Os Observadores

1 O hospital Saint Louis


Quem sou eu? Emy.

O que sou eu? Também gostaria de saber.

Penso que o melhor jeito de começar a contar a minha história seria do início e, pelo menos para mim, tudo começou na minha infância, enquanto jogava queimada durante a educação física.

Uma garota que me detestava por um motivo racional apenas para crianças de seis anos jogou uma "bola curva" em minha direção. Normalmente eu desviaria (não que eu fosse habilidosa em qualquer coisa, na verdade, era justamente o contrário, já que, por conta da minha antiga fisionomia "fofinha", era ainda mais complicado evitar grandes objetos), mas algo me distraiu e não consegui me mexer, já que a trajetória de onde a bola percorreu apareceu em uma cor laranja, como se fitas coloridas e brilhantes seguissem o objeto e, ocasionalmente, me distraí tanto que até esqueci-me do que estava vindo ao meu encontro, me deixando no chão e, logo em seguida, na enfermaria.

No mesmo dia, supus que não era nada além de uma ilusão de ótica, mas como em tudo, também estava errada nisso.

Minha trajetória só volta a ser realmente interessante e relevante aos dezenove, em um carro com toda a minha família, algo tão corriqueiro que, provavelmente, todas as pessoas já viveram, mas houve algo muito importante neste passeio em especial que o diferenciou de todos, sendo provavelmente meu último com todos eles, mesmo que na época ainda não tinha consciência disso.

Eu estava no canto esquerdo do carro, com minha irmã mais nova, Becca, ao meu lado enquanto ambas mexíamos no celular, quer dizer, enquanto ela mexia no celular e eu olhava a paisagem, mas com o aparelho ainda em minha mão e vibrando, indicando mensagens da minha amiga, porém eu a estava ignorando momentaneamente por conta de não conseguir sair do torpor em que a estrada me colocava.

Eu estava vendo tudo, mas não olhava para nada e nem me importava com nada em especial até passar por algo que seria impossível ser despercebido por olhos humanos.

Se bem, até aquele momento, eu não sabia mais se realmente era uma humana. Só mais tarde pude descobrir.

Assim como acontecera com a bola de queimada na primeira vez (e como já ocorrera em tantas outras vezes), ao ver uma moto com a cor carmesim, notei que seu rastro, onde deveria ver apenas asfalto e carros estacionados um atrás do outro, vi o rastro da trajetória da motocicleta em uma cor marrom um tanto quanto diferente da que já conhecia.

Como sempre, me surpreendi com aquilo (mesmo devendo já estar acostumada) e, como sempre também, exclamei minha visão a todos que estavam ao meu redor, gerando a tão famigerada reação (a qual conheço bem) de estranhamento.

Essa expressão é diferente para cada pessoa, eu sei porquê já presenciei de todas, desde risadas até ofensas do tipo "louca" ou "insana".

Nem ligo mais para esse tipo de coisa, entretanto, nunca me esquecerei das faces dos meus pais naquele dia quando praticamente gritei "Vocês viram aquilo?". Acho que eles já estavam cansados da minha loucura ou até mesmo de tentar me entender, pois, no começo, agiram como se não soubessem do que eu estava falando.

_Vi sim, filha. Aquela moto estava muito rápida. Quase bateu em mim! Acho que deveria ser multada. _Talvez fosse melhor assim, se eu tivesse deixado de lado e me contentado com sua falsa ignorância e, em certas horas, desejava que isso tivesse acontecido e que tal conversa não fosse adiante, mas sou Emy, definitivamente não viro as costas para as coisas importantes, mesmo que isso possa me causar grandes sofrimentos.

Ao ouvir o que tinha falado, quase ri com tamanha inocência (ou pelo menos achava ser isso).

Quase. Contudo, o corrigi em estado eufórico, não deixando nenhuma margem de erro.

_Eu não estou falando disso. Estou me referindo ao seu rastro, que estava marrom! _Fui burra quanto a isso, sem deixar que ele tivesse sua própria interpretação, mas acho que isso é algo que aprendemos ao decorrer da vida, assim como entendemos que uma simples frase, sem intenções ruins, poderia ser considerada um ato de guerra.

Penso que isso, por já ser tão conhecido, seria apenas mais um clichê, porém é a mais pura verdade o fato de que as palavras têm poder. Aprendi isso da pior maneira.

Como já comentado antes, as aparências preocupadas e os cenhos franzidos não me causaram nenhuma surpresa, mas, naquela hora, aconteceu algo que mudara tudo de vez.

Meu pai falou. Isso nunca havia acontecido pois, sim, eles sempre se assustavam com minhas alegações, mas logo relevavam por conta da minha normalidade e pela minha falta de características especiais, menos dessa vez, a qual meu pai perguntara "Você está bem?".

Senti-me estranha ao escutar aquilo, como se eu realmente diferente. Infelizmente, sou assim, ou pelo menos era assim, tão influenciável e impressionável, de forma que, sempre que me falavam algo, automaticamente, me caracterizava e encontrava pontos em comum com o adjetivo que tal pessoa me colocara.

Mais um defeito em minha lista. Ainda estou longe de ser perfeita, mas estou infinitamente melhor comparada à antiga e ingênua Emy.

Balancei a cabeça negativamente e neguei qualquer aspecto que poderia me categorizar como alguém incomum. Não queria destaque, coisa que desde pequena era direcionado a mim, por conta da minha heterocromia, mas apenas um tempo depois percebi que, quando os holofotes se viram para você, a mira das armas faz o mesmo movimento.

Algo de que não me arrependo nem um pouco foi apreciar o caminho e de sentir o vento em meu rosto, mesmo sem saber que não o sentiria a muito tempo, assim como o sentimento de liberdade.

Isso sempre fora uma característica minha, sempre deixar a janela aberta, faça sol ou faça chuva, mas quando era a segunda opção, sempre me pediam para levantá-la.

Iria para a casa da minha amiga de qualquer jeito, mas meu plano original era ir correndo, assim faria bem para minha saúde, tanto física quanto mental, sem contar que, se eu tivesse ido correndo, talvez toda minha história teria sido diferente, ou até mesmo se tivesse ido de moto, a qual meus pais sempre foram contra e continuaram tendo aversão ao veículo mesmo depois de tê-lo comprado com o dinheiro das aulas particulares que eu dava, teria sido melhor, então eu me pergunto, por que diabos eu fui de carro com meus pais?! Sempre que me faço essa pergunta, a resposta logo vem em memória, lembrando de o que me convenceu a ir de automóvel fora a chantagem que minha mãe fizera, dizendo que eu ganharia um milk-shake se fosse com minha família.

Eu, uma garota de vinte anos na época, fui comprada com um milk-shake.

Mas não posso ficar me martirizando por um talvez, por isso tento somente esquecer.

Você deve estar se perguntando "O que aconteceu com essa garota?", mas a resposta você logo irá saber, mas, de acordo com os meus pensamentos amargos, sinto que devo dizer apenas que se tivesse a chance de mudar tudo, deixaria do jeito que está. Isso pode ser um tanto quanto contraditório, mas é porquê, as vezes, deixo que a derrota fale mais alto, por ser mais fácil e por não ter que ficar lutando o tempo todo, pois permanecer forte é exaustivo.

Grace e eu somos melhores amigas desde que me lembro, ou melhor, desde o prézinho, quando um garoto chamado Tony, de quem ela gostava e que, para seu azar, tinha interesse mim.

Como ela era ciumenta desde sempre, logo ela foi tirar satisfação comigo, mas como eu não sabia disso e pelo sentimento não ser recíproco, por um motivo que só crianças conseguem entender, viramos melhores amigas até então.

Desde que aprendíamos adição até agora, o momento em que ela tinha entrado em uma faculdade de cinematografia e, eu, em uma de medicina. Certamente, temos muitas histórias juntas.

Minha irmã também estava inda para a casa de uma amiga sua para fazer um trabalho de escola, algo que suspeito que realmente tenham feito, porém a garota morava perto da casa de Grace, que era meu destino, então, para ela, não custaria nada ir de carro.

Lembro-me daquele dia como se fosse ontem, de apertar o interfone de seu apartamento, de subir as escadas correndo e de já encontrar Grace na frente de sua porta, esperando por mim.

Por mais que nossas faculdades fossem diferentes, sempre estudávamos juntas, para que soubéssemos um pouco de tudo, caso precisássemos.

Sinto saudades dos bons tempos em que não fazíamos nada além disso e das comidas que a senhora Clark fazia para nós sempre que eu ia em sua casa, o que não era raro, já que eu e sua filha éramos praticamente inseparáveis e, o que torna a lembrança daquele dia ainda mais doce era o fato de estar acompanhada por Brownies, brigadeiros e sorvete.

Era o nosso intervalo e sempre comíamos esse tipo de coisas enquanto conversávamos sobre coisas fúteis e insignificantes para nossa vida. Naquele dia o assunto não mudara, já que quase sempre ela falava sobre garotos, o que eu, honestamente, achava enjoativo, mas não queria deixá-la triste, por isso apenas concordava com a cabeça e prestava atenção em minha comida.

_...quando eu fiquei sabendo que o Henry gostava de mim, eu fiquei pasma, completamente boba! _Mas eu não ligava para o Henry e tampouco saber de quem ele gostava, afinal, ela nunca daria uma chance para ele mesmo, porém acho que esse meu desinteresse estava evidente até para ela, que, geralmente, nunca nota isso. Só percebi que ela estava desconfortável quando parei de escutar sua voz, então levantei o rosto e notei que ela me encarava com desaprovação, porém ela logo se recompôs e continuou seu monólogo até realmente me envolver. _Sabe, ontem, enquanto eu passeava pela rua, vi um cara absolutamente perfeito para você.

Ainda desinteressada, continuei a conversa com um simples "É?!", mas ela continuou seu diálogo inabalada.

_Bom, ele tinha heterocromia, assim como você, ele usava umas roupas alternativas, que nem você, tinha um porte atlético e lindos cabelos loiros... _ela falara com um ar sonhador, como se o tal cara, na verdade, fosse o ideal para ela. Mesmo com todos esses bons adjetivos, ainda não consegui ficar interessada, porém, a única característica que chamou minha atenção foi o fato de ter a mesma anomalia genética que eu.

_Quais eram as cores dos seus olhos? _Ao perguntar tal coisa, ela pareceu um tanto quanto decepcionada, afinal, talvez ela esperasse que eu enlouqueceria junto com ela, demonstrando apenas diminuindo o sorriso.

_Bem, _também me lembro de sua mania de começar a maioria de suas centenas com "bom" ou "bem" _um olho era verde, assim como seu olho esquerdo, e o outro era meio mel, como se fosse dourado. Ir-re-sis-tí-vel! _Ela falou periodicamente, deixando claro o quanto queria frisar o comentário "irresistível". Irresistível para mim naquela época era aquele brownie com sorvete.

Tentamos continuar estudando, mas enquanto ela lia uma revista sobre "boa forma", eu desenhava no meu livro de anatomia humana, um olho verde (o meu, para ser mais exata) sobre todas as letras, de forma que quase se tornava ilegível a página sobre organelas que constituem apenas as células animais.

Ao ver minha "arte", Grace deu um sorriso de satisfação e disse:

_Você deveria mostrar isso, mas em um quadro, não em um livro de biologia. _Deu um sorriso pequeno e voltamos a velha rotina. Grace era uma garota realmente bonita, sem dúvidas a maioria do sexo oposto a desejava, porém era uma beleza simples, com cabelos castanhos claros, pele bronzeada naturalmente, olhos igualmente castanhos e uma altura muito boa (consideravelmente alta) e curvas de dar inveja, já eu era miúda, feliz com meu 1,60 de altura, magrela (algo que passei a ser só depois dos meus quatorze/quinze anos) e nunca tendo muito qualquer coisa, mas acho que era proporcional ao conjunto, pernas contraditoriamente longas, cabelos negros meticulosamente cortados e, como já comentado, olhos da cor verde e castanho claro.

A família de Grace era muito religiosa, assim como seu próprio nome denuncia, então foi um grande choque para todos quando anunciou que não queria mais seguir nenhuma religião, mas eu estive lá por ela, por isso ela retribuiu quando eu já não acreditava em um nenhum grande ser celestial que zelava por nós, apenas na maldade do ser humano, em nada mais além do que nós mesmos fazemos, não depois de ver tudo que vi pouco tempo depois daquele mesmo encontro.

Sem nenhuma dúvida, formávamos uma boa equipe, com ela sendo o coração, sempre emotiva e impulsiva, indo pela emoção, já eu era o cérebro. Não que eu fosse a mais inteligente ou esperta entre nós duas, mas era a mais racional, sempre fui.

Não conseguia tomar a maioria de minhas escolhas sem pensar e repensar várias e várias vezes.

No meio dos estudos, uma onda arrebatadora veio e me desnorteou, embora eu já tivesse tomado meu comprimido pela manhã. Sentindo com toda a força o cheiro do achocolatado do brownie, o emulsificante do sorvete se destacando em relação à baunilha e o perfume doce de Grace infestando o quarto. Logo depois, foi a audição, como de costume. "Como assim você ainda não mandou as roupas para a lavanderia, Richard? Era a única coisa que eu te pedi!" Porra, Richard, foi a única coisa que ela te pediu!

"Você está fumando maconha nesse quarto?"

"Não, mãe."

"Eu reconheço o cheiro de maconha, Elliot. Não tente mentir para mim!" Quem dera fossem essas as únicas coisas que eu pudesse escutar.

Em algumas horas odeio com todo o meu ser os infratores da lei ou mesmo os que tentam praticá-las, por ser preciso ligar a maldita da sirene em algum lugar relativamente próximo daqui e me forçar a escutar como se estivesse no pé do meu ouvido, mesmo sabendo que Grace possivelmente nem reconhecia a existência do barulho desse caos.

Palavras e palavras, vozes e vozes se sobrepondo cada vez mais, o som da respiração da minha amiga parecendo que tinha acabado de percorrer uma maratona, o tic-tac cronometrado do forno da minha tia de consideração indicando sua próxima sobremesa para nós como um martelo em minha mente e até os ratos que eu sabia que existiam no apartamento de cima não me davam descanso com suas patinhas correndo de um lado para o outro, quase zombando de mim. Em momentos como esse mais avançados, ou desejava que minha cabeça explodisse ou que o resto do mundo o fizesse.

Como estava no começo, ainda não estava insuportável, apenas irritante, por isso apenas deitei-me no colo de Grace, por cima de seu livro, como que me refugiando.

—Está com enxaqueca novamente? _Perguntou docemente enquanto passava seus dedos pelo meu cabelo e, em resposta, apenas balancei a cabeça. _Mas você já tomou remédio hoje, certo? _Confirmei novamente. _Quer tomar um outro? _Mais um balanço de cabeça enquanto minha situação se agravava, me forçando a engolir em seco diversas vezes. _Mas saiba que, depois disso, não poderá tomar dois comprimidos no mesmo dia em pelo menos daqui a quatro dias. Você sabe como isso pode ferrar com todo o seu sistema! _Em diversos dias já pensei que Grace fosse minha mãe muito mais que a verdadeira, a maneira que cuidava de mim de verdade e tentava me entender, não apenas demandar ordens por "ser minha mãe".

—Ciente e desejo prosseguir.

Grace sorriu de boca fechada, se levantou e foi pegar meu remédio na cozinha acompanhado de um copo de água.

Por isso éramos tão perfeitas uma para a outra: ela já tinha uma cartela do remédio para enxaqueca que apenas eu tomo em sua casa, uma que ela dispunha por saber que lá era minha segunda moradia, assim como em minha casa eu assinava a revista "New Yorker", uma que ninguém da minha família lia, apenas Grace. Esse era o tanto que nos conhecíamos e o tanto que prezávamos pelo bem estar da outra. Só não poderia contar a ela que havia chegado em um nível que, em certos dias, precisava ingerir três comprimidos para ter uma noite de sono pateticamente razoável.

Já tampando os ouvidos, Grace voltou ao quarto com a caixa escrita "Propranolol" e uma garrafa de água gelada, como ela sabe que é minha preferência. Ingeri como se estivesse em um deserto sem nenhum sustento, como um leão faminto ataca uma corça desatenta. Sei bem que medicamentos, na maioria das vezes, não surtem o efeito de imediato, esse sendo um desses, mas ao engoli-lo, senti como se tudo fosse desaparecendo, cansando e, eu, voltando novamente a ser normal.

Poderia facilmente me iludir e considerar que tudo que me acontece não passa de efeito psicológico, que eu não sinto de verdade o cheiro do sabonete da minha amiga enquanto ela está no corredor, que apenas queria acreditar que o fizesse e me sabotando por já conhecer o aroma, que minha necessidade pelo remédio não fosse químico (embora agora creio que meu corpo teria um lapso se tentasse ficar sem tomá-lo), apenas psicológico, mas decidi aceitar a realidade alguns anos atrás, pois eu sei que em algum lugar aqui perto, existe um Richard que não levou as roupas para lavanderia, o único pedido de sua esposa. Eu sabia mais que plenamente que minha mente não era criativa o suficiente para tudo isso.

—Emy, você quer dar um tempo? _Sendo a compreensão encarnada, pronunciou meu nome como "Aimee", algo que apenas ela e minha irmã faziam (sendo sincera, minha irmã apenas começou quando escutou Grace o citando, ainda fazendo menos que a criadora).

—Por favor _foi o que minha voz suplicante disse, podendo até ser motivo de pena, me odiando por isso.

O "tempo" que Grace me dava era colocar um som neutro pelo quarto, para que eu me concentrasse apenas nesse som sem identidade, me dar alguma máscara facial para usarmos juntas, ligar seu ar-condicionado para que o vento e o frio impedissem de que cheiros fáceis fossem captados e me convidar para deitar no chão e encarar o teto até relaxar completamente, mesmo depois de tomar meu mágico remédio.

Em um silêncio extremamente confortável e sentindo o ar gélido, esperando a argila branca em nossas faces secar, Grace simplesmente joga no ar:

—Sabe quem me ligou hoje?

—Henry? _Perguntei quase distante, mas sabia que ela nunca interromperia nosso tempo para falar de qualquer menino. Sem nem me virar para ver seu rosto, senti seus olhos sendo virados e uma bufada.

—O dono do apartamento na Apple St. Ele disse que já podemos começar a levar nossas coisas para lá semana que vêm, quando tivermos voltado para a cidade depois das férias terem acabado.

Uma mistura convidada pela emoção em sua voz e pela notícia em si se apossou de mim naquele instante.

—Ah, meu Deus. Ah, meu Deus! Finalmente, as coisas estão andando conforme o planejado e logo vamos tirar nossas coisas da fraternidade. Estamos indo pra frente, Grace! Espere até voltarmos para lá.

Já havia me virado para encará-la no momento em que estava sorrindo para mim e começou a falar como se realmente fôssemos um casal em uma voz caricatural, enfática em quase todas as palavras.

—Eu sei que começarmos a morar juntas é um grande passo no nosso relacionamento, mas acho que estamos prontas para os futuros desafios que iremos enfrentar. A propósito, _voltando a falar com sua voz normal _se você terminar comigo, eu quebro sua cara.

Nunca fui muito de gargalhar, mas eram coisas assim que me tiravam da polidez, sendo ela o maior pivô nisso, me acompanhando em risadas escandalosas.

—Estamos rindo, mas isso é completamente verdade _complementou para mim ainda rindo.

Se eu soubesse que aquele seria meu último dia daquele jeito...

Minha cara Aimee, você não faz ideia do quanto vai sentir falta disso tudo.

Após chegar em casa ouvindo a playlist da minha irmã mais nova, Becca, ela imediatamente começara a correr em direção ao meu banheiro, o qual era o único da casa que possuía a temperatura desejada por ela e uma boa pressão. Modéstia parte, o meu era o melhor chuveiro de toda a construção e é claro que não era a única que o queria, mas como era o da minha suíte, não gostava de dividi-lo, então quando a vi disparar em direção ao meu quarto, sem nem pensar duas vezes, joguei minha mochila de lado e fui atrás dela gritando:

_Dessa vez não, Becca!

Ao escutar isso, Becca apenas riu. Apesar de ser mais velha, desde os quatorze anos era a menor entre nós duas, mesmo assim, continuei a ganhar nas corridas, entretanto, isso claramente não se encaixa no presente momento, já que havia "largado" bem depois da minha adversária.

Na verdade, temos apenas dois anos de diferença, o que, para ser sincera, nos aproxima muito, mas o fato d'ela ser modelo, tanto de passarela quanto fotográfica, trabalhar alguns fins de semana como DJ (nunca admiti esse fato, mas ela era realmente boa), acabava fazendo-me ser reconhecida como "irmã de Rebecca", não o contrário. Não me incomodava o fato de ser irmã de uma possível futura Angel, loiríssima, magra por genética, corpo inteiramente torneado e uma estrutura óssea de dar inveja. Seu rosto sempre fora angelical e delicado, com um nariz fino e arrebitado (desde pequena me perguntava porque não teria nascido com aquele mesmo nariz), lábios bem desenhados, maças do rosto acentuadas e olhos castanhos grandes e afastados (lindos). Minha irmã se destacava como uma estrela na multidão. Eu sempre fui a multidão.

Tentei alcançar ela, mesmo sabendo que era inútil, até a porta bater na minha cara.

Sabia que nada que eu tentasse a faria sair dali, mas nada me impediria de pelos menos irritá-la, por isso continuei a bater na porta e a gritar com Rebecca. Quase pude senti-la sorrir pelo outro lado da porta até escutar a água caindo, me dando por vencida.

Sem mais nada para fazer a não ser ignorar o caso e esperar, logo liguei a televisão e tratei de decidir escolher uma das minhas séries favoritas, as quais seriam "Grey's Anatomy" e "Doctor House", mesmo com Grace dizendo que outras –mais especificamente as que ela assistia– eram melhores, mas não ligava, então elas continuavam como minhas favoritas.

Ao escutar batidas na porta, pausei rapidamente a televisão e peguei o livro mais perto de mim e o abri em uma página aleatória para fingir estar estudando, já que para eles sempre tive que ser a melhor da turma, a mais aplicada, o orgulho da família. Acho que nunca alcancei esse patamar. Ao terminar minha tentativa miserável de disfarçar minha vadiagem em relação aos estudos, olhei para cima e vi minha mãe com olhares reprovadores no batente da porta, o que me levou a encará-la com seriedade, até perceber que o episódio pausado em minha TV era visível e que meu livro estava de ponta cabeça, embora ainda não tivesse notado, sem contar que no título dizia "E não sobrou ninguém", ou seja, tudo mostrava que estava realmente pouco me fodendo para os estudos, já que até o determinado momento, nem havia me lembrado da mochila que arremessara na sala pouco tempo antes, a qual minha mãe segurava com a mão esquerda.

_Estava apenas lendo um livro recomendado pelos meus professores. _Tentei soar com um ar inocente, mesmo sabendo que há muito não era mais. Ao ver uma cena tão incriminatória quanto essa, minha mãe deu uma leve risada, quase inaudível, apenas para ficar com uma feição tão imóvel que pensei que minha mãe havia sido trocada por uma estátua logo no próximo instante. _Posso fazer algo pela senhora? _Perguntei quando um silêncio incômodo se estabeleceu entre nós enquanto ela persistia em ficar parada no portal.

Ao sair de seu torpor, fitou-me profundamente, como se estivesse frustrada, nostálgica, triste e culpada, tudo isso junto, um turbilhão de sentimentos.

_Seu pai e eu estamos esperado você na sala. Venha rápido. _Minha mãe falou seca, o que não era muito comum, mesmo com ela sendo geralmente robótica.

Minha mãe, assim como eu, era mais calculista, por isso não demonstrava muitos nuances de suas emoções.

Obedecendo suas ordens, fui a sala, onde encontrei meu pai de pé, em posição militar por força do hábito, já que a tal era sua profissão, um homem sentado na poltrona que, usualmente, meu pai que ocupava, o qual era desconhecido, com um bigode grisalho, um rosto um tanto quanto redondo e duas entradas de calvície em seu couro cabeludo nos lados esquerdo e direito.

Sua postura era rígida, mas não no padrão do exército, como meu pai e, sim, como se tivesse um aspecto de superioridade em relação às outras pessoas.

Ele aparentava ter uns quarenta anos para mais e era muito engomadinho, apresentando-se com uma blusa social roxa, calça social e uma gravata preta, dando-lhe uma aparência de médico, advogado ou professor de faculdade (mais especificamente da minha área de faculdade, por isso estranhei não conhecê-lo).

_O que seria isso? _Perguntei da maneira mais formal que pude, já que, com alguém desconhecido em minha sala, precisava escolher bem as palavras, mesmo que o que quisesse dizer fosse "Que porra esse homem está fazendo na minha casa?".

_Minha filha, nós temos que ter uma conversa séria com você. Acho melhor se sentar.

Imediatamente, antes mesmo de relembrar tudo de ruim que tinha feito naquela semana (o que era muito, por sinal), encarei o tal homem que estava lá como enfeite, pensando no porquê ele precisaria escutar o sermão que eu levaria.

Quando me sentei, meu pai tomou a dianteira da situação foi para o centro da sala.

_Emily, você já deve saber que é... especial, não é?!

Escutando aquilo, quase suspirei aliviada, pensando que aquilo não era uma bronca e, sim, uma consolação por conta do bullying que eu sempre sofri por conta da minha heterocromia, da minha estrutura gordinha quando era pequena e, agora, por ser bem magra e nem ter um corpo avantajado (como a maioria das minhas amigas) e, aquele homem, supus, era um psicólogo que tratava do assunto em crianças e adolescentes.

_Pai, sei disso. Já tivemos essa conversa quando era criança _pois, para uma criança gordinha, baixinha e com olhos diferentes de todos, as outras crianças podem ser cruéis _, sobre como eu sou "especial" e que eu devo ser grata por não ter nascido igual a todos os outros, mas não precisamos repetir esse lindo discurso. Estou bem de verdade!

Ah, quem me dera fosse esse o motivo da reunião...

_Acontece que... não é por isso que estamos aqui. _Meu pai soava um pouco inseguro, como se o que fizesse não estivesse certo. Ele sabia disfarçar, mas eu o conhecia bem, por isso notei uma falha quase imperceptível no timbre de sua voz.

_Chamei o doutor Arthur por conta de suas... visões. _ Foi a primeira vez que ouço a voz da minha mãe participando daquela situação. Aquela conversa estava tendo muitas hesitações e, algo que sabia desde sempre é que muitas hesitações nunca são boas.

Quando se escolhe muito as palavras, significa que o assunto seria demasiado complicado, e isso, definitivamente, não é um bom sinal.

_Mas vocês não precisam disso tudo, já que não passa de meras ilusões de ótica. _Pronunciei, com um nervosismo extremamente visível. Desde pequena, tentava esconder meus sentimentos para me reservar, me poupar e evitar complicações, portanto que, na maioria das minhas discussões, sempre deixava a outra pessoa "ganhar", já que pensava no quão inútil era tudo aquilo, já que nada daquilo iria mudar minha vida, tampouco o que penso, mas, naquele momento, me sentia como um livro aberto, então, para ver como minhas emoções estavam no momento, era apenas me olhar nos olhos e se deparar com o desespero aparente.

_Minha filha, sabemos que isso não é verdade. Não há nenhuma ilusão recorrente e constante enganando seu sistema visual que, segundo o oftalmologista, é teoricamente perfeito. Já fomos ou psicólogo e ao psiquiatra e ambos não resolveram esse assunto! _Eu sabia bem disso, afinal, era familiarizada com termos médicos, já que minha mãe era enfermeira e eu cursava medicina e, sabia que apenas tentava me apaziguar dizendo-me que se tratava de uma ilusão de ótica, já que era pouco provável que realmente fosse isso.

Todos sabiam (inclusive eu) que o que tenho é um tanto diferente das coisas que eu alegava que o eram.

_Eu estou aqui _pronunciou o homem misterioso (denominado Arthur) que, até o determinado momento, não havia se manifestado _por conta de suas alucinações.

Estava escutando muito aquela palavra, de forma que já estava me deixando um tanto desconfortável.

_Temo que, em alguma hora, isso pode se tornar nocivo tanto para você quanto para as pessoas ao seu redor, por esse motivo, precisamos erradicar esse problema o quanto antes. _Assim que meus neurônios captaram aquela informação, soube no exato instante soube o que aquilo significava.

_Não. _Arquejei de um jeito tão patético que me odiei por um segundo. _Vocês não... Vocês não podem... NÃO PODEM FAZER ISSO COMIGO!

Eles iriam me levar a um hospital psiquiatra, iriam varrer a sujeira de suas vidas perfeitas para debaixo do tapete, por isso, naquele dia em especial, odiei meus pais mais do que considerava possível uma filha odiar o casal que lhe trouxe ao mundo.

Rapidamente me recompus e interpretei o papel de uma garota controlada, para que conceitos ruins não se formassem sobre mim. Minha mãe me ensinou que, para ser respeitada, é preciso ter calma, já algo que aprendi por conta de minha própria vivência é que desespero demonstra fraqueza e não podemos demonstrá-la aos nossos inimigos.

_Não há necessidade de me levar para tal lugar, afinal, não sou um perigo a ninguém, podem perguntar a qualquer um que irão lhe dar a mesma resposta. _Projetei com um tom de voz neutro, pacífico e indiferente. Talvez eu devesse ter continuado normal, já que, ao ver minha reação desinteressada sobre o assunto, algo que, agora percebo, seria extremamente anormal, o doutor que se encontrava me observando atentamente e estudando meus atos curiosamente, deveria ter pontuado mais conceitos sobre mim.

Antes que pudesse digerir aquela cena, ele abriu um sorriso quase cruel, mas que poderia ser facilmente confundido com uma expressão fingida.

_Por favor, não se alarme. O tratamento do Hospital Sant Louis é rápido e eficaz, então sairá da clínica até antes do esperado.

Senti meus olhos lacrimejarem, mas de jeito nenhum iria deixá-los ver minhas lágrimas. Não iria dar esse gostinho a eles, afinal, sou uma garota crescida e garotas crescidas não choram.

_Posso pegar minhas coisas? _Ditei firme, porém docilmente, mas ele continuou com a mesma expressão.

_Infelizmente, não. Mas você deve entender, considerando a sanidade da maioria dos meus pacientes.

Dos quais logo faria parte, pensei. A única característica que me identificava exasperada era minha respiração um tanto mais pesada que o normal, mas de um jeito que apenas eu percebera.

_Pelo menos posso me despedir da minha irmã? _Ela ainda não havia saído do banho, entretanto, não sairia dali antes que pudesse trocar uma última palavra com Becca, mas sentia que não iria gostar da resposta, por isso olhava pela sala desesperada, a procura de alguém com compaixão.

_Queria que pudesse, mas é complementar que, no seu tratamento, fique desconectada de toda sua vida costumeira.

Ele usava palavras chiques, mas não mascarava que tudo aquilo iria foder com a minha vida. A partir daquele momento, caguei para os bons modos e, já que eles me julgaram louca, teriam uma garota louca.

Mesmo pensando e repensando todos os meus atos automaticamente, cuspi no meu futuro "doutor" e comecei a correr em direção ao meu quarto, já ouvindo o chuveiro se fechar.

_Rebecca! REBECCA! Por favor, Rebecca, não deixe que eu vá sem falar com você! _Pessoas de jalecos e roupas brancas passaram pela porta no momento em que me escutaram gritar e, mesmo não sabendo como, conseguiram me impedir até mesmo de chegar ao correndo que levava ao meu quarto.

Recusando a render-me até o último segundo, continuei a me debater contra eles ferozmente, contudo, eles conseguiram me levar até seu carro, mesmo contra toda a minha vontade.

Ainda estava acordada quando vi minha irmã aparecer de toalha na cabeça na frente da minha já antiga casa, iniciando sua corrida atrás do carro onde me encontrava, mas meus pais a seguraram, fazendo-a chorar.

Não era essa a cena que queria antes de partir.

Notas finais
Se estiverem gostando da história, não esqueçam de dar seu feedback, o que realmente super nos encoraja a continuar