Os Jardins Da Babilônia
1 Adeus New York!
Notas iniciais
Justin retorna a Pittsburgh,quatro anos após a sua ida para New York.
O DINNER LIBERTY parecia igual a qualquer outra manhã naquela segunda-feira chuvosa. Michael e Ben, tentando convencer Hunter a se inscrever para alguma universidade coisa que o garoto vinha se negando terminantemente desde que terminou o Ensino Colegial e passou a trabalhar com Michael; Ted e Blake, comentando como foi maravilhosa a apresentação da ópera La Traviata que eles já tinham visto diversas vezes; Emmet, divagando sobre o próximo casamento da alta sociedade de Pittsburgh que estava preparando e que deveria encontrar cisnes treinados para formarem um coração com seus pescoços quando os noivos dissessem sim.
Debbie se aproxima do grupo para pegar os pedidos: — Então, o que vai ser? Cereal para meu genro, hambúrguer e batatas fritas para meu neto, panquecas para Emmet, pão branco com atum e maionese para Ted, prato rosa especial para Blake e um super hambúrguer para o meu bebê. Esqueci alguém? — Café preto, para mim! — Pede Brian unindo-se ao grupo. — Certo! Café preto para o Senhor Maravilha! — Onde você estava? — pergunta-lhe Michael — Não temos notícias de você há vários dias. — Estava fazendo um retiro sexy espiritual. Tenho certeza que seu marido entenderá. Apesar de que as atividades desenvolvidas nesse tipo de retiro não devem ser aprovadas pelo atual estilo de vida pseudo hétero Stepford de vocês. — Não somos tão puritanos como você pensa, Brian. — intervém Ben, dando um beijo na boca de Michael. — Puritanos não, Professor! Patéticos! — Se bem me lembro bem há quatro anos atrás, você Brian estava caminhando para uma vida que classifica como patética. Ao terminar a frase, Ted percebeu o erro quando viu o olhar mortal de seu amigo e chefe. — Desculpe! Brian achou que não valia a pena se importar com alguém tão abaixo da linha evolutiva como Ted. O clima pesado melhora com o retorno de Debbie e os pedidos do grupo. — Vocês sabem que dia é sexta-feira? — Claro, mãe! Faz quatro anos desde o atentado na Babilônia. Quem poderia esquecer? — Meu coração dói só de pensar que quase perdi você, meu filho. — Foi a coisa mais difícil que eu passei na minha vida. — Ben beija Michael e o abraça ao se lembrar de todo o horror que viveram. — O Centro de Gays e Lésbicas vai fazer um evento beneficente com a renda revertida para as famílias das vítimas, estou organizando o evento , será fa-bu-lo-so e di-vi-no. — Informa Emmet. — Todos estão contribuindo de alguma forma: eu farei o lançamento do meu novo livro, Michael estará lançando seu primeiro livro onde relata sua experiência como sobrevivente da tragédia e esclarece sobre a luta pela igualdade dos direitos civis dos homossexuais, como também a edição número 50 de Rage, junto com Kevin, o substituto de Justin como ilustrador e, Mel e Lindz virão do Canadá para ajudar na organização do evento — diz Ben. — Eu cantarei uma ária e Blake organizará grupos de aconselhamento sobre drogas, AIDS e DSTs — diz Ted. — As PFLAGs estão responsáveis pela alimentação e a comida que será vendida. E você Brian, o que fará? — Eu fecharei a Babilônia nesse dia, como todos os anos após o atentado, o que já é um grande prejuízo financeiro, social e sexual para mim. — Você não vai? — O que eu vou fazer em um lugar onde ninguém espera que eu esteja? — Todos estão se mobilizando. Nossa comunidade foi atingida. Nossa família foi atingida. Até Sunshine doou um de seus quadros para ser leiloado. E estará presente no evento. — Nosso Baby, se tornando um pintor reconhecido nos EUA e na Europa. — Emociona-se, Emmett. — Justin está em Pittsburgh? — Pergunta Michael. — Está na casa de Jennifer. — Informa Debbie. Todos os olhos se voltam para Brian. — O que vocês estão olhando? Não temos mais nada um com o outro há mais de dois anos e vocês sabem disso. Vou para Kinnetik. E Theodore, é melhor que você chegue antes de mim se pretende continuar empregado até o fim do dia. — Certo Brian. — Ted sai voando pela porta. Debbie chama por Brian. — Ei, você idiota! Espera ai! Estou cansada de juntar os seus pedaços e de Sunshine durante esses nove anos. Dessa última vez achei que nenhum de vocês dois iria sobreviver, por isso deixe onde ele está. Ele não está sozinho! Se você não quer se dar uma chance de ser feliz, se você tem essa ideia idiota de que não merece ser feliz, isso é um problema seu. Dê essa chance a ele, pelo amor que eu sei que você tem por ele, dê essa chance a Sunshine. — Debbie, eu prefiro os seus conselhos quando vêm acompanhados de caçarola de atum e maconha. — Brian dá um beijo no rosto de Debbie e recebe de volta um tapinha carinhoso no seu próprio. Brian entrou em seu Corvette com o coração mais pesado do que ele poderia admitir. Justin estava em Pittsburgh e não estava sozinho. Quando ele foi para Nova York, há quatro anos, foi muito difícil para os dois, mas em menos de duas semanas Brian já estava tocando a campainha do apartamento que Justin estava dividindo com os três colegas de Daphne. Justin pediu para retornar, disse que a ida para Nova York tinha sido um erro, estava sozinho, sentia falta de todos e de sua família e principalmente de Brian. Brian usou todos os seus argumentos para convencê-lo da grande oportunidade que estava desperdiçando. Foi a primeira e última vez que Justin reclamou.
A partir de então foram várias viagens de avião e carro entre Pittsburgh e Nova York ao longo de quase dois anos. Justin amadureceu como artista, seus quadros estavam cada vez mais impressionantes e ele estava conquistando um reconhecimento em todo território dos EUA. Justin tinha um agente muito respeitado no mundo da arte e conseguiu várias mostras importantes para expor seus trabalhos. Brian nunca perdeu a abertura de nenhuma exposição de Justin. Cynthia fazia malabarismos em sua agenda, mas Brian estava sempre lá, ao lado do seu SonnyBoy, vendo-o brilhar com seu sorriso de mil watts. Sunshine... Debbie era realmente um gênio para apelidos. Não havia nenhum acordo de celibato entre os dois quando eles se separaram, tanto Brian como Justin saíam com quem queriam sem desculpas, sem cobranças e sem culpas, porém a única regra que estipularam é que não poderiam levar ninguém para Britin, a casa que Brian comprou para os dois. A casa era como um santuário para o amor dos dois e estava vetado para qualquer aventura tanto de Brian como de Justin. Depois de quase dois anos, Justin já tinha combinado com seu agente que poderia voltar para Pittsburgh e viajar periodicamente para Nova York ou outro lugar qualquer do território americano quando necessária sua presença. Sua carreira internacional estava sendo planejada e Justin precisava da segurança, carinho e amor que sabia que só encontraria com sua grande família e com Brian. Apesar de seu agente insistir na necessidade de que ele fosse, pelo menos, por seis meses para a Europa numa turnê em mostras onde apresentaria seu trabalho e talvez residir por pelo menos um ano em território europeu, para fazer contatos e tornar seu trabalho reconhecido internacionalmente, Justin estava irredutível, ele queria voltar para casa de qualquer maneira. Naquela sexta-feira, Justin dirigiu seu carro com seus objetos pessoais de Nova York para Pittsburgh e o restante seria enviado por Johnny, um dos seus companheiros de quarto, quando ele decidisse com Brian se ficariam no loft ou na casa. Ele não avisou Brian, não avisou ninguém. Queria surpreender. Ao chegar no loft, o encontrou vazio e foi para Babilônia, onde encontrou Ted e tentaram ligar para Brian. Ted ligou para Britin, ganhou um dos comentários sarcásticos habituais de Brian (" Preciso do ar do campo para me tornar mais fabuloso.") e a ameaça frequente e inofensiva de desemprego, se continuasse ligando. Ted não lhe disse que Justin estava procurando-o. Justin queria surpreendê-lo. Então, Justin rumou para Britin, decidido que não importava o que Brian dissesse: nada faria com que ele voltasse para Nova York. Ao chegar, Justin, usou sua chave e entrou, as luzes do andar de baixo estavam apagadas, então ele subiu as escadas. Ao entrar na suíte principal Justin congelou. Brian estava dormindo e, ao seu lado, um homem lindíssimo com mais ou menos a mesma idade que ele, moreno, de cabelos castanhos e com o corpo muito parecido com o de Ben. Justin não pode reprimir o gemido alto de dor, o que acordou Brian e Matt. Ao vê-lo, Brian empalideceu imediatamente, engoliu em seco e não pode encarar o olhar arrasado e o rosto cheio de lágrimas de Justin. Matt, sabendo que não deveria continuar ali, vestiu-se e despediu-se de Brian passando por um Justin ainda estarrecido com a cena que havia presenciado. Com a saída de Matt, seguiu-se uma discussão dura, a mais dura que já tiveram e nenhuma desculpa foi aceita, nenhum argumento. Brian tentou explicar que a relação à distância não funcionava mais para ele; que Matt era alguém que ele estava vendo algumas vezes e, que para Brian estava se tornando mais do que uma foda ocasional; disse que queria falar para Justin e que pretendia fazê-lo, na próxima vez que fosse a Nova York. Justin nunca sentiu seu coração tão despedaçado como naquele momento, não conseguindo suportar a dor saiu sem olhar para Brian, entrou em seu carro e deu a partida, afastando-se do homem que daquele momento em diante, ele precisava matar em seu coração, para que ele pudesse continuar a viver. Brian viu o carro de Justin se afastar e nunca se sentiu tão miserável e idiota, sabia que estava jogando fora a sua única possibilidade de felicidade; estava empurrando para longe de si mesmo o grande amor da sua vida, mas, por causa desse amor sem limite, estava fazendo aquilo. Mais uma vez, Justin estava abrindo mão do sucesso em sua carreira por amor a Brian e como da primeira vez, quando, estavam para se casar, Brian o empurrou para o Despenhadeiro Kinney. Há dois anos, bastou a Brian encenar a Síndrome Bicha Stepford (Brian doméstico e monogâmico) para Justin morder a isca, agora, porém, ele tinha que ser mais radical e pela primeira vez, quebrar suas promessas para afastar Justin e não permitir que ele desprezasse suas oportunidades na Europa. Um dia, Justin iria perceber que a separação entre os dois iria acontecer. Ele era jovem e seu talento estava abrindo tantas perspectivas em sua vida que fatalmente a distância se tornaria maior e ele se afastaria cada vez mais de Brian. Brian não queria lidar com isso e nem queria que Justin se sentisse preso a ele, abrindo mão de tantas coisas que poderia viver. Matt, não era ninguém importante emocionalmente para Brian, apenas alguém que além de ser uma boa foda estava servindo aos seus propósitos para afastar Justin. Após uma última olhada para o carro que partia, levando Justin de sua vida, Brian pegou sua garrafa de Boca e começou o processo de gerenciamento da dor. Justin queria voltar para Nova York naquele mesmo dia, mas não se sentia em condições, seu desespero era enorme e ele queria entender o que estava acontecendo. Por que depois de lhe dizer que o amava, depois de tudo o que viveram, como Brian simplesmente, colocou outro em seu lugar? Ele precisava compreender e ajustar-se nessa nova realidade que parecia um pesadelo do qual ele queria, desesperadamente acordar. Então procurou a única pessoa que poderia ajudá-lo naquele momento: Debbie. Ele precisava de respostas para entender o que estava acontecendo. Quem era Matt? Por que ninguém falou para ele? Ele não conseguia compreender porque Brian quebrou suas promessas e o pior de tudo é que ele deixou de ser o único com quem Brian dormiu mais de uma vez, o único que Brian permitiu ficar. Foi por ele que o Grande Brian Kinney, deus do sexo da Avenida Liberdade, quebrou todas as suas regras e essa era a grande certeza e segurança que ele tinha no seu relacionamento montanha-russa, cheio de idas e vindas. Justin, agora, perdeu essa distinção entre todos os que estiveram com Brian, ele não era mais tão especial, ele não era mais único e essa dor era a mais profunda em seu ser, agora era como se o chão tivesse sumido sob os seus pés e, pela primeira vez, desde que ele o conheceu, Justin começou a admitir e temer que o amor que sentia por Brian Kinney não era capaz de suportar tudo isso dessa vez. Justin ficou na casa de Debbie durante quinze dias, sob os cuidados e a proteção canina de Debbie, Emmet e Carl. Justin descobriu que nenhum dos seus amigos sabia exatamente a resposta para suas perguntas, nem Michael sabia algo concreto. Para todos, Matt era apenas um cliente de Brian que frequentava a Avenida Liberdade e até onde sabiam não tinha nenhum envolvimento com Brian. Durante todo tempo que Justin esteve em Debbie, Brian jamais o procurou. Debbie, Michael, Emmet e até Ted não pouparam esforços para mostrar a Brian o quanto ele estava perdendo ao tirar Justin de sua vida. Brian não deu ouvidos a ninguém e continuou a ser simplesmente o velho Brian Kinney, sem desculpas, sem arrependimentos. Justin retornou para Nova York depois desse período, mudou para seu próprio apartamento e trocou todos seus telefones cortando todos os contatos com Brian. No mês seguinte partiu para a Europa. Brian, depois de um mês que Justin estava em Nova York, despachou Matt de sua vida e continuou seu processo de autodestruição: noites frequentes sem dormir, muito sexo, bebidas e drogas. Michael tentou ajudá-lo, porém, dessa vez, não conseguiu. Foi Debbie quem chamou-o à razão mostrando que Gus necessitava de um pai, mesmo ele sendo o maior idiota da face da Terra. Nos meses seguintes, Brian enlouqueceu Cynthia para descobrir todas as vernissages de Justin, tanto em território americano como na Europa. Brian não perdeu nenhuma. Escondeu-se dele em todas, sofria ao vê-lo tão perto e não poder se aproximar; ao mesmo tempo se orgulhava em vê-lo se tornar um dos maiores fenômenos da pintura na atualidade. Cynthia teve de prometer a Brian manter seu segredo e ele sabia que poderia contar com a fidelidade e amizade dela.
Após dois meses, da discussão em Britin, Ted entregou a Brian um cheque de Justin quitando todos os custos da dívida do empréstimo para sua faculdade. Brian pediu a Ted que avisasse que ele não queria, Justin insistiu com Ted e o dinheiro foi revertido para o Hospital Vic Grassi. Após dois anos que tudo isso aconteceu, Justin estava em Pittsburgh, e o primeiro impulso de Brian foi dirigir até a casa de Jennifer e implorar o perdão dele, mas esse não é Brian Kinney. Sem desculpas e sem arrependimentos. Ele vai continuar com sua vida fodida, perdido, sem a pessoa que realmente deu significado à palavra amor em sua vida. Brian deu a partida em seu Corvette e seguiu para Kinnetik, seria um dia cheio: dois clientes novos pela manhã e teria que torturar seu departamento de arte que estava atrasando a nova campanha nacional da Brown Atlethic. Não tinha tempo para lamentações. Justin admirou o espaço do loft que sua mãe lhe mostrava: — O que acha, querido? — É perfeito! Bem iluminado, funcional e com um ótimo espaço. E o melhor de tudo é que eu posso pagá-lo. Posso fazer daqui minha casa e meu estúdio e também ficarei próximo de você e da Molly. O que acha Luke? — Será que haverá espaço para um piano? — Sempre podemos dar um jeito! — Você tem certeza que quer sair de Nova York, querido? — Não há necessidade da minha presença constante em Nova York, no momento. Posso pintar em Pittsburgh, tranquilamente. Sinto falta daqui e das pessoas. Sinto falta de você e da Molly. E, também, agora, irei viajar com mais frequência, por isso quero ficar mais próximo da minha família. — E eu sempre poderei vir a Pittsburgh, quando eu tiver folga nas apresentações da Orquestra — afirmou Luke. — Então, posso fechar a venda? — Pode, mãe! Estou voltando para casa! — Ah, meu filho! Estou tão feliz! — Eu também! Adeus, New York! Todos riram alegremente.
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