sei. Terminei de contar, ela pensou um pouco, como se pensasse se falava alguma coisa ou não.

– Você sabe, não é? — ela perguntou

– Sim, por isso estou aqui.

– Você é raro, na verdade nós dois somos.

– Por que?

– Bem, é difícil de se achar algum mestiço que tenha a benção de um deus, nós dois temos. E ainda, você é filho de Zeus, por isso está aqui... – ela arregalou os olhos e abriu a boca – Oh céus! Como pude ser tão burra!

– O que foi?

Ela se levantou e começou a andar na cabana de um lado para o outro. Falava algumas coisas em grego que entendi como: como não percebi isso antes? ou o pacto de edifício.

– O que é o pacto de edifício?

– Sacrifício, pacto de sacrifício. O que me contou, o pacto que fizeram sobre os poderes.

– Eu ainda não entendi

– Os deuses não podem pegar os poderes uns dos outros, é um juramento antigo para prevenir rebeliões entre eles...

– E Hades quer estes poderes... — continuei

– Mas não consegue pegar

– Então ele raptou treinadores e semideuses para enfrentar os guardiões e pegar os poderes — comecei a entender

– Porque se a gente pegar os cristais eles vão passar a ser nossos...

– E de nós ele pode roubar os cristais!

– Mas ele teme a gente de algum modo. — ela franziu a sobrancelha

– Ele teme que a gente consiga fugir, que a gente avise ao Olimpo sobre a rebelião.

– Se Hades conseguir os poderes dos quatro elementos...

– Ele será invencível e dominará o Olimpo. — conclui

– Se ele destruir o Olimpo, os deuses cairão. O Olimpo é a fonte de poderes dos deuses.

– Agora tudo se encaixou!

– Mas o traidor ainda me intriga, eu tenho meus palpites, pelo que vi ultimamente. — ela disse

– O que você viu?

– Venha, tem uma arvore que viu algumas coisas aqui, não sei a quanto tempo atrás, mas está ligado ao traidor.

Nós saímos e fomos até perto de uma arvore que dava para o campo de batalha. Era apenas nós ali, não havia mais ninguém fora da cabana, estava um tanto escuro tirando a iluminação da fogueira que ficava no meio do acampamento. Selina respirou fundo, segurou minha mão e encostou na arvore. Apareci em um tipo de acampamento de verão acho. Muitas crianças brincando de pega-pega, esconde-esconde, jogando basquete, futebol, vôlei. Ninguém parecia me notar, eu falava mas ninguém escutava. Caminhei até perto de dois meninos que lutavam com espadinhas de madeira, lembrei de mim e de meu primo brincando no sitio, mas eles pareciam profissionais. Estavam com elmos então eu não podia ver seus rostos.

Um dos garotos desarmou o outro.

– Ei irmão, você piorou um pouco nos últimos dias – o que desarmou o outro disse, sua voz saiu equalizada embora fosse uma criança, como se tivessem tentado esconder as lembranças.

– Acho que você que melhorou. – a voz do outro era clara, de uma criança de uns treze anos por aí

A visão ficou turva. Não conseguia ver claramente como se uma nevoa me impedisse de enxergar. A imagem começou a se afastar mas voltou de novo mais claramente. Tive a impressão que o tempo passou na visão, o mesmo garoto estava lá, mas mais velho um pouco. Eu não pude ouvir com clareza o que dizia, mas era algo como: você só pode estar brincando. A imagem avançou novamente. O lugar estava em chamas, cabanas sendo destruídas por ogros, ciclopes perseguindo jovens em armaduras gregas, um lindo templo sendo esmagado por touros de bronze gigantes. Os jovens tentavam lutar, gritavam desesperadamente mas continuavam se machucando, o menino que vi de cabelos pretos estava em uma luta contra outro garoto, o mesmo de antes, mas desta vez parecia ser real.

As espadas eram reais, de titânio primordial, e eles tentavam se atingir em locais mortais como pescoço, barriga, no coração e tal. A imagem começou a escurecer novamente, a se dissolver, mas voltou de novo com mais força. Os garotos brigavam para valer, estavam quase se matando de verdade.

– Como você pode ter nos traído deste jeito? – berrou o garoto de olhos verdes

– Você não entende? Você se contenta com migalhas! Você se contenta com eles te maltratando e te humilhando! Como você pode aguentar isso? — retrucou o outro que estava com elmo e de costas.

A voz do segundo garoto ainda era equalizada. A visão começou a ficar mais fraca bem na hora que o traidor ia tirar o elmo. Senti que a visão estava tentando voltar, mas se dissolveu e eu voltei ao mundo real. Selina soltou da arvore e ficou completamente mole. Eu continuava tonto, mas não havia ficado tão mal quanto ela por ter essa visão, ela caiu por cima de mim e consegui me manter de pé e segurá-la.

– As lembranças... – ela resmungou tentando levantar a cabeça, mas não conseguiu – Elas foram apagadas, tentaram apaga-las, é difícil quebrar as barreiras, é difícil forçar as arvores a me mostrarem. Quem bloqueou as lembranças é muito poderoso e muito forte.

Ela se equilibrou em mim e fomos novamente para a cabana. Uma coisa eu consegui saber: o traidor esteve aqui antes, aqui era um acampamento feliz, mas o traidor o devastou e o destruiu. E, de alguma maneira, ele sabia que tentaríamos descobrir.