Os Opostos Se Atraem
24 O Fim não é aqui
Notas iniciais
– Eu preciso vê-la — Clara disse rapidamente, afastando o rosto do peito de Fernanda. — Ela tem que me escutar — Clara fungou.
Fernanda a encarou, ainda com a boca cheia de creme dental.
– Clara — perguntou, puxando-a pela mão para o banheiro, e cuspindo na pia -, o que aconteceu com vocês?
Clara respirou fundo, sentindo o coração acelerar loucamente.
– Cadu. — Ela percebeu que começaria a chorar de novo. Aquilo era ridículo, tinha que ser forte. Não podia ficar engasgando e soluçando na frente de Marina, logo menos. — Ele armou pra gente.
– Como é? — Fernanda arqueou a sobrancelha, intrigada e irritada. — Eu mato aquele...
Clara a interrompeu.
– Eu não sei como ele fez isso e a Marina não quer acreditar em mim. — Ela respirou fundo. — Mas ela vai acreditar. Nem que eu tenha que bater nela. Nem que eu a obrigue — ela disse, fazendo Fê rir levemente.
– A Marina ama você, Clara. Eu não sei direito o que houve, mas ela deve estar machucada pra caralho. Mas fique tranqüila. — Fernanda sorriu, beijando o rosto da amiga. — Vocês nasceram pra ficarem juntas e vão se entender. — Fernanda fez uma pausa. — Epa! Falei bonito.
Clara riu levemente, e Fernanda parecia ter ganhado o dia.
– Eu vou até o quarto dela. Me deseje sorte.
– Toda sorte do mundo, baixinha.
****
Uma mistura de frases e emoções da noite anterior começaram a borbulhar em sua cabeça quando ela se aproximou da porta fechada do quarto de Meirelles. Suas pernas tremiam, algo parecia ter emperrado em sua garganta e ela mal conseguia respirar. Não aguentaria que Marina gritasse e falasse aquelas coisas horríveis de novo. Percebera pela primeira vez, na noite anterior, o quanto era frágil e suscetível a Marina. Marina poderia a matar só com palavras, se quisesse. Quando ela bateu levemente na porta, viu que Robby estava ali, a olhando, no fundo do corredor, com olheiras imensas e aquele mesmo olhar de Fernanda. Bateu novamente, e a porta destrancou.
Clara poderia desmaiar ali mesmo.
Não foi o que ela fez. Não, porque quem estava do outro lado era Gisele. A própria Roberta pareceu confusa.
– Oi — Clara disse, ainda tremendo. — Eu preciso falar com a...
– Acabei de invadir o quarto pela varanda, Clara — Gisele disse, confusa. — Não faço ideia de como ela saiu daqui. Mas... — escancarou a porta, e Clara observou os lençóis da cama revirados, os pedaços do que seria um vaso totalmente quebrado. Gisele acompanhou seu olhar.
– Ops... Aquilo fui eu — ela sorriu, sem graça. — Pulando a varanda.
Clara sorriu brevemente.
– Aquilo, definitivamente não — Gisele completou, levando um beliscão de Robby.
Clara virou seu olhar para o espelho do quarto. Alguns pedaços de vidro estavam caídos no tapete, mas não eram muitos. A marca no meio do espelho era de um murro. Clara engoliu seco sentiu um arrepio na espinha, mas proibiu a si mesma de voltar a chorar.
– Sua tia vai ficar muito contente com essa nova obra de arte — Robby tentou quebrar o gelo, e então Vanessa apareceu na porta.
– Aí está você — ela sorriu fraco para a irmã, indo abraçá-la. — Quase me matou de susto ontem, sua babaca.
Clara tentou sorrir.
– Desculpe por isso — a menina ainda tinha o olhar fixo no espelho estilhaçado. — Você viu a...
– Não — Vanessa franziu a testa. — Aliás... Ela não devia estar aqui?
Vanessa, Robby e Gisele se entreolharam.
– Ela deve ter pulado a varanda... — Roberta concluiu. — Mas não sei como fez isso sem que nenhum de nós visse.
– Se ela socou um espelho e ninguém ouviu — Gisele tampou a boca ao sentir o olhar de Vanessa sobre ela. — Opa! Ai, eu sou uma merda mesmo, desculpa, Clara.
Clara apenas fez um sinal com a cabeça.
– Ela não pode estar muito longe — Clara disse, depois de um minuto. — Eu vou procurá-la.
As três se manifestaram quase ao mesmo tempo.
– Eu você com você!
– Não! — Clara negou. — Eu prefiro fazer isso sozinha. Desculpem.
Ela ia sair do quarto, quando Robby a segurou.
– Amiga, é sério... Você não tá bem, sabe? Acho melhor que alguma de nós vá com você.
– Eu posso fazer isso sozinha... — Clara saiu andando, com as três em seu encalço — É SÉRIO! — ela gritou, nervosa. — Parem de me tratar como uma criança! Que inferno! — Clara começou a chorar, vendo as amigas paralisadas. — Ah, me... desculpem.
Clara bateu e trancou a porta atrás de si, deixando todas desesperadas do lado de fora.
Quinze minutos depois ela abriu a porta, vestindo um short e uma baby look, e um chinelo nos pés. Tinha amarrado os cabelos num coque e era perceptível o esforço que estava fazendo para esconder seu rosto, com o óculos oversized, que mesmo assim não escondia o nariz vermelho.
– Amiga, acabei de fazer panquecas! — Flavinha disse, sorridente. — Venha tomar café e...
– Não tô com fome, obrigada — ela disse, descendo as escadas. — Eu vou atrás da Marina.
Ninguém se opôs quando ela abriu a grande porta de vidro. Apenas Gisele e Luuh estavam do lado de fora, e Clara passou por elas, tentando sorrir levemente. Mas era impossível, Clara não conseguia fingir.
– Clara! — Gisele gritou, e veio correndo até ela. — Eu prometo ficar quieta. Juro por Deus que vou calar a boca. Deixa eu ir com você?
– Pra quê? — Clara perguntou, a voz baixa.
– E se você precisar de um abraço no meio do caminho? — Gisele sorriu, e Clara tentou lembrar por que não era tão amiga assim dela antes. Só aquele sorriso já a reconfortava. Clara passou a mão na cintura de Gisele, que fez o mesmo em seus ombros.
– Quietinha – disse. e ela sorriu.
– Nham, nham — Gisele fez um barulho com a boca, fazendo-a rir um pouco, enquanto saíam da mansão.
****
Clara e Gisele tinham visitado o quiosque de seu velho amigo, andado em toda a extensão da praia, ido a vários bares, mas não tinham tido nem sequer sinal de Marina. via sua amiga cada vez mais preocupada, e então obrigava a si mesma a vencer o cansaço e continuar procurando. Durante aquele tempo, Clara tinha lhe contado o que acontecera na festa. Para Gisele, no entanto, parecia bem claro que ela falava a verdade. Estava começando a achar ridículo esse sumiço de Marina.
"Ponha-se no lugar dela" — Gisele pensou, e então preferiu não assumir nenhum lado.
Só queria que as duas se acertassem. Não seria a mesma coisa com as duas separadas.
Resolveu ligar na mansão pela quarta vez. Não precisou dizer nada, Clara entendeu com o olhar que elas não tinham notícias das sua... ex-namorada.
– Clara, vamos tomar alguma coisa? — A carinha de Gisele a lembrou de um ursinho, ou um cãozinho abandonada. — Muito sol na cabeça. — Ela fez bico, fazendo Clara apertá-lá.
– Ah, me desculpa, querida! Estamos andando há horas sem parar... Acho que nem reparei que...
– Tudo bem — ela a interrompeu, sorrindo, e a puxou pela mão até um quiosque. — Dois sucos de maracujá bem gelados e dois salgados de qualquer coisa boa — pediu, e Clara riu baixo, mas fez uma careta.
– Eu não quero...
– Eu não perguntei se você queria. — Gisele lhe lançou um sorriso quase diabólico. — Você nem tomou café da manhã. A não ser que você queira procurar sua docinho online, diretamente de uma cama de hospital, você vai comer esse salgado bem quietinha.
Clara arqueou a sobrancelha e arregalou os olhos.
– Mãe, é você? — Ela zombou, fazendo Gisele estender-lhe o dedo do meio e gargalhar.
– É sério, Clara, você precisa...
– Tá, tudo bem. — Ela se deu por vencida, mordendo um pão e batata com cara de má vontade.
Não comera nem a metade, mas estava feliz de pelo menos ter colocado algo no estômago. Quando voltaram a caminhar, Clara parou subitamente, olhando fixamente para o outro lado. Por um instante, Gisele achou que todo aquele sol na cabeça tinha lhe cegado, porque ela não via Marina em lugar nenhum.
– Clara? Onde você tá vendo ela?
– Ela? Não tô vendo ela! — Clara franziu a testa, e viu que seus olhos estavam vermelhos. Ela baixou os óculos no mesmo instante.
– O que foi?
– Ontem... Quando a gente brigou — Gisele percebeu finalmente que estavam em frente ao prédio de Cory. — Marina jogou uma pulseira em mim.
– A pulseira escrito "docinho" — Clara ouviu Gisele completar.
– Você viu a pulseira? — ela perguntou, com o olhar fixo.
Gisele riu.
– Você achou mesmo que estávamos num campeonato de vôlei? — Gisele sorriu, abraçando-a pelos ombros. — Estávamos correndo atrás daquela maldita pulseira.
Clara sentiu uma lágrima quente em seu rosto.
"De novo, não", ela pensou, enxugando-a rapidamente. Nunca tinha chorado tanto que nem naqueles dois dias. Não era assim tão mulherzinha, nem queria ser.
– Eu não acredito nisso... — ela disse com a voz chorosa. — Mas não era aniversário, não era nada, por que ela...?
Gisele ficou em silêncio. Sabia que tocar naquele assunto ia escancarar as feridas de Clara. Gisele Se sentia estúpida por ter dito qualquer coisa desde o princípio.
– Gisele? — Clara a incentivou.
– Acho que a Marina só queria te surpreender — mentiu.
"Ela queria dizer que te amava", pensou, e mesmo reparando que Clara não tinha comprado sua desculpa, tentou mudar de assunto.
– Acha que devemos procurar nas ruas de trás? — disse, e Clara continuava com o olhar perdido.
– Precisamos ir até o apartamento do Cory — ela falou, e logo viu a expressão confusa de Gisele.
– Clara, honestamente, acho que a Marina não vai se esconder na casa do ator-de-nome-gay... — Gisele disse e Clara não riu, como normalmente faria.
– A pulseira, Gisele. Eu a derrubei ontem quando fui atrás da Marina. Eu preciso daquela pulseira!
Alguns minutos de ar condicionado pareceram o céu pra Gisele, que apenas conduziu Clara até a portaria do prédio, sem dizer nada.
– Nossa... É você mesma! — Cory apareceu na sala após dez minutos de espera. Ele vestia uma samba canção vinho e uma regata branca. Seus cabelos estavam bagunçados e sua cara só provava que tinha acabado de acordar. — Quando a moça me avisou... — ele bocejou — eu pensei que fosse, mas não achei que fosse.
Gisele franziu a testa para a criatura atlética e semi-bêbada em sua frente. Ficar perto de Cory não fazia bem para seu ego. Clara tentou sorrir.
– Acho que te acordamos, não? — ela praticamente afirmou. O garoto riu, alisando os cabelos, numa tentativa frustrada de arrumá-los.
–Tudo bem. — Ele a cumprimentou com um beijo no rosto, depois cumprimentou Gisele. — Eu imagino que não tenha vindo aqui essa hora pra me dar parabéns, não vejo presente e sua cara está mais para um enterro.
Sparks dissera aquilo com tanta naturalidade que Clara riu um pouco. — Me desculpe! — Ela tentou sorrir. — Feliz aniversário, Cory!
Eles se abraçaram, depois os dois olharam pra Gisele.
– Opa! — Gisele disse, como se acordasse de um transe. — Parabéns aí, Cory!
– Tá, agora me digam a que devo a honra... — Cory se jogou no sofá, depois gritou um nome que nenhum dos dois visitantes entendeu. — Um suco e uma aspirina pra mim, e tudo que minhas ilustres convidadas quiserem.
– Nós não queremos nada. — Clara disse.
– Uma Coca. — Gisele disse ao mesmo tempo, sentindo as bochechas corarem.
– Por que você está triste? — Cory perguntou quando Clara sentou em sua frente.
– Como sabe que eu estou triste? — Ela arqueou a sobrancelha.
– Tá estampado na tua cara, lindinha. — Ele deu de ombros. — O que houve?
– História longa. Você não quer saber.
– Tente. — Cory sorriu, e Clara viu-se desabafando imediatamente com ele.
O cara era praticamente um estranho. Mas ele lhe passava confiança, e Clara sentia que podia contar com aquele ator-de-nome-gay para tudo. Pelo interesse do cara, para Gisele, ou ele era mesmo gay (não só de nome), ou queria pegar sua amiga. Torceu mentalmente para se tratar da primeira opção, enquanto observava os dois conversarem.
Depois de um longo desabafo, que deixou Cory totalmente boquiaberto, os três começaram a vasculhar a casa atrás da tal pulseira. Estava tudo uma bagunça, o que não facilitava em nada, e os funcionários do buffet estavam organizando as coisas. Clara sentiu que ia parar de respirar ao encarar a porta da despensa. Ficou parada a encarando, por incontáveis segundos, se sentindo a garota mais burra do mundo por ter confiado em Cadu e entrado ali voluntariamente. Era tudo culpa dela. Ela era uma idiota.
– Pare de se torturar. — Gisele a virou de frente pra ela — Pare.
Clara saiu em passos largos para a sala, sentou no enorme sofá de couro branco e apoiou a cabeça nas mãos, tentando impedir que as imagens da briga voltassem à tona. A pulseira não estava em lugar nenhum. Marina não estava em lugar nenhum. Clara queria apenas apagar aquela merda de dia da sua vida. Não adiantava chorar, ela precisava agir. Levantou-se, decidida a sair do apartamento de Cory e procurar o que realmente importava, quando Gisele apareceu na sala, meio pálida, com o celular na mão. Sparks estava a seu lado, e Clara deixou seu corpo cair no sofá antes mesmo que eles dissessem qualquer coisa.
– O que ela... Ela está bem? Aonde ela...? — Clara não conseguia terminar a frase. Gisele abaixou em sua frente, sentada na mesinha de centro.
– Ela... Ela ligou pra Fernanda.
– ONDE ELA ESTÁ? — Clara tampou a boca ao ouvir o eco de sua voz na sala toda, fazendo com que as pessoas do buffet a olhassem.
– Ela foi embora, Clara — Gisele respirou fundo. — Ela voltou pra casa.
****
Clara não quis falar com ninguém quando voltaram à mansão. Marina tinha ido embora... Então aquilo realmente era pra valer. Marina realmente não confiava nela. Sentiu uma mistura de decepção, dor e raiva quando trancou-se no quarto e viu o relógio que ela deixara na mesinha ao lado da cama. Teve vontade de pisar nele, mas não o fez. A raiva era uma parte mínima que Clara estava se obrigando a sentir. Arrependeu-se quando se jogou na cama, fazendo com aquele perfume maldito tomasse o quarto inteiro, e deixasse que suas lágrimas finalmente escapassem. Ficou ali por alguns minutos, até decidir levantar e terminar de arrumar as coisas na mala. Ao ver seu reflexo no espelho, reparou que o reflexo que via não era ela. Aqueles olhos borrados não eram dela. Aquela cara de sofrimento... Não a pertencia. Era uma versão muito, muito pior. Pedaços de Clara Fernandes mal colados numa pessoa irreconhecível. Desviou o olhar, incomodada, e pegou as roupas que faltavam, jogando-as de qualquer jeito em uma mala. Pegou uma outra mala para colocar o resto de sapatos e cosméticos, mas arrependeu-se imediatamente de tê-lo feito.
Flashback...
– Sabe, nós precisamos conversar muito sério. – Clara tirou o sorriso do rosto e Marina franziu a testa, confusa e apreensiva.
– Sobre?
– Sobre quem vai ter a guarda da blusa vermelha – Clara disse ainda com a voz séria e Marina gargalhou muito alto.
– Sinto informar, mas a blusa é minha e eu não abro mão disso!
– Então teremos um problema.
Flashback Off
– Ótimo... — Ela pegou a blusa e chacoalhou a cabeça. — Só faltava essa.
Clara agradeceu mentalmente quando alguém bateu em sua porta, fazendo-a jogar a blusa que roubara de Marina na noite em que começaram a se falar direito, dentro da mala.
– Ei, garota! — Flavinha entrou, com um sorrisinho solidário. — Está melhor?
Clara fez que sim com a cabeça, mesmo que um belo “não” estivesse estampado em sua cara. Flávia a abraçou rapidamente.
– Nós precisamos ir, ok? Não podemos nos atrasar para o voo.
Clara sorriu, fechando a mala, e deu uma olhada ao redor antes de sair do quarto que tinha sido tão importante pra ela durante esses dois meses de férias.
****
– Voo 421 com destino a Tóquio, embarque imediato pelo portão 14.
– Eu devia ir pra lá — Clara murmurou a primeira coisa que dissera na última uma hora. Fernanda arqueou a sobrancelha, confusa.
– Pra lá aonde?
– Tóquio. Longe, muito longe... — Clara deu de ombros, como o olhar perdido no saguão. Fernanda segurou sua mão.
– Você vai pro Brasil e vai enfiar na cabeça da sua docinho idiota que você não fez nada. E pare de graça.
Clara sorriu vagamente.
Odiava aeroportos. Odiava aviões, odiava altura, odiava Marina por não estar ali falando coisas idiotas para que se acalmasse. Como se já não bastasse o voo, ainda por cima naquelas circunstâncias, estava mais que nervosa. Mordeu um Kit Kat enquanto tamborilava com os dedos no joelho de Gisele. A cada novo voo anunciado, seu coração vinha até a boca e voltava.
– Voo 178 com destino a Rio de Janeiro, embarque liberado pelo portão 11.
– É o nosso! — Robby levantou rapidamente, pegando sua bolsa roxa. — Vamos, galera!
Todas começaram a levantar, menos Clara, que continuou sentada, agora fincando as unhas nos joelhos de Gisele, impedindo-a de se mover também.
– Outch! Clara! — Gi reclamou, dando um tapa meio afeminado em sua mão, que fez Vanessa e Fernanda rirem. — Vamos?
Gisele estendeu a mão em sua direção com um sorriso fofo nos lábios.
Clara não conseguiu tocá-lá.
Seu coração estava disparado. Ela sabia que nada aconteceria, tinha certeza. No entanto, sua pele estava gelando e ela parecia estar a ponto de desmaiar ali mesmo.
– Maninha, você tá bem? — Vanessa sentou ao seu lado, visivelmente preocupada.
– Eu... — Clara começou a levantar, mas jogou seu corpo na poltrona novamente. — Eu não posso. Eu não consigo.
– Ah, não... — Fernanda murmurou, subitamente lembrando do pânico que Clara tinha de altura. Somados ao problema com Marina... Aquilo daria em merda.
Alguém anunciou o voo delas novamente.
– Clara, por favor, não vai acontecer nada... — Luiza disse, sorrindo. — Veja bem, vamos estar com você o tempo todo. É tudo tão...
Clara já não entendia mais o que a amiga dizia, tudo parecia “bla-bla-bla-whiskas sachê” ao seus olhos e ouvidos, enquanto suas mãos tremiam.
Lembrou de quando foram pra França.
Lembrou da voz de Marina encorajando-a.
E então segurou com força nos bancos.
– Eu não vou.
– O QUÊ? — Quase todas berraram ao mesmo tempo.
– Eu não consigo.
– Você consegue, Clara, pare com isso! — Robby disse batendo o pé no chão. — Você veio sem ela conosco, não veio?
– Você não entende. — Aquilo era ridículo, nem Clara entendia. — Eu não posso, EU NÃO CONSIGO!
Clara apoiou a cabeça nos joelhos, nervosa, tonta, e com vontade de chorar. Nunca mais tinha tido uma crise de pânico assim com altura. Viajava com os pais periodicamente, e no máximo dava um mini-chilique dentro do avião, mas alguém a distraía e ela seguia viagem. Sentiu o toque suave de alguém acariciando seus cabelos, e depois ouviu o anúncio de seu vôo de novo.
– Vão vocês — Ela ouviu a voz de Vanessa — Peguem nossas bagagens quando chegarem lá. Vamos de trem.
Clara levantou minimamente a cabeça.
– Tem certeza? — Flavinha disse, e Vanessa assentiu, beijando-a nos lábios rapidamente.
– Vanessa, você não precisa... — Clara sentou e ela a interrompeu.
– Shhh... — disse, abraçando-a. — Preciso que você fique calma. Vamos de trem, você precisa do abraço da sua irmã mais gata e não precisa de mais problemas por hoje. Sem aviões, sem altura, eu e você, ok?
Clara sorriu, apertando Vanessa com um pouco mais de força.
– Eu te amo. Obrigada.
*****
Clara estava mais calma quando chegaram ao Rio de Janeiro por terra firme. Vanessa era a melhor irmã do mundo. Ficou pentelhando-a Vanessa com seus problemas a viagem toda, e ela estava ali, sempre sorrindo e acalmando-a. Como as malas tinham viajado com o resto das amigas, pegaram facilmente um táxi para casa. Ao chegarem, sua mãe já sabia de tudo, coisa que Clara constatou pela intensidade do abraço e pelo fato de Flavinha, Fernanda e Luuh estarem ali. Antes que ela começasse a dizer qualquer coisa, Clara respirou fundo, levantou do sofá e pegou o celular na mesinha.
– Eu vou até a casa da Marina.
– Clara, você não acha que... Sei lá, talvez fosse melhor esperar? — Luuh disse e Clara negou.
– De forma alguma. Eu preciso resolver isso logo. Ela vai me ouvir.
– Quer que eu te leve? — Fernanda se apressou em oferecer, mas ela negou novamente.
– Está tudo bem, eu juro. Só preciso... Vocês sabem. Preciso resolver isso logo.
Vanessa a beijou na testa antes que ela caminhasse até a porta.
– Boa sorte, maninha!
– Boa sorte — Fernanda, Flavinha e Luuh disseram em uníssono.
– Vai dar tudo certo, meu anjo — sua mãe disse, e ela sorriu, confiante.
Mães geralmente sabem o que dizem.
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– Merda, mas que caralho! — Marina gritou enquanto tentava enfaixar a mão cortada sozinha após o banho. — Muito esperta, Marina, foder a própria mão quando está com raiva! ARGH!
Marina estava sozinha em casa. Sabia que isso ia acontecer, pois sua mãe tinha viajado com algumas amigas para Miami e só apareceria dali a uma semana. O plano inicial era aproveitar muito bem esses dias com a casa só pra ela. Sequestraria Clara por alguns dias e estariam sozinhas para fazerem o que quisessem, quando quisessem, na hora que quisessem. O plano era perfeito.
– Até aquela vad... — Marina parou no meio da frase. Como podia ser tão trouxa de não conseguir nem xingá-la? — Vadia — cuspiu a palavra com a voz meio alterada, ainda se sentindo mal com isso.
Desceu as escadas só de camisola e foi até a cozinha, ainda lutando com a faixa na mão. O corte era meio feio, sabia que devia dar uma olhada melhor naquilo, mas pelo menos aquela dor amenizava uma certa outra que lhe incomodava mil vezes mais. Pegou uma garrafa de cerveja na geladeira e tomou quase tudo de uma vez só. Tinha passado as últimas horas anestesiada com cervejas, que não faziam efeito nenhum sobre ela. Faziam, claro, com que ela pensasse mais em Clara e sentisse mais sua falta. Também fazia com que seu ódio por si mesma só aumentasse. Marina simplesmente tinha que parar de pensar nela! Marina podia ser uma merda e ter feito coisas que não aprovaria se Clara fizesse com ela. Mas nunca faria aquilo. N-u-n-c-a. E ainda por cima com...
Ao pensar em Carlos Eduardo, jogou a garrafa com força na parede.
– Você vai sair da minha cabeça... Você TEM que sair da minha cabeça! — disse, ao lembrar de Clara chorando, e apoiou as mãos na pia, respirando fundo.
Tinha chorado. Marina Tinha chorado que nem uma criança no quarto da mansão.
Tinha chorado de novo quando chegou em casa.
Estava farta daquela merda toda.
Ouviu a campainha tocar, e momentaneamente feliz ao se lembrar da pizza que havia pedido antes de entrar no banho, correu até a porta com a carteira na mão boa.
Essa mesma carteira caiu no chão quando ela abriu a porta.
Clara não disse nada. Estava abraçando os próprios braços com aquela cara de quem está procurando alguma coisa para falar. Marina sentiu o ódio correr pelas veias, paralelamente a um tremor estranho em sua espinha.
– Eu disse pra você se esquecer de mim! — falou entre dentes, e Clara engoliu seco.
– Eu não vou embora enquanto nós não conversarmos — Clara respondeu, a voz firme, porém baixa.
Marina riu, sarcástica.
– Não sabia que você era adepta a acampamentos no meio da rua, Fernandes — Marina disse, apoiando uma mão na lateral da porta.
Tomou um susto quando Clara subiu no degrau, fazendo seu rosto aproximar do dela.
– Você não vai me fazer esperar aqui fora, Meirelles — Clara retribuiu com o sobrenome, ótimo. — Você vai me deixar entrar e escutar o que eu tenho pra dizer.
Momentaneamente estupefata por aquela atitude — Marina esperava que Clara viesse chorando e se derretendo — Marina chacoalhou a cabeça, e riu novamente.
– Pode parar com o sarcasmo e a ironia, garota. O único direito que você tem aqui é de se colocar no seu lugar pela merda que você fez, calar sua boca e... — Meirelles parou, ao ver o entregador de pizza.
Pegou a carteira no chão, deu uma nota para ele sem mesmo ver, e pegou a caixa. Clara permaneceu parada ao seu lado. Meirelles colocou a caixa para dentro, e então voltou-se para ela.
– Vá embora. Nada que você diga vai mudar o que eu vi.
Marina ia bater a porta, mas Clara a segurou, e Marina com medo de prender a mão dela e as duas ficarem idiotamente com as mãos enfaixadas, Marina abriu de novo.
Parecia outra garota do lado de fora. Outra Clara.
Aquela que Marina esperava de princípio. Ainda com a feição firme, seus olhos estavam vermelhos. Tudo o que ela conseguiu pensar por dez segundos foi o quanto odiava fazê-la chorar. Depois Marina lembrou que chorou por ela, e então a raiva voltou.
– Marina, por favor... — Clara pediu, quase sussurrando. — Por favor.
– Não — respondeu, firme, mas com os joelhos quase tremendo.
– Dez minutos, Marina. Dez minutos e eu prometo que vou embora.
Meirelles respirou fundo. Talvez Clara pudesse provar que ela estava errada. Porra, como ela queria estar errada.
Não que acreditasse nisso. Marina tinha visto muito bem.
– Dez minutos — respondeu, andando até o sofá, deixando-a entrar sozinha e fechar a porta.
Clara sentou no sofá em frente a Marina. Sentiu-se como se estivesse na polícia ou algo do tipo. Os olhos de Marina que Clara tanto amava pareciam interrogá-la. Marina tentava agir despreocupadamente. Pegou a caixa de pizza e a abriu, pegando um pedaço, sem dizer nada.
– O que houve com a sua mão? — Clara perguntou, mesmo sabendo a resposta. Precisava começar de algum lugar. Fazer Marina assumir que estava sofrendo parecia um bom jeito.
Marina deu de ombros.
– Honestamente, você veio aqui pra bater papo e fingir que é minha amiguinha, ou pra falar qualquer merda de mentira que você quer que eu acredite?
O balde de água fria que Clara (não) esperava.
Engoliu o choro que já ameaçava aparecer. Firme, muito firme.
– Marina, aquilo tudo foi uma armação. Você precisa acreditar em mim!
– Você que precisa que eu acredite.
– Dá pra você calar a boca e me ouvir? — Clara perdeu a paciência, e Marina riu, irônica, enfiando mais um pedaço de pizza na boca. — Eu não sabia que o Cadu estaria na festa. Encontrei com ele e dei um chilique, porque achei que ele estava me perseguindo de novo.
– E não estava? — Marina arqueou a sobrancelha. Ficou quieta assim que viu a cara de Clara.
– Aparentemente o primo dele é amigo do Cory. Bom, ele disse que precisava conversar comigo, e que se eu falasse com ele, ele nos deixaria em paz. Saímos da muvuca, e fomos até a cozinha. Ele me levou até o fundo e disse que era pra eu entrar na despensa...
– E você, garotinha ingênua de cinco anos de idade, entrou... — Marina gargalhou. — Qual é, Clara? Você acha que eu sou idiota? Puta que pariu, você entrou lá VOLUNTARIAMENTE! — Marina finalmente gritou. Se sentiu bem, por um instante.
Clara passou as mãos nervosamente pelo cabelo.
– Ele disse que ia nos deixar em paz. Entrei pra conversar com ele, Marina. Eu fiquei de olho na chave, eu sei que ele não é boa coisa. Ele ficou me enchendo o saco, e do nada o celular dele tocou, ele não atendeu, deu dois segundos e ele me empurrou e me agarrou — Clara disse com as mãos trêmulas. — E você... E você apareceu.
O silêncio tomou conta da sala da casa de Marina. Marina respirou fundo, limpando a mão em um guardanapo.
– Tá, e como eu entro nisso? — ela perguntou.
– Como assim?
– Como é que o Cadu “fez com que eu o visse te agarrando sem você querer” — Marina fez questão de fazer aspas com os dedos.
Clara quis dar um murro nela.
– Isso... — ela chacoalhou a cabeça. — Eu não sei. Você foi lá para quê?
Marina riu.
– Eu só fui lá ajudar uma menina! E eu que ofereci ajuda, uma garçonete! Isso é ridículo, Clara, não faz o menor sentido!
– Marina, para com isso... — Clara quis que sua voz soasse menos estranha. — Você acha mesmo que eu... que eu... — Clara fazia um esforço enorme pra não chorar. Meirelles sabia disso. — Você não confia em mim?
Outch. Confiança.
Marina já nem sabia mais como aquela palavra se encaixava em seu vocabulário.
Estava completamente cega de raiva e de ciúme.
– Marina... — Clara sussurrou, dando a volta na mesinha e sentando do lado da Meirelles no sofá, tão perto que podia encostar nela. E isso fez as duas estremecerem. — Você não pode estar falando sério quando diz que acreditou naquilo. Eu amo você. — Clara apoiou sua mão gelada na mão dela, que incrivelmente estava na mesma temperatura. — Eu estou aqui quase me rastejando pra ter você de volta. Por favor, volta pra mim... — Clara respirou fundo. — Eu preciso de você. Você... Você confia em mim?
Marina apertou a mão de Clara com a sua. Clara estava tremendo. Marina a encarou nos olhos pela primeira vez, sentindo cada músculo de seu corpo reagir à proximidade. Era algo com o perfume dela. Algo com o jeito dela. Marina não podia ficar tão perto assim. Marina tocou seu rosto, e então começou a misturar tudo novamente em sua cabeça.
– Eu não... — Sua voz era nada. Soava como uma bela nada. — Eu não...
Clara roçou o nariz no de Marina, fazendo-a apertar sua coxa.
– Eu não posso. Eu não confio em você.
A expressão de Clara mudou completamente. Marina não soube dizer o quê, ou identificar o que era. Clara ficou sem falar por mais de um minuto, o que não era normal.
– Você está muito errada sobre mim, sabia? — disse, levantando e caminhando até a porta. — E um dia você vai se dar conta disso. Cuidado pra não ser tarde demais.
Meirelles não conseguiu dizer nada ao vê-la sair.
Jogou-se para trás no sofá, sentindo-se estranha. Marina a amava e a odiava ao mesmo tempo. Ela sabia que aquilo não ia dar certo. Depois de ficar uns cinco minutos tentando se acalmar, Marina caminhou até a janela, olhando atrás da cortina.
Clara ainda estava lá, sentada em sua escada, com o rosto escondido entre as mãos. Pela forma com que seus ombros se mexiam, estava chorando. Marina encostou o rosto no vidro, se sentindo uma verdadeira idiota. Observou-a por dois minutos, até Clara limpar o rosto e levantar, caminhando devagar. Marina encarou o relógio – meia-noite e quarenta e sete — e respirou fundo.
A única coisa que subitamente conseguia pensar era que Clara não podia ir embora essa hora da noite a pé e sozinha.
Colocou um short jeans que estava jogado por lá e uma blusa branca, desceu as escadas correndo e calçou um par de chinelos com as chaves do carro nas mãos. Clara reparou quando Marina saiu da vaga, estava distante. Marina Dirigiu a 10km/h, de longe, vendo Clara se arrastar pelo meio da rua até chegar em sua casa, alguns minutos depois.
Marina estacionou o carro, encarando a fachada da casa. Viu a luz do quarto de Clara acender e bateu a própria cabeça no volante com raiva de si mesma.
Como ela podia estar ali, preocupado com Clara, depois de tudo o que ela fez?
Preocupada com a segurança dela?
– Caralho, são dois quarteirões! — Marina xingou, batendo a mão enfaixada sem querer e arfando de dor. Como ela era ridícula! Tinha ódio, tinha nojo de si mesma. Olhou para a sombra do corpo de Clara andando de um lado para o outro perto da janela e murmurou: — Você vai sair da minha cabeça. Eu vou esquecer que um dia eu já amei você! Eu... — Marina chacoalhou a cabeça. — Vai ser melhor pra nós duas.
****
– Ei, Clara, acorda, querida — Clara ouviu dona Chica sussurrar e a chacoalhar. — Primeiro dia de aula.
Clara colocou o travesseiro na cabeça, com raiva por ter sido acordada tão cedo. Já não lhe bastavam as horas de insônia regadas a lágrimas que ela estava cheia de derramar. Devia ter dormido uns quarenta minutos apenas, e agora sua mãe estava ali, a arrastando para fora da cama, para que ela encarasse aquela porcaria de colégio.
Seria fácil fazer isso, mesmo estando um trapo, se ela fosse simplesmente uma ninguém dentro do colégio.
Mas obviamente Murphy tinha uma paixão enlouquecedora por ela, e ela ainda era popular, imitada e teria que discursar em prol do começo das aulas. Dali a dois dias provavelmente suas olheiras virariam moda. Ótimo. Desistiu de lutar contra sua mãe e foi até o banheiro, irritada, tomar um banho quente. Encontrar com Marina ainda seria o pior de tudo. Não sabia como reagiria, sabia simplesmente que tinha... Desistido.
Clara Fernandes não desiste. Mas depois de ver a mulher que ela tanto ama pronunciar que não confia nela com todas as letras, achou que a melhor coisa a fazer era parar de tentar. Bom, pelo menos parar de tentar fazê-la acreditar nela. Mas Clara ainda não tinha engolido aquela história de Marina ter aparecido na despensa. Ela encurralaria Cadu, faria de absolutamente tudo, mas descobriria a verdade.
– Para esfregar na cara daquela idiota... — murmurou, enquanto limpava o espelho para ver seu rosto.
Sabia que aquilo era mentira. Ela queria mesmo era que Marina a visse que estava errada e a "perdoasse". Mas poxa, Marina não devia acreditar nela?
Ajeitou os cabelos em um coque mal preso — sabia que Flávia iria dar um chilique ao vê-la assim -, passou um corretivo nas olheiras para dar-lhe ao menos um ar de dignidade, um gloss, e vestiu o uniforme.
Quando desceu as escadas, Vanessa estava comendo cereal na cozinha.
– Bom dia! — ela disse de boca cheia, e Clara sorriu.
– Bom dia, chuchu! — Ela lhe apertou as bochechas, fazendo Vanessa reclamar. — Vamos?
– Come alguma coisa... — Vanessa disse, limpando a boca com o guardanapo. — A Flavinha vai vir nos buscar.
Ótimo, a bronca do visual desarrumado viria antes do esperado.
– Tenho pensando tanto em mim ultimamente que nem perguntei... Como vocês estão? Digo... Juntas e tal... — Clara perguntou vagamente, vendo Vanessa colocar cereal para ela em uma grande xícara. Torceu o nariz, pois esperava que Vanessa tivesse se esquecido do café da manhã. — Estamos muito bem — Vanessa abriu um sorriso radiante. — Ela é... Bom, totalmente diferente de mim, sabe? A gente não tem quase nada em comum. Mas acho que a graça é essa.
Clara brincou com a colher dentro da xícara.
– Eu estou vendo que você tá enrolando... — Vanessa disse, e Clara fez careta.
– Você não é a mamãe.
– Mas eu sou. — Dona Chica apareceu na cozinha, fazendo Vanessa gargalhar. — Pode comer.
– Mãe, eu não tô com...
– Clara Fernandes ! Você acha que eu já não fui adolescente? Acha que eu nunca perdi a fome por causa de algum namorado? No sei caso é namorada. No entanto eu fui obrigada a comer porque percebi que minha vida é mais importante do que um garoto. Clara arregalou os olhos, e Vanessa torceu o nariz.
Flavinha entrou na sala, rindo alto.
– Vocês são tão fofas, sabe? — Ela rolou os olhos. — Clara, que coque é esse?
Clara riu.
– Vamos embora, eu como essa maçã — Clara se adiantou, deixando Flavinha reclamando para trás, vindo de mãos dadas com sua irmã.
****
Clara e Flávia cumprimentaram vários desconhecidos quando chegaram ao colégio. Vanessa ficou meio estupefata com tantos olhares — a maior parte deles corria do cabelo amarrado de Clara até sua mão que segurava a de Flavinha — e aquilo a deixou um pouco assustada. Ficou feliz quando viu Fernanda, Luiza e Gisele em um banquinho onde elas sempre costumavam sentar.
– Pessoas conhecidas, amém! — Vanessa disse, fazendo as amigas rirem.
– Tem pessoas olhando para cá. Não param! — Fernanda disse, com um olhar estranho que fez Clara rir.
– Deve ser porque elas não se acostumaram com a ideia de tantas garotas sexies e deliciosas sentadas com vocês... — Luiza riu da cara de Fernanda. — Losers que são um pouquinho... Bem pouquinho... Sexies.
Clara assistiu as amigas rirem, enquanto olhava em volta, nervosa.
A qualquer momento ela chegaria, obviamente. Ficou feliz em ver Robby se aproximar, mas enquanto sua amiga cumprimentava uma a uma com beijos no rosto, e depois sentou no colo da Gisele, Clara se deu conta de que estava sobrando ali no meio de três casais.
– Adoro segurar vela... — ela murmurou, fazendo Luuh rir.
– Awn, amor, você sabe que meu coração é todo seu! — Luiza a apertou, arrancando uma risada da menina. — A Fernanda é só meu passatempo, você é sempre prioridade!
– Valeu, hein? — Fernanda fez um joinha com o dedo, fazendo todas rirem.
– Sorry, querida, eu vi primeiro... — Clara entrou na brincadeira, puxando Luiza pela mão. — Toda minha!
Enquanto riam de algumas trivialidades, Flavinha penteava os cabelos de Clara para deixá-los soltos, e tudo estava num clima muito ameno, até que Gisele avistou Marina atravessando o pátio. Ela era a peça que faltava, é claro. Todos estavam observando as trocas de carinho entre as losers e as populares, e Clara, a mais querida delas, estava lá, sem ninguém. Quando viram Marina, metade do pátio a acompanhou com o olhar. Clara percebeu uma certa movimentação, e virou a cabeça, sentindo seu coração quase parar.
Lá estava ela, a gravata do uniforme sempre mal amarrada, usava uma saia preta até o meio da coxa, Vans nos pés e os fones do iPod nos ouvidos. Marina olhava para o chão, mas não parecia estar com a feição tão acabada quanto a de Clara. Não tanto quanto Clara gostaria, afinal, queria saber se Marina também se sentia mal por estarem separadas. O único vestígio ainda era a mão mal enfaixada. Meirelles as encarou, e pareceu acordar de um transe, tirando os fones e mexendo na tela do aparelho.
– Bom dia — disse preguiçosamente.
Luiza se ajeitou na cadeira. Robby parou de rir das idiotices de Gisele, Flavinha soltou seus cabelos, Vanessa e Fernanda fixaram o olhar em Marina.
"Mas que beleza!", Clara pensou, irritada. "Isso vai ser pouco incômodo".
– Bom dia! — Gisele respondeu após alguns segundos, e então o resto das tapadas pareceu acordar ao redor de Meirelles, fazendo o mesmo.
– Então é por isso que estava todo mundo me olhando... — Marina disse com um sorrisinho. — Vocês estão... — Ela apontou para os casais em sua frente.
– Achou que fosse por quê, Meirelles? — Luuh fez voz de desdém, mas todas sabiam que era uma piada. Nunca a tratara mal, mesmo quando nem se falavam direito.
Marina riu. O som da risada dela provocou uma onda de calor dentro de Clara.
– Hum, talvez por eu ficar muito gostosa de uniforme... — Marina sorriu, fazendo as amigas rirem.
O silêncio seguinte não estava previsto. Vanessa pensou em abrir a boca para dizer algo, mas viu que Meirelles olhara para Clara pela primeira vez desde que tinha se aproximado delas. Ao sentir o olhar de Marina sobre si, Clara ficou paralisada, mas a encarou de volta, e elas ficaram por incontáveis segundos assim, estáticas. Clara coçou o pescoço, confusa, com as mãos gelando. E então Marina fez um barulho estranho com a boca, chacoalhando a cabeça.
– Eu vou...
– Vai? — Robby provocou, fazendo Gisele chacoalhar a cabeça.
– Ali — Marina respondeu simplesmente, deixando a rodinha.
Clara riu, sem humor.
– Vai ser sempre assim... — disse baixo e Luuh a abraçou pelos ombros.
– Claro que vai, até o dia que vocês pararem de ser idiotas. — Luiza sorriu com todos os dentes, e quando viu que Clara iria protestar, a puxou pela mão arqueando a sobrancelha.
– Eu sei de tudo, meu amor! — Luiza riu, presunçosa. — Sei que você tem aula de Geografia comigo, sei que a Vanessa e a Flavinha vão cabular aula para ficar se pegando, sei que a Fernanda quer me corromper a fazer isso também, e mais importante... — ela fez uma pausa, sorrindo. — Sei que Clara e Marina serão sempre um casal, mesmo não sendo um casal. O que significa que em breve elas estarão de volta.
Clara ficou boquiaberta, enquanto as amigas riam, mas não disse nada quando foi puxada pelo jardim.
****
– Marina, para de ser idiota! — Fernanda cochichou, enquanto a Sra. Brown passava um vídeo, como ela gostava de fazer nas primeiras aulas. — A Clara não fez porra nenhuma!
Marina chacoalhou a cabeça, rindo baixo.
– Não, fui eu quem estava lá na despensa com o Cadu, né? — disse, sarcástica.
– Isso tudo é orgulho? — Marina riu, sem humor. — Eu sou sua amiga! Eu tô te dizendo que ela não fez nada!
– Ah, fica na tua, Fê! Tá escrito na sua testa que você é "Team Clara".
Dessa vez Fernanda riu um pouco alto demais, levando um olhar atravessado da professora.
– Team Clara? Para de ser idiota, pelo amor de Deus... — riu. — Se ela tivesse te chifrado eu seria a primeira a te apoiar, mas eu acredito na Clara, sabe? Coisa que você deveria fazer.
Meirelles bufou, e então virou para Fernanda pela primeira vez.
– Faz o seguinte? Cuida da SUA vida e para de falar merda, antes que eu me irrite com você — Marina disse, séria, e Fernanda chacoalhou a cabeça.
– Tá escrito na SUA testa que você é "Team Clara" — Fernanda provocou, sorrindo. — Só que eu não sabia que você era tão idiota de cair na do Cadu e perder a única menina que você realmente quer. — olhou para a tela. — Mas é melhor eu cuidar da minha vida, mesmo... Só não diga que eu não avisei quando você...
– Cala a boca! — Marina sussurrou, nervosa, e virou para frente.
Fernanda apenas riu. Sabia que a amiga estava louca de vontade de correr até a sala de Clara e agarrá-la. E também sabia que tinha a irritado o suficiente para que Marina ficasse com uma pulga atrás da orelha. Mais cedo ou mais tarde, ela cairia na real.
****
Ao deixar a aula de geografia, Clara e Luuh caminharam juntas até o outro prédio. Tinham aulas diferentes, mas iam para o mesmo lugar. tinha ido para o ginásio onde teria sua temida aula de educação física.
– Ah, droga! — Clara parou de andar, fazendo Luiza a encarar.
– O que foi?
– A Gisele esqueceu o celular dela comigo... — Clara girou o aparelho na mão, com cara de sono. — Vamos lá entregar?
– Ih, amiga, bem que eu queria ficar passeando, mas tenho aula do Sr. Thompson... — A simples menção do nome do professor de álgebra fez Clara torcer o nariz, e Luiza rir.
– Então não se atrase, não dê mais motivos para aquele cara te odiar — Clara riu. — Aliás, ele nos odeia acima da média dos professores. Tenho medo.
Luiza gargalhou.
– É porque nós somos gostosas e ele não! — Luiza disse, rindo, e então correu pelo corredor.
Clara caminhou devagar, olhando para dentro de algumas portas entreabertas das salas. Chegou ao ginásio em poucos minutos, e logo avistou Gisele, devidamente sentada na arquibancada e com cara de tédio, enquanto todas as garotas começavam a se aquecer. Aquela imagem a fez rir.
– Seu celular, tontinha esquecida — ela disse, Gisele riu.
– Também te amo, Clara — Gi disse, enquanto Clara sentava ao seu lado. — Não tem aula agora?
Ela deu de ombros.
– História da arte.
– Aqui é educação física — Gisele disse, divertida, levando um beliscão.
– Tá me expulsando, Gisele ? — Clara disse com uma voz afetada, e as duas riram.
Não demorou muito para que Clara virasse o olhar e visse quem estava entrando na quadra. E uma corrente de ódio tão gigantesca cresceu dentro dela que Gisele não conseguiu segurá-la quando ela atravessou a quadra até Cadu.
– Hey! Não vejo você desde... — ele ia dizer, com um imenso sorriso, quando Clara fincou as unhas em seu braço.
– Cala a boca! — ela disse baixo, mas com a ira transbordando na voz. — Vem comigo, agora!
– Eu tenho aula, querida, não posso... — O cinismo de Carlos Eduardo estava quase lhe causando um colapso. Ela o empurrou com força em direção às escadas, quase fazendo com que o garoto tropeçasse.
– Clara, calma... — Gisele apareceu ali, e ela não a olhou.
– COMO VOCÊ PÔDE FAZER AQUILO? — Clara berrou, ouvindo o eco de sua voz no corredor. Respirou fundo, pois não queria dúzias de caras suados correndo na direção deles. — Você vai me dizer AGORA como é que...
– Eu não sei o que você está falando.
– CADU! — Clara gritou de novo, fazendo alguns garotos quase pararem de correr. — Carlos. Eduardo. Não. Me. Faça...
– Vai fazer o quê? — ele riu. — Nada que você possa fazer vai mudar alguma coisa... — ele sorriu largamente -, docinho...
Clara não conseguiu ouvir mais nada. Acertou um murro na bochecha de Cadu. Um murro, não um tapa. Ele pareceu assustado com a reação, gemendo como uma garotinha, e segurando o rosto claramente marcado pelo enorme anel que a menina usava.
– Ai, meu Deus! — Gisele a puxou — Clara, você vai pra detenção, vamos sair daqui...
Cadu riu, ainda segurando o rosto.
– Você tem mais força do que a sua ex-loser.
– Cala a boca, seu idiota! — Clara se desvencilhou de Gisele. — Antes que você tome outro desses, é melhor você falar logo como que você conseguiu armar aquilo tudo!
Cadu se aproximou dela, sorrindo.
– Eu não armei nada. Você entrou lá porque quis. Você me beijou de volta porque quis.
Clara quase gritou de ódio. Não acreditava que ele estava dizendo aquilo. Queria o quê, que Gisele se virasse contra ela também?
Foi quando ouviu uma risada bem característica em suas costas, e entendeu tudo.
– Bela direita, docinho — Marina sussurou perto do ouvido de Clara, que ainda estava de costas. — Da próxima vez, tente fazer isso dentro de uma despensa, e quem sabe a próxima idiota que te namorar acredita em você?
Clara virou para Marina, que ainda estava ali perto, com Vanessa. Não sabia o que ela tinha ouvido — muito provavelmente só o que Cadu tinha dito — mas ela tinha visto o soco, nem que fosse de longe. Devia pelo menos cogitar que Clara podia ter razão. Ou, do jeito que a mente de Meirelles andava distorcida, devia achar que era tudo outra armação. Mas Clara estava com raiva. Pela primeira vez desde o ocorrido, sentiu apenas raiva de Marina. E uma vontade crescente de também marcar seu anel na cara dela.
– Dispenso sua ironia, Meirelles — Clara sorriu, sarcástica. — Você quer uma marca do meu anel na sua cara para combinar com a mão enfaixada que você ganhou ao socar o espelho... Porque... Ah, sim, porque você me ama tanto que só consegue agir como uma idiota?
Marina ficou paralisada, mas logo se recuperou.
– Isso não tem nada a ver com você.
Clara riu.
– Claro que não. Tem a ver com sua insegurança e orgulho. Tem a ver com sua idiotice — ela riu. — Está tudo bem. Quando você perceber que errou, pelo menos terá uma cicatriz pra se lembrar disso. Pra sempre — Clara a encarou. — Para sempre, o dia em que você me perdeu... docinho.
****
Dois dias tinham se passado após a cena envolvendo Cadu no pátio. Clara ainda não sabia como fazer o garoto falar a verdade, no entanto, estava com tanta raiva de Marina, que isso parecia menos importante.
Estava com raiva por Marina não ter corrido atrás dela, por não ter acreditado nela, por não ter sequer demonstrado que estava abalada com as coisas que ela tinha dito. Quem via de fora, parecia que nada tinha mudado.
Parecia que elas tinham ido e voltado as mesmas de Riviera. As mesmas briguinhas inúteis, os mesmos olhares de fúria, era como ter acordado no passado.
– Bom dia, coisas lindas da Clara! — A garota saltitou até as amigas, e elas riram. — Como estão?
– Muito bem... — Fernanda beijou a bochecha da menina. — Você que parece estar radiante.
– Nada como uma boa noite de sono ouvindo John Mayer. — Ela sorriu. — Aquela voz sexy no meu ouvido a noite inteira, tem como não dormir com os anjos?
– Tem certeza que era o John Mayer? Aposto que você só estava sonhando comigo — Meirelles apareceu, com um sorriso cínico estampado no rosto. — Aposto que você estava pensando em como era sexy ouvir minha voz no seu ouvido, agora que você não tem nada. — Marina gargalhou, e então a segurou pela cintura, sussurrando com uma voz quase pervertida: — Docinho.
Clara não deixou que um sorriso vitorioso se formasse nos lábios de Marina, quando Marina percebeu que a pele do pescoço de Clara tinha arrepiado.
– Ah, querida, você está enganada... A voz do John me faz dormir, porque ela é sexy, é suave... É a voz de um anjo. — Ela sorriu, acariciando o rosto de Meirelles com uma das mãos. — Da última vez que eu cometi o erro de lembrar da sua voz, passei a noite nauseada e correndo para o banheiro. Sabe como é, você perdeu o efeito, baby — E então Clara a imitou, sussurrando em seu ouvido: — Sua hora já passou, docinho.
Clara abriu um largo sorriso ao ver Marina desnorteada em sua frente.
Não se lembrava do quanto era boa nas brigas com Marina.
O sinal tocou, e todas se levantaram, ainda meio abaladas com a cena que tinham presenciado.
– Alguém tem aula de literatura agora? — Meirelles perguntou, e logo viu a expressão satisfeita de Clara cair por terra. Ah, não! Marina não aguentaria duas aulas seguidas com Clara.
Aquilo era uma merda, uma grande merda. Literatura de novo. A aula que as juntou, ali, de novo, com ela. E só com ela.
Mas Marina não teve tempo de processar a ideia. Viu Clara andando sozinha pelo corredor cheio de alunos, a caminho da aula, e bufou, depois de sentir um tapinha nas costas e ouvir a risada de Fernanda.
Quando chegou na sala, havia um lugar disponível bem atrás da carteira de Clara. Havia outro, bem em frente à mesa da professora. Resolveu escolher a primeira opção, mesmo quase certo de que ficar encarando a Sra. Brown o tempo todo era menos torturante do que o que ia fazer. Clara não se moveu quando Marina sentou. Continuou conversando com uma cheerleader japonesinha que estava ao lado dela. Marina lembraria o nome daquela garota, se por acaso prestasse atenção nas garotas com que ficava antes... Dela.
– Bom dia, classe! — A Sra. Brown entrou na sala. — Muito bom revê-los! Tive uma experiência muito boa com alguns de vocês em nossa última aula antes das férias.
Meirelles ouviu Clara bufar e rolou os olhos.
A senhora começou a aula, mas Marina não conseguia prestar atenção em nada do que ela dizia. Clara estava se movimentando desconfortavelmente na cadeira, como se quisesse sair correndo dali. Clara pegou um lápis no estojo e começou a fazer um coque.
"Não... Não", Marina passou as mãos nos cabelos, sentindo o perfume da menina enquanto ela enrolava o cabelo.
Ela terminou rapidamente um coque perfeito, todo preso, e Marina teve que conter o impulso maluca que teve de tocar sua nuca descoberta. Clara sabia ser sexy até sem querer. Aquilo não estava lhe fazendo bem, se ficasse mais dois minutos encarando seu pescoço, faria algo de que se arrependeria. Viu Clara cochichando com a japonesinha e subitamente lembrou o nome da garota. Respirou fundo, aproximando o rosto do ombro de Clara, que levou um susto.
– Meirelles, o que diabos você... — a menina virou um pouco o corpo, mas Marina fez sinal de silêncio com os lábios.
– Relaxa aí — disse, e virou-se para o lado. — Autumn, certo?
A garota sorriu, visivelmente empolgada por ter sido lembrada por Marina.
– Certo — ela disse baixo.
– Quanto tempo não nos falamos. — Marina continuou com o queixo apoiado na curva do pescoço de Clara, para falar com Autumn. Aquele perfume estava a matando.
– Deve ser porque você parou de me ligar — a japonesa respondeu, e Marina ouviu a risada de Clara, acompanhada de um pedido de silêncio da professora.
– Espere aí — Marina murmurou para Autumn, e pegou um papel, escrevendo qualquer idiotice. Então, tocou o ombro de Clara, que virou, nervosa.
– O que você quer, garota?
Marina não respondeu nada. Apenas estendeu o papel dobrado e fez sinal com a cabeça para que ela o passasse para Autumn. Clara girou os olhos discretamente, mas passou na maior pose de quem não ligava.
Até mais ou menos o quinto papel.
– Escuta aqui, Meirelles! — ela disse, nervosa. — Se você quer ficar paquerando no meio da merda da aula de literatura, faça você mesma, pare de encher meu saco! — Clara viu a cara de susto de Autumn, e então amoleceu. — Desculpe, querida. Não é nada com você. É que...
– Eu sei. — Autumn sorriu. — Vocês se odeiam. Todo mundo sabe.
Clara e Marina trocaram um olhar muito breve, mas ficaram quietas.
****
– Hey! — Robby correu até Clara, na hora do intervalo. Tinha tido uma aula de matemática sem nenhuma das amigas, mas qualquer coisa era melhor que Marina a importunando.
Quem Marina pensava que era pra ficar trocando risinhos com uma garota qualquer na frente dela?
– Clara, como foi a aula com a...?
Clara não deixou que ela acabasse.
– Insuportável. Me deixe perto dela por dois minutos e eu juro que choco a cabeça dela contra a parede — Clara disse tão séria que fez Roberta rir. — Tá maluca? Perdeu a noção do perigo? — Clara colocou a mão na cintura, e Robby engoliu o riso.
– Desculpa, é só... Engraçado.
– O que é engraçado, Roberta? Essa peste infernizando minha vida?
– Não — Robby disse, quando as duas já avistavam suas amigas. — Você tendo ataques de ciúme.
– EU TENDO O QUÊ?
– Ela tendo O QUÊ? — Fernanda a imitou, e Clara só ficou mais puta.
– Ataques de... — Robby ia dizer, mas o olhar de Clara a interrompeu. — Tá, parei, parei.
Sentaram para comer em uma mesa quase no centro do pátio. Essa mesa sempre foi da Clara e cia, mas ultimamente andava frequentada pela irmã e as amigas. Enquanto Gisele e Vanessa faziam uma guerra de comida que quase acabou em tragédia — sujando o cabelo de Flávia , que provavelmente processaria ambas — Clara pareceu engasgar.
Marina estava sentanda na mesa com Lisa James, duas outras líderes de torcida que Clara não reconheceu, e Autumn. Marina pareceu sentir o olhar sobre ela, pois olhou pra Clara no mesmo instante. Marina estava abraçando Lisa pelos ombros, enquanto Autumn ria. Clara desviou o olhar, tomando um longo gole do suco, e fingiu não ter visto nada.
Mas Marina fez questão de, cinco minutos depois, vir andando com Autumn pendurada em seu pescoço até elas.
– Hey, peraí, baixinha! — ela riu, e Autumn também.
Ah, agora com ela é apelidinho fofo?
– Hey... Marina! — Gisele disse com uma voz estranha.
– Gente, essa aqui é Autumn, lembram dela? Vocês devem conhecê-la por causa do...
– Time de cheerleaders — Robby acrescentou de má vontade. — A gente sabe.
– Posso sentar aqui com vocês? — Autumn perguntou, olhando especificamente para Clara.
Mal sabia que isso não era a melhor coisa a ser feita. Clara engoliu o ódio e sorriu largamente.
– Mas é claro, meu anjo, você é sempre bem-vinda.
A cara de Marina foi impagável. Ela não conseguiu deixar de transparecer o choque.
– Tudo bem mesmo? — perguntou, com a voz meio estranha. Clara sorriu novamente.
– Claro que sim.
Todas estavam meio boquiabertas encarando Clara. Flavinha, Robby e Luuh nem tanto — sabiam da capacidade da amiga de fingir muito, muito bem quando queria. Era uma atriz, no fim das contas.
O intervalo foi até bastante fingidamente agradável. Quando o sinal tocou, Clara percebeu, pelos horários, que tinha educação física com as amigas. Menos mau. Uma hora inteira de fofocas e quase nada de suor — já que elas sempre davam um jeito de fugir do principal — parecia perfeita para tentar liquidar os sentimentos sádicos que estava criando em relação a Meirelles.
****
– Hey, Vanessa, estou indo pra casa, precisa de carona? — Clara perguntou, chegando ao lado de Robby no fim das aulas. Ela negou.
– Vou almoçar com a Flavinha em algum lugar, depois vamos ao cinema... Quer vir?
Clara riu.
– Não, obrigada, não gosto de segurar vela. — Antes que Vanessa protestasse, continuou: — Aliás, tenho uma pesquisa enorme de filosofia pra fazer. — Ela torceu o nariz.
– Ai caramba, ainda tem essa! — Robby bateu na testa, e Clara riu. — Bom, eu vou pra casa também. Te ligo mais tarde, tá? — Ela beijou o rosto de Clara, e depois o de Vanessa.
Clara se despediu da irmã e andou por entre os carros do estacionamento do colégio. Avistou seu o seu uno vermelho, que era fácil de encontrar, e dirigiu-se até ele. Enquanto abria o carro, viu, mais adiante, Marina e Autumn.
Elas estavam encostadas no capô do carro que ela reconheceu como o de Lisa. Autumn estava entre as pernas de Marina, e elas conversavam perto demais. Marina a segurou pela cintura e a puxou, depois olhou para o lado. Bem na direção do Uno. Autumn fez com que ela olhasse pra frente de novo, e a beijou.
Clara entrou no carro rapidamente, sentindo os olhos arderem e uma sensação de raiva e nojo tomou conta dela. Saiu arrancando com o carro, quase atropelando duas garotas que estavam por ali. Não olhou para trás. Não daria esse gostinho a Meirelles.
Marina mordeu levemente o lábio de Autumn, separando o beijo.
A garota sorriu, satisfeita. Era realmente muito bonita. Se fosse em outros tempos, Marina estaria orgulhosa de si mesma.
– Hey, eu vou para casa... — Marina disse baixo, e a garota fez bico.
– Se você quiser, podemos ir para a minha... Eu sei... Cozinhar — Autumn soou quase pervertida, e Marina chacoalhou a cabeça, rindo.
– Claro que sabe — ela piscou. — Mas realmente preciso ir. Tenho trabalho de física.
– Ah... — Autumn acariciou seu rosto. — Eu posso passar na sua casa mais tarde?
– Hm... — Marina olhava para o nada, enquanto a garota se pendurava em seu pescoço. — Não dá. Desculpe. Tenho outras coisas pra fazer.
Ela não esperou que Autumn protestasse. Deu um beijo em sua bochecha, e desencostou do capô do carro, ligando os fones do iPod. Encontrou seu carro e partiu pra casa, ignorando o celular que tocava, já com Autumn ligando.
Quando entrou em casa, jogou a mochila em uma poltrona e se jogou no sofá. Esticou o braço e apertou o botão da secretária eletrônica.
"Marina, querida, é a mamãe. Como você está? Nunca mais me ligou! Bom, eu volto no fim da semana, como você sabe. Quando chegar, quero ver os potes de comida que eu congelei para você todos vazios, ok, meu amor? Ah, não durma muito tarde e não esqueça os deveres de casa. Amo você. Me ligue assim que ouvir isso, beijos."
Rolou os olhos, deletando a mensagem. Ligaria para ela assim que tivesse paciência, coisa que já nem sabia mais o que era. Caminhou até a cozinha, abrindo a geladeira e pegando uma garrafinha de Heineken. Puxou a porta do congelador, vendo pilhas e pilhas de comida congelada ali dentro. Fez uma careta. Amava a comida da sua mãe, mas tudo que andava colocando no estômago era Doritos ou Ruffles, e mesmo assim, quase nunca. Não conseguia comer. Era ridículo, simplesmente não tinha fome. Tomou mais um gole da cerveja, voltando ao sofá, e ligou o som bem alto. Os vizinhos andavam reclamando disso? Que se fodam todos eles. O celular vibrou na mesa e ela se irritou ao ver uma mensagem de Autumn. Mas que porra era aquela? O que aquela menina queria tanto com ela?
Não era quem Marina queria. Não era dela que Marina esperava uma ligação.
Marina não conseguia fazer nada em casa. Parecia uma marionete no colégio, cheirosa e que dava em cima das garotas, só pra esfregar na cara de Clara. Só queria saber se Clara se importava. Tinha vontade de bater em si mesma quando se pegava pensando nela vinte e quatro horas por dia, olhando as fotos estúpidas que estavam na câmera, mas que ela não tinha coragem de passar pro computador, e ouvindo músicas que marcaram as férias.
Cada vez que Marina dizia algo pra Clara, parecia que seu coração ia parar de bater, e quando Clara revidava, irritada, tudo o que Marina pensava era em agarrá-la ali mesmo. Onde estivessem.
E ao contrário disso, ficava dando bola para líderes de torcida biscates e pegajosas.
Como ela queria Clara. Só ela a entendia.
Aqueles assuntos de Autumn? Preferia conversar com um poste. Os beijos dela eram muito bons, mas para Marina, era mecanizado, como colocar uma camiseta dentro da máquina de lavar. Não é algo que você quer fazer, mas você faz. Não tinha vontade de arrancar as roupas dela do nada, ou de gritar qualquer idiotice para fazê-la rir. Não ficava com a imagem fixa do sorriso dela em sua mente quando tentava dormir.
Honestamente, não queria porcaria nenhuma com aquela garota.
Marina jogou a garrafa vazia no lixo, subindo as escadas para trocar de roupa. Era possível que suas próprias roupas lembrassem Clara?
– ARGH! — gritou, nervosa, e se jogou pra trás na cama.
Ela acreditava em Clara, Fernanda estava certa. Algo dentro dela sempre disse que Clara não estava mentindo.
Mas agora já tinha colocado os pés pelas mãos e não sabia mais como agir. Ainda não suportava a imagem dela com Cadu, mas e se... E se fosse tudo uma armação maluca, mesmo?
Desceu as escadas, pegando o telefone para ligar para sua mãe — antes que que a mesma concluísse que ela estava morta — quando tocaram a campainha. Xingou Autumn mentalmente, mas abriu a porta, e tropeçou em uma caixa. Quando olhou para o outro lado da rua, tomou um susto ao ver Clara abrindo seu carro.
– O que diabos é isso? — gritou, olhando para a caixa e depois para Clara. Clara sorriu, sem humor.
– Isso? Isso sou eu deixando você pra trás, Meirelles. — Ela entrou no carro e partiu, deixando-a com cara de nada olhando o horizonte.
Marina colocou a caixa na mesa de centro. Respirou fundo antes de abrir. Claro que sabia que não era uma bomba ou algo do tipo, mas ainda assim não sabia o que pensar. Sentiu o estômago rodar quando encarou seu relógio, um urso de pelúcia que ela havia lhe presenteado, dois CDs e um pedaço de papel — a carta de literatura — e... a blusa vermelha.
A blusa que Clara fez tanta questão o verão inteiro, a blusa pela qual elas "brigaram" o tempo todo.
E então soube que estava realmente acabado. Ela tinha a perdido de vez.
Marina não conseguira dormir aquela noite. Rolou de um lado para o outro na cama durante horas, pegou o celular e discou um certo número pelo menos três vezes, até que conseguiu apagar por pouco tempo. Não ouviu o despertador, e sim sua mãe. O que era estranho, não era para ela ter voltado. Depois de levar uma senhora bronca por não ter se alimentado direito, conseguiu a desculpa perfeita: se atrasaria para o colégio. Colocou o uniforme rapidamente, e quando ia apagar a luz para sair, avistou a blusa vermelha. Respirou fundo, dobrou-a e a jogou na bolsa.
Aquilo não era mais dela. E ela iria devolver para quem realmente "merecia a guarda".
Dirigiu sem prestar atenção na música que tocava no rádio, até chegar ao colégio e estacionar numa vaga qualquer. Avistou as cheerleaders de longe e tentou se camuflar no meio das pessoas para que não a vissem. Acenou para Gisele e Robby, que estavam sentadas no jardim, enquanto procurava Clara com o olhar. Ao correr os olhos pela mesa dos jogadores de futebol, arregalou os olhos. Ela não estava sentada com eles. Estava em pé, conversando com um cara que Marina reconheceu como goleiro do novo time, rindo e contente.
E Clara não tinha a visto.
Logo, estava realmente se divertindo. Mas o pior não era isso: Clara estava vestida com o moletom de universidade do cara.
Marina sentiu o ódio correr nas veias, ao passo que a blusa vermelha pareceu pesar na mochila. Andou até onde Clara estava, pegando-a pelo braço.
– Agora eu entendo porque você fez tanta questão de devolver aquela merda de blusa! — ela disse rapidamente, e Clara fez um sinal com a mão para o jogador, empurrando Marina para longe.
– Você tá maluca, Meirelles? Quem você pensa que é para chegar pegando no meu braço e falando comigo desse jeito? — Clara disse, irada, e Marina riu.
– Sou a idiota que chegou a pensar que você podia estar falando a verdade! — Marina estava falando alto demais. Clara pareceu atordoada, mas respirou fundo, puxando o braço.
– Você é apenas a idiota que terminou comigo e não confiou em mim — ela disse, ríspida, e o coração de Marina foi até a boca. — Vá fazer showzinho de ciúme com a sua "baixinha" — Clara fez aspas com os dedos, rindo. — Você não tem mais o direito de se incomodar com quem eu ando, com o que eu visto ou qualquer coisa do tipo.
O goleiro se aproximou das duas.
– Ta tudo bem, Clara? algum problema? — perguntou, com a voz grossa. Clara riu, negando.
– O passado não me incomoda. — Ela olhou para Marina da cabeça aos pés. — O passado eu esqueço.
Clara virou as costas, voltando para o grupinho de jogadores e algumas líderes de torcida, deixando Marina para trás com a pior das sensações que já tinha conhecido na vida.
****
Aquele dia tinha sido longo demais para Marina. Ao estacionar o carro na garagem, lembrou que sua mãe estaria em casa para encher mais seu saco. Perfeito.
– O passado eu esqueço... — murmurou, nervosa, batendo a porta do carro.
Quando entrou na sala de estar, sentiu o aroma de frango assado vindo da cozinha. O leve palpitar no estômago a deixou momentaneamente animada.
– Olá, amor! — sua mãe lhe deu um beijo na bochecha, limpando as mãos no avental. — Estou cozinhando o almoço! Por que você não avisou que seus amigos viriam?
Marina olhou para trás. Que amigos?
– Mas minhas amigas não vem pra cá, vem? — perguntou, confusa. Vanessa, Fernanda e Gisele costumavam avisar quando iam se enfiar em sua casa, ainda mais pra almoçar.
– Não, amor, seus amigos da França!
Marina franziu a testa. Amigos da França? Sua mãe só podia estar bêbada.
– Eles estão na sala de TV. Chegaram há meia hora.
Marina preferiu não interrogar mais sua mãe, e curiosa, andou rápido até a sala de televisão. Escutou um barulho do que parecia ser Maroon 5, que ela comprovou ao ver o clipe deles na televisão. E logo em seguida... Cory?
– E aí, Marina? — Cory levantou para cumprimentá-lá.
– O que você...? — Marina não precisou terminar a frase, ao ouvir a risada de Sparks.
– Vim consertar uma certa merda que aconteceu no meu aniversário...
Marina rolou os olhos.
– Você veio DA FRANÇA só pra falar aquela mesma história que a Clara...
Marina calou a boca quando a porta do banheiro abriu.
Caiu instintivamente para trás, olhando com os olhos arregalados para a garota que saiu do banheiro. Ela vestia um vestido rosa claro rodado e simples, sapatilhas claras e estava de cabelo solto. Mesmo assim, Marina não demorou dois segundos para lembrar dela.
Emma. A garçonete.
Claro! ELA!
A menina não precisou abrir a boca para Marina se tocar da merda que tinha feito.
– Marina? — Cory perguntou, preocupado, e ela chacoalhou a cabeça.
– Me diz que você não... — Marina respirou fundo. — Me diz que você não fez o que eu tô pensando que você fez.
Emma abaixou os olhos. Vasculhou algo na bolsa, com as mãos trêmulas, e jogou quatro notas de cem libras na mesa de centro. E a caixinha da pulseira que ela tinha comprado pra Clara.
– Desculpe, eu...
Marina começou a lembrar de tudo que Clara havia lhe dito.
De cada lágrima que ela tinha derramado e das horas de seu dia que passou tentando entender o que tinha acontecido. Sentiu-se uma idiota. Um terrorista devia se sentir melhor perto dela.
– MAS VOCÊ... — Marina berrou, depois baixou o tom de voz, lembrando de sua mãe na cozinha — A Fernanda te parou! A gente te ofereceu ajuda... Você não... COMO?
– Marina, calma... — Cory disse baixo. — Ela vai explicar...
– Cory, você não sabe o que eu fiz por causa dessa porra de história! — Marina se descontrolou, e Cory fez uma careta.
– Eu sei o que você fez.
– Olha, eu sei que vocês me pararam... — Emma interrompeu. — Foi tudo muito fácil, mas se vocês não tivessem feito isso, eu teria parado vocês! Eu ganhei quatrocentas libras... Mas nunca consegui usar... Eu juro que não sabia o que estava fazen...
– AH! — Marina interrompeu, exasperada. — Que tipo de pessoa aceita uma grana de alguém pra "levar uma mulher pra despensa" e não sabe o que tá fazendo? Achou que ia ter o que lá? Beyoncé cantando? Uma festa surpresa? CARALHO!
Emma escondeu o rosto com as mãos.
– Eu não pensei que isso fosse acontecer, desculpe! — ela disse alto. — Eu não sabia que vocês se amavam! Achei que era uma brincadeirinha idiota e que eu ia ganhar uma grana fácil! Quando eu vi sua cara, quando eu vi o estado dela, eu...
– E PORQUE VOCÊ NÃO DISSE LOGO?
– O Cadu, o Ian e o John estavam lá, eles podiam... Sei lá, Marina! — Marina abaixou o rosto, em silêncio. — Eu recolhi a pulseira quando ela saiu correndo atrás de você. Fiquei mal por dias pensando nisso, e então fui até a casa do Cory. Eu juro que não fiz por mal.
Marina chacoalhou a cabeça.
– Tanto faz se você é uma mula e fez isso ingenuamente ou se é o capeta na forma humana — Marina levantou a mão para que Cory não a interrompesse. — O que importa é que você me fez perder alguém que eu nunca vou ganhar de novo.
Os olhos de Marina ardiam.
Clara nunca iria a perdoar. E ela tinha razão, claro que tinha.
– Mas... Ela queria que você soubesse a verdade, não queria? É pra isso que pedi para o Cory me trazer aqui. Agora vocês podem se entender, se você quiser eu falo com ela... — Emma estava visivelmente envergonhada. Marina chacoalhou a cabeça.
– Você não sabe o que eu fiz. Você não sabe o que eu disse pra ela. Ela vai me odiar pra sempre.
Cory aproximou-se de Marina, abraçando seu ombro.
– Você só vai saber se tentar.
Marina largou Cory e Emma em sua casa. Sua mãe a mataria, claro, mas não estava se importando. Sua mente estava a mil por hora, não sabia nem como estava respirando direito. Dirigiu mais rápido do que o considerado aconselhável até a casa de Clara. Ao andar até a porta principal, parecia que ia desmaiar de tão nervosa. A caixinha da pulseira estava no bolso do casaco. Tocou a campainha duas vezes seguidas, e enfiou as mãos nos bolsos, ansiosa.
Talvez Vanessa ou a mãe delas abrisse a porta e ela pudesse respirar.
Talvez... Não.
Clara abriu a porta tomando uma Coca Cola. A cara de espanto dela teria sido hilária, se o momento fosse outro. Marina encarou a camisola cor de rosa minúscula que ela vestia e todos aqueles sentimentos de sempre tomaram conta.
– A Vanessa está na Flávia — Clara disse, empurrando a porta para fechá-la.
Marina pressionou a porta para trás, quase fazendo-a tropeçar.
– Eu vim falar com você — disse, baixo. Mal conseguia encarar nos olhos de tanta vergonha.
– Eu não tenho nada para...
– Mas eu tenho — ela disse, a olhando pela primeira vez. Clara coçou o pescoço, como fazia quando estava desconfortável. — Eu sou uma idiota. Me perdoa?
O queixo de Clara caiu, ela obviamente não esperava por aquilo. A encarou, em silêncio, com uma expressão indecifrável.
– Você bebeu, Meirelles? – perguntou, e ela riu baixo.
– Não. Nunca estive tão sóbria — respondeu prontamente. — Clara, me desculpa, eu sei que devia ter acreditado em você, mas a situação era difícil pra mim, e agora eu sei que...
– Como você chegou a essa conclusão? — Clara a interrompeu, cruzando os braços.
– A Emma veio até minha casa com o Cory.
– Quem diabos é Emma?
– A garçonete que... — Marina parou de falar. Clara começou a gargalhar, sarcástica.
– EU NÃO ACREDITO NISSO! — ela gritou, mas ainda rindo. — Você teve que ver a menina que armou com o Cadu pra acreditar em mim? — Clara ficou séria de repente, e Marina engoliu seco.
Podia não ter mencionado Emma. Burra!
– Clara, por favor, não faça isso... Eu estou aqui pedindo desculpas, eu não consigo ficar sem você... — Ela susssurrou. — Esses dias foram os piores de todos. — Marina a segurou pela cintura, puxando-a pra frente. — Eu preciso de você. Eu te...
– Cala a boca! — Clara disse séria, empurrando-a para trás. — Sabe, queridinha... Alguém muito sábia me disse uma vez que nessas horas o amor não vale de merda nenhuma.
Marina engoliu seco, aproximando-se de novo.
– Esse pessoa era uma idiota.
– Esse pessoa É uma idiota. — Clara disse, nervosa. — Você disse na minha cara que NÃO CONFIA EM MIM! E agora vem aqui com essa cara de cãozinho caído da mudança e acha que vai ficar tudo bem? — Marina percebeu que ela tremia. — NÃO VAI FICAR TUDO BEM!
Marina queria apertá-la contra si. Queria fazer tudo aquilo que sabia que não ia conseguir viver sem. Clara era tudo pra ela. E dessa vez podia ter estragado tudo pra valer.
– Clara, por favor... — Marina aproximou-se, o pânico tomando conta. — Eu sei que eu não mereço estar aqui pedindo isso, mas... Poxa, se fosse você no meu lugar, você...
– Eu te daria uma chance de explicar. Eu te daria um voto de confiança — Clara respondeu rapidamente.
– Fácil pra você dizer — Marina disse, um pouco alterada. — Não foi você que viu o que eu vi!
Clara rolou os olhos, nervosa.
– Eu te dei todas as chances do mundo, Marina! Eu pedi, eu implorei, eu me rastejei... E você simplesmente ignorou isso tudo! Que porcaria de amor é esse? — Clara a empurrou para trás, nervosa. — Eu não quero ouvir nada do que você tem pra falar, você poderia ter feito tudo diferente... Nós acabamos, Marina. — Clara deixou uma lágrima escorrer. — E a culpa é toda sua.
O baque da porta parecia ser muito maior do que realmente foi, pelo menos para ela. Sentiu os olhos arderem, mas não era hora de chorar. Correu em volta da casa, escalando uma árvore, e se jogou na varanda de Clara, que estava aberta.
Ela deu um grito, pegando um travesseiro e tacando em sua direção, mas esse passou direto e caiu lá embaixo.
– Marina! SAI DA MINHA VIDA! — ela gritava, nervosa. — Não era pra eu esquecer que você existe? FACILITE! — Clara chorava, e Marina a segurou pelos dois pulsos, colando seu corpo no dela.
– Não é pra você me esquecer... – sussurrou. — Porque eu amo você. E eu não vou te perder.
Marina sentiu os pulsos firmes de Clara amolecerem, e ela derrubou uma lágrima.
Marina soltou o pulso esquerdo, ainda segurando o outro, e colou seu corpo no de Clara. Acariciou seu cabelo e rosto, sentindo-a tremer com seu toque. Quando percebeu que ela não ia mais reagir, a puxou de vez para si e soltou o outro pulso. Mordiscou seu lábio inferior, e Clara entrelaçou os dedos em seus cabelos, apoiando a outra mão em seu peito.
Em seguida, a empurrou com tanta força que Marina bateu as costas contra o vidro da porta da varanda.
– O que você...? — Marina perguntou, a voz realmente sentida, como se seu prêmio tivesse sido lhe tirado das mãos.
– Saia do meu quarto. Por favor — Clara sussurrou.
– Clara...
– Você não pode consertar as coisas assim, Meirelles... — ela disse baixo, limpando o rosto. — Eu não quero saber. Você teve sua chance. E não é um beijo que vai levar embora toda a dor que você me causou.
Marina não se aproximou. Sentiu o rosto esquentar, a cabeça rodar, tudo o que fosse de ruim junto. Os olhos marejados de Clara doíam nela. Como podia ter sido tão estúpida?
Apenas tirou a caixinha da pulseira de dentro do bolso, e colocou na cama. Clara pareceu surpresa, mas não perguntou nada. Apenas jogou-a de volta, com desdém.
– Mude a tira que tem escrito docinho para baixinha e seu prejuízo não será tão grande.
– Clara, a Autumn...
– Não quero saber.
Marina sorriu, sem humor, com uma tristeza visível.
Caminhou até a varanda e pendurou-se na árvore para descer. Quando chegou lá embaixo, percebeu que não seria assim. Ela simplesmente se recusava a deixar que terminasse assim.
– EI! – gritou. — Clara!
Clara apareceu na varanda, em silêncio. Marina sorriu largamente. Não estava confiante. Sabia que podia já tê-la perdido. Mas as lágrimas de Clara, a dor dela... Só provavam uma coisa: ela ainda a amava. E Marina não ia desperdiçar isso.- Eu vou ter você de volta! – gritou. — Eu vou virar essa cidade de ponta cabeça, eu vou fazer o que você quiser, mas você vai voltar pra mim.
– Marina...
– Porque nós podemos ser passado... — ela sorriu. — Mas meu futuro é com você. Escreva isso, docinho.
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Marina passou pelo corredor do colégio, que estava lotado de pessoas. Avistou Gisele e Fernanda com Roberta, no entanto, não teve paciência para ir até elas. Tudo o que precisava era conversar com Clara. Não tinha se conformado com o fim da conversa na noite anterior, e precisava resolver aquilo o quanto antes. Precisava saber o que tinha que fazer, e era óbvio que Clara não diria, mas talvez Marina conseguisse perceber sozinha.
Só que ficar sem Clara era absolutamente fora de cogitação.
Quando chegou no gramado que tinha atrás do colégio, viu Clara com Vanessa e Flavinha perto de uma árvore. O casal estava sentado em um tronco caído, mas Clara estava em pé, de costas. Marina correu até elas, e quando estava próxima de encostar em Clara, ela virou, como se sentisse sua presença ali.
– Ah... É você — Clara disse com desprezo, e Marina percebeu que aquilo seria mais difícil do que tinha calculado a princípio. Ela se virou para sua irmã e Flávia . — Amores, vou indo, tenho que ir pro ginásio me trocar. Comportem-se! — disse e sorriu, depois girou nos calcanhares e começou a caminhar, ignorando totalmente Marina ali.
Flavinha a encarou, como se ela fosse uma perfeita babaca.
– Anda, vai! — ela apontou pra Clara, fazendo com que Marina se movimentasse.
Clara estava andando muito rápido, se infiltrando em rodinhas, claramente com a ideia de ficar o mais longe possível de Marina.
– Clara! — ela quase gritou, mas a menina não olhou para trás. — Clara Fernandes !
Algumas pessoas a olharam.
O que diabos aquela loser queria com a toda-diva-Clara?
Marina rolou os olhos, apertando o passo e alcançando-a.
– Quando você vai me perdoar? — segurou-a pelo braço, no meio do pátio. Suas olheiras arroxeadas provavam que tinha tido uma péssima noite de sono. O cabelo estava preso em um coque e a camisa do colégio amassada, como se tivesse dormido com aquelas roupas.
Ainda assim, Clara sentiu um arrepio ao sentir seu perfume. Ela tinha se esquecido de passar um pente no cabelo, mas estava cheirosa? Aquilo não estava certo. Não era justo com sua sanidade.
– Não sei, talvez hoje — Marina sorriu largamente, e então Clara continuou: — Talvez nunca. Muito provavelmente, a segunda opção.
– Ei, espera, volta aqui — Marina a puxou de novo, com o estômago revirando. Sua cabeça ia explodir a qualquer momento. — Você precisa me escutar, docinho.
Foi quando Clara a olhou nos olhos pela primeira vez. Marina sabia que aquele apelido tinha um poder sobrenatural sobre elas duas.
Percebeu, por alguns segundos, que a mulher em sua frente estremeceu, e ela pareceu desconsertada.
– Não use mais esse apelido — Clara disse de forma seca.
– ÓTIMO! — Marina gritou, perdendo o controle. — Eu não te disse que ia fazer QUALQUER COISA pra gente voltar e pra você me perdoar? Então talvez o colégio inteiro precise saber disso também — Marina subiu na mesa.
– Desce daí! — Ouviu-a gritar, e então riu, marota.
– Só quando você disser que vai conversar comigo... — Marina deu uma piscadela, tentando controlar todas aquelas emoções que pareciam que a fariam ter um colapso — docinho.
– Marina, desce daí! — Clara olhava para os lados, quase escondendo o rosto com as mãos.
– Você vai conversar comigo, ou eu vou ter que fazer alguma declaração idiota aqui mesmo? — ela riu.
Sabia que Clara tentava, em vão, achar alguma brecha pra escapar, sair correndo, talvez. Mas as pessoas ali perto dificultariam o processo. Era bom que Clara falasse logo, afinal, ela não era adepto de declarações públicas e micantes.
Mas faria qualquer coisa por ela, era um fato.
– Meirelles! Isso é ridículo! — Clara disse entre dentes, e ela sorriu.
– Você disse achar lindo quando o Seth fez isso pra Summer — disse simplesmente, e Clara quase deixou o queixo cair.
Como diabos ela falava com tanta clareza de um seriado que não assistia?
– Eu não sou a Summer — ela murmurou, depois riu, sarcástica. — E você definitivamente não é o Seth.
– Mas sou a mulher que você ama — Marina disse simplesmente, e então desceu da mesa, puxando-a pra perto. — Eu sei que eu disse que amor não é suficiente nessas horas. E eu sei que eu sou uma idiota, mas eu preciso de você — ela suspirou, olhando-a intensamente e entrelaçando os dedos em seu cabelo. — Você me faz menos idiota.
– Marina, a gente não... — Clara suspirou, estremecendo com aquele olhar. Meirelles não deixou que terminasse.
– Eu te amo — sussurrou, mas ainda assim teve certeza que pelo menos quarenta pessoas ao redor dela tinha ouvido.
Não importava.
Clara sorriu largamente e ela a acompanhou, tomando-a pelos braços e a beijando, enquanto ouviam aplausos e gritinhos. Clara mordeu seu lábio de um jeito que fez com que seu corpo inteiro vibrasse, e elas se olharam, rindo feito idiotas, com as testas encostadas.
– Ah, o amor é lindo, não é mesmo? — Marina virou a cabeça e encarou uma pessoa de roxo ao seu lado. Em seguida, a identificou. — Se o mundo pudesse ter mais amor, talvez não houvesse tanta guerra, tanta pobreza. Vejam esse casal, olha que lindo! — a mulher dizia, com lágrimas nos olhos.
– FÁTIMA BERNARDES ?!? — Marina e Clara berraram juntas e ela sorriu largamente.
Marina abriu os olhos, atordoada. Tudo o que viu foi a luz fraca da televisão.
E toda aquela sensação boa, todo aquele amor, tinha sido arrancado dela.
Pela Fátima.
– Maldita! — Marina xingou, encarando a televisão.
Chegara a sentir o coração batendo muito mais forte, de forma que sentisse vergonha de si mesma. Fátima não podia ter tirado isso dela.
Marina rolou de um lado pro outro na cama. Não tinha ideia de como sabia um episódio de The OC — Clara realmente tinha lhe transformado. Mas queria, a todo custo, continuar aquele sonho. Teve aquela sensação de que o mundo dos sonhos estava infinitamente melhor que sua realidade. Mas não conseguia dormir, talvez aquilo fosse uma punição por ter sido uma perfeita filha de uma... Ok, sua mãe não tinha nada com isso. Resolveu levantar, ainda eram quatro da manhã, pensou em ligar para Clara, mas com certeza seria suicídio.
Clara não gostava de ser acordada subitamente.
Riu sozinha, com as lembranças vívidas em sua cabeça, como se pudesse tocá-las.
Flashback ON
– Goooooooooood Morniiiiiiiiiiiiiiiing, Sunshine! — Marina cantava idiotamente, abrindo as janelas e a varanda, e deixando um sol típico da Riviera invadir o quarto branco. — Olha, está sol, nós vamos poder...
Meirelles não conseguiu terminar a frase, apenas viu um sapato de salto alto vermelho voar na direção da sua cabeça.
– VOCÊ FUMOU UM BASEADO? — Clara berrou, e ela gargalhou, correndo até ela na cama.
– Nossa, que bom hu...
– Vá você, seu sol, seu bom humor, todos unidos pro INFERNO! — Clara enterrou a cabeça embaixo do travesseiro, e sua voz saiu abafada. — Apagfa a luuuuuuziiii!
Marina gargalhou, jogando o corpo ao lado do dela na cama.
– Sabia que você fica muito sexy quando está nervosa, docinho? — sussurrou perto de seu ouvido, e Clara apenas a empurrou.
– Sabia que eu odeio você? — Clara murmurou e ouviu a risada de Marina. — Só vou cogitar ir com a sua cara de novo quando você apagar a porra da luz!
– Ah, peraí que eu vou apagar o sol, já venho... — disse irônica, e pensou ouvir a risada da menina.
– Vá se foder.
– Só se você for comigo.
Clara tirou o travesseiro da cabeça com a maior cara de tédio do mundo.
– Marina, vá tomar no meio do seu...
Ela a beijou. Clara esperneou, batendo os braços, mas Marina a segurou pelos pulsos, e Clara lgemeu em meio ao beijo.
Quando a soltou, as duas estavam com a respiração ofegante.
– Babaca — Clara disse, e Marina gargalhou.
– Insuportável.
– Idiota!
– Cala a boca e vem cá... — Marina jogou o edredon por cima de suas cabeças, e as duas riram, antes de arrumarem algo muito mais interessante pra fazer.
Flashback OFF
Pegou um copo de leite e esquentou no micro-ondas. Diziam que aquilo funcionava, no entanto, achava que seria perda de tempo. Tomou em quase um gole só e se jogou no sofá, a casa iluminada apenas pela luz fraca de um poste, através das cortinas. Ligou a televisão e procurou qualquer porcaria que lhe parecesse útil assistir, e acabou dormindo por algumas horas.
Ao levantar, seis e meia, tomou um banho e colocou o uniforme do colégio. A gravata sempre mal apertada, optou por um short preto e seu all star surrado nos pés. colocou seu perfume preferido e claro, seu batom vermelho — o perfume e batom que Clara tanto gostava — e desceu as escadas. Ainda estava cedo, então saiu de casa e sentou nos degraus da frente, com o iPod em mãos.
Estava ansiosa.
Precisava vê-la o quanto antes, mesmo que não tivesse ideia do que faria.
– Pensando nela?
Marina ouviu uma voz fininha e olhou para o lado, assustada. Viu Cassie, sua vizinha de apenas onze anos, sentada na escada da casa dela, com seus pijamas rosa de ursinhos e um livro do Harry Potter e o Cálice de Fogo em mãos. Chacoalhou a cabeça, atordoada.
– O que você está fazendo de pijamas na rua? — antes que a menininha respondesse, continuou: — E como... Como você sabe?
A pequena garota riu, deixando suas bochechas rosarem.
– Insônia — respondeu simplesmente.
– Crianças de dez anos não têm insônia.
– Eu tenho onze — Cassie pareceu nervosa.
– Tá, desculpa — Marina quase riu; no entanto, não estava tão bem humorada pra isso. — Você estava chorando?
Cassie corou, limpando o rosto com as mãos.
– Já li esse livro quatro vezes... — murmurou. — Sempre choro na morte do Cedric. Não pelo Robert Pattinson, que fique bem claro... É um personagem de coração tão bom...
Marina sorriu para o jeito que a menina falava. Nem parecia ter sua pouca idade.
– O mundo nem sempre é justo, Cassie.
– Mas na maior parte das vezes, nós apenas pagamos pelos nossos próprios erros, Marina — ela a olhou de maneira expressiva, e Meirelles deixou o queixo cair.
– Do que você está falando? Como que você...?
– Sua mãe contou o que houve ontem para a minha no chá da tarde — Cassie deu de ombros. — E só pra constar: você é uma idiota.
Marina chacoalhou a cabeça, quase rindo da situação bizarra. Estava discutindo seu relacionamento com uma criança!
– Eu sei que eu fui uma idiota — murmurou, pronta para dar um ponto final à conversa. Mas por outro lado, tudo que precisava era desabafar.
Cassie encarou o livro despreocupadamente.
– Eu estava cega de ciúmes — disse baixo. — Ah, que droga! Ontem fui até a casa dela, ela não me perdoou, mas eu disse que vou fazer qualquer coisa para...
– Você a ama? — a garotinha interrompeu, virando uma página do livro.
Marina soltou o ar pesadamente.
– Muito.
Cassie fechou o livro, e a encarou.
– Então você já sabe o que fazer, Meirelles. Lute por ela.
– Mas eu... — Marina sentiu raiva de si mesma ao dizer o resto da frase. — Já disse a ela que amor não é tudo nessas horas.
Cassie rolou os olhos, impaciente.
– Você é mais retardada do que eu pensei — disse, quase rindo de sua desgraça. — Mas pelo que eu entendi, ela a ama. Se não amasse, não teria corrido atrás pra provar que era inocente. Nem estaria sofrendo agora. Faça alguma coisa!
– Eu sonhei que me declarava em cima da mesa do pátio — Marina fez uma careta, e a menina riu.
– Piegas. Acha que funciona?
– Não tenho ideia — Marina acabou rindo junto. — Clara é indecifrável.
Cassie viu os olhos de Marina brilharem e sorriu.
– Isso daria uma ótima história de livro — disse, sorrindo. — Sabe, Marina, quando você encontrar com ela, vai saber o que fazer. Se tiver que subir na mesa, suba... Afinal, o amor é assim, não é? Constantemente ridículo e difícil de entender. Só quem ama, sabe.
Marina sorriu largamente.
– Você me assusta — Meirelles disse, encarando a seriedade de uma garota que parecia ter inteligência sobrenatural. — Você ama alguém? Digo, já se apaixonou? — Cassie gargalhou da pergunta.
– Eu tenho onze anos! Talvez eu ame o Justin ou algo assim. Mas eu ainda não amo ninguém de verdade. — Aposto que tem algum príncipe no seu colégio por quem você fica babando — Marina desafiou, e a menina riu, sem humor.
– Os garotos do meu colégio são idiotas, e o único bonito, é muito velho pra mim.
– Eu sou a princesa do meu colégio — Marina disse, presunçosa, e Cassie a encarou dos pés a cabeça, com ar de desdém.
– Bem que minha mãe diz que a juventude desse país está perdida — falou, e Meirelles fez cara de espanto, mas depois riu.
– Aonde você vai? — ela perguntou, ao ver Cassie caminhar até sua porta.
– Não posso ir de pijama para o colégio — ela falou como se Marina fosse uma retardada. — E você, devia ir logo para o seu. E conquistar sua garota de volta — Cassie sorriu. — E saiba que se não vier me contar como foi, quebro sua cara.
Marina gargalhou.
– Muito simpática — disse, rindo. — Obrigada, Cassie.
– Por nada — ela sorriu. — Agora se manda, se alguém me ver de papo com você, vão achar que eu ando muito avançadinha.
Meirelles gargalhou ao ver a loirinha de cor-de-rosa entrar em casa.
Ela estava mais do que certa. E agora, parecia que tudo seria mais simples.
Elas se amavam.
Quem diabos ia contestar o amor?
****
Marina estava determinada. Ao se aproximar do portão do colégio, sabia exatamente o que faria.
Talvez fosse necessária a cena do sonho pra chamar atenção. Ela não ligava.
Se tudo desse certo como imaginava, claro. Porque subir numa mesa e levar um toco na frente do colégio inteiro, seria humilhante.
Mas algo dizia que Clara não faria isso.
Guardou com cuidado a pulseira que tinha lhe comprado na França dentro da bolsa, pegou o material e correu em direção à porta. O papo com Cassie a tinha distraído, e já estava perto do sinal quando chegou. Olhou em volta, direto para a mesa que as meninas costumavam usar, mas não viu ninguém ali.
Avistou Gisele e Roberta se pegando em um canto e sorriu, fazendo um esforço para tentar lembrar que aula Clara tinha no primeiro tempo — talvez já estivesse na sala, dormindo sobre a carteira, ou papeando com as meninas.
– Biologia! — disse para si mesma, admirada por saber.
Sua memória andava mostrando serviço, e ela agradeceu por isso.
Esbarrou em algumas pessoas, mas não se lembrou de desculpar-se. Abriu a porta da sala de uma vez só, fazendo uma nerd que estava na bancada mais próxima pular na cadeira. Teria rido de verdade se não estivesse ali por outros motivos.
– Luiza! — ela apontou para a amiga, que levantou as mãos como uma ladra, rindo.
– Juro que não fui eu! — ela exclamou, e Marina riu levemente, sentando-se no banquinho ao lado do dela.
– Cadê sua companheira de laboratório? — perguntou fingindo indiferença, mas a cara de “sua idiota” de Luuh a fez rir. — Preciso falar com ela.
– Ela já foi, ué — a menina deu de ombros, mexendo no celular, e Marina franziu a testa.
– Cabulou hoje?
– Hã? — Luuh a encarou, fazendo careta. — Meirelles, já falei pra você parar de beber no meio da semana! É feio!
Marina rolou os olhos, mas uma sensação horrível começou a tomar conta dela. Não sabia explicar o que era, mas suas mãos estavam geladas, e ela estava começando a não curtir aquele papo.
– Eu não bebi, Luiza — disse, com a voz tediosa. — Do que você está falando? Cadê a Clara?
Luiza deixou a boca abrir, mas não emitiu som algum. Ela pareceu meio chocada.
– FALA, CACETE! — Marina ouviu seu próprio grito, acordando um garoto que dormia na bancada da frente e assustando novamente algumas pessoas. — Desculpa, Luuh, eu...
– Tudo bem — Luiza respirou fundo, enquanto um monte de alunos entrava na sala, e atrás delas, o professor.
– Bom dia, classe! Hoje nós vamos estudar... — o professor olhou pra mesa de Luuh, e então virou o rosto para Marina. — Marina Meirelles, que eu saiba você não frequenta minha aula nesse período.
Marina sorriu amarelo.
– Só um minuto, professor, já estou indo.
Sorte dela era que o Sr. Bersen, um jovem de trinta e poucos anos, era bastante calmo, apenas rolou os olhos e se dirigiu ao quadro.
– Onde ela está? — Marina sussurrou, mesmo assim, alto demais. Luuh fez um sinal para que ela calasse a boca.
– Você não soube? — perguntou, mesmo sabendo o que viria a seguir. — A Clara foi... Ela...
– ELA O QUÊ?
– Marina Meirelles, queira por gentileza se retirar da minha classe! Já não basta estar aqui, ainda vai atrapalhar minha... — Bersen não conseguiu continuar.
– Luiza, me fala! — sua cabeça girava. Que brincadeira era aquela?
Nem sabia o que estava acontecendo — mas seu sexto sentido lhe dizia que já podia começar a surtar. Luuh a segurou pelo braço, puxando pelo corredor entre as bancadas. — Luiza , se você sair da sala e perder a explicação do exercício, não se preocupe em voltar hoje — o professor advertiu, e Luuh rolou os olhos, sem responder nada, empurrando Marina para o corredor.
– Uma bela encrenca você me arrumou, Marina — ela murmurou no corredor silencioso e vazio.
– Luiza, dá pra você me explicar essa porcaria de história de uma vez só? — Marina quase cuspiu as palavras, falando um pouco mais baixo, mas sua voz estava estranha. — A Clara está bem? Ela tá aonde? Ela...
– Ela foi embora, Marina.
O chão parecia ter aberto debaixo de seus pés. Tudo que Marina queria era acordar e descobrir que aquilo era um pesadelo. Ou uma puta piadinha de mal gosto da parte de Luiza. Mas já a conhecia bem agora, e ela não parecia estar de brincadeira. Seus olhos ardiam, e Luuh tocou sua mão.
– Ah, Meirelles... — ela sussurrou, tocando a mão do amigo. — A Clara vai passar uns tempos na França, com a tia dela, dona da mansão... Ela... — Luuh não conseguiu terminar a frase.
Olhou para a cara da amiga, que parecia ter visto um fantasma, a loira do banheiro ou qualquer coisa muito assustadora.
– Marina, calma...
– Eu não acredito que ela fez isso! — a voz de Marina era um sussurro. — Eu não... Eu não acredito que ela fugiu de mim.
– Meirelles, por favor — Luiza ia dizer, mas foi novamente interrompida.
– COMO NINGUÉM ME AVISOU? — seu grito ecoou no corredor inteiro. Luuh a puxou pela gravata, e tampou sua boca com a mão.
– Quer ser expulsa? — sussurrou.
– Foda-se! — Marina disse alto. — Por que ela não me disse? Por que VOCÊS não me disseram?
– Marina! Me deixa falar!
– Quer saber, Luuh? — ela riu, meio sarcástica. — Não quero ouvir! — Marina respirou fundo. — Eu vou atrás dela.
– VOCÊ O QUÊ? — dessa vez Luiza quem gritou.
Marina sorriu, mas era um sorriso triste.
– Não é o fim — ela suspirou. — Eu não vou deixar que isso termine.
– Marina, você não pode estar falando sério! — Luiza chacoalhou a cabeça, gesticulando exageradamente.
– Nunca falei tão sério em toda minha vida — ela disse, olhando o corredor vazio. — Eu já perdi tempo demais.
Marina caminhou pelo corredor, deixando Luiza para trás. Luiza correu atrás de Marina, enquanto um alarme ensurdecedor começou a tocar, e todos os alunos começaram a correr para fora das salas.
– Que porra é essa? — Gisele apareceu em seu lado como se tivesse brotado do chão.
– Alguém deve ter acionado o alarme para fazer gracinha — Fernanda gargalhou. — Amo essa pessoa.
Marina mal podia escutar o que as duas falavam. Não pelo alarme, muito menos pela balbúrdia.
Seu coração martelava em seus ouvidos.
Clara tinha ido embora.
E a culpa era toda dela .
– Meirelles! — Luiza segurou em seu braço, esbarrando em Fernanda, que nem tinha visto sua garota por ali.
– Oi, amor, eu não... — Fê começou a falar, mas Luiza a empurrou.
– Você não pode fazer isso, Marina! Você não...
– Eu vou!
– O que está acontecendo? — Gisele perguntou.
– Eu estou indo pra França — Marina disse rapidamente. — Vou buscar a Clara. Vou fazê-la me perdoar. Ela não pode simplesmente ir embora e me deixar aqui, fugir do que nós...
– Marina, você pirou? — Fernanda disse, com cara de espanto. — Dê tempo ao tempo, vocês vão se acertar!
– Tempo ao tempo? — ela riu, sem humor. — Clara fugiu de mim! Fernanda, ela me odeia!
– Há, pelo amor de Deus, Marina! — Gisele se intrometeu, rindo. — A Clara não te odeia nem nunca odiou.
– Só que eu me recuso a ficar aqui parada.
Marina continuou andando, dessa vez com as três em sua cola. Bufou, nervosa, mas continuou ignorando o que falavam. Sabia que aquela era uma atitude precipitada. Estava sendo impulsiva, mas se nunca tinha sido racional na vida, não seria dessa vez.
Se recusava a ter uma conversa daquelas por telefone ou algo assim. As coisas tinham mudado — agora não era o simples fato da briga, era também a fuga dela.
Devia ter imaginado que Clara faria algo desse tipo.
– Marina, para quieta, porra! — Fernanda a segurou. — Dá pra você parar de enlouquecer? Como você vai simplesmente IR PRA FRANÇA?
– Eu não sei — Marina riu baixo, mas estava ansiosa. — Só sei que vou.
– Pra quê? Você quer dar uma de heroína ? Qual é! — Fernanda rolou os olhos. — Olha a merda que você fez, Marina, você não vai simplesmente...
– Obrigada pelo apoio, queridas amigas — Marina fez um joinha com a mão. — Vocês não conseguem entender? — Marina pareceu impaciente, seu rosto demonstrava desespero. — É exatamente pela merda que eu fiz que eu tenho que ir atrás dela e trazê-la de volta! Eu não consigo simplesmente apagar meu verão da cabeça, não consigo não tê-la por perto... Eu...
– Ai. Meu. Deus — o queixo de Luuh caiu. — Você... Você a ama!
Marina sentiu seu rosto corar subitamente. Encarou o piso branco e colocou as mãos na cintura. Depois riu de si mesma.
– Claro que amo.
Fernanda e Gisele se entreolharam, quase rindo.
– Tão profundo... — Gisele murmurou e Marina riu um pouco mais alto.
– Isso é algo que eu tenho que fazer, sério — ela sorriu para as amigas.
****
Não esperou que ninguém dissesse nada, odiava se declarar publicamente, especialmente quando o alvo não estava lá. Ao continuar sua jornada até o portão, mal conseguia ouvir as coisas, e já não sabia mais se suas amigas estavam lhe seguindo. No entanto, no meio daquilo tudo, seu ouvido pareceu captar uma única voz.
– Então ela entrou no meu quarto, e cara, já foi tirando a blusa! — Cadu gargalhou, e Marina olhou para sua esquerda.
Lá estava ele, com Ian, seu capataz gay, dois outros caras e perto deles, algumas líderes de torcida.
Marina percebeu que o sangue lhe subira à cabeça em uma velocidade que não podia ser considerada saudável. Seu coração acelerou devido ao ódio, e ela fechou as mãos em punhos.
Demorou dois segundos.
Caminhara até Carlos Eduardo, que estava de costas, e tocou o braço dele.
Cadu virou, mas não teve tempo de ver quem estava ali, quando Marina acertara em cheio um soco em seu rosto, fazendo-o despencar no chão.
As meninas ao redor gritaram, e ela percebeu que as pessoas corriam até eles.
– QUE PORRA É ESSA? — Brian gritou, segurando o rosto.
Marina o pegou pelo colarinho da camisa do colégio, fazendo-o levantar mais rápido do que o pretendido.
– Cala a merda da sua boca, seu filho da puta — Marina disse baixo, quase sussurrando. O garoto engoliu seco. — Você pensou que podia fazer o que fez e se dar bem, né, sua bichinha de merda? — ela riu, sarcástica, e alguém lhe segurou pelo ombro, mas Marina fez um movimento bruto, se soltando.
Brian riu, ainda com cara de dor.
– Descobriu? — ele riu alto e irônico, e Marina acertou outro soco no garoto, sem soltar seu colarinho.
– Marina Meirelles! — ouviu a voz da inspetora. — Para a diretoria! AGORA!
Meirelles gargalhou, soltando Cadu. Virou o pescoço para encarar a senhora gorda e descabelada, depois voltou um soco na barriga de Cadu, que quase caiu.
– Marina! Para com isso! — era a voz de Robby.
– Escuta aqui, Carlos Eduardo — Marina disse, enquanto Vanessa a puxava pra trás. Ela voltou pra perto do garoto. — É melhor você torcer, é melhor você rezar pra Clara me perdoar! — disse entre dentes, segurando-o — Porque se ela não voltar comigo, isso aqui vai ser pouco perto do que vai acontecer com você.
Marina soltou o garoto com força, fazendo-o bater as costas na mesa, e quase derrubar Ian. Olhou para trás, e todos pareciam chocados.
Suas amigas estavam lá.
– O que você fez? — Flavinha sussurrou, pasma. — Você vai ficar de detenção pra sempre!
A inspetora surgiu o meio delas, e segurou Marina pelo braço.
– Você está encrencadas, mocinha. Marina sorriu amarelo, ainda com uma vontade absurda de fazer de Cadu seu Bob — o boneco do boxe.
– Tomara que ela mande você se foder — Cadu gritou, e Meirelles sorriu.
– Cuidado, Carlos Eduardo — ela sorriu. — Se eu afundar, você morre afogado.
A inspetora a olhou assustada.
– Fique quieta, garota! — ela ordenou, a puxando. — Você ganhará uma bela suspensão, e um mês de detenção, se a diretora estiver de bom humor — a inspetora sorriu, como se divertisse com a ideia. Marina arqueou a sobrancelha.
– Detenção? — perguntou, vendo que Fernanda, Vanessa , Gisele e as meninas estavam atrás dela e da mulher. Ela assentiu. — Não, eu não posso. Digo... Não agora.
A inspetora gargalhou.
– Você não pode escolher o dia melhor pra você, Meirelles. Se não quisesse ficar de castigo, era só não esmurrar outro aluno.
Marina se desvencilhou do braço da mulher, olhando para as amigas e para ela.
– Eu estou indo embora — ela disse rapidamente. — Quando eu voltar a gente conversa.
– Meirelles! — Flavinha abafou o berro com a mão, depois se aproximou dela. — Você fumou orégano? Aonde você...?
– Ela vai pra França — Luiza disse simplesmente.
– Ela vai para a diretoria — a inspetora a segurou, quase rosnando.
– Não vou não! — Marina quase riu. — A senhora não entende? Eu tenho algo muito importante pra fazer! Eu preciso trazer a Clara de volta!
Marina viu o queixo de Vanessa cair.
– Clara Fernandes ? — a inspetora perguntou, tentando disfarçar o interesse. Meirelles concordou. — Veja bem, queridinha, eu não tenho nada com a vida amorosa de vocês, meu trabalho é...
– Você vai fazer seu trabalho... Quando eu voltar — Marina sorriu.
– Deixa eu ver se eu entendi! — Vanessa arregalou os olhos. — Você acordou hoje, espancou um filho da puta, e resolveu que vai pra França atrás da minha irmã depois de tudo o que você fez?
Marina engoliu seco. Várias pessoas estavam ali por perto.
Ah, não... Brigar com a Vanessa não estava nos planos, definitivamente.
Optou por apenas concordar com a cabeça, e depois encarou a amiga nos olhos. Vanessa sustentou o olhar pelo que pareceram intermináveis segundos, depois sorriu.
– Até que enfim vai fazer algo que preste, Marina — disse, sorrindo, depois deu um abraço na amiga. — Vá buscá-la, Mari. Mostra pra ela que você é só um pouquinho retardada. Marina sorriu largamente, enquanto todas as amigas e a inspetora encaravam Vanessa com um certo olhar de espanto. As duas se abraçaram de novo e Vanessa riu.
– O que foi? — Marina perguntou.
– Nada... Boa sorte, você vai precisar.
Robby se aproximou.
– Toma — ela estendeu a mão para Marina , e lhe deu uma chave. — É a chave do meu carro, eu tenho a cópia de segurança lá em casa. Vá pegar seu passaporte e estacione perto da saída D do aeroporto, mais tarde eu vou lá buscá-lo. E por favor, não bata nem amasse minha lataria, ou eu corto sua cabeça.
Marina gargalhou, abraçando a amiga.
– Não acredito que isso tá acontecendo — Luiza disse, boquiaberta, e Vanessa a abraçou de lado.
– Obrigada, galera — Marina disse simplesmente, andando de costas.
– Marina Meirelles! — a inspetora gritou. — Saiba que se atravessar esse portão, sua detenção é até o final do ano! — ela disse apontando o dedo.
Marina riu.
– Eu não me importo.
– Marina Meirelles!
– Corra, Marina, corra! — disse Roberta, gargalhando.
– Boa sorte! — as meninas sorriram.
– Au revoir!
Marina disse por fim, fazendo as amigas gargalharem, e saiu correndo portão afora, ouvindo alguns gritinhos de algumas pessoas que tinham escutado a conversa inteira.
– Vá buscá-la, Marina!
– Como você conseguiu? A Clara Fernandes é muito gostosa!
– Ai, meu Deus, que romântico!
– Que coisa mais linda!
Marina Apenas gargalhou, correndo até o carro de Roberta, sentindo aquelas borboletas ridiculamente no estômago.
Em algumas horas Clara seria dela de novo.
Ela tinha certeza.
****
Marina estacionou o carro de Robby atropelando a plantação de flores de sua mãe. Sabia que pagaria muito caro por isso, mas quando ela descobrisse, já estaria na França. Riu do seu pensamento, e correu para a porta. Teve dificuldade em encontrar a chave, e quando conseguiu acertar a fechadura, correu pelo piso liso e quase tomou um tombo tropeçando no tapete. Segurou-se na poltrona, gargalhando de si mesma e totalmente sem fôlego.
– Que porra é essa? — disse, sozinha e rindo.
Estava com uma louca vontade de rir. Na verdade, era tudo ansiedade. Sabia que se parasse de correr e rir feito uma retardada, acabaria vomitando de nervoso.
– Ah, Marina — suspirou. — Você está perdida.
Correu escadaria acima, e abriu a porta do quarto, jogando algumas coisas para fora do armário e alcançando uma mochila que tinha levado para a Riviera. Lá dentro, pegou seu passaporte, único documento que lhe faltava. Depois correu até o quarto de sua mãe. Sabia que ela mantinha dinheiro na segunda gaveta do criado-mudo esquerdo, para emergências.
Aquela era uma emergência e tanto pra Marina. Assaltar sua própria mãe era mero detalhe. Ela já estaria puta por causa das flores, depois pelo dinheiro e posteriormente pela ligação do colégio avisando sobre a briga e sobre a fuga.
É, ela estava literalmente ferrada.
Ao abrir a gaveta, deu de cara com uma quantidade muito menor do que esperava encontrar.
– Merda... Merda... Merda... — andou de um lado para o outro.
Aquela quantia lhe daria facilmente para uma passagem de trem. No entanto, trem demorava demais. Marina não estava em posição de esperar. Talvez tivesse sido besteira ter estourado seu cartão de crédito na viagem. Idiota. Mil vezes idiota.
Sentou na beira da cama, já pegando o telefone para mendigar para alguma amiga — Fernanda, provavelmente, ela era sempre a mais muquirana, logo, era a mais rica — quando lembrou de uma coisa.
Flashback ON
– Eu não posso ficar com isso — Emma empurrou o dinheiro na mesinha de centro para Meirelles, que rolou os olhos.
A última coisa que conseguia pensar naquele momento era a grana de Cadu. As imagens de Clara chorando e pedindo para que ela a escutasse estavam lhe dando um nó muito sério no cérebro e um aperto no peito que nunca sentira antes.
– Eu não quero essa merda — rosnou, levantando-se. — Eu preciso falar com a Clara.
Cory a olhou, e dobrou as várias notas em um bolinho, colocando-as embaixo do enfeite da mesa.
– Então, vai, Mari — ele sorriu. — Vou deixar isso por aqui.
Flashback OFF
Correu escadaria abaixo, agradecendo, pela primeira vez, a Emma e até a Cadu mentalmente. Quatrocentas libras dariam muito bem para lhe comprar uma passagem de avião, e estaria na Riviera o quanto antes. Aquele dinheiro era sujo, e tinha sido por ele que tudo fora estragado, mas talvez ajudasse a consertar também. Levantou o enfeite de mesa e pegou as notas, enfiando-as na bolsa de qualquer jeito, e correndo até o carro de Robby.
Poderia usar o seu, o único problema era que, ao contrário da amiga, não fazia a mais vaga ideia de onde a cópia de segurança de sua chave estava. Nem sabia se tinha uma. Arrastou pneus pensando que Roberta a estrangularia por isso, e correu até o aeroporto.
Chegara lá em tempo recorde, e estacionou o carro perto de onde Roberta tinha pedido. Não tinha muita certeza se era aquela saída mesmo, mas Roberta podia ligar para ela caso estivesse perdida. Isso era o de menos. Correu pelo saguão, carregando absolutamente nada, além de seus documentos, o dinheiro, seu iPod e a pulseira, e ziguezagueou pela fila, idiotamente, até encarar uma mulher de uns trinta anos, acima do peso e com cara de tédio.
– Eu preciso de uma passagem para Nice! — disse, afobada, e a mulher ajeitou os óculos, entediada.
– Pra quando? — perguntou devagar, fazendo Marina rolar os olhos perceptivelmente.
– No próximo voo que você tiver.
Ela virou seu corpanzil para o computador, fazendo uma bola de chiclete.
– O próximo voo que eu tenho sai daqui a oito horas e dezessete minutos.
Marina deixou o queixo cair, finalmente deixando-se abater pelo desespero que tentava lhe derrubar havia horas. Encarou a mulher, atônita, e viu seu nome na plaquinha prateada em seu peito.
– Senhora Kristen, por favor, sou apenas uma pessoa, não é possível que...
– SENHORITA Woodsten seria mais apropriado, garota — ela disse com desprezo. Marina assentiu com as mãos trêmulas.
– Senhorita Woodsten, por favor, eu preciso da sua ajuda! Eu preciso chegar o quanto antes na Riviera para...
– Alguém morreu? — ela perguntou, interrompendo-a e a encarando por cima dos óculos de armação negra e grosseira.
Marina negou.
– Eu preciso... Eu preciso me desculpar com a minha namorada — Marina despejou. — Nós brigamos, e ela estava no Rio noite passada, mas viajou pra lá na madrugada, e eu preciso trazê-la de volta.
Kristen a encarou com mais interesse, e pareceu analisar a cara de afoita de Meirelles. Em seguida, caiu na risada, rodando levemente a cadeira. Marina arqueou a sobrancelha.
– O que foi? — perguntou, impaciente.
– Ah garota, fala sério! — ela disse em um tom informal. — Você realmente está indo pra França ATRÁS DE UMA GAROTA? — Woodsten gritou, ainda rindo.
Marina deixou que sua confusão beirasse a raiva.
– Qual o problema? — perguntou, um pouco alterada, e a mulher segurou o riso.
– Aonde você pensa que está? — ela não esperou resposta, mas continuou rindo. — Acha que isso aqui é Hollywood? — Kristen gargalhou. — Vou te apresentar a uma invenção tecnológica muito usada nos dias de hoje, chamada CELULAR — a mulher jogou seu aparelho velho no balcão, e Marina chacoalhou a cabeça.
– Eu não posso fazer isso por telefone! — disse, mas estava quase rindo daquela mulher.
– Vocês jovens são desesperados demais — ela riu. — A menina FOGE depois de uma briga, e agora você... — Kristen desatou a rir, fazendo Marina rir junto.
Aquilo era realmente patético.
Elas eram extremamente dignas de pena.
– Eu preciso — Marina parou de rir, a encarando com seriedade. — Por favor, eu preciso vê-la. Não sei o que vou fazer da minha vida sem ela.
A mulher deu-lhe um sorrisinho, digitando algo no computador.
– Você sabe que um dia ela vai ficar gorda, não sabe? — disse e Marina riu.
– Talvez — ela deu de ombros. — Mas se ela ainda for minha garota, eu tenho certeza que estaremos felizes. Gordas ou não.
Kristen riu, chacoalhando a cabeça.
– Tenho um assento em um voo que sai daqui a vinte minutos — ela sorriu.
Marina sorriu de volta, radiante, e debruçou no balcão, abraçando-a. A mulher gargalhou, a empurrando.
– Pelo amor de Deus, garota, não me faça mudar de ideia — ela disse, fazendo-a rir. — Quando voltarem, traga-a aqui pra eu vê-la. Essa menina tem que valer muito a pena.
– Ela vale — Marina sorriu. — Eu estou apaixonada.
Kristen gargalhou.
– Ah, não diga! — ela estapeou a própria cabeça e Meirelles riu. — Aqui, sua passagem. Boa sorte, e corra, porque já anunciaram o voo.
– OBRIGADA, KRISTEN! — ela gritou, já correndo dali.
Kristen riu, chacoalhando a cabeça, depois suspirou, olhando Marina quase tropeçar em algumas pessoas.
– Ah, o amor... — ela riu, colocando os fones de ouvido e voltando à sua rotina.
****
Marina afivelou seu cinto, respirando profundamente pela primeira vez nas últimas horas. Lembrou-se do pânico que Clara tinha de altura, e pensou que ela realmente devia estar muito puta para submeter-se a um vôo assim do nada. Isso fez seu coração acelerar.
Será que depois de tudo isso, Clara seria capaz de não voltar com ela?
Será que quando ela chegasse, Clara se surpreenderia? Será que Clara acharia aquilo tão lindo que a beijaria?
Segurou com força nos braços da cadeira, e pensou que álcool poderia cair bem naquele momento. Tantas emoções se colidiam dentro dela, que mal conseguia pensar. Segurou a aeromoça que passava ao seu lado pelo braço, e ela pareceu assustar-se com sua mão gelada.
– Você pode me trazer uma vodka? — perguntou, respirando fundo.
A aeromoça assentiu, e voltou algum tempo depois com o líquido. Marina virou tudo rapidamente, assustando a senhora que viajava ao seu lado.
Estava a duas horas de vê-la de novo, e isso era muito tempo.
Muito tempo para passar pensando no que faria. Muito tempo para se lembrar de cada momento, cada discussão idiota, cada risada, cada beijo e cada noite juntas. Para se lembrar de seu toque, sua pele, seu sorriso, seu sarcasmo e seu jeito doce, que fazia questão de esconder. Segurou o iPod e resolveu que música poderia cair bem naquela hora. Quando a introdução de Hot’n’Cold começou, sorriu idiotamente, sentindo os olhos arderem.
Duas horas sem Ela... E com ela em todas as partes.
****
Clara respirou fundo, encarando pela primeira vez o quarto que foi de Marina durante todo o verão. Sua tia estava no banho e ela teve que acompanhar os funcionários da vidraçaria, que tinham ido retirar o espelho esmurrado. Aquilo lhe fez revirar o estômago, e a tão normal vontade de chorar, que lhe acompanhara durante todos esses dias, resolveu aparecer de novo. O quarto estava limpo, os lençóis trocados, as janelas abertas, e ainda assim, Clara podia sentir o cheiro de Marina ali. Sabia que era psicológico, mas ainda assim, era uma dor tão grande que mal podia calcular.
Marina faria qualquer coisa por Clara, ela mesma tinha dito isso na noite anterior.
Mas Clara não teve coragem de avisá-la de suas pretensões para o dia seguinte.
E até agora Marina não havia ligado, e ela se sentia uma perfeita idiota. Marina era uma puta de uma babaca, pensara. Ela não a merecia. No entanto, seu coração idiota ficava se lembrando de Marina o tempo inteiro e confundindo sua razão.
Correu para fora do quarto, batendo a porta com força, derrubando algumas lágrimas.
– Eu não quero mais saber de você, Marina — disse sozinha, e sua voz, ainda que baixa, pareceu muito alta no corredor silencioso.
– Falou alguma coisa, anjinho? — sua tia saiu do banheiro, e ela deu um pulo, fazendo Janice rir.
– Que susto! — tentou sorrir, e a tia aproximou-se, limpando o rosto da sobrinha.
– Pare de se torturar com essa garota, Clara — ela disse maternalmente, e Clara sorriu.
– Bem que eu queria, tia. Mas ela não sai da minha cabeça — respondeu, fazendo a mulher gargalhar.
– Eu sei a solução pra isso. Tire esse pijama e me encontre lá embaixo em dez minutos. Vamos fazer compras! — sua tia sorriu largamente.
Clara assentiu, sem muita vontade. Comprar sapatos lhe parecera a saída perfeita para afogar os problemas por algum tempo. Provavelmente sua tia bancaria essa ida ao shopping, e ela abusaria até sentir-se culpada. Era o que fazia. Iria trocar Marina Meirelles, a loser estúpida do colégio, por pares de Jacobs e Louboutin, que eram muito mais chiques e nunca, jamais, desconfiariam dela.
Sentiu os joelhos tremerem, mas depois obrigou-se a voltar para seu quarto — o quarto que tinha sido de Fernanda, já que também seu quarto lhe parecera inóspito — e colocou um short jeans e uma camiseta dos Beatles. Calçou um par de sapatilhas vermelhas e pegou um óculos oversized, que esconderia aquela sua cara de doente. Pegou a bolsa, e acabou checando o celular novamente — nenhum sinal de Meirelles. Sentiu-se estúpida, deixando o mesmo na cama, e correu para o andar debaixo.
E que Marina explodisse.
Clara ainda tinha o shopping.
****
Clara jogou as sacolas na cama e respirou fundo.
Estava satisfeita consigo mesma depois de quatro horas batendo perna pelas ruas badaladas e comprando tudo o que há de caro naquela cidade. Desceu as escadas e foi até a cozinha, pegando uma caneca com chá, depois voltou para o andar de cima. Encarar o telefone era estupidez, ela sabia disso. Não pode deixar de fazê-lo, e ao constatar que realmente nada mudara, sentiu uma típica vontade de rachar aquela caneca nos ares, mas já tinha dado trabalho demais para sua tia naquele dia. Caminhou até a varanda e olhou o horizonte.
As ondas quebravam furiosamente na praia, as pequenas luzes da orla estavam acesas, o que a lembrou de todas as noites no quiosque, bebendo mais do que o pretendido e rindo de tudo. Lembrou também de mãos grandes apertando sua cintura, de um perfume que ela não conseguia esquecer e daquele sorriso que quase a matara.
– Merda — disse baixo, e respirou fundo.
Resolveu sair dali o quanto antes, e quando girou os calcanhares para caminhar até a porta de vidro, seu coração parou de bater por alguns segundos — depois acelerou tanto que Clara conseguia escutá-lo em seus ouvidos.
– Oi — Marina disse simplesmente, e Clara derrubou a caneca lá embaixo, ouvindo o barulho oco da mesma contra a grama.
Danny estava na varanda ao lado, aquela que sempre fora sua, durante todo o verão.
– O que... O que você...? — ela gaguejou, com as mãos tremendo.
“Porra, Clara, comporte-se!”, pensou, mas duvidou muito que suas pernas obedeceriam àquela ordem. Marina olhou para baixo, na direção da caneca, e Clara fez o mesmo, contando até duzentos e cinquenta pra tentar não desmaiar.
– AI, MEU DEUS — Clara gritou. — Eu matei um passarinho! — disse, afoita, e Marina gargalhou.
Aquela risada que Clara tanto amava e tanto sentiu falta.
Marina colocou as mãos na cintura, claramente nervosa. Marina estava tentando manter-se inteira, mas depois de um dia tão tenso, estar ali, a uma varanda de distância, pareceu tudo o que Marina sempre quis na vida. Teve que se segurar para não correr até Clara e agarrá-la.
– O que tinha na caneca? — Marina perguntou, vendo o passarinho se arrastar. Clara fez cara de dor.
– Chá.
Marina riu.
– Quente? — Clara assentiu com a cabeça. — Ah, então você não o matou... Você pode apenas tê-lo cozido ou defumado — disse com uma voz estranha, e Clara sorriu olhando para o chão.
Marina viu aquilo.
– O que você está fazendo aqui, Meirelles? — Clara perguntou, olhando em sua direção pela primeira vez. Marina sentiu que aquele era o momento. Se não falasse agora, não falaria nunca mais, e ela precisava parar de tremer e soar. Mas sabia que estava quase morrendo. Marina a olhou nos olhos com firmeza.
– Eu vim buscar você — disse, e para sua própria surpresa, sua voz soou melhor do que o esperado.
– Veio o quê? — Clara estava incrédula. Marina apoiou na lateral da varanda, e ao ver Clara recuar, resolveu ficar parada.
– Clara, por favor, só me escuta até o final, depois você fala qualquer coisa.
– Marina, eu...
– Por favor! — pediu, e Clara pode ver o quão desesperada Marina estava.
Clara apenas assentiu, segurando com força no beiral da varanda.
– Eu sei que eu fui uma idiota! Então eu comecei a pensar em vários jeitos pra te reconquistar, que incluíam mesas e a escola inteira, só que você... Você não tava lá hoje — Marina pareceu ressentida, mas logo recuperou o olhar, e a encarou. — Eu sei que eu posso ter estragado tudo, mas eu atravessei fronteira pra vir atrás de você, e eu não vou deixar você desistir da gente! Você vai voltar pro Rio comigo, e a gente vai se acertar, porque...
– Marina...
– Clara, deixa eu terminar! — ela rolou os olhos. — Porque eu tenho um milhão de motivos pelos quais você deve voltar comigo e entender que fugir não foi a melhor coisa, e eu sei que você gosta de motivos. Você veio logo pro único lugar que só lembra a gente, e ainda quer se fazer acreditar que não liga? — ela suspirou. — Eu não posso deixar isso pra depois, Clara. Eu não consigo deixar nós duas pra depois. E quando você voltar pode ser tarde demais, eu...
– Marina!
– O que é? — ela rosnou, perdendo a concentração.
– Você... — Clara arqueou uma sobrancelha, e Marina a olhou um pouco confusa. — Você sabe que eu vim passar só duas semanas na França, não sabe?
A boca de Marina abriu, mas ela não conseguiu emitir nenhum som. Parecia que um buraco negro gigantesco tivera sido aberto embaixo de seus pés, a sugando com força para um local onde pagar esse tipo de mico era normal. Seu rosto corou ferozmente.
– Como é que é? — ela conseguiu dizer depois de alguns segundos, e ouviu Clara rir.
A princípio, Clara apenas sorriu, mas depois que seus olhares se encontraram, Clara começou a rir com tanta vontade que Marina acabou sorrindo, e teria rido, se não estivesse morta de vergonha.
– Eu não acredito nisso! — Clara disse entre risos, e Marina riu um pouco. — Você é muito perdida, Marina. Ninguém merece — Clara a encarou. — O marido da tia Janice teve que viajar a trabalho, e ela está grávida, gravidez de risco, e é por isso que eu estou aqui. Pra ajudar caso ela precise de alguma coisa.
Marina ficou em silêncio, depois disparou a falar.
– Então era isso que a Luiza... E que a Gisele... Era isso que elas queriam me falar! — Marina deu um tapa na própria cabeça, envergonhada. – Ai, caralho, eu sou muito retardada mesmo — ela riu. — Puta que pariu! Pode rir da minha cara, vai...
Clara sorriu, a encarando.
– Eu achei que isso foi meio... Fofo — Clara disse quase num sussurro, o que fez Marina levantar o olhar, sentindo algo aquecer em seu peito.
– Ok, eu já estou aqui, a gente pode apagar essa cena anterior e eu posso dizer tudo o que eu quero dizer? — Marina perguntou de um jeito tão fofo que fez a menina sorrir sem querer.
– Fala, Meirelles — ela disse, rolando os olhos teatralmente.
As duas sabiam disso.
Marina percebeu que suas mãos estavam suando. Imaginara aquele momento de uma forma tão diferente, devido à fuga, que agora estava realmente perdida, como Clara tinha dito.
– Você não sabe como doeu em mim pensar que eu tinha te perdido de verdade — ouviu sua própria voz dizer, enquanto Clara brincava nervosamente com suas pulseiras.
– Mas você me perdeu de verdade — Clara a encarou, mas aquele golpe já não doía mais. Marina não estava ali para se deixar abater por orgulho.
E foda-se qualquer tipo de orgulho.
– Eu sei — ela sorriu, triste. — Mas eu estou aqui pra tentar te reconquistar.
Ao perceber que Clara não falaria nada, Marina respirou fundo.
Aqueles poucos metros entre as duas varandas estavam a matando, mas achou melhor não fazer nada precipitado. Cada palavra, cada gesto tinha que ser calculado, ou Marina colocaria tudo a perder.
– Eu amo você — ok, era um bom começo. Sua voz saiu meio estrangulada, mas os olhos de Clara focaram no dela bem mais interessados. — Eu preciso que você me perdoe. Eu sei que eu fiz tudo errado, mas Clara, eu juro que foi tentando acertar. Eu meti os pés pelas mãos, mas nunca quis magoar você — ela suspirou. — Esse tempo longe foi uma merda. Eu... Eu preciso de você. Só de você.
Clara mordeu o lábio.
– Por quê?
Perguntou por fim, e Marina riu baixinho, chacoalhando a cabeça.
Sabia que Clara faria isso.
– Porque depois que eu estive com você, nenhuma garota parece boa o suficiente. Porque nenhuma delas tem seu sorriso, e nenhuma delas fala meu nome do jeito que você fala. Porque você é tão linda que eu não consigo pensar em sequer olhar pro lado. E eu não tenho vergonha de dizer isso — ela sorriu, a olhando nos olhos. — Porque minha vida mudou quando nos encontramos naquele aeroporto, antes de vir pra cá, um mês atrás. Foi lá que eu soube que você era diferente, e eu não sabia explicar, mas hoje eu sei que já estava obcecada — Clara sorriu, olhando as próprias mãos. — Porque minha vida mudou quando nós brigamos aqui, nessa sacada, quando eu tentei te beijar e você negou, e depois quando nós nos beijamos fora daquela balada. Mudou quando você dançou Hot’n’Cold pra mim, quando dormimos juntas pela primeira vez, quando sua irmã esmurrou minha cara. Quando você achou a carta da aula de literatura. Mudou todas as vezes que eu achava que a vida era uma merda, ou estava brava por alguma razão, e eu olhava pro lado, e sem saber de nada, você sorria pra mim. Ou quando nós tínhamos as brigas mais idiotas e acabávamos resolvendo-as na cama — Marina mordeu o lábio e sorriu, vendo que uma lágrima solitária correu pelo rosto de Clara. — E meu mundo desabou quando eu achei que tudo o que eu sempre quis tinha sido tirado das minhas mãos, e que tudo tinha acabado.
Clara levantou o rosto, e as duas se entreolharam, em alguns segundos de silêncio. — Eu entrei em um avião por você. Eu iria mais longe se você dissesse que era isso que eu precisava fazer para poder encostar em você de novo, pra te beijar e pra esquecer essa merda de vida que eu estou tendo. — Marina sentiu os olhos arderem. — Eu não consigo mais me lembrar de antes, de como era sem você. E eu não posso esquecer tudo isso, quando tudo que eu quero é pular essa porra de varanda e fazer você ser minha. E eu vou continuar falando tudo o que eu penso sobre nós duas, até que você me mande calar a boca.
Clara sorriu, e depois a olhou nos olhos pela primeira vez.
– Cala a boca — disse, fazendo Marina sorrir um pouco, talvez contente por ter ouvido sua voz após aquele longo monólogo.
Clara não conseguia sentir as pernas.
Borboletas no estômago? Besteira! Elas já tinham acampado e dominado seu corpo inteiro. O que diabos era aquilo?
– Fala alguma coisa, por favor — Marina disse com as mãos pra trás e ela sorriu.
– Isso foi... — Clara não conseguia achar as palavras certas. — Desnecessário.
O rosto de Marina se transformou, e Clara sorriu.
– Você tinha me ganhado no momento que apareceu nessa varanda, Marina — ela sorriu largamente, e Marina a acompanhou, com o alívio estampado no rosto. — Eu sei que eu posso estar sendo imbecil de dar meu coração a quem já o quebrou de tal forma que eu não imaginava que tinha conserto — Clara chacoalhou a cabeça. — Mas acho que a única que podia consertar essa merda que minha vida virou, era você.
Clara sorriu de canto, tímida, e colocou uma perna pra fora da varanda.
– Clara! O que você tá fazendo? — Marina pulou no parapeito, desesperada. — Volta lá pra dentro, eu tô...
– Cala a boca, Meirelles — ela disse, rindo.
Fixou os dois pés no parapeito estreito, depois respirou fundo, uma única vez. Caminhou rapidamente até perto de Marina, que já tinha andado metade do caminho. Marina estendeu a mão para Clara, que a segurou com firmeza.
– Você... — Marina sorriu, abobada. — Você tem medo! Como que você...?
– Shhh... — Clara fez sinal de silêncio nos lábios de Marina, que sentiu o corpo inteiro arrepiar. — Eu tenho medo. Morro de pânico. Mas eu estou com você — ela sorriu. — Então simplesmente o medo passa. Minha sanidade deixa meu corpo e eu começo a agir como uma idiota apaixonada.
Marina sorriu largamente, a segurando pela cintura.
Elas encostaram as testas, e Clara respirou fundo.
– Eu... Eu senti tanto a sua falta — ela murmurou, e Marina a segurou pelo queixo, apertando o braço que estava ao seu redor.
– Eu não existi nesses últimos dias — Marina disse, e era verdade.
Clara a abraçou com tanta força que o mundo pareceu parar de girar. Não precisava de mais nada. Marina sentiu uma lágrima quente da garota em seu pescoço, e fez com que ela a olhasse, limpando seu rosto delicadamente.
– Eu nunca mais vou magoar você. Eu nunca...
– Eu te amo — Clara a interrompeu, e Marina lhe lançou um sorriso tão lindo que desbancara todos os que Clara tinha eleito como preferidos de Marina Meirelles.
– Eu também amo você — Marina sussurrou.
As duas sorriram, e então Marina distribuiu alguns beijos no pescoço de Clara, dando-lhe um selinho no final. Roçaram os narizes, apenas sentindo as respirações quentes uma da outra, os corações que batiam tão alto que pareciam colidir. Marina puxou o lábio de Clara com os dentes devagar, e ela sorriu, fechando os olhos quando sua língua tocou a sua, e sua mão apertou sua cintura. Clara embrenhou seus dedos nos cabelos de Marina, e a beijo, cheio de saudade e delicado, tornou-se um pouco mais voraz do que o local permitia. Elas não se importavam. Quando estavam sem fôlego e respirando um pouco alto demais, Clara desfez o beijo, dando alguns selinhos em Marina.
Demoraram para abrir os olhos.
Encararam-se em silêncio, as testas encostadas e as respirações falhas. Marina tirou a pequena pulseira bolso, e sem dizer nada, a colocou no pulso de Clara, que sorriu largamente e a beijou. Quando terminaram, Marina a segurou pela cintura e riu, marota.
– Eu não disse que você seria minha? — Marina riu ao receber um tapa. — Outch!
– Fica quietinha, vai... — Clara murmurou, a beijando novamente.
Meirelles sorriu no final do beijo, e a encarou.
– O que foi? — Clara riu.
– Estou pensando em uma frase de impacto para o momento — disse e Clara gargalhou. — Já sei! — Marina sorriu, abobada. — E então elas viveram felizes para sempre.
Disse, fazendo Clara rir enquanto se beijavam.
Para sempre.
Clara gargalhou, soltando o beijo.
– O que é? — Marina perguntou e ela chacoalhou a cabeça. — Fala, Clara!
– “E então elas viveram felizes para sempre”? — ela riu. — Que porcaria é essa, Marina? Isso aqui não é final de conto de fadas! − disse, rindo, e Marina se afastou um pouco, a encarando.
– Por que diabos você sempre estraga todo o romance?
Clara abriu a boca, indignada.
– Eu estrago o romance? — Clara riu, sarcástica. — Eu estou aqui no parapeito correndo risco de vida por sua causa, e eu estrago o romance?
– Há! — Marina riu. — O máximo que aconteceria aqui era você quebrar uma perna! E falando em romance, FUI EU quem pegou um avião e correu atrás, não?
– Insensível! — Clara murmurou, nervosa.
– Mimada!
– Idiota!
– Fresca!
– Insuportável!
– CALA A BOCA! — as duas gritaram ao mesmo tempo, depois caíram na gargalhada.
Marina segurou Clara pela cintura novamente, e ela sorriu.
– Ok, dessa vez vamos fazer direitinho como um casal fofo, ok? — Clara disse como se Marina tivesse cinco anos, e ela rolou os olhos, rindo.
A puxou com força a beijou de uma vez só, sem se preocupar com permissão ou qualquer coisa do tipo. Suas línguas adoraram o reencontro, brincando e lutando como sempre. Elas se pertenciam. Marina mordeu o lábio de Clara, e as duas sorriram, ao abrirem os olhos.
– Eu amo você, sua babaca!
Marina sorriu, radiante.
– Eu amo você — ela aproximou a boca de seu ouvido, e Clara mordeu o lábio, já sorrindo por antecipação. — Docinho.
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