Os Olhos da Morte
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Quando notei, estava apoiada no braço de Ladriel, com a cabeça rodando.
— O que aconteceu? — Perguntei, tentando ficar de pé.
— Essa tontura vai passar — ele respondeu, ainda me apoiando. — É normal na primeira vez, mas, com o tempo, você se acostuma.
— Como fez isso? — Olhei em volta, perplexa. — Quero dizer... como viemos parar aqui?
— Da mesma forma que eu apareci no seu apartamento, quando a Sra. Clarc te atacou.
Se eu soubesse, não tinha perguntado.
—Entendi — respondi. — E... que lugar é esse?
Caminhei até a ponta do penhasco, e fiquei maravilhada. Era o lugar mais lindo que eu já vira fora da televisão, computador ou qualquer outra coisa assim. O lugar mais lindo que eu já vira pessoalmente.
Estávamos em um campo, ou uma fazenda, talvez, apesar de não ter nenhum animal a vista. Ao longe, muitas árvores e algumas cachoeiras, que desaguavam em um longo rio, que passava bem abaixo de nós, com a correnteza indo para direita. Oposto ao penhasco, era possível ver um enorme casarão de costas para nós, um pouco distante.
— Um lugar seguro — ele respondeu.
— Isso é... é incrível!
Rodei alguma vezes, para ter certeza de que não estava perdendo nenhum detalhe.
— Uau! — Foi só o que consegui dizer. — Sabe, quando eu era criança, eu sonhava em viajar o mundo conhecendo lugares incríveis — continuei admirando a vista do penhasco. — Claro que não deu certo.
— Eu sei — ele falou.
— Como assim você sabe? — O encarei.
— Quando você morreu — ele me encarou de volta. — Eu vi toda a sua vida, e, assim, tive certeza de que é você.
Aquilo era meio constrangedor.
— Ah. — Ficamos em silêncio por um tempo. — O que quis dizer com primeira vida?
— Cada pessoa tem cinco vidas — ele disse, olhando para o horizonte. — Cinco vidas, cinco arcanjos. Essa é a sua primeira. Uma vida nova. — Ele olhou para mim. — Cada um tem cinco chances de habitar o Paraíso.
— Então... quando morremos vamos para o paraíso?
— Isso depende. Você só vai para o Céu ou o Inferno depois da sua quinta vida. Se for mal em duas e bom em três, Céu. Se for ao contrário... bem, já sabe. Se for bom em todas elas, irá para o Paraíso.
— O Céu, quer dizer?
— Não — ele sorriu. — Algo acima do Céu. Um lugar para almas verdadeiramente puras.
— E eu tive uma vida pura? — Perguntei.
— Por enquanto, sim — ele respondeu. — Sua primeira vida não acabou ainda.
— Então, eu iria para o Céu? Digo, se tivesse acabado?
— Sim — ele voltou a encarar a paisagem. — E, de lá, iria para sua outra vida.
Ficamos em silêncio por um tempo. Tudo aquilo era um pouco confuso.
— Depois do Céu, o Paraíso — falei. — Então, o que tem depois do Inferno?
— Depois, não. Antes. Pois o Inferno é o oposto do Paraíso. Antes do Inferno, existe o Purgatório.
— Mas... Purgatório não é o lugar do julgamento? Para decidir se a pessoa vai para o Céu ou Inferno?
— Mais uma vez, não — ele disse, paciente. — O Purgatório é um lugar ruim, o oposto do Céu. Se for bom em duas vidas e mal em três, não é para o Inferno que você vai, e sim para o Purgatório.
Silêncio outra vez, enquanto eu processava toda aquela informação.
— Se não era o Purgatório — falei —, o que era aquele lugar? Onde nos vimos pela primeira vez?
Ele me encarou, calmo.
— Era sua mente.
— Minha mente?
— Sim, sua mente. Já vi muitas mentes, cada uma diferente da outra. A sua me chamou a atenção.
— Branco? — Perguntei. — Minha mente é um vazio branco? Te chamou a atenção por ser a única vazia? — Desviei o olhar para um passarinho que voava ao longe.
— Exatamente, Allison. Você sabe o que a cor branca significa?
Eu sabia, mas não respondi.
— Branco é a mistura de todas as cores. Por isso, sua mente é muitas coisas, menos vazia. — Ele deu um sorriso quase imperceptível. — Ela está aberta à muitas possibilidades.
O encarei.
— E isso é bom?
— Talvez. — Ele olhou para o céu. — Venha, vamos andando.
Saímos do penhasco e caminhamos lentamente em direção ao casarão, em silêncio. Mas, por outro lado, minha mente não estava nem um pouco silenciosa, pensando em tudo o que ele acabara de dizer.
Depois de alguns minutos, quando já estava começando a ficar cansativo, demos a volta e chegamos na entrada do casarão. E, quando digo casarão, quero dizer literalmente casarão.
Era enorme. E linda. E eu fiquei tão impressionada com o tamanho e o número de janelas que tinha, que levei alguns minutos para captar outras coisas além do fato de que ela era enorme.
Pela porta da frente, uma mulher saiu. Alta, esbelta, com uma postura de líder. Ela caminhou até nós e parou de frente para Ladriel.
— Irmão — sorriu. — Que bom que voltou.
— É bom ver você também — ele sorriu e lhe beijou a testa. Era a primeira vez que eu o via sorrir de verdade.
— Allison, esta é Lidiel — ele nos apresentou.
— Oi... – eu disse, meio envergonhada.
Era um pouco vergonhoso estar entre duas pessoas tão lindas e ser... bem, eu. Uma coisa pequena, pálida e magra, com roupas surradas e uma mochila enorme nas costas ao lado de dois seres magnificamente lindos e elegantes.
Ela me encarou por um tempo, com um ar curioso.
— Então, é você? — Ela perguntou.
Olhei para Ladriel, meio nervosa.
— Bom, ele disse que sim — encolhi os ombros.
Ela sorriu, como alguém que ri da inocência de uma criança.
— Tudo bem, vamos entrando — ela apontou para a casa. — Vá na frente.
Subi os poucos degraus da entrada e fiquei de boca aberta.
Sério, era uma casa realmente incrível! Repleta de móveis antigos e chiques, como ela própria. Os corrimões das escadas, como os balaústres da varanda, eram cheios de entalhes, com detalhes indescritíveis. Os móveis, elegantes e de madeira envernizada, como as portas e janelas. O lustre, cheio de curvas e pingentes brilhantes.
— Uau — falei. — É a casa mais linda que já vi na vida.
— Que bom que gostou — Ladriel falou.
Lidiel subiu as escadas e me chamou para acompanhá-la. No andar de cima, inúmeros quartos em um corredor largo e claro.
— Pode escolher um — ela falou. — Você precisa descansar.
— Qualquer um? — A encarei. Que ridículo, eu devia estar parecendo uma criancinha!
— Sim — ela sorriu, gentil. — Mas são todos iguais. — Depois, apontou com a cabeça, como quem diz “vá em frente”.
Dane-se eu parecer uma criança. Olhei um por um e, de fato, eram iguais. Grandes, com guarda roupa, um puff, um espelho enorme, mesa de cabeceira e cama com cortina (que eu não sei o nome), daquelas de castelos, mas não tão extravagante.
Todos absolutamente iguais, exceto um. Exceto aquele que tinha a vista da varanda. Obviamente, o escolhi. Joguei a mochila na cama e abri a porta da varanda, admirando a paisagem.
Fazenda, e não campo.
Ao longe, várias estradinhas e animais. Cavalos corriam para lá e para cá, e a visão era tão linda que me fez sorrir, mesmo sem perceber. Pássaros cantavam ao longe, e o ar era leve, com um aroma doce de frutas tão bom que dava vontade de sair dali e experimentar cada uma delas.
— São lindos, não são? — Lidiel falou, parando ao meu lado.
— Com certeza são.
Ela olhou para mim e sorriu:
— Descanse, o dia foi corrido para você. Amanhã cedo teremos muito o que conversar.
— Mas ainda nem é noite — falei.
— Então, aproveite para conhecer a casa.
Ela olhou para fora mais uma vez, depois saiu do quarto. Ladriel, que estava na porta, a acompanhou.
Me joguei na cama e encarei o teto.
“Anjos existem”, pensei. “Eu voltei da morte. Anjos existem e eu voltei da morte”.
Anjos existiam, assim como Paraíso, Céu, Purgatório e Inferno. Existiriam também demônios? Ou qualquer coisa oposta aos anjos? E quanto aos arcanjos? E, no meio de toda essa bagunça, onde estaria Deus?
A empolgação por estar em um lugar tão bonito foi embora quando me lembrei do que estava acontecendo e do real motivo de eu estar aqui. Não, eu não sabia o motivo, mas sabia que a Sra. Clarc estava morta.
Mais uma vez, lutei contra as lágrimas.
“Mas ainda nem é noite”, eu disse para Lidiel, mas isso não serviu para nada. Quando o cansaço e o peso da perda finalmente me acertaram, adormeci.
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