Os Olhos da Morte
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Duas semanas se passaram desde que Nicolas e Jessie foram embora. Eu não tinha nenhuma notícia deles. Minha vida não estava nem um pouco diferente da vida antiga, quando eu morava sozinha. A única coisa a mais é que dois anjos muito rígidos viviam comigo e me tratavam feito uma adolescente rebelde.
Eu já estava ficando zangada, pois, nessas duas semanas, nem Ladriel e nem Lidiel me disseram o que eu deveria fazer. Por que estavam me mantendo presa naquela fazenda? E se não fosse nada do que eu estava pensando, do que disseram? E se, de algum modo, eu fosse alguma ameaça e eles inventaram toda aquela história para acabar comigo?
Lidiel disse que precisaríamos ter uma conversa séria, mas sumira no dia seguinte e depois aconteceu toda aquela confusão. Ela não tocou mais no assunto. Na verdade, ninguém tocava em assunto nenhum. Eu iria enlouquecer se continuasse assim.
Uma noite, quando estava jantando, Ladriel apareceu na porta da cozinha.
— Precisamos conversar.
Não respondi.
— Depois de te analisarmos, percebemos que você ganhou um, digamos, dom – ele ignorou o fato de que eu o estava ignorando.
Eu estava morrendo de curiosidade, claro, mas não falaria nada como “um dom?”, “que tipo de dom?”, “como assim?”. Sim, iria ignorá-lo, porque isso é o que ele fazia sempre que eu perguntava sobre Nicolas e Jessie.
— E, é claro, você precisa desenvolvê-lo – ele se sentou na minha frente. – Vai mesmo fazer birra?
Apenas o encarei.
— Continua — disse como se estivesse entediada.
— Você se lembra quando eu te chamei na lanchonete? No seu sonho?
— Quando você me contou sobre a doença? Quando disse que Chuck estava doente, não é? — Sim, eu me lembrava.
— Exatamente — ele me encarou. — Você viu, não viu?
Ficamos em silêncio por um tempo, enquanto eu tentava entender o que ele estava falando.
— O que eu vi?
— A doença! — Ele fez parecer tão óbvio.
— Como é que se vê uma doença? Os sintomas dele? De fato, não parecia bem.
— Não, não é disso que estou falando. Pense, Allison. Você viu algo que considerou estranho?
Era impressão minha ou ele estava se referindo à sombra que eu vi em Chuck?
— Isso mesmo — ele disse. — É exatamente isso que você se lembrou. Era uma mancha, não é?
— Como uma sombra... Eu não dei muita importância.
— Por que não?
— Porque estava falando com anjo através de um sonho. Isso já não é absurdo demais?
Ele não respondeu.
— O fato é que não era para ter ignorado.
— Isso tem a ver com o “dom”? — Perguntei. — Eu vejo a doença das pessoas?
— Não. Você vê a aura delas.
— Aura?
— Sim, Allison, aura. Todas as pessoas possuem aura.
— E a aura é aquela mancha que vi em Chuck?
— Sim.
Silêncio. Normalmente cores escuras não são boas coisas.
— O que significa a cor verde?
— Que tipo de verde?
— Um verde musgo.
Ele hesitou, o que não foi bom.
— Doença. Significa que a pessoa tem uma doença muito grave.
Por que eu sempre tinha que perguntar? Isso significava que Chuck estava morto? Mas poderia significar só doença, não é?
— Mas... ele pode ter se recuperado, não? Estava doente.
— Não — ele suspirou. — A cor da doença não tão avançada é um verde oliva. Verde musgo é quando as chances de se recuperar são mínimas. Ela anuncia uma semana, no máximo. Sinto muito, Allison.
Não acredito. Chuck estava morto. Ele estava morto e eu não tomara nenhum café com ele. Eu nem soube mais o que dizer.
— O que quero dizer, menina — ele continuou —, é que você precisa treinar essa habilidade, desenvolvê-la.
Sinceramente, eu não queria. Imagine saber que a pessoa vai morrer em até uma semana e ter que dizer para ela “não se preocupe, você vai melhorar”! Claro que não disse nada para Ladriel.
— Você viu a aura de Chuck em seu sonho, que, na verdade, não era bem um sonho. Mas pode vê-la quando estiver acordada.
— E no que isso vai ajudar?
Ele ficou confuso, isso não acontecia sempre. Na verdade, era a primeira vez que o via assim.
— Como assim?
— Você me trouxe para cá, disse toda aquela história de praga sobre a humanidade e aquela tal profecia. Mas o que eu tenho que fazer? Por que sou eu? Eu vou sair por aí curando as pessoas de aura verde musgo? Eu vou descobrir a cura pra essa doença? Vou reunir os mortos que não estão mortos e ler a palavra do Senhor para eles? Ou vou só arremessar a bíblia nas caras deles e correr antes que tentem me matar?
Estava colocando para fora tudo o que estava pensando nas últimas duas semanas, e não o deixaria me interromper.
— Lidiel disse que tínhamos que conversar sério, e eu concordo. Mas desde o incidente da boate ela mal olha para mim, me trata como se eu fosse a filha rebelde que ela não queria ter, o fardo que ela não queria carregar! – Não era de propósito, mas eu levantava a voz à medida que falava. – Eu estou há duas semanas limpando estábulos e dando comida pra porcos e eu não sei porque! Então, ou você me fala logo o que eu preciso fazer ou me leve de volta para minha casa!
Respirei fundo quando terminei.
— Quer saber por que sumimos no outro dia, depois que te trouxemos para cá?
Não respondi.
Ele se levantou, deu a volta na mesa e me colocou de pé também.
— É melhor ter estômago forte.
Ele me segurou pelo braço. Quando olhei por cima de seu ombro, fiquei horrorizada. Era preciso mais do que estômago forte ou sangue frio para ver aquilo.
Era preciso ser um psicopata.
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