Os Guardiões
2 A Fugitiva - 2ª Parte
Notas iniciais
Brianna’s Version
— Ai que demora! – Cochicho comigo mesma enquanto espero em pé na entrada do campo de futebol.
É noite e todos os rapazes já estão no vestiário há um bom tempo. Decido então pegar o celular e teclar algumas vezes na tela. Logo, levo o aparelho ao ouvido e escuto o barulhinho da chamada.
— Alô? Brian?! – Digo impaciente. – Sabe há quanto tempo estou aqui fora te esperando? ...
— Me dá só mais cinco minutos. – Ele fala paciente e escuto as risadinhas dos seus amigos.
— Não mais do que isso. – Digo e encerro a chamada.
O vento sopra um pouco mais forte e cruzo os braços com o frio. Vou até a arquibancada e me sento na terceira fileira de bancos. Esse campo de futebol pertence à universidade a qual Brian e eu estudamos.
Não demora muito e o vejo atravessando o campo de futebol. Estava usando uma calça moletom escura, uma camiseta branca e levava um bolsa grande em uma das mãos. Brian é um jovem de cabelos castanhos, corpo atlético e pele bronzeada. Ele é um cara simpático, inteligente e possui a personalidade de um cavalheiro.
As minhas amigas ficam todas babando por ele e dizem que ele é o tipo ideal de todo mundo. Eu particularmente não me importo com isso. Na verdade, chega a ser divertido ver todas as garotas populares e metidas a populares dando encima dele e o mesmo não dando a mínima para nenhuma delas.
— Pra quê tanta pressa, maninha? Nem deu tempo de vestir uma roupa decente. – Ele fala debochado e abrindo um pouco os braços pra mostrar o que vestia.
— Fui seguida... de novo.
Ele faz uma expressão preocupada e indaga:
— Eram as mesmas pessoas?
— Não. Dessa vez era uma mulher e dois homens. No entanto, tinham a mesma aparência sobre-humana. Algo dentro de mim diz que eles não eram normais.
— E eles estão por aqui?
— Não. Acho que consegui despistá-los no meio do caminho. Por isso vim aqui. Não quero ir sozinha pra casa.
Ele olha em volta preocupado e então segura a minha mão para me ajudar a descer da arquibancada.
— Então vamos logo. Não queremos ter nenhuma surpresa pelo caminho. – Ele diz e vamos em direção à saída.
Nos últimos dias tem acontecido uns episódios estranhos comigo e com o meu irmão. Bem, estanho é eufemismo considerando que nós dois somos diferentes das pessoas comuns. Conseguimos fazer coisas que as pessoas normais não conseguem. Brian, por exemplo, pode controlar a eletricidade. Mamãe descobriu isso quando o viu canalizando toda a energia de um raio durante uma tempestade quando o mesmo era criança.
No meu caso, eu posso curar as pessoas. Descobri isso no ensino médio, quando estava assistindo a um treino do Brian e um dos seus amigos caiu e cortou a perna. Eu cheguei perto para ver e quando toquei na perna ensanguentada o corte começou a desaparecer. A sorte é que era noite e com todo o alvoroço ninguém conseguiu ao certo ver o que aconteceu. Claro, com exceção do Brian, o qual ficou incrédulo, porém animado de não ser o único “estranho” da família.
Mas, voltando aos episódios estranhos que tem acontecido com nós dois, nos últimos dias Brian e eu fomos seguidos por algumas pessoas estranhas. Homens e mulheres tem nos vigiado em todos os lugares: ao redor da nossa casa, na universidade, nos barzinhos, nas boates, nas praças, até mesmo no supermercado. Eles ficam nos encarando como se estivessem tentando confirmar alguma coisa.
A pior parte disso tudo é que eles não parecem pessoas comuns. Eu sei que é loucura, que somente Brian e eu somos especiais. Mas até mesmo a nossa mãe já cogitou a ideia de haverem outros como nós por aí.
Bem, desde que essas pessoas começaram a aparecer, temos evitado de andar sozinhos. Principalmente eu. Afinal minhas habilidades de cura não são tão efetivas em atacar pessoas como as habilidades elétricas do Brian.
— Devíamos fazer alguma coisa a respeito. – Brian quebra o silêncio.
Agora estamos caminhando por uma rua deserta próxima ao centro da cidade. Moramos em uma cidadela pequena chamada Little Fox. Habitantes: 8000. Ah, cidade pequena! Todo mundo conhece todo mundo. Por isso estamos assustados: nunca vimos nossos perseguidores antes.
— Mas o que poderíamos fazer? – Digo enquanto caminhamos e ouvimos o som dos nossos próprios passos ecoando pela rua vazia. – Não sabemos quem são... o “que” são. E se eles forem como nós? Provavelmente são bons no que fazem e nós... bem, nunca lutamos assim antes.
— Eu sei. Mas não podemos ficar parados. Temos que pelo menos perguntar o que querem.
De repente meu celular toca e eu tiro o aparelho do bolso da calça para ver quem ligava.
— É a mamãe. – Digo sem tirar os olhos da tela. Logo atendo a ligação dela e a mesma parece preocupada.
— Alô. – Digo.
— Você está com o seu irmão?
— Sim, por que?
— Não venham para casa. Pelo menos não agora. – Ela diz e antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, ela continua. – Eles estão aqui. Estou vendo por um canto da janela e eles estão por toda parte na rua.
— Estão em volta da casa. – Digo ao Brian que logo faz sinal de que vai correr na direção da nossa rua, mas o impeço. – Mamãe disse pra não irmos.
— Eles vão machucá-la!
— Não venham!!! – Podíamos ouvir a voz dela vinda do aparelho e então coloco no viva-voz. – Eles não vão fazer nada comigo. Eles querem vocês! Não venham, é uma ordem.
— E pra onde vamos? – Brian questiona.
— Vão para a casa da tia Raimunda. Digam... digam que eu passei a noite fora e esqueci de deixar a chave com vocês. Não sei, inventem algo..., mas não venham para casa. – Ela desliga.
— Não podemos deixa-la sozinha.
— Brian, ouviu o que ela disse. Eles não vão machucá-la.
— Não temos certeza disso.
— Ela foi clara, Brian. Além do mais, eles querem a nós. Assim que perceberem que não estamos lá, eles vão deixa-la em paz e vão vir atrás da gente. – Digo e ele finalmente parece concordar. Ele respira fundo e diz:
— Tem razão. Então vamos, né? Tia Raimunda, aí vamos nós. – Ele encerra enquanto damos meia volta e seguimos na direção de onde viemos, afinal, a casa da tia fica no outro lado da cidade, logo após a boate Wild Night.
Calisto’s Version
Após longos meses presa na prisão mágica dentro dos muros de Grasla, aqui estou eu: de volta ao meu antigo emprego de bar tender na boate Wild Night. Praticamente implorei para o meu chefe me aceitar de volta, visto que eu sumi por meses e nunca dei satisfação. Bom, eu não podia de jeito nenhum dizer que estava presa em uma prisão mágica, então falei que tive meio que um surto psicótico e sumi por uns tempos.
Meu chefe não é um cara muito compreensivo. Então me disse que no próximo deslize não haverá outra chance. Okay, posso viver com isso. Aliás... “tenho” que viver com isso. Preciso do emprego para bancar meu pequeno apartamento localizado num prédio velho no centro da cidade. Não é muito, mas é a única coisa que tenho.
Todo esse tempo na prisão de Grasla não me permitiu descansar nem um pouco. E desde que fugi de lá, não pude desfrutar de uma boa noite de sono, visto que estou sempre alerta com medo de que me encontrem novamente. O pior disso tudo é que estou sempre cansada e as minhas energias andam muito baixas.
No entanto, a música aqui está alta e nem mesmo o cansaço me impede de me deixar levar pelas batidas enquanto jogo garrafas de bebidas para o alto e brinco de fazer drinks coloridos. Sirvo algumas pessoas e depois paro por um tempinho para observar o local. Não mudou muito desde a última vez que estive aqui. São as mesmas pessoas e a mesma decoração. Nada de novo.
Duas jovens se aproximam e eu as reconheço, como a maioria aqui, na verdade. Uma é Camila Forbs, a rica da cidade. Seu pai era engenheiro civil e morreu de um acidente de carro quando a garota tinha apenas 8 anos. A mãe era médica e faleceu no parto. Ela cresceu com a tia, que faleceu recentemente, mas ela nem deu a mínima pra isso. Eu no lugar dela também não me importaria. A tia era uma tirana. Só aceitou a guarda da garota por causa do dinheiro e tratava a menina como lixo, principalmente depois que descobriu que a sobrinha era lésbica. Desde então, Camila está livre pra viver da maneira que bem entende. A linhagem da sua família sempre foi bem-sucedida. Depois que a tia morreu, ela se mudou e agora mora só na sua casa de luxo em uma parte mais afastada da cidade, na área nobre. Além disso, cursa literatura na universidade de Little Fox.
A outra é Nikaya Angels, melhor amiga da Camila. Tem alguma coisa nela que me é familiar. Não sei bem o que é, mas sempre que estou perto dela, sinto uma energia diferente. Não é ruim, aliás. Na verdade, é uma sensação boa. Nikaya também cursa literatura na universidade junto com a Camila. Ela mora com a mãe em uma casa bem legal no meio da cidade. Ela não é rica, mas leva uma vida confortável. A senhora Angels é professora da universidade e cuida muito bem da filha. Dizem que Nikaya é adotada, mas eu nunca tive certeza. Na verdade, nunca me importei.
As duas se aproximam do balcão e Camila é a primeira a fazer o pedido:
— Eu quero uma Tequila Fizz. – Ela diz enquanto se encosta na bancada e senta no banquinho.
— Mais? Você já está loucona. Quase fez strip-tease encima da mesa. – Nikaya retruca.
— Me deixa. Não é sempre que você leva um pé na bunda e ainda por cima é roubada. – Ela responde.
— Nesse caso, vou te acompanhar. – Nikaya fala e logo se volta a mim. – Eu vou querer um Margarita Frozen, por favor.
Aceno com a cabeça para as meninas e logo começo a trabalhar nos drinks. É inevitável ouvir a conversa.
— Nikaya, ainda não acredito que fizeram isso comigo. Poxa, achei que ela fosse a minha alma gêmea.
— É nisso que dá conhecer suas “almas gêmeas” sempre pela internet. Além disso, não devia facilitar tanto com estranhos. Eles nem eram dessa cidade.
— Noite ruim? – Pergunto puxando assunto.
— Minha amiga aqui chamou um cara para sair comigo e uma moça para sair com ela. Ela conheceu os dois pelo Tinder, sabe. Daí plot twist, os dois eram um casal e acabaram de roubá-la. Esperaram para que ela ficasse bêbada e quando fui ao banheiro e voltei, eles haviam ido embora. Quando perguntei o que houve, ela disse que eles a ameaçaram e levaram a carteira. – Nikaya responde com ar cômico.
— Cara, você também levou um pé na bunda. Não tá chateada? – Camila choraminga.
— Eu não.
— Que horror. – Digo. – Hoje em dia não se pode confiar em mais ninguém. – Finalizo os drinks e os entrego às garotas. – Prontinho. Uma Tequila Fizz e uma Margarita Frozen no capricho.
— Obrigada!! – Elas respondem ao mesmo tempo e pegam as bebidas.
— Aonde você vai? – Camila pergunta quando vê Nikaya saindo pela multidão.
— Eu esqueci minhas chaves no banheiro. Não faz nenhuma besteira sem mim, okay? – Ela responde e desaparece entre as pessoas.
— Bom, não vou ficar aqui choramingando pelo amor perdido. Vou cair na pista. – A outra fala e me dá um sorriso enquanto sai multidão afora.
Resolvo então organizar as garrafas de bebidas na estante, ficando de costas para a bancada do balcão. De repente, uma voz masculina, elegante e suave, faz um pedido.
— Pina Colada, por favor. – Ele diz e meu corpo congela. Um frio invade minha barriga e sinto um arrepio que vai até a espinha.
“Não é possível. Não pode ser!” Penso enquanto engulo seco e viro para avistá-lo.
— Ah, e vê se não exagera no rum. A dosagem tem que ser perfeita. – Ele fala com um sorriso de canto e com o olhar fixo em mim.
Era ele, cabelo loiro, pele perfeita, roupas elegantes... Alucard estava bem diante dos meus olhos. Logo, todos aqueles meses de pesadelo naquela prisão voltaram e sinto meu corpo estremecer somente com a possibilidade de voltar para lá.
— O que... está fazendo aqui? – Minha voz quase não sai.
— Vim te buscar, é claro. Não achou que ia fugir por muito tempo, achou? – Ele fala olhando em volta. – Eu odiaria ter que machucar todas essas pessoas só por sua causa. Então, considere que estou de bom humor hoje e, como o cavalheiro que sou, vou te dar 5 minutos para tentar fugir. Quando seu tempo acabar, iremos atrás de você e ninguém aqui se machuca. Começando... agora!
Ele diz e não penso duas vezes antes de sair pela porta principal do barzinho e entrar para a cozinha do estabelecimento. Saio pela porta dos fundos da boate e corro em direção ao estacionamento. Mas eis que escuto dois barulhos de tiro vindos do outro lado do estacionamento e resolvo correr na direção oposta. Saio pela rua principal que dá acesso à zona nobre da cidade. E quando olho para trás, eles estão vindo atrás de mim.
Olho para frente novamente e existem dois homens grandes e fortes parados no meio da rua, como se estivessem a minha espera.
— CRISTAIS DE GELO! – grito tentando canalizar energia e lançando enorme cristais pontiagudos formados de gelo na direção dos rapazes, os quais são cortados pelo gelo e caem no chão com a força do impacto dos cristais.
Continuo correndo e agora são cinco homens atrás de mim. Não sei por quanto tempo vou aguentar fugir. Mas lutar não é uma opção. Estou muito casada e, portanto, fraca demais para isso.
Nikaya’s Version
Toda aquela história com a Camila me deixou chateada com aqueles dois. Onde já se viu se aproveitar de alguém, ainda mais quando este alguém está bêbado?
Pego minha bebida no balcão e agradeço a bar tender. Logo, começo a seguir no meio da multidão.
— Aonde você vai? – Camila pergunta com um semblante confuso no rosto.
— Eu esqueci minhas chaves no banheiro. Não faz nenhuma besteira sem mim, okay? – Respondo e sigo no meio da multidão.
Não demora muito e já estou do lado de fora da boate e seguindo na direção do estacionamento. “Eles não devem ter ido muito longe. Não faz muito tempo que deixei a Camila sozinha com eles”. Penso enquanto o som do meu salto alto ecoa pelo estacionamento, que, por sinal, está deserto.
Resolvo parar e fechar os olhos.
— Me diga onde eles estão. – Ordeno baixinho e respiro fundo. De repente a corrente de ar fica mais forte e o vento começa a sussurrar no meu ouvido. – Claro. – Dou uma risadinha irônica. – O carro da Camila. Se eles pegaram a carteira, então também pegaram as chaves.
Apresso o passo na direção do local onde o carro está estacionado e não demora muito até que eu ouça uma risada feminina e uma voz masculina que dizia:
— Foi como tirar doce de uma criança.
Eles entram dentro do Volkswagen Virtus estacionado ao final do local. Um veículo preto que a Camila comprou no início deste ano. Eles se sentam e logo se beijam.
— Ah safadinhos. Vamos ver até onde eles acham que podem ir com esse golpe. – Começo a andar rapidamente na direção deles e antes que o rapaz pudesse dar a partida, coloco minhas duas mãos no capô do veículo. – Saiam do carro! – Ordeno.
— Veja só, Marcos. Sua acompanhante da noite apareceu. E ela não parece muito feliz. – A garota ruiva fala dando risadinhas e o rapaz ri enquanto banca o durão.
— Deixa que eu resolvo, Natália. – Ele diz e sai do carro. – Esquece, garota. Vai embora enquanto eu peço pacificamente. – Ele ameaça e eu solto uma pequena risada debochando do macho alfa.
— Escutem aqui, casalzinho Bonnie e Clyde, eu não vim aqui para "pedir"... vim aqui para exigir. Devolvam as coisas da minha amiga enquanto “eu” peço pacificamente. – Retruco me aproximando do marmanjo e colocando o dedo no peito do desgraçado.
Parece que ele não gostou de ser desafiado por uma garota, visto que o mesmo me empurra com as duas mãos e eu ando violentamente para trás, quase me desequilibrando do salto 15 e quase caindo.
— Vai aprender que eu não tenho nenhum escrúpulo, Nikaya. E, portanto, se eu tiver que te dar uns tapas, então é isso mesmo que eu vou fazer.
Ele fala vindo na minha direção. Mas antes que ele pudesse me alcançar, ergo meu braço na sua direção:
— Vertigo!!! – Digo e vejo o mesmo começar a perder o equilíbrio e colocar as mãos na cabeça. Mantenho minha mão direcionada para ele e o rapaz cai de joelhos, enquanto me encara em silêncio. Ele parece confuso e aparenta não entender nada do que está acontecendo.
— MARCOS!!! – A ruiva grita e corre em direção ao namorado. – O que está acontecendo com você?
— Eu não sei. – Ele diz com uma voz cansada. – Estou tonto, não consigo me levantar. Não tenho equilíbrio nenhum.
— É você que está fazendo isso, não é? – Ela dirige a pergunta a mim. – Pare! Pare agora!!!
— Cala a boca! – Digo impaciente e, com a outra mão, recolho energia e lanço a garota dois metros mais distante de onde estamos. A mesma cai rolando no chão.
Mas, enquanto me concentro nela, perco o foco no cara e ela se levanta rapidamente e segura meu braço, me puxando o torcendo meu braço nas minhas costas. Eu grito com a dor e sinto ele me empurrando violentamente para bem longe. Dessa vez, torço o pé e caio no chão.
Agora existem arranhões nos meus braços e nas minhas pernas devido ao asfalto malcuidado do estacionamento. Alguns foram um pouco mais profundos e começaram a sangrar. Mas não demora muito e todos os ferimentos começam a desaparecer.
Me olhando com uma expressão incrédula, os dois parecem chocados. Me levanto impaciente, afinal tudo isso já levou tempo demais. E se tem uma coisa que eu não gosto, é de perder tempo.
— Já chega. – Digo e vou na direção do brutamontes. – Você, vê se aprende a nunca mais agredir uma mulher. – Digo antes de lança-lo para bem longe com toda a força que tenho. Se ele morreu eu não sei, mas a essa altura já não me importo. – E quanto a você... – Falo enquanto me volto para a desgraçada e a mesma parece tirar algo de dentro do carro.
— Fica longe de mim. – Ela diz com uma voz trêmula enquanto ergue uma arma na minha direção.
Eu suspiro impaciente.
— Tenebris!! – Eu falo e ela atira duas vezes. Mas já é tarde demais. Ela está cega e erra os dois tiros.
— O que fez comigo?
— É temporário. – Respondo enquanto vou na direção do carro e pego as chaves.
— Devolva a minha visão.
— Ela vai voltar, já disse. – Falo enquanto tiro a carteira da Camila das mãos dela.
— Você é cruel. – Ela fala com uma voz embargada.
— Não. Vocês escolheram isso quando deram um golpe na minha amiga. Eu dei uma chance de me devolverem tudo enquanto eu pedia “pacificamente”. Mas vocês escolheram o caminho mais difícil.
— Eu não entendo o porquê de tudo isso. Era só dinheiro.
— Não era “só dinheiro” pra vocês há alguns minutos atrás, né? – Digo e me abaixo pra ficar cara a cara com ela, assim ela poderia me ouvir da melhor forma possível. – Entenda uma coisa. Não fiz isso pela carteira, pelo dinheiro ou pelo carro. Fiz isso pela minha amiga. Acho bom vocês lembrarem do rosto dela, porque se eu souber que vocês falarem com ela novamente ou que se quer sonharam em enganá-la de novo, vou me certificar de tornar a cegueira permanente da próxima vez. – Falo e me levanto. – Ah, e vou dar cinco minutos. É o tempo que você recupera sua visão e que aquele idiota ali acorde... se é que ele ainda esteja vivo. Cinco minutos é tudo o que vocês têm para darem o fora daqui e nunca mais darem as caras novamente. – Concluo e me dirijo na direção da boate.
Entro no Wild Night e procure pela Camila, a qual está sentada à bancada do balcão do bar.
— Cansou de dançar? – Pergunto e ela, caindo de bêbada e provavelmente com sono, resolve responder:
— Não. Meu drink acabou e estou esperando a bar tender, mas ela sumiu e eu fiquei sem bebida. – Ela responde enquanto apoia a cabeça no braço encima do balcão. Ela com certeza está cansada, triste e totalmente bêbada. – Por que demorou tanto no banheiro? Estava pegando alguém lá dentro, não era?
Ela diz e eu rio enquanto resolvo ajuda-la a se levantar. Ela quase cai no chão, mas seguro seu corpo com toda minha força e a tiro daquele local.
— Já falei pra não fazer isso sem mim. Sabe que é meu sonho uma transa a três no banheiro de uma boate. – Ela fala atropelando as palavras.
— Para de falar besteira. – Digo aos risos. – Relaxa, eu não estava pegando ninguém. Só fui resolver um probleminha. Agora vamos.
— Aonde está me levando?
— Para casa.
— Mas eu não quero ir ainda.
— Você não tem escolha. Está bêbada e mal se aguenta em pé. – Digo e ela ri freneticamente feito uma louca. – Toma. – Falo e entrego a carteira.
— Minha carteira! – Ela fala como se aquilo fosse a coisa mais fantástica do mundo. – Achei que tinha perdido.
— Não, você roubada, lembra?
— Aquela desgraçada. Conversamos por horas e, no fim, ela despedaçou meu coração. Nunca esteve afim de mim, sabia Nikaya? – Ela fala em meio a alguns soluços provocados pelo álcool. – Eu não devia confiar em ninguém. Só você... só você... – Ela diz abaixando a voz e ficando em silêncio.
Chegamos ao carro e nenhum sinal daqueles dois. Abro a porta do passageiro e coloco a Camila com cuidado no banco. Em seguida, coloco o sinto de segurança nela e fecho a porta. Me sinto mal por ela. É óbvio que ela está mal também. Por mais que a tia fosse uma tirana desgraçada, era a única pessoa que ela tinha da família. Agora ela não tem mais ninguém. Na verdade, ela só tem a mim para cuidar dela. E eu, claro, faria qualquer coisa por ela.
Entro no carro e coloco o sinto. Fecho a porta e pego um copo que havia no porta copos. Me concentro um pouco e encho o copo de água.
— Toma, bebe isso.
— Água mágica. – Ela fala rindo do nada e tomando todo o conteúdo do copo. – Mais, por favor.
Dou mais e ela parece satisfeita.
— Nick... – Ela fala baixinho, com a cabeça encostada no vidro da janela do carro. – Dorme comigo lá em casa hoje. – Ela pede e eu confirmo com a cabeça. Ela sorri e fecha os olhos. Dou a partida e saio do estacionamento.
Brian’s Version
Estamos chegando na área nobre da cidade, onde a tia Raimunda mora. Brianna esteve em silêncio por boa parte do caminho. Ela parece cansada. Não é pra menos, afinal já é muito tarde e caminhamos bastante desde o campo de futebol.
Brianna é uma jovem alta, magra, de cabelos castanhos, ondulados e que vão até a altura do pescoço. Ela é gentil, inteligente e muito prestativa. Vê-la apavorada dia e noite me deixa irritado. Essas pessoas estranhas que ficam nos seguindo e vigiando já estão me enchendo o saco.
Caminhamos pela rua deserta e avistamos um Volkswagen Virtus preto que vem adiante. O veículo para no sinal vermelho e posso ver duas moças lá dentro. Não reconheço a moça que está no banco do carona, pois sua cabeça está encostada na janela e virada para baixo. Acho que está dormindo. Mas a moça que dirige, bem... já a vi na universidade algumas vezes. O sinal abre e o carro segue em frente, dobrando à esquerda em seguida.
Novamente estamos sozinhos na rua.
— Como foi o treino? – Brianna quebra o silêncio.
— Tenso. Todos estamos preocupados porque não estamos indo bem nessa temporada.
— Ah, desencana. Eu sei que o astro do time vai dar um jeito. – Ela diz me empurrando com o ombro.
Mas, logo a nossa frente, dobrando a esquina da direita vem uma moça correndo, ainda distante de onde estamos. Ela tropeça e cai. Parece cansada. Atrás dela, alguns caras correm e quando se aproximam da mesma, a cercam.
— Aquela não é a bar tender do Wild Night? A que tinha sumido? – Brianna pergunta, enquanto força a vista para enxergar melhor.
— É sim. – Confirmo enquanto também forço a vista para enxergar melhor. – Se não me engano, o nome dela é Calisto.
De repente, um dos caras que a cercaram levanta a moça violentamente, puxando-a pelo braço e dando um enorme tapa no rosto dela. Outro também puxa a garota para si e a agride violentamente. Ela parece tentar revidar, mas não tem chance. São cinco contra uma.
— Que canalhas!! – Falo indignado e começo a seguir na direção deles.
— O que vai fazer?
— Não posso deixar que aqueles idiotas continuem agredindo a moça. – Respondo enquanto continuo andando.
— Então me espera. – Brianna fala e vem correndo atrás de mim.
Ao nos aproximarmos, olhamos para a jovem no chão. Ela estava suja de sangue, mas não possuía nenhum machucado. Pelo menos nenhum visível. Ela tem a pele clara, olhos bem azuis e seu cabelo é comprido, bem liso e platinado. Ela se levanta e, quando faz menção de que vai erguer um dos braços, um dos homens lhe dá uma rasteira e mais uma vez ela cai violentamente no chão, cortando uma das pernas. Mas logo o ferimento desaparece.
— Viu aquilo? – Pergunto chocado para Brianna e ela, também em choque, confirma com a cabeça. Foi quando eles perceberam nossa presença ali.
Os homens nos olhavam. Encaravam mesmo. Todos em silêncio.
— Brian. – Brianna fala com certo medo na voz. – Lembra quando eu te falei que hoje fui seguida por dois homens e uma mulher? – Ela pergunta e eu confirmo com a cabeça. – Então, os dois homens eram os da direita.
Ao ouvir o som daquelas palavras, olho para os homens ali presentes e para a moça ensanguentada, porém sem ferimentos, caída no chão. Ela é como nós e eles sabem quem ela é. Então eles também sabem da minha irmã gêmea. Era só uma questão de tempo para que Brianna e eu fossemos as próximas vítimas. Mas não vai ser o caso. Está na hora de acertar as contas com esses desgraçados.
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