Os Guerreiros Do Reino Após Os Muros
11 Boa Noite
Notas iniciais
Após os banhos quentes que foram preparados para cada um, os três se encontraram no quarto de Lua.
—Do que a Rainha estava falando, Miya? O que há nesse livro? — Lua perguntou.
—É a história de Litari. — Miya respondeu, passando a mão pela capa de veludo.
—E o que você descobriu até agora?
—Anos atrás, alguns viajantes encontraram essas terras e resolveram criar moradia. Construíram casas pequenas, fizeram uma horta. Pescavam onde hoje há o porto, caçavam pequenos animais e aves no bosque. Formaram famílias, crianças nasceram. A população cresceu e precisavam de um líder. Coroaram o primeiro Rei e Rainha, e nomearam o pequeno reino de Litari, em homenagem a primeira princesa da família real. Porém ninguém sabia que essas terras tinham dono. Uma voz furiosa ecoou pelo reino, dizendo que mataria todos se não fossem embora. O Rei tentou um acordo com a fera que morava na floresta: pagaria pelas terras. Mas a fera não queria ouro ou prata, não queria pão ou vinho. A fera queria três habitantes e três habitantes adentraram a floresta e nunca mais voltaram.
—E esse pagamento continua até hoje? — Sam perguntou.
—Sim. Todos os anos. Até que três guerreiros vindos de longe aceitem o convite à Litari. Os três guerreiros chegarão ao reino e, independente de onde eles estejam, as flechas os encontrarão.
—Exatamente o que aconteceu essa noite. — Lua murmurou.
—Sim... — Miya continuou. — E os três guerreiros devem ir à floresta ao leste, e seguir em frente pela trilha de pedras.
—E depois? — Sam perguntou.
—Encarar o monstro que vive ali.
—Só isso? — Lua estava pasma. — Só isso que havia no livro? Nada sobre como matar o monstro? Ou sobre como vamos fazer para voltarmos vivos para a nossa dimensão?
Miya abaixou a cabeça:
—Eu ainda não li tudo... Passarei a noite em claro para terminar de ler as páginas que faltam.
Sam foi até a porta e, segurando a maçaneta, disse:
—É melhor dormirmos. Boa noite, meninas.
E saiu.
Miya também deu boa noite a Lua, e deixou o quarto.
Lua deu uma volta pelo aposento, nervosa, e depois se jogou na cama macia. Ela fechou os olhos por breves segundos, até que escutou uns arranhões na porta.
Ela se levantou rapidamente e, segurando uma vela, foi até a porta. Ao abri-la, viu um pequeno papel dobrado no chão.
Ela pegou o bilhete e olhou em volta. Pôde ver na escuridão do corredor uma cauda tortinha e contorcida.
—Boa noite. — Lua sorriu e fechou a porta, voltando para a cama.
Abriu o papel sob a luz da vela e leu:
—Serei eternamente grato. Volte em segurança. Symba.
• • •
Sam estava sentado em sua cama quando o sol nasceu. Ele segurava seu caderno de composições, que sempre carregava consigo, e relia a mensagem que escreveu na noite anterior.
Ele não tinha certeza do que iria acontecer nas próximas horas, mas tinha certeza sobre seus sentimentos e queria que Lucas soubesse disso.
Houve uma batida na porta, e Shanya avisou Sam que o café da manhã estava pronto.
Ele terminou de vestir as roupas típicas de pano de Litari, uma calça verde escura e uma camisa de botões, e desceu para encontrar Lua e Miya, que já estavam sentadas à mesa.
Lua estava usando uma calça azul escura, uma camisa branca de manga comprida e botas.
Miya havia feito uma trança comprida nos cabelos, e vestia uma calça preta, uma camisa igual a de Lua e botas.
—Bom dia. — Miya disse ao ver Sam.
—Bom dia. — ele respondeu, vendo as olheiras no rosto da colega. — Não conseguiu dormir?
—Fiquei lendo.
E ficaram em silêncio, nem tocaram na comida.
Purga e Symba chegaram depois de um tempo, avisando que os cavalos estavam prontos.
Os três se levantaram e vestiram mantos com o brasão de Litari nas costas. Foram até os estábulos do palácio e arrumaram suas coisas.
Symba estava explicando a Lua e Miya o caminho até a floresta, enquanto Purga mostrava a espada e as três flechas que guardou entre os pertences de Sam.
—Purga, gostaria de te pedir um favor. — Sam falou.
—Claro, qualquer coisa. — Purga respondeu.
Sam lhe entregou seu caderno, com as mãos trêmulas:
—Entregue isto ao Lucas, se eu não voltar.
Purga segurou o caderno com força e disse:
—Não precisarei entregar, porque vocês vão voltar.
—Por favor, Purga. Prometa que se eu não voltar, você irá até o reino de onde vim, e vai entregar isto a ele.
Os olhos de Sam estavam marejados.
Purga balançou a cabeça afirmativamente e abraçou Sam:
—Eu prometo.
Sam retribuiu o abraço, e subiu em seu cavalo. As meninas também já estavam prontas.
Miya carregava um arco e flechas nas costas, sua bolsa com mantimentos, e um punhal em sua bota direita.
Lua também estava com um arco e flechas, sua bolsa, e uma espada na cintura.
Os três se despediram de Purga e Symba, e foram em direção aos portões.
Eles deram uma última olhada para o palácio, e puderam ver a Rainha acenando da janela de seu quarto.
Acenaram de volta e partiram. Passaram pela ponte e seguiram ao leste. A floresta ficava a meia hora dali.
—Quem diria? — Lua sorriu para Sam.
—Quem diria o quê? — Sam perguntou.
—Que você era capaz de abraçar.
O rosto de Sam ficou vermelho, ele arregalou os olhos e colocou a mão dentro do bolso da calça, assustado.
—Precisamos voltar! — ele exclamou.
—Por quê? — Miya perguntou, preocupada.
—Eu esqueci meu álcool.
As meninas riram.
—Do que estão rindo? — Sam perguntou, franzindo a testa e parando seu cavalo. — Precisamos voltar.
Lua ergueu a mão e mostrou o frasquinho de álcool entre seus dedos:
—Você estava tão avoado que esqueceu na mesa do café da manhã.
Sam se apressou, foi até Lua e pegou o frasquinho de suas mãos:
—Obrigado!
—Que evolução! — Lua ria. — Aprendeu a abraçar e agora a agradecer.
—E quando será que você vai aprender a parar de implicar comigo?
—Eu implicando com você? Você é que implica comigo. Implicante!
—Implicante.
—Você que é implicante!
—Estou do seu lado, não precisa gritar. Implicante!
—Você deveria estar no lugar do cavalo, isso sim!
Miya olhou para os colegas e riu, grata por não estarem assustados e nervosos como ela.
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