Os Jogadores
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Estava terminando um trabalho de geografia que meu pai entregaria amanha de manha em minha escola quando meio irmão me ligou. Terminei a palavra que escrevia e atendi no terceiro toque meu Smartphone.
– Oi...
– O pai falou que você ainda não está indo para o colégio. – me bombardiou com as palavras antes que eu tivesse tempo de largar um: “tudo bem?”.
– É...
– Já faz uma semana e meia Miley. Você não pode faltar as aulas, se não você pode acabar rodando. E a sua faculdade?
– Calma, Rick. – falei. – Papai falou com o diretor e contou que estou grávida e pra não “sujar minha reputação” preferia que eu fizesse os trabalhos em casa já que a notícia estava nos corredores e estavam falando coisas que não deveriam dizer. – Meu irmão contou toda a estória que inventamos e depois a original a meu pai durante a viajem de volta do Rick, meu pai o levou para um hospital da cidade dele para poder ver se ele estava bem e o deixou por lá por causa de umas provas que precisava fazer. Sem contar que era melhor ele ficar estudando e não se preocupar com meus problemas e também disse que disso cuidava ele enquanto eu fosse menor de idade.
Nosso pai é tão mais experiente em mentiras quanto nós que até inventou que minha gravidez era de riscos e temia que eu sofresse novos atentados na escola e perdesse o bebê e pior que a escola nem pediu nenhuma prova, simplesmente concedeu o pedido do meu pai.
– E eles caíram nessa?
– Pior que sim – ri sem muito humor. – Se você falou com o pai, como não sabia disso? – perguntei.
– Digamos que nossa conversa não foi muito longa... e eu desliguei na cara dele pra falar com você. – respondeu.
– Típico. – falei. – E brigar comigo por faltar à aula por causa de um idiota...
– Não! – me interrompeu. – Foi sério o que aconteceu, e... eu mesmo tenho que confessar que não conseguiria suportar a ideia de você ir pra aula e pudesse acontecer algo pior com você. Você é minha irmã, caramba! Não quero que nada te faça mal! – ele aumentava o tom de voz cada vez mais enquanto falava.
Pode até ser muito bonito o que ele estava falando, mas eu só queria esquecer. Esquecer-me daquele dia e de qualquer outro que o Willian ou qualquer outro jogador tivesse presente.
– Você ainda tá aí? Miley me responde, por favor!
– Tô aqui sim. – minha voz saiu meio trêmula. Nem havia percebido que já se passava alguns segundos que ele parou de falar.
– Bom vou ter que desligar, a mãe quer o celular pra ver alguma coisa ou sei lá o que, mas nos falamos depois? – perguntou.
– Claro.
– Se cuida.
– Você também... – e desliguei.
Øøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøø
Não importa o quando você deseje ou queira esquecer-se de algo, porque você não irá. Não adianta querer prender atenção em outra coisa ou arranjar problemas solucionáveis – mas que precisam de atenção para se resolver. – para focar em algo diferente. O destino é cruel e o fato de você querer se esquecer do que se passou e até do que você sabe que irá acontecer, faz você se lembrar mais ainda.
Deitada em minha cama olhando paro o teto, vendo os adesivos sorridentes que brilham no escuro, os quais pedi à minha mãe para colocar lá quando tinha oito anos, parecem rir de mim e de minha covardia. Tudo o que eu queria era ser respeitada, acabar com minhas próprias mãos por tudo que eu estava cansada de passar. E para que tudo isso? Pra piorar uma situação que já era ruim. Não posso ir à escola, tenho medo de andar sozinha pela rua e tenho que ver o Tiago todos os dias quando ele vem entregar os meus temas de casa. Ele até pode não ser um dos piores jogadores, mais é tão covarde quanto o Bryan batendo em garotos do sétimo ano.
– Boa tarde. – disse Tiago com as mãos no bolso e com um tique de olhar para trás a cada três segundos onde havia um garoto que parecia ter vindo com ele.
– Oi. – respondi sem animação.
– Os professores querem um trabalho de dupla para semana que vem e chegou um aluno novo na sua turma de literatura fazendo um número impar de alunos, então a professora Soraya falou com o diretor pra colocar vocês em dupla, não precisa de apresentação, é só para fazer em dupla.
– E... – falei não gostando muito da história.
– Esse é o Cameron Voltolini e ele te explica melhor sobre o trabalho. Cam, essa é a Miley. Tô indo... Tchau. – E foi tão estranho quanto chegou.
– Bom acho que ele tirou a chance de me apresentar, não é? – falou o tal do Cameron com um sorriso gigante, ele queria mostrar que já tinha os sisos? Seus cabelos eram castanhos e totalmente bagunçados, se não tivesse evitando as pessoas da escola, poderia dizer que ele era bonito. Uma coisa era certa, ele estava me cantando.
– Pois é, assim podemos ir logo ao trabalho e termina-lo de uma vez. – falei ríspida mais sem aumentar o tom de voz.
– Se prefere assim. – seu sorriso aumentou e via em seus olhos a malícia como uma víbora faz antes de atacar. Os olhos dele eram pretos. – Não vai me convidar para entrar? – perguntou-me enquanto seu sorriso ia diminuindo para uma expressão de pessoa normal.
– Entra. – falei dando um espaço para ele entrar e tranquei a porta, apontei o sofá de dois e ele sentou enquanto eu me acomodava no de três. – Já volto. – levantei em seguida e fui ao meu quarto sem ouvir uma resposta. Peguei um caderno e uma caneta e voltei. – Então o trabalho é sobre o que?
– Bom – ele fez um gesto de silêncio. -, realismo, naturalismo... – enquanto ele falava lentamente pegou um celular e clicou em algo com uma mão enquanto outra ainda fazia sinal de silêncio. Que porra é essa? — Não temos muito tempo, mas acho que vamos poder conversar um pouco agora.
– O q-que que é isso? – falei assustada quando ele começou a vir na minha direção.
– Temos no máximo um minuto pra essa discussão aqui então vamos direto ao ponto. Eu estou do seu lado, mais preciso poder falar com você sem os jogadores por perto, porque olha só – disse apontando pro telefone – eles me mandaram aqui com um gravador, não posso explicar o motivo agora mais precisamos conversar. Posso vir aqui a noite?
– O que faz você pensar que acreditarei em você?
– Seus pais sabem das coisas que falam de você na escola?
– Só um idiota responde uma pergunta com outra pergunta.
– Só uma idiota perde tempo com algo insignificante quando é ela que precisa da ajuda – rebateu. Ai! Essa doeu.
– Okay, sabem sim. – estávamos falando cada vez mais rápido. Correndo contra o tempo.
– Então eles podem estar juntos na conversa, deixo eles me revistarem até pra ver se vou estar com um gravador dessa vez, mas aquele seu vizinho ali não pode saber que estou aqui.
–Use o corredor que leva pros fundos que não terá problema algum.
– Feito. Vamos continuar. – ele apertou o play do gravador. – E vai ser bem assim, você faz essa droga e eu venho buscar cedinho na segunda. E espero estar pronto ou as coisas vão ficar feias pra você. Bom, agora estou de saída. Segunda, não se esqueça! Ás sete e meia da manhã. – E saiu.
– Que merda acabou de acontecer aqui? – minha respiração estava acelerada e comecei a torcer para anoitecer logo, meus pais estariam aqui, eles resolveriam isso.
Øøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøø
– E pensar que eu achei que depois de todos esses anos nessa cidade a vidada nossa filha ia ser pacata e tediante, viu só amor, a genética funciona mesmo, os naturalistas estavam enganados. – minha mãe ria enquanto falava. – Viu filha anota isso no teu trabalho de literatura.
– Porque eu não tenho uma vida pacata e tediante? – perguntei em voz alta.
– Para isso você deveria ter nascido de outros pais e não de nós. E quem é esse cara que você tava falando filhinha? Ele é um pão?
– Mãe! – vai começar…
– Sou sua mãe mesmo, vem um garoto aqui que você nunca nem ouviu falar e te oferece ajuda, ele é romântico, hein! – minha mãe veio se esbarrar em mim para dar mais efeito.
– Amor, se vocês forem começar a falar disso me avisem pra que eu saia!
– Você já foi mais divertido, Erick!
– Uma coisa é fazer coisas erradas quando se é jovem outra bem diferente é ver seus filhos indo pelo mesmo.
– Sua filha não está se drogando, e seu filho também não se não ele não poderia ser jogador de Box. – e mais um história que gostaria de não saber. Pelo contrário amo essas histórias, quando me jogarem algo na cara, amo saber delas.
Ouvimos batidas da porta da cozinha e meu pai foi abrir. Era ele.
– Boa noite. – disse a nós.
– Boa noite. – respondemos juntos, e vi que não era a única desconfiada.
– Já vi que não sou mesmo uma pessoa confiável.
– Com certeza que não. – respondeu meu pai e vi-o ficar sem jeito. – Qual seu nome? – estávamos de pé, acho que meu pai não o ia convidar a sentar tão cedo.
– Cameron Voltolini.
– Origem italiana! – exclamou minha mãe.
– É! – disse Cameron sorrindo, mas não como os sorrisos que deu mais cedo, um mais infantil, o tipo que consegue contagiar alguém.
– O quando você sabe? – perguntou meu pai. – O porquê está junto com esses outros garotos? – meu pai sendo advogado já o vi interrogar várias pessoas, ele estava pegando leve com ele. – Acho melhor irmos para mesa. – ele falou já indo se sentar e o seguimos. A mesa era pra quatro pessoas meu pai sentou em seu lugar de sempre, minha mãe a sua direita e eu a sua esquerda fazendo com que automaticamente o Cameron se sentasse de frente para ele.
– Bom vou falar em geral se quiserem saber sobre algo como, por exemplo, como eu sei, daí me perguntem depois. – Atrevido. – Eu sei o que aconteceu com ela. – apontou pra mim. – Dos dois casos, do conhecido como caso Darla e sei também do que os jogadores faziam e fazem e também que vocês sabem a verdade, como o fato de que ela e o fulano jogador de Box são irmãos, que ela não está grávida, que o almofadinhas do William é louco por ela – apontou pra mim. -, assim como o Tiago. Sendo que ele também gostava da Darla. Sei o que o senhor Collins fez a vocês quando se mudaram para cá, também sei que todo ano ele dá a maior grana preta a polícia pelas futuras merdas que o filho dele fizer.
– E como você sabe de tudo isso, se é que seja verdade?
– Eu sou filho de Enzo Voltolini.
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