Os Olhos da Morte
7 Capítulo 7
Notas iniciais
— IRRESPONSÁVEIS! — Ladriel gritou, fazendo-me encolher. — É isso que vocês são! Dois irresponsáveis!
— Calma, Ladriel — Nicolas falou, sem nenhum sarcasmo ou ironia. — A culpa não é dela.
— Não me peça para ter calma — ele falou cerrando os dentes. — E a culpa é dela tanto quando é sua!
— Não, ela não queria sair — Nicolas rebateu. — Eu insisti.
— E ELA CONCORDOU! — Ele berrou de novo.
— Ela está bem, Ladriel! Não precisa fazer drama — Nicolas levantou a voz também.
— DRAMA? Chama isso de drama? — Ele deu alguns passos na direção de Nicolas, o que me pareceu bem ameaçador. — Você quase a deixou morrer, QUANDO DEVIA TOMAR CONTA DELA AQUI! Olha só o corte que ela tem no rosto. O que acha que aconteceria se fosse um pouco mais fundo?
Por que eu não dizia nada? Estava com medo. Medo de verdade. Morrendo de medo, aliás. Ladriel sempre foi muito sério, mas calmo. Agora, ele só faltava cuspir fogo. Ainda bem que não podia fazer isso.
Ou será que podia?
— Não tínhamos nada para fazer aqui — Nicolas falou, baixando a voz.
— Vocês não têm que ter algo para fazer — dessa vez, Ladriel quase sussurrou. – Têm que ficar seguros.
— Tudo bem, desculpa — Nicolas olhou para o chão, como se fosse difícil para ele dizer essas palavras. Devo dizer mais uma vez que ele não parece ser um anjo? — Não vai ser repetir.
— Não, não vai — Lidiel falou. Ela, como eu, também estava quieta todo esse tempo, mas com uma aparência nada amigável. — Você não ficará mais aqui.
Silêncio. A única coisa que se ouvia eram nossas (principalmente a minha) respirações.
— O quê? — Nicolas, finalmente, falou.
— Sim, Nicolas. Você irá para outro lugar. E levará aquela garota com você.
—Mas... — ele olhou para Ladriel, em busca de ajuda, mas este apenas o encarou firmemente.
— Sem “mas”, Nicolas — Lidiel continuou. Enquanto Ladriel cuspia fogo, ela nos congelava com o olhar.
— Para onde? — Ele falou, e parecia sentir dor. Na verdade, parecia triste.
— Para a Base 5. Lá você aprenderá a ter mais responsabilidade — Lidiel respondeu, severa. Depois, olhou para mim — E quanto a você, passará a cumprir obrigações aqui. Não pense que só porque é a pessoa da profecia que poderá fazer o que quiser.
Eu perdi alguma coisa? Ela disse profecia?
Queria perguntar, mas tudo o que consegui fazer foi balançar a cabeça afirmativamente.
— Você parte amanhã cedo — ela se voltou para Nicolas. — Diga para aquela garota ficar preparada.
— Sim, Lidiel — ele respondeu, como um soldado. — Com licença.
Ele se retirou, deixando apenas eu, Lidiel, Ladriel e a sensação de que eu iria morrer.
— Pode ir também — Ladriel me falou. — Mas, Allison, eu esperava mais de você.
Dito isso, os dois saíram da sala, me deixando sozinha.
Suspirei. Meu Deus, o que foi que aconteceu?
Sem ter mais o que fazer, subi as escadas do casarão e fui até o quarto onde Jessie estava. Bati na porta.
— Entra — ela falou do lado de dentro.
Abri a porta e encontrei os dois sentados na cama. Esqueça o triste. Nicolas estava arrasado.
—Sinto muito, Nicolas — falei.
Ele me encarou.
— Sente muito pelo o quê?
— Por você ir para a Base 5, o que quer que isso seja — me sentei ao lado dele. — Se eu não tivesse concordado, não teríamos ido.
— Se eu não tivesse insistido, você não teria concordado — ele lamentou.
— Mas se eu não tivesse te pedido para me deixar conhece-la, você não teria insistido — Jessie falou.
Que bagunça.
— Então, a culpa é de nós três — falei. Nos entreolhamos e rimos.
— Mas, Nick, o que é Base 5? — Jessie o encarou. — Onde fica isso?
— Não é bem um lugar — ele explicou. — Está mais para um grupo, uma organização. Base 5 é como chamamos os anjos que se passam por humanos. Como soldados, médicos, entre outras coisas.
— Sério? — Falei. — Existem anjos que trabalham entre os humanos?
— Sim — ele respondeu. — E a Base 5, agora, está mais forte como soldados, para salvar as pessoas de... bem, vocês viram de que.
— Mas isso é bom, não é? — Jessie falou. — Você pode salvar vidas. Do mesmo jeito que salvou a minha. Já agradeci por isso?
— Não, Jessie, não é — ele suspirou. — Na Base 5 ficam os “indisciplinados”, como alguns chamam. Outros, chamam de “dispensáveis”. Significa que nós não temos tanta importância.
Eu e ela não soubemos o que dizer por um tempo.
— Então, quer dizer, que existem outros anjos rebeldes como você? — Ela falou. — Algum que eu possa conhecer por lá? Você sabe que eu adoro quebrar as regras! — Ela riu, tentando animá-lo.
— Não muitos, na verdade, mas acho que você consegue achar alguém — ele riu. — De fato, estamos mais para dispensáveis do que para indisciplinados, ou rebeldes, como prefira.
— E, Nick... — Jessie o encarou, agora séria — o que eu farei por lá?
— Nem eu sei, Jessica... — ele suspirou. — Nem eu sei.
Jessica?
— Que droga — ela acendeu um cigarro.
— Nicolas — falei. Não tive coragem de perguntar para Lidiel, mas eu precisava saber —, o que é aquela, bem, profecia?
— A profecia que disse que, um dia, uma grande praga cairia sobre os humanos, e apenas uma pessoa de bom coração e em sua primeira vida poderia salvar toda a humanidade — ele disse como se não fosse nada. — Ela disse também que era missão dos anjos encontrar essa pessoa.
— Que, por um acaso, sou eu?
— Exatamente.
— Que legal — Jessie sorriu. — Eu bem que gostaria de fazer parte de uma profecia.
— E quase fez — ele a encarou. — Claro que fomos por eliminatória. Procuramos todas as almas novas e a estudamos para ver se tinham uma vida pura. Poderia ser você, Jessie. Seu vício em cigarro e bebidas não permitiu isso.
— Ah, entendi — ela falou. — Pessoa pura, né? — Balançou os ombros e deu uma tragada. — Ninguém liga que você faz parte de uma profecia dos anjos, viu Allison?!
Rimos.
Passamos o resto da noite conversando, rindo e jogando baralho. A intenção minha e de Jessie era distrair Nicolas, mas acabamos nos distraindo também. Tanto que só notamos que era dia quando Lidiel abriu a porta, sem nem bater, e disse que era hora de os dois partirem.
Eu não esperava, mas fiquei triste.
Sei lá. Com Ladriel e Lidiel eu tinha que ser séria, agir como a heroína que eles esperavam que eu fosse. Com Nicolas e Jessie, por outro lado, eu podia ser... eu. E rir de tudo. E falar besteiras. E jogar conversa fora. Era como se, pela primeira vez, eu tivesse amigos.
É, eu sei. Eu os conheci no dia anterior, mas é como se nos conhecêssemos fazia décadas.
Não importa. Eu não queria que fossem.
Quando partiram, Lidiel me deu uma lista de tarefas para cuidar da fazenda. Desde lavar a louça à escovar os cavalos. Claro que não vou contar tarefa por tarefa, e nem em como eu estava cansada por ter passado a noite acordada. Ao invés disso, vou falar sobre o que aconteceu na boate, que resultara em um corte na minha testa e um Ladriel cuspindo fogo.
Assim que ouvimos os gritos, Nicolas me passou para trás do balcão, tão rápido que eu mal vi. Disse para que eu e Jessie ficássemos abaixadas. Obedecemos.
Olhando por entre os copos, vimos muita gente correndo, chorando, gritando... ao mesmo tempo em que um solo de guitarra gritava pelos alto-falantes. Era um caos total.
— O que é... aquilo? — Jessie perguntou.
Ao olhar para onde ela apontava, vi uma pessoa. Mas não parecia uma pessoa. Estava suja, usava trapos, e não andava direito. Na verdade, meio cambaleava e meio se arrastava em direção às outras pessoas, tentando... mordê-las?
— Doentes — falei. — Estão doentes.
Minha mente voltou para a Sra. Clarc.
— Estão atacando os outros! — Ela disse, perplexa. — Você já viu algo assim?
— Já vi, sim. E bem de perto — falei, levando a mão à cicatriz no antebraço. Não sei como cicatrizou, mas já estava assim quando acordei.
Observamos a confusão ao redor, e eu fiquei realmente assustada. Aquilo não era só uma doença. Era... era um absurdo! Era coisa de filme, eram como... zumbis? Não, mas não assim. Eles estavam agindo como animais ferozes, se alimentando de pessoas vivas. E não pensem que eles andavam devagar, porque chegavam a correr atrás das pessoas.
— Ai meu Deus — Jessie falou, tão chocada quanto eu.
Não notamos que um dos doentes estava atrás do balcão. Não notamos que ele nos atacaria. Quer dizer, eu não notei.
— Allison, cuidado! — Jessie gritou quando virou e viu um deles atrás de mim.
Eu deveria ter corrido, me afastado, me encolhido... ter feito algo mais inteligente do que me virar. Porque a consequência disso foi uma facada na testa.
Facada no braço com a Sra. Clarc. Facada na testa com esse estranho.
Ele continuou atacando, mas Jessie pegou uma garrafa e jogou nele, fazendo-a quebrar e espalhar vidro para todo lado.
— Não podemos ficar aqui — ela se levantou e me puxou. Mesmo se não tivesse, eu correria atrás dela.
— Cadê o Nicolas? — Eu o procurava freneticamente, mas não o via em lugar nenhum.
— Eu não sei!
Paramos em um canto e ela olhou o corte em minha testa.
— Isso não está bom.
Estava ardendo, mas a adrenalina fez com que eu não me importasse. Eu precisava achar Nicolas para sairmos dali.
— Está tudo bem — passei a mão na testa e vi o sangue em meus dedos. — Talvez não esteja tão bem, mas não podemos pensar nisso... Jessie!
A puxei para meu lado, o que não foi muito inteligente, mas foi o bastante para salvá-la de uma mordida. Ela bateu em mim e nós duas cambaleamos para trás, uma se apoiando na outra. A mulher à nossa frente estava com os olhos focados nela.
Nessa hora, eu quis chorar, gritar, correr e voltar para o meu pequeno apartamento alugado e a lanchonete pacata que eu adorava.
Com um pedaço de vidro na mão, a mulher investiu contra Jessie e as duas saíram rolando. Só a que a mulher era visivelmente mais forte que ela.
Como esses doentes conseguiam ser tão fortes e correr assim se mal andavam direito?
Eu tentava ajudar Jessie, e isso me custou vários tapas e socos, e até pequenos cortes nas mãos. Até o momento em que ela me jogou no chão e segurou Jessie pelo pescoço. Até o momento em que ela ergueu o copo quebrado para matar Jessie. Até o momento em que Nicolas apareceu e quebrou o pescoço dela, pegando a mão de Jessie e a minha ao mesmo tempo. Até o momento em que aparecemos no casarão.
— Droga, droga, droga — ele falava, andando de um lado para o outro. Jessie e eu sentamos no chão da sala por causa do cansaço, da tontura e da ideia de que quase morremos.
Ele pegou um pano úmido e começou a cuidar do corte em minha testa, e, ao mesmo tempo, procurava ferimentos nela.
— Eu estou bem, sério — ela disse. — Meu Deus, obrigada! Eu achei que fosse morrer. Mas estou bem.
— O que está acontecendo aqui?
Nós três quase tivemos um ataque do coração quando vimos Ladriel e Lidiel parados no meio da sala.
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