Os Poderes Perdidos

4 Capítulo 4: Apanho para uma garotinha


EU ESTAVA abalado e não parecia o único, acho que todos viram o que eu vi desta vez. Estávamos todos espantados e pálidos e nós não sabíamos o que dizer até Quíron começar.

– Eu estou aqui a muito tempo, treino jovens e mais jovens para a captura dos poderes e sempre tenho que fazer isso de novo...

– Sabem por que? – interrompeu Aron – Porque todos eles morrem! Eles nunca voltam vivos! E vocês não vão ter um destino diferente, adolescentes fracos!

– E o que acontece com a família de quem morreu? – eu perguntei

– Morrem junto! – disse Aron impaciente como se isso fosse obvio – Eu não aguento mais treinar crianças!

– Aron, acalme-se. – disse Quíron

Eles já estão aí? Ah sim, vejo que estão. Disse uma voz na minha cabeça, uma voz conhecida... a voz do homem do meu sonho, o que conversava com o filho. Vocês serão classificados em equipes conforme a cabana em que estavam, as da direita são um e dois, as da esquerda três e quatro. Falta alguma coisa? Ah sim, Aron cuida da um e dois e Quíron da três e quatro. Que maravilha ia ter que aguentar Aron. Minha cabana era a dois então ia ter que aguenta-lo.

Quíron fez um sinal para nos dividirmos e vi que não era só eu que tinha ouvido isso, todo mundo tinha escutado. Nos separamos, cada qual para o lado correspondente do instrutor.

Que comece o treinamento. Vocês vão sair amanhã, vão trazer o cristal da terra a mim e veremos como vão se sair. Aron olhou para nós com desprezo, depois disse:

– Alguém ai sabe lutar?

Eu e a menina do beliche (preciso aprender o nome dela, “menina do beliche” fica estranho) levantamos a mão.

– Sabem manusear uma espada?

Assentimos e ele pareceu surpreso. Ele nos levou até um canto da floresta onde havia uns escudos e umas espadas. Na hora me lembrei de Alfa, olhei meu pulso e estava sem relógio. Havia perdido ele talvez, ou tivessem me confiscado. Apalpei o bolso da calça e tinha um volume lá, peguei e era Alfa, ainda bem. Coloquei ele no pulso sem Aron e a garota ver e depois os segui até a mesa com os escudos e espadas.

– Mostrem – disse Aron.

– O que? – eu perguntei, por um momento achei que ele estava falando de Alfa, mas como falou no plural...

– Falaram que sabiam lutar, mostrem. Provem, lutem. – ele murmurou alguma coisa como crianças burras.

Eu e ela trocamos olhares que diziam ele é louco. A menina se dirigiu até a mesa com as espadas e notou uma diferente das outras. A espada era de aço ou prata não sei, era brilhosa, tinha alguma coisa escrita mas não consegui ler. Entre seu cabo e sua lamina tinha três laminas pequenas, ao final da terceira um desenho de uma águia se formava (a primeira e a segunda eram as asas e a terceira formava a cauda). Seu cabo era de couro com tiras de prata e na ponta do cabo havia dois raios desenhados como pequenas estatuetas.

– Se eu fosse você não tentaria essa aí menina. – Aron advertiu – Muitos já tentaram e todos sempre se decepcionaram.

– Como assim? – ela perguntou

– Tente levantá-la e verá. Ninguém conseguiu em cinco anos...

– Você está aqui a cinco anos? – indaguei surpreso. Quando Quíron disse que estavam ali a muito tempo, achei que era uns dois ou três meses mas não cinco anos.

– Sim, e ninguém nunca conseguiu levantá-la ou usá-la. Acho que ela pode estar aqui a espera de alguém em especial. Tente, pode ser você. – ele disse descrente

Ela encostou na espada e recuou ligeiramente segurando a mão que havia tocado o objeto.

– Me queimou!

– Isso sempre acontece. – disse Aron decepcionado – Você menino, tente pegar.

Me aproximei com cuidado e encostei na espada, nada me aconteceu. Levantei ela e era perfeita! Nem leve demais e nem pesada demais como as que tinha no acampamento do Marte. Senti como se ela se conectasse comigo, uma carga elétrica passou de mim para ela e vice e versa.

– Você... conseguiu – ele soltou um rosnado meio parecido com um sorriso o que me deixou surpreso –Isso é um sinal. Bem, vamos lá, pegue uma espada e um escudo, garota. E você, rapaz, trate de arranjar um escudo. Ah, qual os nomes de vocês?

– Erick

– Selina

– Tudo bem, Erick e Selina. Arranjem armas, eu já volto. Vou chamar Quíron.

Ele saiu saltitando em seus cascos imundos floresta afora nos deixando sozinhos. Selina me encarava com o canto do olho enquanto olhava as espadas e parecia esconder alguma coisa.

– Então – eu disse – nenhum desses escudos parecem bons, não acha?

– Os escudos são bons, não gostei das espadas. – ela tirou uma corujinha de prata do bolso – Sei que você tem uma arma, vamos fazer um trato: não conto sobre a sua e você não fala sobre a minha, ok?

– Trato feito.

Transformei Alfa e ela abriu a asa direita da corujinha que se transformou em uma espada de tamanho médio em suas mãos. A espada tinha uma coruja no cabo, na verdade era como se houvesse uma coruja espelhada e era um tanto aterrorizante. Devia ser feita da mesma coisa que a minha, talvez, aço ou prata quem sabe.

– Titânio primordial – ela disse como se estivesse lendo minha mente – é a única lamina mortal para monstros, dizem que pode ferir até mesmo imortais.

– Você já passou por isso antes?

– Não exatamente, já lutei pela minha vida antes, Erick. Mas não temos tempo para isso agora.

Aron saiu da floresta com Quíron. Eles olharam e fizeram sinal para começarmos a lutar. Selina havia dito que já havia lutado por sua vida antes, isso não soava como que ela ia ser um adversário fácil. Ela pegou um escudo da mesa e perguntou se eu estava pronto, assenti e ela me atacou.

Com os poderes que recebi de Marte eu parecia saber tudo, onde ela ia golpear, como bloquear, tudo. Bloqueei seu golpe que teria me atingido no ombro e contrataquei no mesmo lugar. Ela defendeu, sorriu de modo travesso, me atacou e eu defendi de novo, mas não era isso que ela estava fazendo, enquanto defendi o golpe ela me deu uma escudada na barriga e eu caí. Aron e Quíron observavam sem piscar a luta.

Eu me levantei e ataquei, ela defendeu mas eu fui mais rápido desferindo um golpe contra seu braço direito. Ela me chutou e depois me cortou o braço direito também. Começamos a lutar empatados, defendendo todos os golpes até que eu consegui desarma-la e coloquei a espada em seu pescoço. Achei que havia vencido até ela bater em minha espada com o escudo com tanta força que tirou-a de mim e me bateu com o escudo na cabeça.

Ela se virou e correu atrás de sua espada e eu atrás da minha. Quando estava alcançando a minha uma lamina passou de raspão em meu braço e prendeu minha blusa na arvore (ela havia jogado uma espada comum em meu braço). Selina veio caminhando com sua espada em mãos e antes que eu pudesse levantar Alfa para bater ela colocou a espada em meu peito e segurou meu braço.

– Você luta bem Erick, – ela disse – mas é impulsivo e previsível, se tivesse um plano ganharia com certeza.

Aron veio batendo palmas com um enorme sorriso no rosto como se aquilo tivesse salvado seu dia.

– Muito bom! – ele exclamou – Acho que vocês dois tem chance de sobreviver.

– Chance? – eu disse enquanto tirava a espada da blusa – Ah, obrigado, melhorou o dia.

– O que vamos enfrentar? – Selina perguntou

– Não tenho permissão para dizer, mas vocês dois são incríveis! Quem treinou vocês?

Nós dois fizemos silencio, ele pareceu notar algo estranho, então insistiu.

– Quem treinou vocês? Falem.

– Meu irmão – eu disse

– Minha prima – respondeu Selina.

– Vocês não precisam de treinamento. Estão prontos para a batalha, no treinamento a gente ensina muito menos do que vocês sabem. Vocês podem nos ajudar a treinar, ou ajudar a encontrar os cristais ou guardiões.

– Fico com a segunda opção – Selina disse

– Prefiro a primeira – eu disse

– Tudo bem, podem fazer cada um o que quiser. Ou podem fazer os dois as duas coisas.

Ele nos conduziu até a salinha dos beliches e nos entregou papeis, um bolo deles, folhas antigas ou pergaminhos. Aron disse que devíamos organizar e descobrir os guardiões conforme aqueles papeis. Eu odiei, gosto de estar em ação não de ficar parado.

– Fogo, quem pode estar para o fogo? – eu disse

– Um dragão talvez – Selina disse – Não há muitos animais, são só dragão, fênix... acho que é isso.

– Olha aqui, tem uma coisa sobre... línguas de fogo, acho que é isso.

– Deixa eu ver – ela disse pegando o papel – ta escrito, ilhas de fogo.

Olhando de longe parecia que estava escrito em outra língua, as línguas de fogo pareciam mais com Νησιά της φωτιάς. Pisquei e olhei de novo e as letras estranhas ainda estavam lá.

– Que língua é essa? – perguntei espantado – Isso é... latim?

– Grego antigo, – ela respondeu – ilhas de fogo. Separa ali naquele canto o que tiver a ver com fogo.

Alguém bateu na porta. Falamos para entrar e ele entrou. Um menino de cabelos pretos, olhos negros, uma pinta na bochecha, devia ter seus quinze, dezesseis anos mas era de porte atlético. Usava armadura de couro e a espada na bainha.

– Licença – ele disse entrando – é aqui que as pessoas descobrem sobre os guardiões?

– Bem vindo ao clube. – eu disse – Estamos tentando desvendar o fogo primeiro.

– Na verdade não – Selina disse – estamos lendo os pergaminhos e organizando qual é qual. Testamos o fogo por que as opções são poucas.

– Ah, tudo bem, vamos ver se eu sei alguma coisa. Não sou muito inteligente, mas não custa tentar.

– Já sabe lutar? – eu perguntei a ele

– Já, minha família é meio que “bem de vida” – ele fez aspas com os dedos – então eu fazia aulas de esgrima no tempo livre. Talvez por isso que raptaram, talvez queiram resgate. E vocês, também são ricos?

Eu e Selina fizemos que não com a cabeça.

– Eu sou de uma família pobre do sul. Não tenho muito a oferecer – eu disse – o resgate seria baixo. – a não ser que minha avó pagasse, mas não quis entrar em detalhes.

– Eu não tenho muito dinheiro, nada a oferecer a eles. Afinal, nem sei o que querem comigo. – Selina disse – Bom, temos que continuar, temos muito trabalho.

– Tem razão – o rapaz disse – ah, ia me esquecendo, sou Bruno.

– Erick

– Selina

Ele se sentou ao meu lado e começou a analisar os papeis. Ele fez uma cara como se aquilo fosse fácil, muito fácil.

– Aqui, os olhos de pedra, górgonas! – Selina exclamou como se fosse obvio, já havia lido essa muitas vezes mas não associei uma coisa com outra – Como não vi isso antes, pedras, terra, claro!

– Você é bem inteligente – Bruno disse a ela – para a sua idade, muito inteligente. Talvez por isso tenham escolhido você.

Não achei aquilo nada de mais, afinal ela já tinha lutado pela vida, devia saber de algumas coisas.

– Obrigada, ah, olhe aqui o repouso da... – ela pareceu ter dificuldade de ler – coruja?

–É, coruja – eu confirmei – alguma floresta ou coisa assim? Tipo, é lá que as corujas repousam não?

– É – Bruno concordou – mas não deve ser tão assim. A gorgona não estava escrito, tipo, gorgona. Quero dizer a coruja pode ter um sentido figurado, símbolo, código, marca...

– Parthenon! – eu exclamei – A primeira coisa não é gorgona? A Medusa e Atena tiveram um desentendimento e... – me interrompi, Selina me encarava e comecei a pensar que podia ter dito algo errado.

– Você não é tão burro quanto eu pensava Erick. – ela disse – Tem razão, faz sentido.

– Muito obrigado pela parte que me toca.

– Ei, isso foi um elogio!

– Ah claro, você é muito gentil.

– Ah, fala menos e trabalha mais. – ela disse

– Estou trabalhando se você não percebeu. – resmunguei

– Não, eu não percebi

– Ei – Bruno disse – vocês já se conhecem não é? – eu e Selina fizemos que não com a cabeça – Serio, eu achei que se conheciam, vocês parecem que se conhecem e que não são bons amigos...

– Graças aos deuses eu não conheço ele – ela bufou

– Ah, cala a boca.

– Você é tão idiota.

– Você é tão chata.

– Insuportável

– Ah, eu...?

– Chega – disse Bruno calmamente pondo a mão no meu ombro – acalmem-se, não briguem. Temos a Medusa no Parthenon as ilhas de fogo, precisamos de mais dois, os guardiões do ar e água.

Começamos a trabalhar de novo. O motivo da briga era meio besta, mas de algum modo estava com raiva como se a conhecesse e não gostasse. Alguma coisa assim.

Aron abriu a porta com cara de decepção de novo. Ele nos encarou com cara brava e depois tentou aliviar a rispidez na face, mas não funcionou.

– Venham, vamos começar um jogo. Um jogo comum no acampamento... – Aron se interrompeu como se aquela palavra o trouxesse lembranças ruins, ou boas – Ah, acharam alguma coisa?

Nós assentimos.

– Ah, ótimo, anotem e me entreguem a noite no jantar.

– Aron – Bruno disse – Não tem como trocar de equipe? É que eu me familiarizei com eles e minha equipe não é tão...

– Me desculpe garoto, mas não posso desfalcar uma equipe, essa equipe já está espetacular – ele encarou a mim e a Selina – se eu tirar você de sua equipe todos eles vão morrer! Eles não aguentarão sem um líder bom de espada ou inteligente, eles vão fracassar e morrer. Sinto muito amigo, mas não posso desfalcar uma equipe.

– Então vamos salvar vidas – Selina disse se levantando – me troque de equipe, coloque-me em outra, me deixe trocar para as outras.

– Não, trocar duas pessoas é demais, não posso fazer isso, ia dar muita bagunça.

– Eu disse para me trocar, sou uma pessoa, como assim duas?

– O que? Nem pensar, eu preciso de vocês dois trabalhando juntos – ele apontou para mim e eu me levantei

– O que? Não vou trabalhar com ela.

– Isso não é uma opção, é uma ordem! – Aron disse com autoridade – Se eu separar vocês dois não teremos chance, vocês precisam ficar juntos. Venham, vamos jogar a coroa de louros.