Os Fundadores
6 O porco enverrugado

Rowena enfiou uma colher cheia de purê de batatas na boca.
— E então? Virão? — Perguntou, depois de terminar a refeição.
Helga suspirou e deu um gole em seu chá.
— Ah, sim, estão vindo. Há algo acontecendo, Rowena.
— Bem... — Começou ela, vasculhando sua mente por palavras acalentadoras o suficiente. — não creio que seja suficientemente sério. Do contrário, eles falariam... com você, principalmente. — Helga nada respondeu: a atenção das duas foi atraída para os dois homens que cruzavam o salão até chegar na mesa onde estavam, sentando-se.
— Regis! — Chamou Godric. O homem, atrás do balcão, ergueu os olhos e o encarou com um sorriso amigável. — O que quer, Salazar? — Ele se voltou para o amigo.
— Salsichas, peixe e tomates grelhados. — Respondeu, no tom de voz sereno de sempre. Parecia ter a resposta na ponta da língua e encarava a chama das velas flutuando no teto.
— Nos sirva salsichas, peixe, tomates grelhados e.... filé de bife com cogumelos. — Anunciou alto, ignorando os olhares dos outros bruxos. Regis assentiu. — Vocês estão bem? — Perguntou para as duas mulheres.
— Perfeitamente. — Rowena sorriu.
— Estou satisfeita, Godric querido, obrigada. — Helga também sorriu e se aprumou na cadeira; Rowena sabia que ela pretendia começar a falar.
— Então, qual a razão de tudo isso? — Godric indicou a mesa, mas se referia aos outros três bruxos sentados ali. É claro que a reunião não estava passando despercebida: Godric Gryffindor era famoso por todo o país, assim como Helga Hufflepuff, que se tornara conhecida por toda a Europa devido às inúmeras viagens que havia realizado e por feitos e talentos fantásticos que os bruxos presenciaram dela. Rowena, apesar de nunca ter ido tão longe de casa, havia conquistado sua reputação impecável durante suas saídas noturnas, sendo reconhecida principalmente através de fofocas que os bruxos levavam para cada perímetro que percorriam, sempre deixando muito claro sobre o exímio talento com feitiços e as longas e inteligentes conversas que ouviram dela. Salazar, por sua vez, era conhecido principalmente através do boticário de seu pai, mas diferente dos outros três, sempre era retratado com o adicional de um bruxo rabugento. E, de fato, ele era.
Por isso, olhares curiosos se demoravam nas quatro figuras reunidas ao redor daquela mesa, que não pareciam ter ideia do quanto estavam chamando a atenção dos presentes.
— Caça de bruxas. — Respondeu Helga, mordendo o lábio inferior. Rowena sorriu levemente.
Godric arqueou as sobrancelhas, pegando os pratos que Regis mandara levitando até eles e colocando na mesa. Salazar começou a partir suas salsichas.
— Perdão? — Indagou ele, sem entender. Pescou um cogumelo no prato e jogou na boca, mastigando vagarosamente em seguida.
— Helga, pule a introdução. Eu imploro. — Resmungou Salazar, os olhos firmes nos dela.
— Como ela possivelmente poderia pular a introdução? Ele não entenderia. A introdução é importante! — Defendeu Rowena. — Por isso chama-se introdução.
Salazar revirou os olhos e continuou comendo.
— Não posso pular, Salazar. Rowena está certa. — Helga encolheu os ombros.
Começou, então, a explicar para um Godric quieto sobre como as caças às bruxas eram perigosas principalmente para mulheres, e ainda mais, mulheres sem educação mágica. Disse à ele que poucos tinham um bom acesso aos livros de magia por serem imensamente caros e que aquilo não era justo. Salazar a interrompeu para pontuar que se a população mágica continuasse presa em sua ignorância, logo não existiriam mais bruxos, pois os trouxas conseguiriam matar a todos — Godric discordou firmemente — já que não possuiam instruções relevantes e que feitiços caseiros eram inúteis — Rowena soltou uma exclamação alta, dizendo que nenhum feitiço era inútil.
— Por isso, Godric, eu pensei que seria uma boa ideia em construir uma escola. Uma escola para bruxos, para toda e qualquer criança que nasça versada em magia. Nós quatro somos muito bem falados — Helga corou humildemente. — e pensei que poderíamos sermos os mestres.
Godric assentiu, em silêncio. Salazar sorriu.
— É uma boa ideia, Helga, mas... me parece... difícil de ser executada. — Ele inclinou a cabeça.
— Viram? Eu sabia que... — Começou Salazar, sendo interrompido em seguida.
— Eu concordo! Vamos fazer isso! — Godric abriu um largo sorriso, sendo acompanhado por Rowena e Helga. Salazar o olhou incrédulo.
— É muita responsabilidade! — Protestou Slytherin, olhando os rostos sorridentes ao redor da mesa.
— Tem razão, Salazar. Mas podemos fazer isso! — Helga pousou as mãos na mesa, radiante.
— Juntos construiremos e ensinaremos, Salazar. A união será o nosso guia. — Adicionou Rowena, com os olhos brilhando de expectativa.
— Brilhante. — Godric estava pensativo, mas com um largo sorriso nos lábios. — Coincidentemente, herdei uma construção na Escócia. Era um forte de batalha.
— É uma ótima ideia, Godric. — Interviu Rowena antes que Salazar pudesse falar. — Mas precisaria de muitas reformas.... Talvez não seja indicado ensinar crianças num forte de batalha desativado.
Godric corou.
— Bem, não é exatamente um forte de batalha... É um castelo desativado.
— Como diabos herdou propriedades na Escócia? — Questionou Salazar, franzindo o cenho.
— Essa é uma ótima história! — Gryffindor sorriu. — Tudo começou quando minha tia-avó-
— Tudo bem. — Interrompeu Slytherin. — Então, por onde vamos começar?
— Ora, aceitou a ideia? — Helga sorriu largo com divertimento nos olhos.
— Sim. — Bufou ele. — Mas eu não aceito nada inferior à Uagadou. Teremos a melhor escola de magia do mundo! — Seu tom de voz era inquestionável.
— Esteve em Uagadou? — Rowena o olhou surpresa, se inclinando delicadamente para a frente. — Teve uma interessante viagem na África, então... Visitou muitos países?
— Ah, sim! E tive a chance de ver Uagadou de perto. — Salazar pareceu se perder nas memórias por um instante.
— Bem, uma vez conheci Reeve Ollivander em Edimburgo. Ele me contou coisas excepcionais sobre os alunos... Mencionou que não usavam varinhas! — Rowena bebeu um gole de sua taça, sem desviar sua atenção do rosto de Slytherin.
— Eles usam varinhas, mas o mínimo possível. Em grande parte, fazem magia com as próprias mãos. É arcaico. — Slytherin soprou descrente. — Mas de fato, muito interessante.
— Então precisaríamos começar já. — Interrompeu Godric, quando Rowena se empertigou na cadeira pronta para começar um longo interrogatório. — Uagadou já funciona há sessenta anos, Slytherin, e se pretende ultrapassá-los....
— Ora, Gryffindor... — A sobrancelha negra de Rowena se arqueou e um sorriso brotou em seus lábios. — Não o desanime. Quantidade não é sinônimo de qualidade... e isso teremos de sobra. Por isso selecionaremos os melhores, os de mente afiada, com sede de conhecimento para serem alunos de Hogwarts!
Um silêncio se seguiu à sua fala, onde os três outros a olhavam quase assombrados. Rowena corou, repassando em sua mente se havia dito algo questionável.
— Hogwarts? — Helga se inclinou para a frente.
— De jeito nenhum! — Salazar quase gritou, dando uma gargalhada em seguida; Godric fazia o mesmo.
— Qual a graça? — Rowena encolheu os ombros, mas ergueu o queixo. — Eu não sei de onde veio, mas estive pensando nesse nome há alguns dias... Devo ter lido em algum lugar...
— Deve ter escutado numa piada de taverna, com certeza! — Retrucou Slytherin, rindo discretamente.
— Bem, não significa literalmente porco enverrugado... Juntando as duas palavras, se forma uma nova. E, pessoalmente, achei encantador! — Helga sorriu levemente, tentando amenizar a situação.
— Helga, não podemos acreditar em você. É muito gentil. E é exatamente o que significa! — Gryffindor apoiou o cotovelo no ombro de Slytherin, com as bochechas vermelhas e um sorrisinho.
— Ah! — Rowena exclamou. — Pare, Gryffindor! Você quer fazer uma escola num forte de batalha!
Ele se aquietou, mas sorriu.
— Está bem, é um bom nome. — Salazar inclinou a cabeça, parecendo pouco interessado em contrariar Helga. — Mas sei que podemos encontrar um melhor. Vamos todos pensar em um.
— Até chegarmos num acordo, podemos chamar de Hogwarts. — Godric olhou para Rowena, buscando sua aprovação, mas ela havia se virado para Helga.
— Eu gosto de Hogwarts. — Seus olhos brilharam. — Me parece diferente de tudo que poderiam imaginar.
— Ah, é mesmo! — Salazar respondeu com sarcasmo.
Ela se virou para ele.
— Vamos chamar de Hogwarts até encontrarmos mais opções, mas sei que até lá vocês terão se acostumado tanto que nem pensarão em mudar!
— Que tal... — Godric bateu o dedo no queixo. — Lumos Escola de Magia? — Os outros o encararam. — Vamos clarear as mentes! — Ele começou a rir assim que terminou de falar.
— Gryffindor, você já foi mais esperto. — Salazar riu.
— É uma boa intenção, Godric! — Helga esticou o braço sob a mesa e apertou sua mão.
Rowena estava em silêncio, vasculhando a mente atrás da origem daquele nome. Nada lhe vinha na cabeça, mas parecia tão certo...
Ela fez uma careta. Sua memória costumava ser tão boa, como podia não se lembrar de onde teria visto a palavra ''Hogwarts''?
— Então, por onde começamos? — A voz de Salazar fez com que ela voltasse sua atenção para a mesa.
— Pelo forte, não? Precisamos ver se precisa de uma reforma... se há aposentos o suficiente... — Helga começou a enumerar nos dedos.
— Então devíamos ir. — Godric esfregou a barba. — Há muito a ser feito no forte.
— Há quanto tempo você não vai lá, Godric? — Perguntou Rowena, se levantando ao mesmo tempo que os outros.
— Ah... desde que herdei. Fazem pelo menos dez anos.
— Bem... e você herdou de bruxos ou trouxas? — Continuou ela, jogando o cabelo negro sob o ombro e começando a dedilhá-lo numa trança. Helga fitou os movimentos da amiga com uma sobrancelha arqueada.
— Está trançando os cabelos, Rowena? Pretende entrar em algum tipo de briga?
Esse era um ritual. Se Rowena estava prestes a fazer uma longa pesquisa ou entrar num duelo, ela trançava os cabelos longos e amarrava-os numa fita azul cintilante que conjurava com sua varinha, assim como havia acabado de fazer.
— Talvez. Ele não vai até lá há dez anos...
— Ravenclaw está certa. — Slytherin refletiu. — Podemos encontrar qualquer cenário. E então, Godric? Herdou de trouxas ou bruxos?
— É difícil dizer... inicialmente, o lugar pertenceu à um senhor feudal trouxa. Depois, ele foi embora para outro local e levou todos com ele, abandonando a construção. Acho que outro trouxa se apossou depois, até que bruxos precisaram de um lugar... A história é confusa. Podemos encontrar qualquer tipo de animal, bruxos ou trouxas... Eu não sei. — Explicou Gryffindor, a mão grande distraidamente apertando a bainha da espada. Sua mente estava indo longe, imaginando qualquer tipo de perigo. Ele se virou para Salazar, que o fitava intensamente. — Pare com isso!
— Só queria ter certeza de que estava pensando o mesmo que eu. — Defendeu-se, sorrindo. — Godric e eu achamos que vocês duas devem permanecer aqui.
Helga e Rowena se encararam por um momento antes de rirem alto.
— Não, não e não!
— Não há chance alguma de isso acontecer, por favor!
— Olhem — Godric começou. — Podem haver animais perigosos lá! Ou trouxas perigosos! Ou bruxos perigosos! Não queremos que se machuquem.
— Bem, nós não queremos que vocês se machuquem! — Retrucou Helga. — Por isso iremos juntos, lembra? Rowena mesma disse! Juntos construiremos e ensinaremos!
— A parte de construir está para começar. — Rowena ergueu o queixo com superioridade e colocou as mãos na cintura. — E Helga Hufflepuff e Rowena Ravenclaw não temem nenhuma batalha.
Fale com o autor