Os Olhos da Morte
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Uma semana e um dia. Esse foi o tempo que fiquei no hospital. “Rápido demais”, o médico dissera.
— Seu pulmão foi rasgado, não é normal ter cicatrizado tão depressa. — Ele me olhou. — Uma semana — disse pausadamente. — Nenhuma dor ao respirar profundamente?
— Não — respondi pela milionésima vez.
— Nem para falar?
— Não.
— Interessante — ele disse. — Muito bem, senhorita Cortez, pode ir para casa. Mas nada de fazer muito esforço, está bem? — Ele parecia desconcertado.
Concordei com a cabeça.
Nunca fiquei tão contente por entrar em casa. A Sra. Clarc sempre me acompanhando.
Já mais tarde, nos acomodamos para assistir um filme que passaria na TV. Ainda dávamos risada da comédia quando o noticiário começou.
— Hilário... — a Sra. Clarc comentou.
— Muito — concordei, ainda rindo.
Comentamos mais um pouco sobre o filme, falando nossas partes favoritas e rindo mais ainda. Meu pulmão não doía mais, mas eu tentava evitar pensar nisso.
Finalmente nos acalmamos, depois das risadas escandalosas.
— ... será uma nova doença? — O apresentador anunciou.
A tela mudou para a outra apresentadora:
— Michael Rogers: o homem que atirou na garçonete Allison Cortez, finalmente foi preso.
De volta ao apresentador:
— Mudanças no tempo: fortes tempestades se formam em diversos lugares...
O som foi sumindo aos poucos, até eu notar que a Sra. Clarc desligara a televisão.
Ficamos em silêncio.
No tempo em que fiquei no hospital, eu nunca parei para pensar no homem que me colocou lá. Eu me lembrava dele, sim, mas não pensava nele como “será que já foi preso?” ou “tomara que tenha morrido”.
Michael Rogers. Agora que realmente parei para pensar nele, não senti raiva. Fiquei curiosa, na verdade. Ele estava preso, merecia isso. Pelo tiro, pelo assalto. Mas... por que ele fez aquilo? O que o levou à esse ponto do desespero?
Eu não o condenava, era algo estranho. Era como se eu o tivesse... perdoado?
— É melhor irmos descansar, não é? — A Sra. Clarc me tirou dos meus pensamentos. — Já está tarde.
— Boa ideia — falei.
Ela se levantou e recolheu nossos pratos de lanche.
— Bem, então, até amanhã! — Disse quando terminou.
— Boa noite, Sra. Clarc — sorri. — Até amanhã.
Ela saiu do apartamento, batendo a porta atrás de si e me deixando sozinha em casa depois de muito tempo.
Observei ao redor. Meus livros, meus discos, meus porta-retratos, minha blusa de frio em cima da mesinha, minhas meias na poltrona, a louça na pia... minha bagunça. Quais chances eu tinha de ver isso de novo?
Mesmo depois de uma semana, a sensação de esquecimento não tinha passado. Quando falei isso para a psicóloga com quem me obrigaram a passar, ela me disse que era normal, por causa da experiência de quase morte.
Mas o problema estava exatamente aí. Não fora quase morte. Eu não sabia como, mas sabia que eu havia, de fato, morrido. E sabia disso com toda a certeza.
“Pare com isso, Ally”, disse para mim mesma. “Ou vai acabar enlouquecendo”.
Me levantei do sofá e decidi tomar um banho quente. Depois, me joguei na cama. Não achei que seria tão rápido, mas adormeci.
Eu estava na lanchonete. O movimento era o mesmo de sempre, mas as pessoas pareciam não me ver. Passavam direto por mim, e até se esbarravam às vezes, mas pareciam não sentir.
Eram 20:30. Sabia disso porque Chuck acabara de entrar. Mas ele estava diferente, parecia abatido, cansado... doente. E havia outra coisa também, algo puxado para o verde musgo, quase uma sombra, mas como se estivesse dentro dele.
— Sim, ele está doente — uma voz falou atrás de mim.
Virei-me rapidamente, principalmente por causa do susto.
Era um homem. Alto, forte, sério, com uns quarenta anos. Estava sentado na última mesa. Tive certeza de que não o conhecia, mas também tive certeza absoluta de que já o vira antes. Só não sabia aonde.
— Por que ninguém pode te ver? — Ele falou, depois do meu longo e ridículo silêncio. — Porque você não está aqui.
— Como assim? — Caminhei até ele.
— Sua consciência está, você não.
— Como?
— Eu chamei você aqui — ele disse, apenas.
— Por quê?
— Para poder te explicar algumas coisas.
— Mas... O quê?
Era possível ficar mais confusa do que eu estava? Não sabia dizer, mas eu precisava de respostas. O único problema, claro, é que eu não sabia para quais perguntas.
— A doença do seu amigo — ele apontou para Chuck, que estava tossindo. — Ele é só mais um.
— O quê? — Falei. — Mas... o que ele tem? Aliás, o que tem a ver comigo?
Eu não queria ser rude, ou coisa assim, mas era verdade. Por que ele precisava me explicar sobre a doença de Chuck? E, afinal, quem era ele?
— É uma doença da mente — ele respondeu. — E tem tudo a ver com você.
— Por quê? — Perguntei de novo.
— Porque, Allison, você pode pará-la.
Eu? Parar uma doença da mente? Isso não fazia o menor sentido.
Estava pensando em qual pergunta fazer primeiro quando um choque me percorreu. Não literalmente, mas eu finalmente o reconheci. Fiquei sem reação no mesmo instante, porque era ele. Ele me salvara.
Ele era a luz.
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