Os Inocentes
1 Capítulo 1 - A Entrevista com o senhor Bly
Notas iniciais
- A minha principal condição para lhe confiar o cargo é que a senhorita nunca, em hipótese alguma, me pertube: não quero nenhuma solicitação, nem reclamações, nem cartas a respeito de coisa alguma. Resolva sozinha todos os problemas, receba o salário e todo dinheiro necessário através do meu procurador; enfim, assuma toda responsabilidade e, por favor, deixe-me em paz.
Eu era jovem (apenas vinte anos), vinda de uma pequena paróquia em Hampshire, inexperiente e temorosa. A perspectiva era de uma tarefa séria, com muitos deveres, poucas companhias, muita solidão. Esta já era minha segunda entrevista com ele. Devia tomar a decisão naquele momento.
O senhor Bly era um homem solteiro e jovem e, sem dúvida, um cavalheiro. Uma figura com tais características jamais havia surgido diante dos meus olhos, a não ser sonhos ou através da minha imaginação febril ao ler romances antigos. Não pude deixar de pensar nele nem por um minuto entre nossos dois encontros, e acho que nunca poderei esquecê-lo: bonito, agradável, natural, alegre e gentil. Mas penso que o que me encantou e me encorajou a aceitar a tarefa foi o fato de ele apresentá-la de uma maneira como se eu fosse lhe prestar um favor, pelo qual ele me seria eternamente grato.
Percebi que era rico e extravagante, de hábitos dispendiosos, pelo fato de se vestir na moda, por sua ótima aparência e principalmente pela sua casa, enorme e imponente, repleta de lembranças pelo sua casa, enorme e imponente, repleta de lembraças de viagens e troféus de caça.
Mas não seria lá que eu trabalharia, e sim na sua casa de campo, a propriedade de Bly, em Essex, para onde ele queria que eu seguisse imediatamente. Eu seria a governanta e instrutora de suas dois sobrinhos, um menino e uma menina, deixados sob sua guarda desde a morte dos pais deles, na Índia, uma vez que eles praricamente não tinham outros parentes.
- Tudo doi uma imensa tristeza, sem dúcida — ele comentou comigo na nossa primeira entrevista -, e houve também uma série de erros da minha parte, considerando-se a minha falta de experiência e de paciência com crianças. Mas, finalmente, descidi mandá-los para o campo, que com certeza é o melhor lugar para criá-los. Logo cerquei-os dos melhores empregados que pude encontrar, e eu mesmo ia até lá sempre que podia. Mas meus próprios negócios tomam quase todo o meu tompo...
Falou-me etão dos inúmeros empregados e de suas funções: a cozinheira, a arrumadeira, a moça que preparava os laticínios, o cavalariço e um velho jardineiro, todos igualmente respeitáveis.
- Não há alguém que derija os serviços domésticos? — perguntei.
- Ah, sim, claro, a Sra. Grose. Ela é a cabeça da casa, uma mulher excelente. É responsável pela manutenção da casa e ultimamente tem sido também a governanta da menina, por quem sente imenso carinho.
- E seu sobrinho ?
- Esteve o último semestre nem internato, embora ainda tão pequeno. Mas o que mais eu poderia fazer? Deverá voltar para casa nos próximos dias, com o início das férias. Assim, se aceitar o emprego, a senhorita será responsável pela educação das duas crianças, tendo suprema autoridade sobre todos os outros empregados, inclusive, logicamente, a Sra. Grose.
- Desde que chegaram da Índia, não tiveram ainda uma preceptora? — perguntei, intuindo ser essa uma questão delicada, uma vez que haviam chegado há bastante tempo.
Ele pareceu-me um tanto pertubado:
- Sim, houve uma moça, sim. Mas tivemos o infortúnois de perdê-la.
- Perdê-la ? — repeti, tentanto deduzir o que "perder" significava.
Ele foi seco em sua resposta, como que me advertindo a não continuar insistindo no assunto:
- A jovem morreu. E justamente esse fato obrigou-me a enviar o pequeno Miles para um internato. Creio que isso é tudo, senhorita. Espero sua resposta dentro de dois dias, com ansiedade.
Na verdade, aqueles dois dias serviram somente para eu me assegura de que minha decisão em aceitar o emprego não seria um ato precipitado. No fundo eu sabia, desde o primeiro momento em que o vi, que assumiria o cargo se ele me admitisse. O salário, sem dúvida, excedia de longe as minhas expectativas. Mas o verdadeiro motivo, agora eu tenho certeza, foi a própria figura fascinante do senhor de Bly.
Quando concordei com a mais importante das condições, ou seja, não importuná-lo jamais, ele segurou minha mão e disse, num tom absolutamente encatador:
- Estou extremamente agradecidopelo seu sacrifício.
Só por essa frase eu já me sentia recompensada. Mesmo que me fosse possível imaginar o quanto seria difícil minha estada em Bly.
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