Os Olhos da Morte
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Eu não sei o que deu errado, mas no mesmo instante em que o reconheci, eu acordei. Não sabia o que pensar, mas estava assustada, porque sabia que aquilo não tinha sido um sonho.
A sensação de esquecimento havia passado, finalmente, e eu me lembrara de tudo. Aqueles cinco minutos que, na verdade, foram três dias.
Assim que eu desmaiei por causa do tiro, acordei em um lugar claro. Tão claro que não era possível ver a paisagem, mas apenas um branco muito forte. Era quase um lugar que não existia, mas estava lá.
Do meio de tanta claridade, um homem apareceu, irradiando ainda mais luz. Eu me levantei do chão e o encarei, pensando se ele seria Deus, um deus, ou o que quer que existisse depois da vida, já que não conseguia ver seu rosto.
— Eu morri? — Perguntei, mesmo tendo quase certeza da resposta.
— Sim — ele falou.
— E... e agora? — Olhei em volta. — Céu ou Inferno? Sumir para sempre? O que acontece comigo?
Ele estranhou.
— Não quer saber por quê?
Encolhi os ombros.
— Por que?
— É estranho... as perguntas que fazem é “por que eu?”, “não posso voltar?”. Mas você... quer saber para onde vai?
— Acho que é o mais sensato a se perguntar — o encarei. — Ninguém volta da morte.
— É, ninguém volta — uma pausa. — Mas você, sim.
— Eu vou voltar? Mas... mas por quê?
— Porque é você — ele respondeu. — Essa é sua primeira vida, uma vida pura.
— Primeira vida? Pura? Mas... eu não fiz nada demais.
— Você não quer voltar?
Parei para pensar.
— Bem, eu não... eu não sei.
— Mas vai — ele disse. — Você morreu, de fato, mas precisa voltar.
Comecei a me sentir sonolenta demais.
— E não se preocupe, você vai se recuperar.
— Mas... quem é... — caí no chão. — Você é Deus?
Do meio de tanta luz, consegui distinguir um sorriso.
— Não.
Então, eu acordei no hospital.
Para meu espanto, já era manhã. Me sentei na cama, pensativa. Por que o tempo passava mais depressa quando eu o via? E ainda havia o fato de que eu não sabia quem ele era. Eu só sabia que havia acordado por causa dele. Não era pra eu ter melhorado, muito menos em três dias. Ele fizera isso de alguma forma.
Que estresse.
Levantei para fazer as coisas do dia, normal, e tentei ao máximo não pensar nele, na minha morte ou no sonho que tivera — claro que não tive sucesso algum.
Quando a Sra. Clarc desceu de seu apartamento até o meu, eu já estava pronta para sair.
— Vai sair? — Ela estranhou.
— Bom, ainda preciso pagar meu aluguel — respondi, dando a maior desculpa esfarrapada.
— O quê? — Ela se indignou. — Garota, nem pense nisso! Eu não vou morrer se ficar sem o dinheiro do seu aluguel por um ou dois meses. Você precisa se recuperar, e o médico disse para não fazer esforço!
— Eu sei, mas é que... a senhora já fez tanto por mim, que seria um absurdo eu não pagar o aluguel, pelo menos. Porque eu nem sei como agradecer.
Isso era a verdade, mas era mais verdade ainda o fato de que eu disse aquilo apenas para poder sair de uma vez.
Ela respirou fundo.
— Então, eu vou com você!
— O quê? Não! — A encarei. — Olha só, Sra. Clarc, eu sei que não atrapalho, mas não quero ser um peso. Eu estou bem, sério! — Isso também era verdade.
Se aquele cara realmente falou a verdade, eu não teria problema algum. Até porque foi por causa dele que eu melhorei tão rápido. Um milagre.
Ela me encarou por um tempo, depois abriu os braços.
— Me dê um abraço, menina.
A abracei, e senti algo que há muito não sentia: carinho. Aquele abraço me trouxe recordações tão fortes e de um jeito tão vívido, que quando ela fez menção de me soltar, a apertei um pouco mais.
— Tome cuidado, Ally. E não demore, está bem? — Ela sorriu para mim quando nos soltamos.
Concordei com a cabeça.
— Até mais tarde.
Nos despedimos e eu saí.
Peguei o ônibus de sempre para ir até a lanchonete, pensando em milhões de coisas no caminho. Quando cheguei lá, rápido graças ao trânsito livre, Cameron logo sorriu e veio ao meu encontro.
— Meu Deus, Allison... — ele me abraçou. — Você deu o maior susto na gente.
— Tem certeza de que foram vocês que ficaram assustados? — Ri.
Henry saiu de trás do balcão e veio me abraçar também.
— O que você está fazendo aqui, garota? Não deveria estar se recuperando?
— E estou, Henry! Mas também preciso saber se ainda tenho meu emprego...
Henry, de repente, ficou sério.
— Eu não acredito, Allison Cortez, que, por um minuto sequer, você pensou que não tinha seu emprego. Garota, você vai ficar aqui comigo para sempre!
Sorri, muito aliviada.
— Obrigada — disse, sendo sincera. — Você é o melhor chefe do mundo!
— Ah, eu já sei disso — ele riu.
— E eu sou o melhor colega de trabalho do mundo! — Cameron falou, brincando. — E vou provar isso te servindo o que você mais adora! — Falou e foi para a cozinha.
— Por conta da casa, garota — Henry me deu uma piscadela e voltou com ele. — Fique à vontade!
Respirei fundo e olhei em volta. A lanchonete vazia, como é normal em um dia de semana. Poucas pessoas que estão muito ocupadas com seus próprios pensamentos para olharem ao redor.
Menos uma pessoa.
Menos uma pessoa que olhava diretamente para mim.
Menos o homem que me encarava, sentado na última mesa.
Caminhei até ele sem parar para pensar se seria uma boa ideia, para não desistir.
— Allison — ele disse, quando me aproximei.
— Quem é você? — Disparei, torcendo para minhas pernas bambas não me derrubarem.
— É bom ver que está bem — ele disse, paciente. — Eu sou Ladriel.
Ladriel? Que tipo de nome era esse?
— O que você quer? — Perguntei.
— Sua ajuda, Allison.
— Minha ajuda com o quê? — Meu coração batia tão forte que eu me perguntei se alguém podia ouvir.
Ele apontou com os olhos para a cadeira vazia da mesa, de frente para ele. Sem pensar muito, de novo, me sentei.
— O que eu te falei ontem, sobre a doença — ele me encarou.
— O que é essa maldita doença? — Falei.
— Ela afeta a mente, como já disse. Tira o lado racional dos humanos. Os torna... — uma pausa — ainda mais animais.
Parei por um minuto. De repente, lembrei da noite anterior, antes de dormir, depois do filme. O apresentador dissera “...será uma nova doença?”, e logo depois falara sobre meu caso, o que fez a Sra. Clarc desligar a TV. Seria uma notícia sobre isso?
— E isso... isso vai afetar todo mundo? — Uma leve onda de medo me percorreu. Medo do desconhecido, de não saber o que é verdade.
— A maioria, sim — ele respondeu, pensativo. — Mas alguns são... bem, imunes.
— Alguns quantos?
— Uma parte muito, muito pequena.
— E o que acontece com as pessoas... não imunes?
— Elas morrem.
E só. Nada mais. Apenas isso.
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