Os Olhos da Morte
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Acordei com a luz do sol e o canto dos pássaros.
Que droga!
Eram seis horas da manhã e eu já estava acordada.
Sem ter opção, levantei, peguei algumas coisas e saí para procurar o banheiro. Na casa, um silêncio mortal.
Fiz todas as coisas que todos fazem todo dia de manhã e voltei para o quarto. Arrumei a cama e guardei minhas coisas no guarda roupa, mesa de cabeceira, etc. Deixei o quarto o mais parecido comigo possível. Depois, desci as escadas até a sala.
Vazia.
Fui até a cozinha. Igualmente vazia, mas com algumas frutas, uma tigela e cereais em cima da mesa. Pelos menos lembraram de deixar o café da manhã.
Quando terminei de lavar a louça, fui até o lado de fora. O dia estava lindo. Ensolarado, mas sem aquele calor que faz parecer ter um sol para cada coisa viva.
Sentei-me na escada, perguntando-me onde estariam Ladriel e Lidiel. Sabe quando você dorme na casa de um amigo e acorda primeiro que todo mundo? Era essa a sensação que eu tinha. Mas anjos não dormiam.
Dormiam?
Passado um bom tempo, ouvi uma voz atrás de mim.
— Você é Allison?
Me levantei e virei rapidamente, mas não vi Ladriel e nem Lidiel. Vi um garoto.
Tinha, aparentemente, minha idade, e seria bem comum, se não fosse por sua beleza extraordinária. Com certeza era um anjo. Além do mais, como mais poderia ter surgido do nada?
— Sou eu, sim.
— Oi — ele sorriu. — Sou Nicolas. Ladriel me enviou para ficar com você.
— Para ficar comigo?
— Sim — ele caminhou até mim e se sentou na escada. — Ele e Lidiel estão um pouco ocupados.
Sentei-me de novo.
— Ocupados com o que?
Ele olhou para frente, fazendo seu olho castanho ficar cor de mel, por causa do sol.
— Coisa de anjo, sabe?
— Na verdade, não sei — dei de ombros.
Silêncio. Mas, dessa vez, era um silêncio incômodo.
— Então, Allison — ele falou —, o que você costuma fazer quando não tem nada para fazer?
— Hm, nada — o encarei. — É por isso que se chama nada para fazer.
Ele riu.
— Ah, claro... então, vou mudar a pergunta. O que quer fazer agora?
— Eu não sei — encolhi os ombros. — O que temos para fazer?
Ele pensou um pouco.
— Quer ir à algum lugar?
— E tem um lugar seguro? — Estranhei. — Digo, sem ser aqui.
— Provavelmente Ladriel te disse que o mundo inteiro acabou, não é? — Ele me encarou. — Ele é um pouco dramático.
— Então, ainda existem lugares seguros?
— Alguns, sim — ele se levantou e começou a subir as escadas. — Mas, pensando bem, é melhor ficarmos aqui.
Entrei atrás dele.
No final das contas, acabamos assistindo filmes confusos — no estilo Donnie Darko — que achamos em uma das estantes da sala.
— Já foram quatro filmes — ele falou, enquanto víamos os créditos subirem. — Já está meio entediante.
Comi uma batata frita que ele trouxe pra mim, fazendo aquele lance de teletransportar.
— Não sabia que anjos gostavam de filmes — foi a primeira vez que eu disse a palavra “anjo”, ainda mais relacionada à “você é um anjo”. Isso era bizarro.
— Normalmente, não temos tempo para filmes, música ou outras coisas que os humanos gostam — ele disse, sem tirar os olhos da tela. — Mas eu sou, digamos, diferente.
— Diferente como? — Outra batata. — Diferente “tenho tempo livre para isso” ou “sou excluído, então, tenho tempo livre para isso”?
Ele me encarou.
— Acho que um pouco dos dois.
— Mas anjos se excluem? Por quê?
— Não é bem assim — ele se levantou e guardou o DVD. — Deixa pra lá, é meio confuso.
— Ah... — respondi e comi outra batata.
— Já é noite — ele abriu a cortina da sala. — Acho que eles não vão voltar hoje.
— Hoje? Como assim?
Eles me traziam para cá e simplesmente saíam? Me deixavam com esse garoto que gosta de assistir filmes que eu não entendo nada e me traz lanche porque “todo mundo gosta de lanche”?
Sim, ele disse isso.
— É complicado...
— Ah, claro, complicado... — resmunguei.
— A boa notícia, é que podemos sair — ele deu um sorriso travesso.
— Podemos? — Eu não estava certa de que seria uma boa ideia. Por outro lado, não aguentaria outro filme e não tínhamos mais nada para fazer. Dormir parecia não ser uma opção.
— Claro que sim. E nem precisa se arrumar, já está ótimo! — Ele caminhou até mim. — Se você tiver um bom gosto musical, e eu acho que tem por causa de suas roupas, você vai gostar!
— O que chama de bom gosto musical? — Me encolhi na poltrona, já que não tinha como dar um passo para trás.
— Você vai ver! — Ele tocou minha mão, e já não estávamos mais na casa de fazenda.
A tontura me acertou de novo, o que o fez passar um braço em volta de mim e me segurar em um abraço. Não gostei muito daquilo, mas era um pouco difícil ficar em pé sozinha.
De olhos fechados, ouvi a música e senti o cheiro. Um rock muito alto e escandaloso vinha de todos os lados, e o cheiro de drogas, bebidas e cigarro inundavam toda a... boate?
Agora eu podia ver muitas luzes coloridas, fumaça e muita, muita gente vestida de preto, com maquiagens estranhas e fazendo tudo o que você puder imaginar. A coisa mais decente que tinha ali eram casais que se agarravam pelos cantos.
— Acha que eu frequento esse tipo de lugar? — O encarei, séria.
— Sei lá — ele riu. — Mas poderia ser, não? O jeito como se veste, as músicas que ouve, o modo como é completamente antissocial...
— Não precisa continuar. E eu não frequento lugares assim!
— Está bem — ele levantou as mãos, se rendendo.
— Você frequenta esse tipo de lugar? Não é um bom lugar para anjos, é?
— Na verdade, não é. Mas tem uma pessoa legal aqui. Você vai gostar dela!
—Acabou de falar que a pessoa antissocial vai gostar de uma pessoa?
— É impossível não gostar da Jessie, sério!
Ele pegou minha mão de novo e começou a andar, me puxando atrás dele.
Quando chegamos no balcão, vimos uma garota atendendo um grupo de velhos carecas, daqueles que frequentam moto clubes.
Ela, como a maioria das mulheres, usava uma maquiagem gótica exagerada, braceletes com spikes, roupa justa e decotada, além de muito curta. A diferença é que ela sorria para todos os clientes que atendia, e, mesmo com toda aquela maquiagem, roupas e penteado extravagante, era bonita.
O balcão acalmou um pouco e ela acendeu um cigarro e percorreu os olhos pelo salão, balançando a cabeça enquanto cantarolava a música. Quando seus olhos nos encontrou — ou melhor, encontrou Nicolas —, ela abriu um enorme sorriso.
Ele caminhou até mais perto do balcão, e eu o acompanhei.
— Nicolas! — Ela sorriu e o abraçou, quase espatifando algumas garrafas e copos.
— Oi, Jessie — ele sorriu. — Essa é a Allison.
— Oi... — falei.
— Allison! — Ela me deu um abraço também. — Você é aquela Allison?
— Como assim aquela Allison? Você também é anjo? — Estranhei.
— Não, não mesmo — ela riu. — Mas é ela, não é? — Ela olhou para Nicolas.
— É ela, sim. Como prometido, a trouxe aqui.
— Já adorei você! — Ela disse para mim.
Estranho. Muito estranho.
— Ah... certo — encolhi os ombros.
Os dois riram, e eu já estava ficando brava.
“Como prometido, a trouxe aqui”. Como é?
Trocou a música, e Jessie fechou os olhos e cantou junto.
— Adoro essa música!
— Led Zeppelin é demais — concordei.
— Gostei ainda mais de você — ela tomou uma dose.
E, então, a conversa começou. Falamos sobre várias bandas clássicas e explicávamos para Nicolas o que ele não sabia — praticamente tudo. De vez em quando Jessie saía para atender alguém, mas logo voltava e perdíamos a noção do tempo de novo.
Como em todas as histórias, sempre acontece algo quando tudo parece estar bem. E essa não é diferente.
— ... e foi por isso que terminamos — ela terminou de contar à Nicolas porquê terminara com seu antigo namorado.
— Que canalha — ele falou.
Definitivamente, ele não parecia um anjo.
— E você, Allison, tem namorado?
— Ah, não — balancei a cabeça.
— Por que não? — Ela riu. — Sério, você é linda! Aposto que tinha vários pretendentes.
Não sei bem dizer por quê, mas me lembrei de Chuck. E em como ele estava doente. Será que ele estava bem? Ou virou o mesmo que a Sra. Clarc? Ladriel disse que os doentes morriam, mas podia ser que não, certo?
Apenas balancei a cabeça de novo.
— Nick, se você não fosse anjo, você ficaria com ela? — Ela riu, mas eu não. E o que me preocupou foi que nem Nicolas.
— Tem algo errado — ele disse, olhando em volta.
— Sempre tem algo errado por aqui — ela deu de ombros.
— Não, tem algo errado de verdade — pela primeira vez eu o vi sério. Mas não qualquer tipo de seriedade, e sim uma bem parecida com a de Ladriel.
— O que foi?
Não sei porque fui perguntar. No momento em que disse isso, vieram os gritos.
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