Os Poderes Perdidos
3 Capítulo 3: Viro biscoito canino
O QUE EU mais gosto na minha cidade é o transito. Sempre engarrafado, ou com acidentes, ou com greves e coisas do tipo. Eu estava nervoso afinal alguém ia me achar nesse caminho hoje, e ainda tentava assimilar aquilo que aconteceu na noite passada com Marte. Tenho que parar de pensar nisso, isso só me deixa pior.
Comecei então a brincar com Alfa. Olhar os botões, e trocar ele de forma escondido da minha mãe. Comecei a ficar com frio, estava só com a camiseta preta da escola, calça jeans e tênis porque era verão e no sitio geralmente é mais quente do que na cidade. Revirei a mochila procurando um casaco mas não achei, talvez eu tivesse esquecido de colocar roupas de inverno.
– Seu irmão andou te visitando, não foi? – minha mãe indagou como se tivesse certeza disso.
Fiquei sem palavras, ela não sabia dele, eu acho. Quer dizer, ela conhecia o deus da guerra (como Marte se intitulou naquela noite).
– Eu imaginei que ele viria ver você um dia. Mas isso me deixa com medo Erick. Ele sempre te protegeu e disse que ia ajudar, mas estamos bem.
– Você conhece Marte?
Vi o rosto de minha mãe pelo espelho retrovisor do carro e a expressão era de quem é Marte?. Ela pensou um pouco, talvez lembrando da historia, ou lembrando do nome, não sei.
– Marte... – sua voz falhou – Ele sempre te protegeu Erick. Você sabe porque tem uma vida tranquila? Eu lembro quando você comentou sobre aquele senhor de um olho só que te seguiu até parada quando vinha da escola...
– Um ciclope – eu interrompi
– ... Ele poderia ter seguido você para dentro do bairro, ou invadido nossa casa, mas ele não pode porque Marte nos protege. Ele não deixa que os maus entrem para dentro de nosso bairro para proteger você.
– Por isso não visitamos muito a vovó? Porque é arriscado sair.
– Sim, exatamente.
– Mas como Marte pode ter esse poder de proteger o bairro?
– É seu pai. Ele era diferente de todos, Erick. Ele era simpático, formal, ele parecia... poderoso. – minha mãe virou-se ligeiramente para mim e sorriu – Ele era como você...
Eu olhei para frente e tinha um cachorro na frente do carro, o cão era enorme e negro. Seus olhos eram vermelho sangue e ele tinha... três cabeças? Sim.
– Mãe! – eu gritei.
Ela freou o carro o máximo que pôde, mas o carro bateu no cão. A estrada estava deserta, só o nosso carro e o cachorro estranho. Ele vai te achar, Marte dissera. Será que ele estava falando desses cachorros monstros?
Desci do carro olhando Alfa em meu punho. O cachorro estava bem, mas o carro estava amassado na frente. O cachorro de três cabeças é de ferro! Ele olhou para mim e rosnou, voltei correndo para dentro do carro.
– Aqui dentro somos alvos fáceis filho – minha mãe disse. – temos que correr!
Já estávamos perto de uma floresta, perto do sitio da vovó. Olhei pela janela. O cão começou a crescer até ficar com uns quatro metros de altura. Joguei minha mochila nas costas, minha mãe e eu saímos correndo na hora certa, demos dois passos e o Cérbero pegou parte do nosso carro com a boca.
Nos enfiamos no meio das arvores, quis que Marte tivesse me dado uma espada também, assim seria mais fácil de enfrentar um cão gigante de três cabeças. Comecei a seguir uma trilha que dava perto do sitio da minha vó, esperando que o cão não nos achasse.
– Erick, temos que chegar no sitio da sua avó, lá é seguro, temos...
Uma sombra abaixo dos meus pés me fez olhar para cima, um pedaço do nosso carro (grande o suficiente para matar a mim e a minha mãe) estava vindo na nossa direção por cima de nossas cabeças. Gritei para minha mãe se abaixar e ela abaixou, o carro passou por cima da gente e caiu em frente a nossos pés. Corremos para a direita, mas o Cérbero estava na nossa frente. Ativei Alfa e minha mãe ficou surpresa. O cão deu uma patada no meu escudo fazendo três arranhões que logo sumiram.
– Aí do meio – eu gritei – a da direita te chamou de feia.
Por um momento eu acho que as duas cabeças iam brigar, mas a da esquerda puxou a orelha delas e trouxe-as para a realidade. Uma delas me jogou para cima, enquanto eu caía pude ver outra pegando minha mãe pela blusa. Encostei em Alfa, caí no chão e desmaiei.
Geralmente eu não tenho pesadelos, coisa que começou a mudar depois daquele dia... Eu estava em um lugar escuro, rodeado de fogo escuro. Era um belo lugar, admito. Feito de mármore preto no chão com desenhos de morte (é, esses desenhos não eram bonitos) e de tortura que acho melhor eu não descrever, as paredes pareciam ser feitas da mesma coisa mas pareciam se mexer conforme o vento frio escoava na sala. Quatro estatuas de um homem, um homem de cabelos curtos e escuros com barba até um pouco abaixo do queixo, ele usava uma armadura de guerra escura com detalhes de fogo por toda ela, segurava em sua mão uma espada comprida com uma caveira grande no cabo, e em sua outra mão um elmo. O elmo era diferente, não era um elmo comum como os que vi nos treinos com Marte, ele era como uma coroa, só que preto, e parecia mais poderoso do que um simples elmo, mesmo sendo estatua.
Ouvi vozes e resolvi segui-las, passei por uma porta e dei direto a uma sala de trono. Um trono alto, muito alto como se alguém de uns três metros de altura sentasse ali estava no fundo da sala. Um homem igual a estatua estava de pé. Usava uma túnica vermelho sangue (o mais bizarro é que parecia sangue mesmo, a roupa meio que se mexia involuntariamente), sandálias, tinha a pele pálida, era meio magro, cabelos pretos curtos e ondulados, barba escura até pouco abaixo do queixo e os olhos que expressavam medo e terror, não que ele estivesse com medo, mas que me deixou com medo e terror. Seus olhos eram negros (todo negro, sem parte branca) como as sombras, não consegui olhar nos olhos dele por muito tempo, aquilo me torturava.
– Você sabe o que está me pedindo? – o homem gritou para a outra pessoa. A outra pessoa era baixa, porte atlético, de um jovem talvez, usava uma capa preta e um capuz e estava de costas para mim então não pude ver seu rosto. – Já tentamos isso muitas vezes e fracassamos...
– Eu sei pai, mas dessa vez tenho uma coisa que não tínhamos antes – disse a outra pessoa. A voz mudava o tom varias vezes me impedindo de identificar ou ouvir claramente. – Uma nova peça no jogo.
A pessoa se moveu até a mesa. Havia uma mesa no centro da sala, uma mesa de concreto alta com umas peças no centro. Eram estatuetas de deuses gregos, monstros e pessoas. O estranho colocou uma nova peça na mesa, uma estatueta mal feita de um menino com um raio na mão.
– Acha que o filho de Zeus pode nos ajudar? – indagou o homem – Acha que ele vai concordar em nos ajudar?
– Se ele não souber para quem estiver lutando, não vai questionar. E temos seu motivo para continuar, pegamos a mãe dele, ele vai lutar.
– Talvez tenha razão, talvez ele colabore conosco. Não é fácil encontrar um mestiço treinado por um deus por aí. Quanto ao elmo, tenho que pensar...
– Pai, – o garoto insistiu – eu tenho que ir, tenho que estar de espião e confrontar os guardiões, mas sem o elmo fica difícil escapar.
O homem bufou, ele pareceu me perceber na sala, encarou o lugar onde eu estava. Não me mexi, talvez fosse pior se me mexesse. E mesmo que eu quisesse parecia que ele tinha me petrificado.
– Vou empresta-lo a você, mas terei que omitir a legião, sabe como eles são ignorantes. Terei que agilizar dessa vez, os deuses estão desconfiando, temo que Poseidon tenha desconfiado depois da ultima vez que seu filho escapou do forte. – ele fitou o filho(a) com raiva e terror – Você não pode deixar que o filho de Zeus escape, se ele chegar ao Olimpo, isso vai ser terrível! Eles podem anular o juramento!
– Ele não fugirá, enquanto sua mãe estiver presa ele vai permanecer conosco.
Um frio se apossou de mim, e tive a sensação de que “o garoto” de quem falavam era eu.
– Você deve ir, leve o elmo e tome cuidado, espero que tenhamos êxito desta vez. – o homem disse e a outra pessoa desapareceu em sombras.
Trimmmmmmmmmmmmmmm. Um sinal, como um sinal de escola tocou e eu acordei, estava deitado em uma sala escura e pequena. Dois beliches haviam nela, eu estava na parte de cima do da direita com uma dor de cabeça horrível. Por um momento pensei que acordaria na escola, talvez eu estivesse dormindo na aula e tudo fosse um pesadelo, mas infelizmente não estava.
No beliche ao lado, na cama de baixo estava um garoto, de uns treze, quatorze anos talvez. Cabelo curto e castanho claro cortados em forma de cogumelo, olhos verdes amarelados, vestia um casaco azul por cima de uma blusa branca, calça jeans e parecia estar tão perdido quanto eu.
– Sabe onde estamos – eu e ele falamos juntos em uníssono – não. – respondemos juntos de novo.
Uma pessoa levantou, estava abaixo de mim no mesmo beliche. Uma garota que devia ter entre doze e treze anos de cabelos castanhos claros ondulados, olhos verdes, pele clara. Usava uma blusa rosa, calça jeans e tênis e estava com cara de quem se perdeu.
– Vocês dois sabem...? – ela começou a perguntar
– Não, nenhum de nós sabe que lugar é esse. – respondi
Alguém bateu na porta, na verdade era mais como se estivesse esmurrando a porta. A pessoa nem esperou nós abrirmos e já foi entrando com cara de raiva pura. Um cara moreno e forte com uma barbicha e cabelos curtos militares, pretos. Ele estava com uma couraça e segurava um pedaço de madeira como se quisesse nos espancar. A sua parte de baixo porem era meio perturbadora, em sua cintura começava a ter pelos e seus pés eram de... bode. Pernas peludas e cascos sujos de lama.
– Uou! – eu disse, e vi na expressão dele que perdi um bom momento de ficar calado.
– O que foi? Nunca viu um fauno antes? – ele rosnou
– Para ser sincero não.
Olhei para os outros, eles estavam tão assustados, surpresos e espantados quanto eu.
– Novatos! – ele resmungou – Sempre incrédulos e céticos! – ele respirou fundo, tomando fôlego como se dissesse tenho que se gentil, então vou me apresentar – Eu sou Aron, o treinador histórico, o que treinou grandes heróis...
– Esse aí não é Quíron? – a menina disse
– Não, menininha simpática – o fauno falou entre dentes – Quíron treinou os heróis mais famosos, mas eu treinei muitos também. Conhecem aquele garoto que matou um cão infernal?
Fizemos que não com a cabeça e ele resmungou algo sobre jovens chatos que não conhecem nada.
– Vou parar de explicar isso, vocês não vão entender – o entender soou mais como um conhecer – venham para fora, tenho que mostra-los porque estão aqui, o que tem que fazer e blá, blá, blá.
Saímos do quarto minúsculo e lá nos esperava um campo. Um campo bonito com flores, arvores, um riacho correndo firme a direita. O dia estava lindo, o sol brilhava por trás das arvores, poucas nuvens no céu extremamente azul e um vento agradável que passava pelo local aliviando o calor. Era um belo lugar, admito. Em circunstancias diferentes eu teria adorado fazer um piquenique ali, ou brincar com meu primo, mas agora estava realmente preocupado com o que havia acontecido com minha mãe, ou onde eu estava e o que teria que fazer.
Comecei a notar outras pessoas, a maioria crianças, saindo de outros quartos, que vistos de fora eram cabanas pequenas. Havia duas fileiras delas, mas apenas quatro estavam inteiras, as outras estavam destruídas. O Aron nos levou até o centro do campo e se virou para um outro cara. Esse outro cara tinha cabelos marrons na altura do ombro , barba comprida e a parte de baixo era de cavalo. Achei que estava ficando louco. Sátiros e centauros, estava maluco, mas só achei isso porque não sabia o que estava por vir.
– Bem, crianças, – começou Aron – vocês agora são prisioneiros. – todos nós começamos a murmurar – É, isso aí, prisioneiros, vão fazer o que eu mandar, não tem saída, não tem escolha e não tem reclamação. Agora vocês vão trabalhar...
– Calma Aron – disse o centauro se aproximando. Sua voz era muito suave e tranquila – ele está nervoso, estamos aqui a muito tempo. Vocês serão treinados para... ajudar eu e Aron a pegar uma coisa.
Aron largou o pedaço de pau e pegou uma flauta resmungando, como sempre. Quíron se posicionou no meio do circulo formado pelos jovens que saíram dessas cabanas. Deviam ser umas quinze pessoas fora Aron e Quíron. A musica que Aron tocava na flauta era calma e me deixou com sono, lutei para ficar de pé.
– Uma vez – Quíron começou – três irmãos passeavam em uma praia escura. – sua voz calma começou a me tontear, e eu comecei a ver... ver o que ele contava – Eles tiveram uma infância difícil e haviam fugido de casa naquela noite.
Vi três jovens andando em uma praia escura. Não podia ver seus rostos claramente. Era como uma escadinha, um mais alto, outro mais ou menos e outro mais baixo. Eles andavam um ao lado do outro, o mais alto parecia mais preocupado, mas o menor que dava as ordens.
– Eles estavam dividindo as coisas quando acharam algo mágico – Quíron continuou, sua voz estava mais baixa dentro da historia, mas ainda sim conseguia ouvir – eles acharam algo que mudariam suas vidas.
Um dos meninos (o do meio) pegou uma caixa no chão, ele a abriu e dentro havia quatro cristais brilhantes em forma de losango. Um era azul marinho e estava no canto, o outro era marrom madeira, o outro era vermelho alaranjado e o ultimo era azul claro da cor dos céus mas pude notar relâmpagos dentro dele.
– Os jovens sabiam – Quíron continuou – que o que encontraram tinha os maiores poderes do mundo. Eles decidiram então que o mais velho ficaria com o fogo, o do meio com as águas e o mais novo com o céu.
Cada um pegou um, como Quíron citou, mas o marrom ainda estava lá e nenhum deles se apossou. Minhas pernas estavam tremulas, a cabeça ainda doía e o sono aumentava por causa da musica que estava cada vez mais alta e clara na minha mente. Claro, já havia lido muitas vezes sobre a musica hipnotizadora dos faunos/sátiros.
– A terra sobrou, eles eram três e o quarto elemento sobrou. Eles decidiram então dividir o poder do ultimo. A terra estava em parte para os três. Eles eram poderosos, mas precisavam proteger os cristais, os poderes eram cobiçados, eles precisavam de seres fortes o suficientes para proteger os cristais daquele que com intenções impuras que desejasse aquele poder. Cada um deles convocou um guardião para proteger seu poder, e é por isso que vocês estão aqui.
Saí do transe que eu havia entrado, ainda com sono, as pernas moles, a cabeça doendo, quase desmaiei, mas me apoiei em um menino que estava ao meu lado. Olhei em volta, não foram todos que sofreram igual a mim, na verdade acho que só eu, a garota do beliche e mais um que ficamos abalados (embora eu tenha sido o único que perdeu o equilibre), não sei se os outros tinham visto o que eu vi, mas sei que isso foi cansativo. Todos começaram a reclamar sobre o assunto.
– Você quer que a gente proteja esses poderes? – um reclamou
– Por que a gente terá que fazer isso? – indagou o outro
– Nós... – a menina do beliche disse, sua falhou, ela tomou fôlego e continuou – nós teremos que busca-los não é?
Fez-se silencio, todos a olhavam e pensavam. Se existissem esses poderes como a historia relatou, fazia sentido que alguém quisesse pegá-lo, mas não fazia sentido porque essa pessoa raptou crianças. E ainda sim, como a menina do beliche podia saber disso?
– Sim – Aron disse ainda com a flauta na mão – vocês estão aqui porque o chefe quer os cristais. Ele deseja os poderes e vocês talvez possam pegá-los.
– Por que ele mesmo não pega? – o meu companheiro de quarto falou
– Por que ele não pode – disse Quíron, com calma – a lenda diz que aquele de coração impuro não pode pegar o poder. Por isso temos vocês.
– E por que faríamos isso? – um outro menino perguntou
Me lembrei do sonho que tive, a minha mãe estava presa, talvez não só a minha, talvez a de todos que estavam ali. Esse era o motivo, eles iam nos fazer pegar os poderes em troca de nossas famílias.
– Nossas famílias – eu e a garota do beliche murmuramos juntos.
Nós nos olhamos, por um momento tive a sensação que ela também havia tido sonhos sobre o assunto. Fiquei feliz por não ser o único anormal e esquisito do mundo.
Aron preparou a flauta e eu vi minha mãe, ela estava meio transparente o que me causou uma dor no peito. Ela não podia estar morta, se estivesse eu não teria por que lutar aqui. Mas ela também não estava completamente bem. Parecia uma aura espectral presa, estava adormecida em um lugar escuro cujo eu não pude identificar, mas se parecia muito com o lugar dos meus sonhos.
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