Notas iniciais
Narrado por P.

Quando eu terminei de observar Clara sair do calabouço, me desejando boa sorte com os olhos soltei um suspiro de alívio, mas eu não podia controlar o buraco que havia dentro de mim. Eu estava sentindo aquilo, aquelas duas sensações ao mesmo tempo, mas na verdade é só uma. E essa sensação gera outra sensação, que define todas elas. Não lembrava o nome, mas era isso que eu sentia. Solidão, saudade, felicidade? Eu sentia isso, mas esses não eram os nomes.

Cansei de tentar desvendar meus misteriosos sentimentos, e agarrei as barras, esperando o guarda acordar. Estava acostumado a acariciar os fios de cabelo de Clara num horário desses, conversar com ela tentando fazê-la esquecer do meu rosto escondido pelas sombras ou até mesmo trocar olhares, o que já fazíamos muito. Meu coração parecia disparar, aguardando pelo momento que o guarda acordaria. Deixei pra lá, virando o rosto para um dos outros cantos escuros da cela. Porém, ouvi um barulho. Era o guarda, e ele estava acordando. Voltei a observá-lo, tomando cuidado com cada suposto movimento que ele poderia efetuar. Ele se sentou, parecia não se lembrar. Seu rosto me era familiar, quando parei para perceber, ele aparentava ter recuperado uma memória escondida:

– P? É você? – Era um guarda ainda? Aquela era Clara? Como assim? Eu reconhecia aquele homem: – Se lembra de mim? John... Aquele que sabia muito mais que a coroa permitia...

– John! Como é bom vê-lo! – Exclamei, tentando me aproximar mais dele: – Virou guarda?

– Desde que me liberaram, me deram uma alta quantia em direito, lugar em uma Casa e poderes!

– O que você é? – Indaguei, interessado. Mas aquela sensação de falta de algo não me abandonava.

– Grynd... – Ele explicou, pensativo. John foi uma amigo prisioneiro que tive, ele sabia muio mais do que meu pai e a 'rainha' lhe permitiam saber. O que levou a sua prisão. O garoto perdeu a memória, e depois da pancada da cabeça ele parecia até um pouco mais jovem.

– Você... Não passa pelas mãos da rainha? Você pode bloquear sua mente? Como assim?!

– É complicado explicar, esse dom é uma mistura de outros...

– Eu sei disso, só não me lembro o que um Grynd faz. É tão raro alguém ter esse dom... Se importa em dizer o que esse dom aborda?

– Claro que não! E você vai me contar tudo o que aconteceu desde que fui poupado de ficar aqui! Trato feito?

– Sim, trato feito... Só não sei se é bom você ficar muito aqui...

– Relaxa, vai ficar tudo bem.

– Ei, sabe o nome daquele sentimento que gera muitos outros? – Indaguei discretamente, disfarçando o máximo possível.

– Claro que sei.

Não me lembro o nome.

– Se for o que eu penso... – Ele começou, com um sorrisinho no rosto. Aquilo não indicava boa coisa: Se chama amor.

Amor. Eu nunca esperaria aquela palavra saindo da minha garganta. Quando ela chegava aos meus ouvidos me parecia áspera e venenosa, mas talvez, fosse isso que eu sentia. E uma parte de mim queria que esse talvez fosse muito menos provável. Mas essa parte, era com certeza, muito menor que a outra que cruzava os dedos pra que fosse.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.