Notas iniciais
Todo carnaval tem seu fim.. Rs, Boa leitura.

Crânio deparou-se com um novo e-mail de Maria. Ali estava a lista de notas fiscais de cada item comprado para o projeto de ciências. Também dizia que a tese escrita por Crânio quatro meses antes finalmente entrava na fase final de revisão e seria lançada como um livro. A capa e outras especificações de design seriam cortesia da faculdade.

Lentamente, observou com atenção o e-mail. Crânio constatou que havia vestígios de Maria em todas as áreas do trabalho. Ela estava no campo de pesquisa, de testes, preocupava-se com o andamento das coisas, e em especial, com o andamento da vida do gênio dos Karas.

Quando leu “P.S” ele encontrou uma mensagem que dava a ele o número do telefone da casa de Maria. Lembrou-se que não havia pegado na noite em que os dois fizeram amor.

Crânio percebeu de repente, que a bola agora estava com ele. Maria não pretendia mais insistir, a não ser que Crânio desse um passo à frente.

Preparou o café, alguns pães na chapa e se acomodou na pequena sacada mal projetada da casa que alugava. Contemplou a vista do mercado. Comeu os pães e bebendo aos poucos o café, se pôs a refletir.

Viajaria naquela noite para a Cidade do México. Quando retornasse, colocaria ordem em sua vida.

Magri, Calú e Peggy tinham ido para o México dois dias antes. Viajaria naquela noite Com Miguel e Chumbinho.

Às dez e treze da manhã, o gênio parou de refletir. Jogou suas roupas no cesto, tirou com dificuldade o imobilizador do braço e foi até o banheiro tomar um banho. Notou que o braço, depois de onze dias, começava a melhorar. Claro, não adiantava forçar. Preparou a maleta de mão de mão com roupas, seu caderno, alguns documentos e por fim, a gaita. Dedicou o resto da tarde para ligar para os seus familiares e se preparar para viajar.

Chumbinho e Miguel chegaram de táxi no aeroporto de Cumbica, em São Paulo. Com os olhos nos painéis de embarque, os Karas seguiram para fazer o Check-in. Iriam de classe econômica. Quem dispunha de dinheiro o suficiente para classe executiva era Calú. Eram dezoito horas e oito minutos quando se encontraram com Crânio.

—”Preciso comprar tudo isso aqui para os meus pais”—Disse Chumbinho exibindo uma página inteira de papel-.

Optaram por jantar dentro do Aeroporto -O que segundo Miguel, era gastar uma fortuna- antes de embarcarem. O embarque ocorreu às dezenove e vinte e oito. Quatorze minutos de atraso. Após mais vinte e cinco minutos sentados já dentro do avião, o gigante veículo aéreos alçou voo. Rumo a Cidade do México.

Chumbinho sentou-se separado dos amigos. Na fileira à direita, na cadeira do corredor. Ao lado de uma mulher adulta. Ela trabalhava em uma multinacional. Chumbinho e ela ingressaram em uma conversa divertida. Ela lhe indicou todos os lugares onde comprar os itens da lista dos pais. Depois da refeição oferecida pela equipe de voo, Chumbinho adormeceu antes mesmo da moça.

Miguel e Crânio conversaram sobre os mais diferentes assuntos durante o trajeto. Falaram sobre os estereótipos de suas futuras profissões, sobre o caso Andrade, sobre o ferimento de Crânio e suas aventuras nostálgicas. Quando uma aeromoça de traços finos passou próximo dos dois rapazes, comentários dignos para com uma mulher sobre sua belezaconduziram a direção da conversa.

—Ela é realmente muito bonita, mas acho que não estou em fase de relacionamentos.— Miguel disse com um sorriso -

—Mesmo com uma moça tão linda assim? - Crânio sorriu -Bem, não posso dizer nada. Eu também ando com a minha cabeça pensando em certa mulher…

Crânio observou a expressão de Miguel mudar aos poucos. De um olhar mais limpo e bem humorado, para uma expressão de expectativa e dúvida. Crânio entendeu logo que, Miguel acreditava conhecer a dona de seus pensamentos, o que já fora verdade inúmeras vezes no passado. Porém, dessa vez era diferente. Crânio deu um meio sorriso.

—... O nome dela é Maria.—Ele disse -Minha colega no laboratório e segunda melhor aluna. Conhecemo-nos há três anos, mas, há alguns meses começamos a nos relacionar. Entenda… É apenas sexo.

A expressão de Miguel voltou a um tom humorado. Crânio estaria mentindo se dissesse que a reação de Miguel foi amigável.

—Sei, eu esperava ouvir algo assim do Calú, não de você.

—Ela parecia se preocupar comigo. Queria estar perto. Chegou até a dizer que perto de mim, sentia que não precisava manter segredos.—Crânio continuou -.

—O que quer dizer com “parecia”?—Miguel ainda sorria -

—Parece que agora sou eu quem decidirá para onde essa história vai seguir. Ela quer um movimento meu…

Miguel riu.

—Crânio, ela está toda apaixonada.

—Eu também estou “todo apaixonado”, Miguel…— Ele disse com um olhar zangado -.

—Então… Qual o problema? — Miguel sorriu de uma forma inocentemente sátira. Entretanto, não esperava a resposta de Crânio.

—Que da última vez que eu me apaixonei, não foi a melhor das relações.— Ele olhou fundo nos olhos de Miguel-.

Os dois se encaram em silêncio. Miguel lembrou-se de quando conversou sobre Magri com Calú. Era chegada a hora de falar com Crânio, sobre um assunto que os dois haviam prometido não comentar, mesmo que de fato, nunca haviam dito essas palavras um para o outro.

—Crânio, sobre a Magri eu…

Eu imagino o que você vai dizer. Eu mesmo pensei várias vezes no que eu faria. Sentir ciúmes dos meus melhores amigos porque a minha melhor amiga estava dando mais atenção ao Calú, ou a você…

Miguel calou-se.

—... Eu invejei você e o Calú. Vocês conseguiram se livrar mais cedo daquele sentimento. Mas para mim, foi diferente. Demorou um pouco mais de tempo para surgir uma “Peggy” na minha vida. Todas as mulheres que me relacionei ao longo dos anos não foram para frente por que…

—... No fundo, você ainda tinha um único pingo de esperança de que você e Magri ficariam juntos no fim.—Miguel completou -.

Crânio o observou surpreso. Parecia que Miguel sentiu o mesmo que ele em algum momento da vida. Por fim, continuou.

—A vida seguiu, ela não tinha tempo para relacionamentos. Logo, não tinha tempo pra mim.— Ele disse. — Faz algumas semanas que me conformei.

—Se conformou?

—De que o que eu tenho agora com Magri são o que eu terei pelo resto da minha vida.— Crânio disse, sem olhar para Miguel. — Posso perguntar uma coisa, Miguel?

Miguel não respondeu.

—Quando foi que você se conformou?

Novamente, Miguel ficou em silêncio. Crânio entendeu. Não era preciso dizer mais uma única palavra.

—Entendo…— Ele se ajeita para dormir.

Desembarcaram as cinco e onze da manhã e chegaram no hotel as seis. Instalaram-se em seus quartos. Miguel fizera reserva para junto de Chumbinho. Estavam cansados, mas sem sono. Seguiram para tomar café e seguiram para o hotel onde Calú e os outros estavam.

Peggy sorriu vendo que Calú havia conseguido despistar os fotógrafos. Em um carro alugado, Calú matava a vontade que tinha de dirigir, enquanto rodava devagar os arredores de um local chamado de a “Plaza de La Constitución”, um dos locais mais importantes de toda a Cidade do México. A praça foi construída no local onde também era o centro político, cultural e religioso da antiga cidade de Tenochtitlan, a maior da civilização mexicana -ou asteca- das Américas. Os arredores da Plaza de La Constitución reservam aos seus visitantes outras atrações. É uma região para visitar em vários dias e não apenas algumas horas. No dia em que chegou, o casal foi logo tomar um café na Casa de los Azulejos. Uma dica de um ator colega de Calú.

Peggy, Calú e Magri almoçaram e jantaram em restaurantes que além de um excelente cardápio, oferecem um ambiente requintado e repleto de história. Os espaços repletos de feiras populares às antigas fazendas coloniais, com grandes casarões e belos jardins. Fotos que circularam as revistas do mundo todo. Enquanto os “fofoqueiros televisivos” especularam que Calú e Peggy haviam fugido para a Europa, eles surpreendentemente estavam não muito ao norte do Equador.

O motivo para estarem lá, era tudo, menos diversão -apesar do fato de estarem gostando da estadia não planejada- Calú e Magrí eram “Karas” treinados e crescidos. Com ajuda de alguns mapas eles localizaram no primeiro dia o tal endereço.

A Praça Garibaldi era o lugar para festa. O local reúne dezenas de mariachis e atrai muitos turistas que desejam viver uma autêntica experiência mexicana, com direito a todos os maiores clichês possíveis. Foi durante uma rápida passagem sem os fotógrafos em seu encalço que Calú e Peggy localizaram o tal bar. “Malpraga, Bebidas”.Era aquele o local do cartão postal.

Calú voltou ao hotel. Avisou Magri que encontraram o local e que esperavam agora a chegada do restante do grupo. Na recepção, deixou muito claro que, não ligassem para o quarto, a não ser que fosse alguém chamado “Miguel”. Não havia contratado serviço de quarto e a sua camareira atendia os horários estabelecidos exclusivamente para o casal.

Calú guiou a direção de seu olhar e viu a silhueta de Peggy se despir de suas roupas e seguir para o banheiro.

Sentou-se na cadeira em frente a mesa e refletiu por pouquíssimo tempo. Começou a ler um livro. O mesmo que interpretaria um dos personagens em um futuro próximo. Ao ver Peggy passar de toalha próxima dele, não pode evitar acariciar a coxa da mulher que ele amava. Peggy retribuiu com um sorriso e conduzindo a mão de Calú para novos locais. Deixou o livro de lado e os dois fizeram amor antes de irem jantar. Crânio, Chumbinho e Miguel, estavam embarcando naquele exato momento.

As sete e vinte e quatro, o telefone despertou Calú. Os Karas haviam chegado. Ele acordou Peggy e pediu para ela se preparar. Os Karas no saguão foram obrigados a esperar mais quarenta minutos até os casais se arrumarem. Calú desculpou-se quando, às oito da manhã cumprimentaram os amigos.

—Bom dia, como foi à viagem?— Perguntou com um sorriso. Peggy cumprimenta a todos e abraça Chumbinho.

—Garanto que não foi tão confortável quanto a sua.— Crânio ironizou -.

—Peggy já telefonou para Magri. Encontraremos nos aqui e seguiremos para o “Malpraga”. Querem tomar café?

—Sim.— Disse Chumbinho -.

Aceito.—Crânio sorriu -

—Calú, Peggy, vocês irão sem disfarce?— Miguel estranhou -

—Sinto que… Não poderia conhecer ela sem ser com o meu rosto real.

—Entendo.— Miguel não disse mais nada sobre isso.

Tomaram um café da manhã americano. Bacon, ovos, torradas, chocolate, frutas e suco. Peggy optou por fatias de mamão, proteínas e muita fibra. Chumbinho notou todos os olhos do local na direção dos dois amigos. Eles representavam tanto poder e sucesso, que era intimidador se sentar à mesa com eles. Mesmo sendo todos amigos.

Magri chegou alguns minutos antes deles terminarem o seu café. Crânio, sem pensar, dirigiu o olhar para Miguel que a encarava como se a esperasse por anos.

—Bom dia.— Ela sorriu de forma adorável, como só ela sabia fazer -.

Os seis se encaram em silêncio. Miguel estava sentado no meio, entre Chumbinho e Crânio. A frente dele, Calú. Peggy a sua direita e Magri a sua esquerda.

—Sofia Malpraga. - Disse Miguel -

—Confesso que estou com um mau pressentimento…— Peggy disse por fim -.

—Não vamos assustar ela. Vamos nos apresentar como filhos do detetive Andrade. Dizer que ele nos recomendou este lugar. Que ele veio quando jovem, e voltou há pouco tempo… - Crânio sugeriu -.

—Gosto dessa ideia.— Miguel respondeu — Ela tem as peças para o Quebra-cabeça.

—O que esperamos encontrar lá?— Perguntou Chumbinho -

—Respostas.— Afirmou Miguel -.

Silêncio.

—Podemos?— Calú perguntou.


Miguel assentiu com a cabeça. Levantaram- um a um os membros do grupo. Seguiram para os dois carros. Miguel foi ao de Calú e Peggy. Chumbinho e Crânio no de Magri. Calú guiou-os enfim, em direção a Praça Garibaldi.

Notas finais
Mais cinco ou seis. Obrigado por ler. =)