Notas iniciais
Olá, você, e bem vindo ao quarto capítulo! Mais uma vez, obrigada por chegar até aqui!! Boa leitura!

Agora que eu via com certeza, me senti culpada por não ter ouvido Ladriel.

Ele estava parado em minha frente, me encarando, com as mãos sujas. Mas não havia um “eu avisei” em seu olhar, e sim um “sinto muito”.

Mas “sinto muito” não era o bastante. Não era o bastante para diminuir a dor que eu sentia, por fora e por dentro. Não era o bastante para fazer minhas mãos e minhas pernas pararem de tremer. Tampouco era o bastante para me acalmar.

Minhas pernas vacilaram, e eu caí. Não respirava direito, pois a garganta estava fechada e queimava. Não via direito, pois as lágrimas em meus olhos embaçavam minha visão.

Então, veio o grito.

Abafado e desafinado, cheio de dor, culpa e raiva. Raiva de mim mesma. Se eu tivesse dado ouvidos à Ladriel, a Sra. Clarc poderia estar viva.

Ela estava deitada no chão da cozinha, com os olhos abertos, fitando o vazio, e a faca fincada no peito. A faca que Ladriel usara para matá-la. A mesma faca que ela usara para tentar me matar.

Olhando para ela, me lembrei de uma semana atrás, daquele abraço que demos antes de eu sair para a lanchonete. O que aconteceu?

Eu não ligava para o corte em meu antebraço. Não ligava para o fato de que Ladriel estava em pé, me olhando. Eu apenas chorava, pois Isabella Clarc acabara de morrer.

Causa da morte: uma doença. Uma nova doença que afeta a mente, tirando o lado racional das pessoas. Uma doença que levou quatro dias para levá-la de vez. Uma doença que a atacou e a deixou para sofrer, porque ela só morrera por causa de Ladriel, que, mais uma vez, salvou minha vida.

Há quatro dias ela estava com uma gripe muito forte. “É a minha vez de cuidar de você”, eu dissera. Mas eu não consegui.

— Allison — Ladriel disse. — Precisamos ir.

Mas eu não ouvia direito. A cena que acabara de acontecer não saía da minha mente.

Ela simplesmente desceu, pegou a faca da cozinha e tentou me matar. Coloquei o braço na frente, como reflexo, o que causou um corte feio. Ela continuou atacando, quebrando coisas, e, enquanto eu me esquivava, eu soube que não era ela, pois seus olhos não eram seus olhos. Só havia cólera neles, e não aquele aconchego, como um abraço de avó.

Então, do nada, Ladriel apareceu. E, num piscar de olhos, ela estava no chão, com os olhos vazios.

O encarei:

— Ela... ela... era só uma gripe — minha voz quase não saiu.

— Não, não era — ele disse.

— O que... o que eu faço agora? — Coloquei as mãos na cabeça, ficando ainda mais desesperada.

— Você precisa vir comigo.

— Ah, é... sair em uma aventura espetacular com você, não é?

— Incrível como o sarcasmo não te deixa nem em uma situação dessas — ele estava sério. — Você sabe que é verdade, Allison. Você acabou de ver isso, não pode negar!

No fundo, eu sabia. Ver a Sra. Clarc morrer levou uma parte minha com ela, mas eu ainda não entendia como eu poderia acabar com essa doença. Como ele queria que eu acreditasse em uma palavra sequer do que disse, quando me falou “Allison, eu sou um anjo”. Aliás, a ideia de Ladriel ser um anjo ainda era perturbadora, apesar de ele ter aparecido do nada para me ajudar.

— Mas o que eu posso fazer? — Nem acreditei que estava dizendo isso. — Eu não consegui me defender nem de uma pessoa de cinquenta e quatro anos, como eu posso ajudar alguém?

— Você pode — ele respondeu. — Precisa acreditar nisso.

— Vai dizer pra eu ter fé? — Debochei, levantando e secando as lágrimas. A ferida ainda estava aberta, e ficaria por um bom tempo, mas eu sabia bem como esconder. — Por que eu devo ter fé?

— A fé é a base de tudo — ele disse, me encarando. — Sem ela, não somos nada. A fé em Deus é tudo o que mais precisamos.

— Sei — debochei de novo. — Aquela fé que move montanhas? Aquela fé no Deus que é bom e justo? Se ele é tão bom e justo assim, por que permitiu que uma coisa dessas acontecesse? — Gritei. — Olha só pra ela! Acha que ela merece isso? E quanto às outras pessoas que morreram? Ou, pior ainda, que não morreram, e estão aí atacando outras pessoas que não merecem isso! – O encarei. – Tenho que ter fé nesse Deus?

— Não é culpa Dele — ele respondeu, sério. Eu até diria bravo.

— Não é? Ele não sabe de tudo o que acontece? Ele não controla tudo? Então por que ele fez isso?

— Não foi Ele! — Ele elevou a voz, dando um passo à frente. Isso, com certeza, me intimidou, mas eu não demonstraria.

— Então, quem foi? — Dei uma passo à frente também, mesmo com medo.

Ele respirou fundo, e a seriedade deu lugar à preocupação em seu rosto.

— O problema é esse — ele me encarou. — Não sabemos.

— Não sabem? — A indignação foi mais alta que minha preocupação. — Mas... como assim não sabem?

— É complicado — ele disse, apenas, no mesmo instante em que gritos vieram da rua.

Isso congelou até os meus ossos. O que estaria acontecendo lá?

— Temos que ir — ele repetiu, e dessa vez eu não discordei.

— Para onde?

— Um lugar seguro — ele foi até a janela e olhou a rua lá embaixo, ficando em silêncio por um tempo. — Se ainda existir um lugar seguro.

— O que foi? — Perguntei, com a voz trêmula. — O que aconteceu?

— Nada — ele falou. — É melhor não ver isso.

O pânico tomou conta de mim novamente.

— Mas... temos que sair, não é?

— Não por ali — ele fechou a cortina. Depois, foi até o bainheiro e pegou a toalha de rosto, caminhou até mim e enrolou meu braço, que sangrava. — Pegue o que precisar. O que for útil. E depressa.

Obedeci.

Peguei uma mochila e joguei várias roupas dentro, de qualquer jeito. Calças, camisetas, blusas de frio... eu não sabia para onde iríamos, então era melhor prevenir. Peguei, também, todo o dinheiro que tinha guardado em casa, e até os trocados que achei. Guardei garrafas d’água e salgadinhos, por precaução.

Por fim, calcei os coturnos.

Ele me encarava, sério.

— Pronta?

Olhei para a casa. Meus livros, meus discos, minha bagunça. Dois porta-retratos em cima da mesa: uma foto minha de quando eu era criança, sorrindo escancaradamente para a câmera, mostrando uma banguela; a outra era uma minha e da Sra. Clarc, há dois anos, quando aluguei o apartamento dela.

Meus olhos pousaram na cozinha, onde ela estava, e o aperto na garganta voltou. Tentei afastar as lágrimas, mas não consegui, então só deixei que escorressem por minhas bochechas.

— Não — respondi.

— Foi o que pensei — ele respondeu e, então, tocou em meu ombro.

No momento seguinte, não estávamos mais em casa.

Notas finais
Fim do quarto capítulo. O que acharam? Foi uma surpresa a Sra. Clarc morrer? Ou Ladriel ser um anjo e aparecer do nada pra ajudar a Ally? Por favor, comentem o que acharam, isso é muito muito muito muito MUITO importante!! Obrigada por ler e até o próximo capítulo! S2