Os Geminídeos
1 Capítulo Único
Capítulo Único — Os Geminídeos
Kin não tinha a mínima ideia de onde estava. Teve os olhos vendados e, próximo dela, não havia nada tateável. Ela tinha motivos para acreditar que foi levada para um grande espaço aberto, um lugar cuja única fonte de iluminação era a luz das estrelas, onde o ar era puro e a brisa, doce brisa, era fria.
— Tá me levando pra uma floresta, Arashi? — Chutou, sorridente. Havia matado a charada.
— É, tô sim, você me pegou. — Desvendou os olhos castanhos escuros dela, em seguida a abraçou por trás, unindo seus corpos. Tinham exatamente a mesma altura. Tá, talvez ela fosse alguns centímetros maior do que ele, mas isso não era vergonhoso, Kin tinha um metro e noventa e oito de altura, perto dela qualquer um parecia um anão, até ele, que media um e oitenta e nove.
— Por que numa floresta? — Sentiu as mãos dele contornarem a sua cintura. — Podia ter me levado ao céu. Do nosso quarto mesmo.
— A noite ainda é uma criança. — Beijou a bochecha dela, apontou para as estrelas e disse: — Olha pra lá. — Arregaçou as mangas e olhou as horas no relógio de pulso prateado. — Vai começar daqui a pouquinho.
— O quê? — Ela ainda estava confusa.
— Se você não sabe mesmo, vou deixar ser uma surpresa.
Ela bufou e fez uma careta. Depois cruzou os braços.
— O que pode te atrair mais do que o meu corpinho sem roupa nenhuma, afinal?
Ele pensou por um segundo.
— Nada. — Respondeu. — Nadinha mesmo, mas hoje é quarta feira e é a primeira vez na semana que nós saímos do quarto. Falta só uma semana para o nosso anjinho nascer e eu tô tão ansioso que não consigo parar de pensar... e aí eu tive a ideia de aproveitarmos esses últimos momentos sozinhos.
— Você é louco.
— O quê? Não sou, não.
— Claro que é, é doido de pedra.
— Por quê?
Ela se afastou dos braços dele, e quando ficaram frente a frente, falou:
— Vamos avaliar os fatos. A minha barriga ainda não tá gigante porque a minha natureza alienígena reduziu a um mês o meu tempo de gestação, o meu irmão tá acampando com a futura rainha e só vai voltar domingo, meu pai não liga pra o que fazemos e já deu a benção dele para o nosso casamento e você tá aqui falando em aproveitar fora do quarto os últimos momentos antes de eu dar a luz à nossa filha. Ou você é louco ou é gay.
— Sabe muito bem que eu não sou gay.
— Verdade. Ficou impotente?
Ele suspirou com pesar.
— Eu só tenho vinte anos, quem fica impotente com vinte anos?
— Pode acontecer, ué. Eu já ouvi falar de-
— Não, eu não fiquei impotente, podemos só curtir a vista? — Cedeu-lhe a mão.
Ela pensou duas, três, quatro vezes antes de dar a mão a ele, mas deu, e ele caminhou com ela até um pouco mais adiante.
— Se você ficou impotente, eu retiro o meu "sim" ao seu pedido.
O moreno balançou a cabeça.
— Nem grávida para de pensar em sexo. — Sorriu, selou a boca dela com um beijo e encarou o céu. — Essa é você.
— Pois é. Na verdade, eu acho que a gravidez só aumentou o meu apetite por sexo.
— Como se isso fosse possível...
— Muitos homens chamariam de presente uma esposa pervertida.
— Eu não tô reclamando. — Retrucou. — Só que a noite de hoje será um pouco diferente das outras e me inspirando nela, pensei em agirmos diferente hoje também. Se, porventura, quando tiver a idade que nós dois temos agora, a nossa filha perguntar o que fizemos uma semana antes de ela nascer, acho que será um pouco constrangedor responder que transamos todos os dias.
— "Porventura", é você quem sabe.
Os olhos azuis de Arashi se voltaram para a enorme rocha lá na ponta do penhasco. Ele segurou a mão da loira com força.
— Vem. — E ele a arrastou, pela mão, até lá. — Olhá só. A mais bela das chuvas de meteoros.
E um espetáculo de luzes refulgentes clareou o céu, trazendo consigo um leve sopro de ar que sacudiu os cabelos encaracolados de Kin e abrilhantou o seu rosto alvo. Admirando sua beleza, realçada pelo resplendor dos meteoros, seu namorado se sentiu o homem mais sortudo da Terra por ter o seu amor.
Sorrindo, ela avançou um passo. Estava lado a lado com Arashi.
— É lindo, sim...!! — Abraçou a nuca dele. Manteve os olhos no céu.
— Vêm da constelação de Gêmeos, daí o nome... Gemínidas. — Pôs suas mãos na cintura dela. — São dourados como os seus cabelos e só aparecem no mês de dezembro, o mês em que a nossa menina vai nascer... Sempre vão me lembrar as duas mulheres da minha vida.
Aquilo fez o coração dela bater mais rápido. O ama desde que começou a se interessar por garotos, nunca pensou que um dia o ouviria lhe dizer coisas tão bonitas.
— Isso parece até um sonho. — Riu. — A ficha ainda não caiu...
O guerreiro glacial a envolveu com seus braços, ela deitou o rosto em seu peitoral e começou a tentar ouvir as batidas de seu coração.
— Hum... Isso tem duplo sentido? É alguma piada com um teor sexual e eu não consegui captar?
— Não, palhaço. — Deu um tapa no peito dele. — Tô falando sério.
— Desculpa se não sei discernir entre a sua versão séria e a pervertida. — Ela olhou para ele de cara feia. — Que é? Você mesma se chamou assim, eu só tô repetindo o que você disse.
— Dá pra me ouvir?
— Tá, foi mal. Pode falar.
— Eu... — Irrompeu em risadas. — Não é nada. Eu tô feliz. Muito. E vou ficar muito mais quando a nossa Gemínida nascer...!
— Não vai chamar a nossa filha assim. — Retrucou.
— O quê? Por que não?
— Quer que ela sofra bullyng?
— Ela não vai sofrer bullyng por isso, o nome é... bonitinho.
— Me lembre de não te deixar dar nenhum palpite quando formos batizá-la. — Ficou de joelhos, olhou para o ventre de sua noiva e disse: — Eu não vou deixar sua mãe fazer isso com você.
Fim.
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