Os Poderes Perdidos
18 Capítulo 18: Ganho um novo amigo
A MAIORIA do seus amigos não te agradeceriam por quase quebrar o nariz deles mas quando você salvou eles de serem cremados vivos eles acabam demonstrando um tipo de gratidão. O corpo que joguei no chão era o de Selina – era meio obvio já que estava com o braço direito algemado ao dela –, e machuquei seu rosto. Causei cortes, sangue saiu de seu nariz, mas ela me agradeceu assim mesmo. Conseguimos correr para trás de uma pedra antes da cobra que cospe fogo atacar de novo.
– Ah, cara, o que eles veem nas cobras? – eu reclamei.
– Eu não sei – ela disse, limpando o sangue do nariz com a camiseta.
– Você ta legal?
– Já passei por coisas piores – ela disse sem convicção.
– Ótimo, e agora? Aprendeu alguma coisa sobre cobras alucinógenas que cospem fogo?
– Não, eu desconheço essa criatura. Pode ter sido criada pelo próprio Hades. De qualquer maneira, aqui não vai ser seguro por muito tempo.
Desnecessário falar, o fogo ainda se espalhou pelos lados da pedra que não era muito grande. Então nós quase viramos uma pessoa só de tanta distancia que tentamos tomar do fogo de ambos os lados. Tento olhar em volta procurar alguma saída, mas nada me ocorre. No topo avisto uma luz, que não sei se é uma saída ou um diamante. Rezo para ser uma saída. Mas mesmo que fosse, era alto demais, e esta parte da caverna é em forma de funil. No topo, tem uma saída, mas é estreita. Grande o suficiente para passar umas 5 pessoas mas nada comparado ao enorme solo.
A cobra estava posicionada no centro, e pela luz que vinha do meio, onde o corpo se alongava, eu diria que havia chamas. Hades não é o deus do fogo, mas usou o elemento para seu aliado, e, de certa forma, esse é o elemento mais pertencente a ele nas histórias. Bom, isso não importava pra mim naquele momento.
– Precisamos desatar isso – eu disse olhando a algema.
Outro disparo de fogo, nós nos encolhemos e vemos a pedra se esfarelar pouco a pouco. A pedra estava diminuindo, eu morrendo de medo, e Selina mais preocupada com o nariz do que o resto. Tento olhar em volta. não tenho muito o que fazer aqui. Meu plano era o seguinte, sair daqui, bloquear o fogo com Alfa e correr até a ponta, de lá eu dava um jeito. Toco o pulso vazio e me lembro que Alfa não está mais lá. Bom, pelo menos ele estava sendo útil, vislumbro meu primo atrás de outra pedra, segurando o escudo com força enquanto... rezava? Provavelmente.
– É o seguinte, a mordida desse bicho deve soltar a gente. – eu disse
– O que?
– Se ele morder a algema a gente se solta.
– Não, eu não vou... – outra rajada de fogo passou pelos lados da pedra. – Escuta, pode ser que dê certo. Se conseguirmos esticar a corrente o suficiente para atravessar a pedra dos dois lados e se conseguirmos fazer esse bicho morder... pode dar certo.
– Ta, mas precisamos de uma distração – outra rajada de fogo, agora tirou mais farelos da pedra. – Rápido.
Pensei em gritar para David, mas ele estava muito longe e nunca ia escutar e mesmo que escutasse, nunca ia aceitar servir de isca. Os outros eu não vi, mas provavelmente estavam escondidos. Combino com Selina de sair da pedra. Corremos, corremos e os outros também (o que revela uma coisa: todas as pedras estavam se desfazendo). O fogo começa a nos cercar, mas sem nos acertar, passa por nosso lado, forma um circulo mantendo todo mundo dentro. A visão. A visão que eu tive em sonho.
Quanto tempo eu tinha de vida? Uns 30 segundos, talvez? Mais? Menos? Isso era meu tempo máximo. Uma sombra passa pelos meus olhos a esquerda, mas não sei o que é. Provavelmente é a sombra da serpente. Olho em volta, a maioria fechou os olhos, meu primo continua murmurando alguma coisa. Pelos deuses, era a primeira vez que... deuses... Deuses! Eu nunca havia pedido nada aos deuses, mas, de certa forma, eu estava “fazendo um favor a eles”, então eles também podiam me fazer um favor.
– Ã... pessoal do Olimpo... – eu disse mentalmente – Não seria mal uma mãozinha agora.
– Assovie – uma voz grossa disse leve em minha mente e não era a voz de Hades.
Não entendi no que um assovio podia me ajudar, mas eu não ia contrariar. Assoviei. O monstro se preparava para dar o bote. Fechei os olhos esperando a morte quando ouvi um barulho, um relincho. Abri os olhos e lá estava ele. Crina branca ao vento, o pelo escovado e em boas condições, perto de suas patas mais uma parte de pelo se abria cobrindo o casco, a característica mancha marrom no focinho, e, a grande surpresa, as duas enormes asas brancas.
Agora estava explicado o por que de eu poder conversar com ele. Um pegaso. Um ser... ã... alado. E isso podia fazer eu falar com ele por causa do meu estranho parentesco. Eu acho.
– Chamou, parceiro? – ele disse pousando em cima da cabeça da cobra
– Preciso de uma ajudinha.
Desnecessário falar, todos correram. Eu e Selina fomos até a pedra, mas ela estava longe. Olhei meu querido pegaso correndo pelas paredes redondas da caverna enquanto o fogo quase alcançava suas patas. Corri mais um pouco e olhei de novo. A cobra havia o deixado de mão e já tinha voltado pro seu principal alvo: eu.
Meu primeiro reflexo foi entrar pelo lado mais longe da pedra, já Selina se atirou para o mais próximo dela e se escondeu, o que fez a corrente se esticar e dar a volta na pedra. Não foi proposital, mas conseguimos. A cobra-infernal abocanhou a pedra e levou muitos fragmentos, com eles a corrente. Sinto mais leve o braço direito, vejo que se rompeu completamente a corrente que me prendia em uma luz dourada.
– É incrível como a morte persegue as pessoas, não é mesmo? – Hades fala e depois riu levemente
Agora, naquele momento eu estava mais do que nunca determinado a matar aquela serpente enorme. Esperei ela se distrair com alguma coisa e comecei a correr até o meu... parceiro, mas o caminho era longo e a distração pouco suficiente. Me atiro no chão e desvio da primeira rajada. Meu pé prende em uma pedra. Tento puxar a perna, mas está grudada mesmo. Uma luz forte e alaranjada atinge meus olhos e eu sei que é o fogo prestes a sair da boca do bichinho infernal. Tão involuntário quanto inútil, levei a mão a frente dos olhos por causa da luz.
Uns 5 ou 10 segundos se passaram. Eu com os olhos fechados e imaginando onde estaria quando os abrisse. No mundo inferior? Campos de Asfódelos? Campos de punição? Tomo coragem e abro os olhos. Tudo o que vejo são as chamas, a pouca distancia de mim e forçando pra me queimar. Foi como se... existisse um campo de força que impedisse o fogo de chegar em mim.
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