Os Mistérios do Amor
9 O encosto (Cam)
Notas iniciais
P.O.V. Cameron
Samantha Vermond. O encosto da minha vida, a pessoa sempre presente, a insuportável… Tinha muitos outros apelidos para ela, mas não eram relevantes neste momento. Ela e Emma se conheceram quase quatro anos atrás, quando chegamos na cidade e, desde então, nossa vizinha se faz presente. Sim, ela me incomodava. Não tinha exatamente o porque, talvez apenas o fato de estar lá o tempo todo e não deixar barato a maioria das vezes que eu implicava com ela. Nossa relação era assim, como sempre foi: Eu implicava com ela e ela implicava de volta, nesta ordem.
Minto. Inicialmente, eu tinha meus motivos, que com o tempo só passaram a ser sua constante presença e essa dinâmica de gato e rato que vivíamos.
Basicamente, a felicidade dela me irritava. O dia em que Emma voltou pra casa doente e ela saiu com o Nate, eu imaginava que ele a beijaria. Afinal, Samantha, apesar de intragável para mim, é bem bonita e tem um corpo legal. Eu sabia que qualquer cantada tosca a deixaria sonhando, porque, por conta de sua proximidade com Em, elas tendiam a afastar qualquer cara que se aproximasse sem perceber.
Entretanto, tanto Em quanto Sam, eram admiradas de longe por muita gente. Sim, gente, no plural e sem artigo definido.
Eu não vou negar, sou um irmão ciumento. E talvez por andar tanto tempo com a minha irmã, um resquício deste instinto protetor respingasse em Samantha.
Enfim, não esperava que o cara fosse usar uma cantada tão ultrapassada e insossa, mas acertei na mosca, o que a deixou bem irritada e, consequentemente, pude voltar para a minha paz de espírito.
De alguma forma, um pouco da visão que eu tinha sobre ela mudou no dia que ela entrou no meu quarto como um furação, enquanto eu ainda estava me trocando:
—Olha, Cam. Eu não sei qual é a sua necessidade de me torturar dessa forma, ou de qualquer um dos jeitos que você têm feito nos últimos anos, mas dessa vez você passou dos limites. De todos eles. — Ela gritava com uma raiva que eu nunca tinha visto nela antes.- Uma coisa é você me infernizar aqui, na escola, no caminho até ela ou através da janela. Outra, completamente diferente, é você fazer o que você fez.- Ela apontava para mim e, em algum momento, de sua fala lágrimas começaram a percorrer o seu rosto. Eu não entendia nada do que estava acontecendo, mas ela parecia fragilizada, como eu nunca havia visto, muito menos chorar. Samantha nunca chorava. Era algo inédito pra mim. -Eu tinha o meu refúgio longe de você, seu imbecíl.- Ela pronunciou o xingamento de uma forma que me fez pensar que ela cuspiria na minha cara se pudesse. Mas refúgio? Do que ela estava falando? — Todo mundo sabe o quanto lutei por esse papel, e você não conseguir me fazer desistir dele.
—O que está acontecendo aqui? — Emma apareceu na porta questionando, para a minha salvação.
—Pode me dar os parabéns, Em.- Sam se virou para ela.- Eu sou a nova protagonista da peça da escola. Junto com o seu irmão. — O que? Protagonista? Mas eu não tinha me inscrito para este papel. Emma olhou de Sam para mim repetidas vezes. — Agora, se me dão licença, eu quero distância de você enquanto ainda posso. -Ela começou a caminhar em direção a porta— Ah, e antes que eu me esqueça de deixar claro: Eu te odeio. Mais do que um dia achei possível.- Disse ela se voltando para mim novamente, logo antes de sair.
Odiar. Samantha Vermond me odiava. Essa era uma constatação forte demais, até para mim. Ouvir aquelas palavras me pegou de uma forma que eu não esperava, ainda mais considerando nossas brigas constantes e recorrentes. Ela podia não gostar de mim ou não me suportar, mas me odiar era forte demais.
—Eu não sei o que você quer com isso, Cam. — Emma olhava para mim irritada, enquanto eu ainda encarava a porta. Ela não iria nem, ao menos, me ouvir? — Mas, se estiver fazendo isso só para ferir a Sammy ou estragar tudo no final, eu nunca mais falo com você. — Ela também saiu, me deixando sozinho no quarto.
Eu não sabia como isso tinha acontecido, mas sabia que precisaria ir até o fim e fazer bem feito se quisesse a minha nota em literatura.
Ao longo de boa parte do dia, consegui ouvir Samantha chorando em seu quarto através da janela. De alguma forma, que não deveria acontecer, aquilo me quebrava o coração. Sammy chorando era algo extremamente novo para mim e eu não sabia lidar com aquilo.
***
No dia seguinte de manhã, decidi que tentaria explicar tudo para Samantha. Assim que Emma saísse de perto, pois, se ela soubesse sobre as minhas notas, contaria para os meus pais e eu teria mais um problema para lidar. Quando passei pela porta, vi Sam entrar no carro de Nathan, o novo namorado dela. Aquilo me incomodou um pouco. Ela estava brava comigo a ponto de não ir mais para a escola com a gente? Desde quando Samantha Vermond ficava, deliberadamente, afastada de Emma Woods? Desde quando ela não entrava no meu carro de manhã, não importando as brigas ou os insultos trocados?
Tentei aguardar o final do ensaio para falar com ela, que, aliás, foi horrível. Apenas Samantha e a garota que fazia a Ama pareciam saber o que estavam fazendo. O único problema é que a garota que deveria ser o meu par romântico não conseguia nem direcionar o seu olhar para mim. Eu constantemente buscava seu olhar para tentar demonstrar que eu estava levando tudo aquilo a sério, mas ela deliberadamente me ignorava. Depois de algumas tentativas, me irritei com sua infantilidade e passei a agir da mesma forma. Assim que liberou os demais do restante do ensaio, a professora ameaçou expulsar os dois da peça se não aprendêssemos a funcionar bem juntos e saiu. Eu não sabia como começar o assunto, com medo de que o encosto contasse para minha irmã sobre minhas notas ou começasse a chorar outra vez, mas, depois de meia hora em completo silêncio, consegui, enfim, começar a falar.
Depois de uma pequena discussão, decidimos instaurar uma trégua, o que pareceu razoável para ambos.
***
Três dias depois, logo antes do ensaio, decidi treinar algumas cestas. Como suei bastante, passei no vestiário para tomar uma ducha. Foi quando os vi. Ashley, a minha — até então — namorada, e Jason, meu melhor amigo, transando no chuveiro da escola.
Burro e idiota são duas coisas que eu nunca fui, mas Ashley era boa de cama e me trazia um certo status com os colegas. Eu suspeitava que os dois estavam ficando nas minhas costas, mas não tinha como confirmar, então poderia ser apenas paranóia minha. Ali estava. Terminei com Ashley no ato. Afinal, ela era a minha namorada, e não Jason, mas a sua traição como amigo ainda assim me abalou. Fiz questão de mostrar o dedo do meio aos dois antes de sair do vestiário.
Por causa disso, cheguei no ensaio ainda suado e extremamente irritado. Meu estado não deveria estar nada bom, já que a professora fez apenas uma cena que me envolvia e me deixou na plateia apenas assistindo o restante do tempo.
Quando conseguiu um intervalo, o que foi difícil, considerando que minha falta de concentração a obrigou a ser parte de quase todas as cenas do ensaio, Samantha veio até mim e se sentou ao meu lado:
-Você não parece bem hoje.
-É... Estou tendo um dia do cão. — Respondi apenas.
-Espero que as coisas se resolvam logo. — Diminuiu o tom de voz, tentando não atrapalhar os atores que recebiam orientações no palco.
-Já se resolveram, eu só preciso entender como estou me sentindo com isso. — Soltei o ar com força, ainda olhando para frente. — Não sei se estou chateado ou com raiva nessa situação.
-Você pode estar os dois. — Respondeu a morena, usando uma voz doce que eu não estava acostumado quando se dirigia a mim. — A gente pode sentir mais de uma coisa ao mesmo tempo.
-Do mesmo jeito que me odeia, mas não sai da minha casa? — Tentei soltar a frase em tom de brincadeira, mas, assim que as palavras saíram da minha boca, eu percebi que podiam não ser interpretadas por ela dessa forma. Por este motivo, direcionei o meu olhar pra ela, que imitava a minha atitude anterior de só encarar o palco a nossa frente. — Eu não quis...- Tentei me desculpar, mas, enquanto formulava uma continuação para a frase, ela se pronunciou.
-Eu não te odeio, Cameron. — Foi a vez dela de respirar fundo. — Você é um cara decente, na maioria das vezes, só nunca foi legal comigo. Acho foi isso que sempre doeu mais... — Ela pensou por alguns segundos. — O fato de ser diferente comigo, como se o problema fosse apenas eu.
-Você já disse com todas as letras que me odeia. — Ela olhou para mim com a sobrancelha frisada, como se tentasse se lembrar. Voltei a encarar o palco. Ter uma conversa séria olhando nos olhos dela era pessoal demais.
-Ah... O dia em que descobri que estaria na peça. — Assenti. — Eu estava chateada e com raiva, como você está neste momento.
-A diferença é que não tem trégua no mundo que me faça voltar a falar com a Ashley depois do que eu vi hoje. — Escorreguei mais para baixo na cadeira.
-Também não deveria falar mais com o Jason. Ele nunca foi seu amigo de verdade. — Vi pelo canto dos olhos ela voltando a encarar o palco, como se não pudesse pronunciar essas palavras diretamente para mim, mas não me contive, precisei encará-la diretamente.
-Você sabia? — Pronunciei as palavras lentamente, como se aquilo fosse difícil de acreditar e de, sequer, verbalizar. — Eu era realmente o trouxa da história. — A morena negou com a cabeça antes de responder.
-Eu a ouvi conversando com umas amigas no vestiário uma vez. Sua namorada não sabia que eu estava lá. — Ela me olhou brevemente, como se buscasse alguma reação. — Não falei nada porque não achei que acreditaria em mim e não queria mais um motivo para brigarmos. — Ela inspirou demoradamente. — E você não é o trouxa, eles quem são por fazerem isso com você.
-Samantha, preciso de você no palco. — Chamou a professora.
-Me desculpa por não ter falado nada. — Sam disse se colocando de pé e me olhando diretamente, como se a coragem para se desculpar fosse muito maior do que a de tratar qualquer coisa falada antes. — E sinto muito por isso ter acontecido com você.
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O retorno para casa foi em completo silêncio das duas partes. Quando parei o carro, Samantha se virou para mim e perguntou:
-Você está bravo comigo? Por não ter falado nada?
-Não, Sammy. Prometo. Só estou com muitas coisas na cabeça neste momento, mas eu entendo o motivo de não ter falado nada. Eu acho que eu também não teria.
-Eu não te odeio, ta? — Disse ela, docemente. — E, se realmente não se sente confortável comigo frequentando a sua casa, eu vou dar um tempo, pelo menos durante a nossa trégua. — Ela abriu a porta do carro e começou a sair, mas segurei a sua mão. Ela encarou a minha mão segurando a sua e, então, me olhou nos olhos. Ficamos alguns segundos nos encarando até que eu me pronunciasse.
-Fico feliz que não me odeie. — Meus olhos passearam pelos detalhes de seu rosto. — E quem te deve desculpas agora sou eu. — Seus delicados olhos castanhos me miravam com curiosidade. — Eu não preciso que fique longe da minha casa, a minha irmã adora te ter lá e faria minha vida muito mais difícil se você se afastasse. — Sem que eu pensasse, minha mão saiu da sua e se dirigiu ao seu rosto. — Doeu muito em mim te ver chorando outro dia. — Passei o polegar em sua bochecha como se tentasse apagar a memória das lágrimas. Ela instintivamente tombou levemente a cabeça na direção da minha mão, o que me fez sorrir. — Eu não entrei na peça para te chatear.
-Eu sei disso agora, Cameron. Já passou. — Ela afastou o rosto da minha mão e se buscou a maçaneta novamente. — Obrigada pela carona. — E saiu do carro
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No dia seguinte, meu até então "amigo", veio me pedir desculpas e dizer que tudo estava acabado entre eles. Preferi não discutir com ele naquele momento e apenas assenti antes de me distanciar. Eu não podia confiar mais nele.
Por algum motivo, Jason tinha a tendência de correr atrás das coisas que eu possuía. Virei capitão do time, ele exigiu que a votação fosse refeita; comecei a banda com Tyler, ele quis entrar como tecladista; comecei a namorar Ashley, ele correu atrás dela… Isso, sem contar o fato que ele, constantemente, dá em cima da minha irmã gêmea. Não me surpreende o fato de Ashley ter perdido a graça para ele no momento em que terminei com ela.
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