Os Poderes Perdidos
24 Capítulo 24: Faço um home run no rio de janeiro
O MEU REFLEXO foi tão rápido quanto a lamina negra da espada de Bruno. Ele saiu da floresta com a espada sombria empunhada com força em direção a nossas cabeças. Meu sangue ferveu. Eu nunca havia desconfiado dele! Ele me enganou! Ele enganou a todos! Ele colocou um contra o outro, e se não fosse por sorte teríamos nos matado, por nada.
Me virei novamente e me levantei. Meus olhos percorreram o perímetro automaticamente atrás do cristal. Ele estava bem na ponta de uma arvore. Mas a visão que me chamou mais a atenção foi a espada negra e sombria de Bruno apertada contra o pescoço de Pedro. O meu amigo largou o arco no chão e pôs as mãos para cima. Seus olhos estavam arregalados e ele estava completamente petrificado. Levei a mão em direção a minha bainha, mas Bruno apenas balançou a cabeça em negativa sadicamente com os olhos bem abertos e a boca levemente aberta.
– Vá e frente, e eu corto a garganta dele! – ele disse. Ele estava diferente. Parecia mais forte, sua postura estava completamente diferente... de fraco e oprimido a líder e intimidador. Seu rosto estava normal, tirando pela fisionomia sádica e os olhos. Os olhos estavam castanhos, como sempre mas alguma outra coisa brilhava por trás deles. Os olhos. Minha avó sempre diz que vemos quem somos pelos olhos. Olho para Selina, ela está agachada com as mãos para cima se levantando devagar. Sigo seu exemplo. – Bem quietinhos. Argh, eu não aguentava mais isso aqui – Bruno reclamou. Com uma mão apenas ele retirou dois vidros de seus olhos. Lentes. Ele é tão... esperto (a palavra dói em minha mente, mas é a verdade) que colocou lentes para não ser denunciado pelos olhos. Os olhos. Negros como a noite que causam a mesma impressão dos de Hades, seu pai: se você olhar por muito tempo, vai se perder na escuridão sem fim para sempre.
De pé, eu tento pensar em alguma coisa, mas nada me vem em mente. O único plano que eu tinha era pegar o cristal do Céus e combater Bruno, ou levar ao Olimpo. Mas eu não havia como ter acesso a estes poderes, a não ser que...
– Por que está fazendo isso? Por que está se revoltando? – eu disse. Olhei com o canto do olho para o cristal e tentei me concentrar. Eu não poderia fechar os olhos, ou sequer manter os olhos fixos nele, mas eu tinha que tentar me concentrar, e em algum momento, eu teria de conseguir – Não vale a pena.
– É claro que vale a pena, Griffin. – ele disse. O mais incrível nele era que mesmo tendo a atenção voltada a mim, sua espada continuava do mesmo jeito, como se o braço e a mão não fizesse parte do corpo e tivesse vida própria, cortando a garganta de Pedro se ele se movesse – Se eu não fosse matá-lo, eu não perderia meu tempo. Mas um verdadeiro Rei tem que treinar o seu discurso não é mesmo? – ele riu e, sem olhar para o lado, fez um corte na camiseta de Pedro, do inicio do tórax ao meio do peito, perfurando um pouco de sua pele. Olhei para o lado, Selina engoliu em seco e levantou as mãos novamente.
– Os deuses já estão a tempo demais. O mundo precisa de melhoras! Modelar tudo a nossa imagem. O plano já está feito. Meu pai vai subir no trono, e eu vou ficar com todo o reino dos mortos. Por que eu não trocaria a vida idiota onde tenho que servir a esses hipócritas inúteis por uma vida de rei em um império onde eu vou comandar tudo? Só se eu fosse um verdadeiro idiota. E ainda, os deuses nunca se importaram conosco.
– Claro que se importaram! Ares se importou comigo, assim como Atena com Selina e Hefesto com você! – eu disse
Ele riu debochadamente.
– Você acha mesmo que eles se importaram? Isso não passa de um jogo pra eles, Griffin! Nós somos apenas mais uma peça! E eles são os caras que fazem as apostas. Pena que Ares e Atena apostaram no time perdedor. – ele disse em um tom tristemente debochado – Agora, seus pupilozinhos vão morrer indefesos, coitadinhos.
– Eu não teria tanta certeza disso – disse. Gritei rápido e consegui puxar o cristal para minha mão. Estiquei a mão para frente e uma corrente de vento se jogou contra Bruno. Ela foi tão forte que ele voou até bater com as costas em uma arvore. O caule da arvore rachou de leve. Peguei minha espada e olhei para Bruno. Deitado no chão. Me aproximei dele. Ele riu histericamente e foi se levantando devagar até está todo de pé. Eu fiquei perplexo, ele deveria estar morto!
– Vamos ver quem pode mais – ele abriu um sorriso. Seu olho direito ficou extremamente azul-marinho enquanto o esquerdo ficou extremamente vermelho, ardendo em chamas. Ele sacode as mãos e uma pequena chama se forma em seus dedos indicadores. Ele põe uma mão a frente da outra. Eu quase ri. O que uma chama menor que a de um fósforo poderia fazer contra mim? Ele assoprou e só tive tempo de cruzar os braços a frente do fogo para segurar o fogo enorme vindo de suas mãos. O fogo força contra mim. Provavelmente agora ele nem precisa assoprar para vim direto em minha cabeça.
Depois que as chamas se cessam eu tento o empurrar com o vento novamente mas uma parede de terra se ergue sempre a sua frente, como um escudo gigante. Tento umas três vezes sem sucesso. Um nó se forma em minha garganta. Quais as minha chances? Eu tenho um poder e ele três. Plano B: correr para o Olimpo. Tentei contato com meu parceiro e ele me disse que estava avistando o templo. Pedi para ele descer no templo, afinal não tinha tempo de explicar aonde ficava o campo onde estávamos.
– Vamos – Bruno me disse, agora seu olho esquerdo estava marrom e seu olho direito ardendo em chamas. – Me entregue o cristal e poupe tempo.
– Não, obrigado. Eu prefiro morrer mais tarde.
– Sabe, você daria um bom soldado. Talvez até mesmo um bom líder. Poderia ficar com um dos reinos que sobrarem, Ásia, quem sabe... Ainda tem tempo de trocar de lado, Griffin. Pense em você, dominando um continente inteiro. Fazendo o que quiser sempre que quiser – Eu sabia que era errado, eu sabia, mas... não pude parar de pensar. O que os deuses fizeram por mim na verdade? Quando foi que recebi alguma ajuda útil? E se Bruno estiver certo, e se não passa de uma aposta, um jogo? Bruno olha no relógio. Ele faz uma cara amarrada e diz: – Tempo acabou, Griffin. Uma pena você morrer tão jovem. Vocês também – ele se dirige a Pedro e Selina que ficaram paralisados. Não os culpei, eles poderiam correr e serem mortos ou ajudar e serem mortos – Que desperdício de soldados. Eu o mataria agora mesmo, Griffin. Mas aí perderia a graça de ver sua cara de choro quando tudo desmoronar.
Ele se vira e sai voando com sapatos voadores como os de Lívia. Penso em me atirar atrás dele, mas o que faria? Provavelmente morreria na queda do penhasco. Também não podia ir ao Olimpo. Hey pai, o filho de Hades vai matar todo mundo, isso não é ótimo? Eu tinha que recuperar os poderes perdidos.
– Erick – disse Lívia e os outros correndo até mim – Toma.
Ela jogou um par de tênis de skate para mim, quase os deixei cair, mas consegui segurar. Coloquei-os no pé e o cadarço deles começou a se amarrar sozinho e, logo, suas asas cresceram. Olhei para Selina.
– Vá para o Olimpo. Avise-os sobre uma possível guerra eminente. – Ela abriu a boca para perguntar mas eu interrompi – Hercules, o pegaso está no templo, ele vai te levar até lá.
– São os Alados mais velozes que eu conheço – ela disse rindo – Mas você precisa de treinamento e...
Eu tomo distancia, vou até quase a outra ponta do penhasco. Olho para David. Ele está um tanto nervoso. Uma mão tremula segura meu ombro.
– Não morre, o.k? – Selina disse
– Você também – concordei com a cabeça e comecei a correr. Correr. Correr. Até não haver mais chão no abismo.
Poucos minutos antes, eu havia pensado que ia cair aqui e morrer. Mas agora eu me lembrei bem de onde estou. Eu estou no meu lugar preferido: o céu. Eu estou no meu reino. E dessa vez, Bruno é que é o intruso.
Lívia tinha razão. Os tênis eram bem rápidos, bem rápidos mesmo. Uma nevoa começou a se formar em minha frente, densa. Olhei para cima e vi que o céu estava se preparando. Se preparando para uma chuva das grossas. Eu diria que um furacão estava indo ao sul, mas não sabia ao certo e meu foco mudou quando o avistei com seu tênis Nike preto com asas. Olho para frente, ele estava indo para um lugar estranho, uma caverna. Tentei alcançá-lo. Meus tênis são mais rápidos, é verdade, mas mesmo assim, ele entrou na caverna e eu o segui. Lá dentro era escuro e eu apenas continuei voando até sair do outro lado... Wow. Do outro lado saímos em uma cidade. Era grande, cheia de prédios comerciais enormes. Mantenha o foco Griffin, disse a mim mesmo. O procurei em meio as nuvens. Lá estava ele, sobrevoando um prédio... Ótimo, espero que ele não tenha problemas com os vidros...
Me lancei sobre seu corpo com a espada em punho, nós rolamos no ar caindo em direção a janela direita de um prédio comercial. Bruno consegue me imobilizar. Ele põe a espada em meu pescoço e me empurra forte no ar contra a parede. Bum! Invadimos o escritório onde tinha uma apresentação. Todos se chocaram, obvio. Bum! Bruno arrebenta a parede do mesmo prédio comigo. Dessa vez é uma sala de computadores, mas passamos tão rapidamente que não consigo reparar em nada. Me virei, colocando Bruno contra parede com toda a força e aumentando ainda mais a velocidade do vento contra ele. Arrebentei a ultima parede com Bruno e o joguei no asfalto. Chegou a fazer um buraco, uma cratera pequena.
– Você não desiste, garoto? – Bruno disse se levantando, com um pouco de dificuldade – Olhe só para você. Você não tem nada de um lutador. – ele tira a espada da bainha. Posso vê-la claramente. Ela tem uns 90 cm a 1metro mais ou menos, sua lamina é escura e brilhosa e o cabo tem uma caveira prateada que, com a luz do sol, ficou um tanto vermelho. – Eu não preciso desses poderes para ganhar, Griffin. Acabou. E você não pode evitar, não pode evitar um apocalipse eminente, garoto.
– Uma luta – desembainho a espada dourada – Uma ultima luta. Sem poderes. Limpa. Se eu ganhar, você devolve as famílias de todos que estavam presos com seu pai. Se você ganhar, eu te dou o cristal e caio fora daqui. O que você acha, ein?
– Você vai morrer – ele diz de sobrancelhas franzidas – Vamos, sem poderes, agora jure.
– Eu? Não, não, você primeiro – eu disse. Ele estava falando de um juramento pelo rio Estige. Um juramento pelo rio Estige não pode ser quebrado, caso contrario recebe punição... bom, ninguém sabe, ninguém nunca foi louco o bastante para quebrar um. – Eu não tenho a nada perder se morrer. E alem do mais, se você vencer, vai atacar o Olimpo assim mesmo.
– Tudo bem. Eu juro pelo Estige devolver as família de todas as pessoas que trabalharam para meu pai no ano de 2012...
Atiro uma rajada de vento que o joga contra um carro que chega a amassar a lataria. Ele demora a se levantar, mas quando se levanta me manda direto para a parede com a água que tirou de um hidrante. Eu me aproximo, com a espada em punho. Ele pega a dele e nós lutamos. Eu começo com o ataque e ele desvia sorrindo, como se fosse a coisa mais fácil do mundo e como se eu fosse o pior espadachim que ele já viu. Ele me corta em vários lugares em poucos segundos. Perna esquerda, joelho direito, bochecha, braços, mãos e o pior: testa. Este corte foi profundo. Eu poderia estar lutando melhor se estivesse com Alfa e Omega, mas eles se foram no fogo. Eu estava quase lançando o vento nele de novo pois estava me cansando de apanhar. Era difícil de acertá-lo. Quando Selina comentou sobre ele ser um bom espadachim, eu acreditei, serio, mas achava que ia conseguir pelo menos bater nele sem os poderes. Me lembrei de meu treinamento com Marte, ele sempre e ensinou táticas de guerra... táticas de guerra...
Me esquivei do próximo golpe que Bruno tentou acertar e fui atrás dele, bati como cabo da espada em um ângulo correto em seu pescoço e o lado direito de seu corpo parou instantaneamente. Ele é destro, de forma que a espada ficou parada, mas não era ela que eu queria. Abri o compartimento no seu bracelete e lá estava ele: o cristal do fogo. Peguei-o na mão e me preparei para sair voando quando um bloco gigante de pedra me atingiu em cheio.
– Belo truque, Griffin – Bruno disse e veio com toda a força voando em minha direção. Em pouco tempo, amasso um poste de metal e o puxo para mim. Seguro firme e espero o momento. Bum! Eu o atiro longe (tenho certeza que seria um belo home run em um estádio) e voo. Não sei em que direção voar. Não faço a mínima ideia de pra onde fica o Olimpo então simplesmente voo e acabo na praia, na areia. A areia se enrola em meus pés, e a água começa a subir até praticamente metade do oceano estar vindo sobre mim. Não conseguiria segurar aquilo, não assim, o ar seria insuficiente e não penetraria na onda tão facilmente, mas eu havia esquecido do fogo. Faço com as mãos duas bolas enormes de fogo e começo a jogar o fogo contra a água. Com certeza seria insuficiente, mas acho que Bruno não tinha mais todas as forças.
Jogo uma corrente de ar para ele e ele bloqueia com um escudo de pedras. Ele grita para ter forças e faz uma cara de dor em meio ao grito, talvez estivesse fraco com a tacada. Junto forças e vou para cima dele com a espada, dessa vez consigo acertá-lo. Acerto-o com a lamina em um braço e puxo o cristal da água, em troca, perco o do fogo novamente. Olhei o oceano e concentrei minhas forças em uma onda gigantesca. Bruno está respirando com dificuldades. Acertei-o mais um corte, dessa vez no rosto. Joguei a água contra ele, ele tentou bloquear mas não conseguiu. Ele se debateu e o cristal da terra caiu sobre a areia, caminhei devagar até ele e o peguei, me sentindo mais poderoso ainda. Bruno rompe a barreira d’água com fogo e cai no chão respirando com dificuldade. Olhei em volta. Tinha prédios, favelas, carros porem a praia estava deserta.
Avistei um morro enorme, grande mesmo. Depois, uma estátua realmente grande... Cristo Redentor, eu estava no Rio de Janeiro. Bruno me encara, eu caminho devagar até ele, com a espada em punho. Ele me olha e sorri, tentando esconder careta.
– Acha mesmo que acabou? – ele disse e pondo de pé e segurando o cristal do fogo com tanta força que as suas juntas ficaram brancas – Um cristal já será o bastante depois que seu pai já estiver caído.
– Você acha que Hades consegue mesmo derrubar meu pai, assim tão fácil? – eu menti. Até mesmo eu gostaria de ver Zeus tomando uma surra, então... ele ri debochadamente com os dentes serrados e põe a mão na barriga. Eu o chutei de leve.
– Hades? Não, não, ele ainda não está pronto. Mas ainda é esperto... olhe você mesmo, Erick, e descubra. – ele apontou para o mar. Eu me virei. Um tipo de furacão estava se formando e as águas tremiam em forma desgovernada.
– Poseidon... – murmurei e fui atingido por um chute na canela e logo depois o cristal do ar me é tirado da mão. Caído no chão levo dois chutes ao lado do corpo e em seguida, Bruno parte voando. Sinto a dor agora, aguda e forte, provavelmente porque um dos poderes me foi tirado. O mais forte.
Disparei atrás dele, uma das asas de meus tênis alados começou a parar de bater, pode ter sido por causa do vento, embora eu duvide disso, ela começa a pegar fogo e se desfaz. Consigo alcançar terra firme. Bruno parou no topo do pão-de-açúcar, olhando para os céus e com as mãos na cintura. Parei atrás dele e preparei um bom ataque com terra quando um raio caiu ao meu lado. Pulei para o lado com o susto e outros começaram a cair perto de mim. Puxei a espada e comecei a desviar a maioria das cargas elétricas com a lamina dourada. Com o canto do olho, ainda vi Bruno se virar para mim com os olhos azuis. Ele falou alguma, algo que não consegui ouvir, mas li em seus lábios:
– Esse é bom, não acha? – Disse ele com o cristal do ar esticado pra mim. Ele carrega as forças para um raio enorme e forte, mas eu estou preparado e quando ele lança o relâmpago faço ricochetear na espada e ir com tudo em seu peito. O estrondo me jogou para trás, mas também fez com que o cristal voasse da mão de Bruno. Eu corro e o pego e logo em seguida. Bruno ainda tenta levantar, com a mão no peito. Ele não chegou a cair do pão de açúcar, mas ficou um tanto na beirada. Ele estava tremulo (porque estava molhado e o choque foi o dobro). Eu chego perto dele e o chuto no lado do corpo, ele deixa o cristal do fogo cair de sua mão. Eu o peguei com a mão e o guardei no compartimento.
Estava me sentindo simplesmente incrível. Estava com todos os poderes dos deuses. Eu poderia fazer qualquer coisa. Eu poderia derrubar o Olimpo, derrubar Hades, eu poderia ser um rei. Não vou negar que a imagem de mim sentado em um trono de ouro com armaduras e roupas elegantes não tenha me agradado. Eu poderia fazer melhor que os deuses, poderia impedir os assaltos, mortes, assassinatos e todos os outros crimes mais. Encaro o por do sol, a sombra chegando ao ponta do morro. Não, Griffin, disse a mim mesmo, não é esse o seu objetivo.
– Então esse é o plano? – perguntei a ele – Uma luta entre Zeus e Poseidon onde Poseidon ganharia? E depois? Hades ia matar Poseidon e todos os outros?
Bruno engatinhou um pouco para longe de mim. Ele se esforçou para se por de pé e me olhou com os olhos negros, mas dessa vez eu não desviei o olhar. O encarei com raiva.
– Hades não vai cair, Griffin. E ele não será o único.
Ele se atirou no abismo, sumindo assim que as sombras atingiram seu corpo.
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