Narrador P.O.V

Na grande cidade russa, em uma manhã de quarta feira, poucas pessoas encontravam-se em uma praça no centro da cidade. Não haviam muitas, provavelmente por ser um dia de semana e a maioria trabalhar naquele período. Mesmo assim, duas garotas estavam juntas, sentadas em um banco.

Eram Natasha e Lara, que formavam um casal e combinaram de se encontrar aquela manhã para dar um passeio cotidiano normal. Reunidas, as duas trocavam ideias.

— Você sabe que agora precisa fazer as pazes com ele, né?

— Eu não sei, Natty, você sabe como ele é em relação a mim. – Lara comentou, pensativa.

— Eu sei, mas ele ainda é o seu pai. Você não acha que já tá na hora dos dois conversarem?

— Ele teve a chance dele de fazer as pazes comigo.

— Mas–

— Ah não, nem adianta, aquele lá é muito teimoso! Você não acha que eu queria me readmitir? Claro que queria, mas com ele teimando não dá!

— Tá bom, então, você quem sabe… o que é aquilo?

— Aquilo o quê?

Enquanto conversava, algo chamou a atenção de Natasha. É fato que não haviam muitas pessoas na praça, mas um grupo de jovens de idade próxima à delas estava reunido.

— Aquele lá! Aquele ali de branco. – Intrigada, ela aponta para o grupo, em especial para um rapaz de cabelo loiro e olhos azuis. – Aquele ali é o amigo da Ana.

— O Máx-alguma-coisa?

O grupo era composto por homens de diferentes tipos físicos, alguns mais jovens, outros mais velhos, magros ou mais fortes, porém, todos com pouco cabelo ou raspados que usavam jaquetas de couro e demais roupas pretas pesadas com símbolos específicos espalhados. Dentre eles, estava Máxim.

Ele parecia nervoso, estava discutindo diante de todos com tom de briga como se estivesse tido graves divergências com o resto do grupo. Os outros, inclusive, pareciam estar unidos contra ele. Apesar de estarem praticamente gritando, pode estarem longe, não dava-se para ouvir a conversa.

— Aquilo lá é um daqueles grupos radicais? – Lara pergunta, um pouco assustada.

— Deve ser o grupo fascista do Máxim, eles parecem meio nervosos. – Natasha supõe. – A Ana tinha dito que o Máxim era como um líder deles.

— Não é melhor a gente ir embora?

— Ah não, eu quero saber do que eles tão falando, parece uma briga interna!

— Isso não é perigoso? Eu tenho um pouco de medo dessa gente…

— Ele não vai fazer nada com a gente, ele é amigo da Ana.

— Mas foi ele que bateu no Ahiru, não?

— São situações diferentes. Eu queria é saber do que eles estão falando.

Era mais ou menos um grupo de seis pessoas e a discussão parecia piorar. Máxim, furioso, gritava com os outros cinco que gritavam de volta pra ele como em uma verdadeira briga verbal, coisa que deixava as duas bem curiosas em saber do que se tratava.

Porém, as coisas só ficaram mais estranhas ainda quando um deles saca uma faca e abraça Máxim, perfurando a barriga dele e deixando um corte profundo. Elas levaram um susto; o bando foi embora, deixando que ele ficasse sozinho e se ajoelhasse no chão, com a mão na ferida.

— V-Você tá bem?! – As duas foram correndo na direção de Máxim quando os outros foram embora

— Ai, ai… – Mesmo sentindo dores no chão, ele olhou para elas e reconheceu uma das. – Você…

— Por que fizeram isso? A gente precisa chamar um hospital! – Natasha exclamou, tentando levantá-lo.

— Você é aquela garota.. que namora a Anastácia…

— Hã? Namora? – Lara indaga, franzindo o cenho.

— D-Depois a gente conversa sobre isso… – A cônjuge dela responde, soltando um riso tímido. – A gente tem que tirar ele daqui logo!

Juntas, elas o levantaram e o ajudaram a andar até uma parte próxima à dali onde havia um gramado. Natasha tirou a camisa dele e usou o pano pra conter o sangue do ferimento, voltando a deitá-lo no chão de gramas com a camisa amarrada na barriga, como se fosse um curativo improvisado.

— Aah, isso dói… – Máxim disse, conseguindo falar mais calmo.

— Eu vou ligar pra ambulância. – Lara fala, pegando o celular.

— Não, não, não precisa. – Mas ele a contém. – Eu tô bem, foi só um arranhão. Eu não vou a hospital nenhum por conta daqueles canalhas.

— Por que fizeram isso com você? – Natasha pergunta. – Eles não eram seus amigos?

— Eu nunca disse que eles eram meus amigos, eles faziam parte de uma espécie de gangue minha.

— E o que aconteceu?

— Eu disse que iria me afastar do grupo, foi isso que aconteceu.

— Por quê?

— Porque eu cansei. Já faz dois meses que eu não os via, mas eu só saí formalmente agora. Acho que eles não aceitaram muito bem essa decisão.

— Que coisa, vocês parecem um bando de animais que atacam por nada…

— Não compara, pelo menos os animais atacam por sobrevivência. – Lara refuta.

— Só faz um favor pra mim… – Máxim se vira pra Natasha. – Não conta pra Anastácia o que aconteceu.

— Por quê? Ela vai ficar feliz por você ter desistido disso.

— A nossa revanche é hoje, ela não vai querer vir se souber que me deram uma facada na barriga.

— Hã? Você não pode nem lutar assim!

— A luta é à noite, eu tenho o dia inteiro ainda e foi só um cortezinho, não vai dar em nada. Mas eu não quero que ela fique com pena de mim, entende?

— Ela não ia querer lutar se soubesse disso.

— É por isso que ela não pode saber. – Máxim apóia a mão no chão e começa a se levantar com uma certa dificuldade, ainda sentindo dor. – Viu..? Eu tô ótimo…

— Não é melhor adiar isso? Mesmo?

— Adiar? Pff… eu ganharia daquela pessoa mesmo se arrancassem um dos meus braços.

— Você que sabe, machão, depois não vem chorar porque perdeu.

— Eu não vou perder. – Se despediu sem falar mais nada, indo embora da praça. Natasha e Lara continuaram ainda mais curiosas para saber no que aquilo daria.

(...)

Anastácia P.O.V

À tarde, Oliver me chamou pra ver uma série que estávamos acompanhando em trio junto com Niko. Estávamos no sofá bebendo refrigerante e esperando a pipoca ficar pronta no microondas para podermos assistir TV em conjunto.

— Meu maior medo depois que vocês brigaram foi ter o risco de não poder mais ver a série com vocês. – Comentei, eu estava no meio dos dois. – Ou que vocês vissem sozinhos, sei lá.

— Eu até pensei em acabar a série toda sozinho na verdade. – Ahiru confessa.

— A gente sabe que é a sua cara fazer esse tipo de coisa quando briga com alguém. – Niko o acusa. – Nem precisava dizer.

— Para de falar como se eu fosse uma pessoa infantil, Niko.

— Você me deu unfollow no Instagram, no Facebook e no YouTube sendo que eu nem entro lá!

— Porque eu não queria ver a sua cara.

— É essa sua lua em escorpião que te faz agir assim.

— Meninos, parem de brigar um segundo… – Murmurei, já cansada. – Vocês deviam é começar a namorar logo.

— Ahn... – Eles ficam se entreolhando, constrangidos.

— Bom, a pipoca ficou pronta, eu vou buscar! – Niko exclamou, indo embora da sala de estar.

— Mas então, é hoje o tal do seu encontro com o boy? – E Oliver mudou de assunto rapidamente.

— Que encontro? Que boy? Hoje é dia da minha revanche contra aquele escroto, se for isso que você quer saber.

— Você promete que vai se vingar por mim? Eu ainda não consigo acreditar que ele me enganou daquele jeito.

— E pensar que isso tudo começou porque você fica usando esses aplicativos suspeitos, ai, ai... eu prometo sim, tá?

— Depois me conta tudo. Com detalhes.

Eu nem me preocupo, eu sei que a Ana vai ganhar. — Niko voltava pro sofá com a pipoca nas mãos. – As mulheres sempre acabam com os homens fácil.

— Você vai treinar ou alguma coisa assim? – Oliver perguntou.

— Treinar pra quê? Prefiro passar o dia vendo séries com vocês.

— Então é exatamente isso que a gente vai fazer. – Niko sentou no sofá e colocou a pipoca no meio de nós, ligando a televisão.

(…)

A noitinha caiu, já estava na hora de ir à praça. Saí da casa de Oliver e me preparei mentalmente para voltar a encontrar Máxim e ter minha revanche. Percebi que já estava atrasada por culpa da maldita série que não me deixava sair no sofá, então me propus a ir correndo o mais rápido possível.

Cheguei no local da praça, atravessei o portão da mesma. Estava vazio, os brinquedos que eram usados por crianças estavam parados, os pequenos peixes dormiam já no lago que existia ali. Parecia não ter nenhuma alma viva naquele local, era até estranho ver a praça desabitada. Também estava bem escuro graças ao céu noite de quarta-feira.

Entrei no chão de areia e me estabilizei alguns segundos; por ter ido correndo, precisei recuperar um pouco meu fôlego. Só depois eu realmente percebi que havia um homem loiro com cabelo curto em um balanço infantil, grudado no celular. Me aproximei dele e fiquei parada à sua frente.

— Você não tá muito grandinho pra ficar no balanço?

— Eu tava esperando uma pessoa, mas parece que ela não vem mais. – Respondeu, ignorando a minha presença, ainda com os olhos no celular.

— Talvez ela só tivesse tido alguma coisa melhor pra fazer mais cedo.

— Não sei não, acho que ela só ficou com medo de vir.

— Para com isso, eu não fiquei com medo. – Retirei o celular das mãos dele pra que ele parasse de prestar atenção naquilo.

— E ainda por cima é grossa, além de jogar vodka em cima de mim, ainda se atrasa e rouba o meu celular.

— Eu não me atrasei de propósito. – Coloquei o celular dele em seu colo e sentei no balanço ao lado, do mesmo jeito que ele estava. – E você tinha merecido aquele shot.

— Eu achei mesmo que você não viria.

— Mas você se acha muito, hein, eu nunca dei a entender que fiquei com medo de lutar com você. Você é muito dramático.

— Eu sou dramático? Você me deixou aqui te esperando!

— Viu só? Dramático, eu só me atrasei um pouquinho.

— Você se atrasou quarenta minutos.

— Nossa, já se passou tudo isso?

— Deixa pra lá. Mas e então, qual é a “coisa melhor” que você tinha pra fazer?

— Eu fiquei assistindo série com uns amigos, aí eu nem percebi que o tempo tinha passado.

— Qual série?

— House! Eu comecei a sétina temporada agora.

— O House forja a própria morte e o Wilson morre de câncer.

— O quê? Como assim?! – Olhei pra ele pasma, não acreditei que ele tinha mesmo me dito isso.

— Ah, você não sabia? – Ele me perguntou como se fosse a coisa mais natural do mundo saber o final de uma série sem a ter assistido, ainda com um tom irônico que me deu mais raiva ainda.

— Por que você me disse isso? Isso não se fala! – Levantei com um ódio mortal da vida, praticamente gritando e com a voz saindo fina.

— Ow, ow, calma, era só brincadeira, mas–

— Brincadeira o quê? Isso não acontece?

— Acontece, mas você não precisa ficar tão puta.

— Ah, não preciso? – Fui pra cima dele e ele levantou rapidamente do balanço, se afastando e andando pra trás. – Não preciso?!

— E-Ei, calma! – Ele começou a rir e colocou a mão ma frente pra se defender. Continuei andando na direção dele e ele se afastava.

— Calma nada, não se dá spoiler nem pro seu pior inimigo! Isso é golpe baixo!

Ele vou o quanto eu estava nervosa e saiu correndo pela praça. Obviamente eu corri atrás dele, e nossa, se eu já queria matá-lo antes, imagina agora! Só me deixava com mais raiva ainda o fato dele rir enquanto fugia de mim, logicamente como uma afronta e gozação.

— Hahaha, você fica irritada com muita facilidade! – Máxim exclamou, chegando a correr por entre os brinquedos pra tentar me despistar.

— Cala boca, eu não fico não! – Continuei correndo atrás dele, com intenções de dar um soco em sua face e não parar mais de bater nele de tanta raiva que estava. – Volta aqui!

— É sério que você tá me perseguindo numa praça? – Continuou correndo,olhando pra trás. – Que coisa de criança!

— Criança é você, seu contador de spoiler! – Consegui apertar meu passo em sua direção e segurei seu braço finalmente, fazendo ele parar de fugir de mim.

— Ai, calma! Isso machuca.

— Você acha que isso machuca? Saiba que você me feriu por dentro, Máxim.

— Você é muito dramática.

— Hã? Eu não sou dramática! – Fiquei o estapeando aleatoriamente e ele se defendia enquanto soltava algumas risadas abafadas.

— Ai! É sério que você já vai querer começar a nossa revanche assim?

— Foi você quem começou, você só tá tendo o que merece.

— Para com isso! Para com isso, criatura. – Ele conseguiu segurar os meus braços e ficou me olhando, bufando por causa do oxigênio perdido na corrida.

— “Criatura”? – Respondi, tentando me acalmar também.

— Você já vai poder me bater, ok? Mas vamos começar isso direito.

— Tá… direito como?

— Como a gente combinou, a nossa revanche, com artes marciais, não “tapas aleatórios”.

— Tá bom.

Me acalmei e nos afastamos. Ficamos bem no meio da praça, local onde só tinha a areia do chão e nenhum brinquedo perto de nós. Máxim fez um grande círculo no chão com a sola de sua bota de couro e tirou sua jaqueta, a jogando no chão. Fiz o mesmo com meu casaco e fomos para o centro desse círculo.

— Como vai ser? – Ele me perguntou, me olhando sério. Fiz o mesmo.

— Você quem sabe.

— Dez partidas de trinta segundos cada?

— Só dez?

— Você quer me bater tanto assim?

— Eu achei que era você quem quisesse.

— Ótimo. Cinquenta.

— Não exagera, senão a gente não sai daqui hoje. Trinta?

— Trinta é um bom número.

— Então são trinta partidas de trinta segundos.

— Alguma regra?

— Não pode matar, pelo menos não até a última rodada. E também porque eu ainda preciso trabalhar mais tarde.

— Então tá, não pode matar nem atrapalhar o seu trabalho. Mais alguma consideração?

— Boa sorte pra você.

— Eu digo o mesmo.

Fomos os dois para o meio do círculo e ficamos nos entreolhando bem nos olhos, ele tentava me passar um semblante autoritário de autoconfiança e coerção e eu o respondia dizendo que ele não me intimidava, pelo contrário, que eu queria mais era vê-lo perder toda essa pose. Então ele me estendeu a mão.

— Saiba que vai ser um prazer te dar uma surra de novo. – E disse, novamente em tom de deboche.

— Eu já disse, você só me venceu porque eu tinha me distraído. – Bati na mão dele como cumprimento. – Agora não vai acontecer.

Começou! Teríamos trinta segundos para fazermos o que quisermos um com o outro no campo, isso trinta vezes. Quem tivesse mais vitórias no final, ganharia. O mais interessante, e ele pode não saber, é que desde criança treinávamos juntos e até hoje temos exatamente o mesmo treinamento, as mesmas faixas.

Colei meu corpo próximo ao do dele e o empurrei, ele não se distanciou, apenas me empurrou de volta e repetimos os movimentos tentando tirar o equilíbrio um do outro. Em um desses movimentos, quando ele me empurrou, segurei o braço dele e o puxei, desarmando-o e dando um chute com o joelho na barriga de, jogando-o no chão. Máxim caiu de costas e eu me afastei, foi o primeiro golpe.

Mas ele logo se levantou e eu corri para atingi-lo mais uma vez, porém, ele também veio até mim, segurou meu corpo me abraçando, pegou o meu braço e conseguiu me girar até me atirar na direção do chão, sujando-me de areia. Arranhou de raspão minha bochecha graças à textura.

Assim que me levantei, ele veio até mim, por trás, e segurou meu pescoço com o braço tentando me sufocar; com uma de suas pernas, tentou derrubar uma das minhas e me imobilizar, mas, ao conseguir segurar seu braço com força, tive êxito em desermá-lo e o empurrar com as costas, jogando seu corpo no chão e o fazendo dar um giro no ar.

— Trinta segundos! – Afirmei, me afastando no círculo de areia. Ele se levantou e bateu em suas roupas para tirar a terra que havia ficado. – A primeira rodada é minha.

— Foi golpe de sorte. – Se justificou, voltando a me olhar de pé e vindo na minha direção, estendendo a mão pra mais uma rodada.

Bati na mão dele novamente, significando que mais uma rodada iniciava. No mesmo segundo começamos a nos empurrar novamente, mais rápidos que na outra vez, como se estivéssemos em desespero para derrubarmos um ao outro, o que não deixava de ser verdade.

Em um desses empurrões, aproveitei que ele estava segurando minha camisa e me joguei no chão, fazendo ele cair junto em cima de mim e terminei chutando seu peito para que ele desse outra cambalhota no ar e eu conseguisse o atirar para o outro lado da quadra. Ele caiu raspando o antebraço na areia e eu levantei rapidamente.

Ele ainda tentava se levantar. Não esperei, corri para cima dele para mantê-lo lá, mas ele segurou minha perna e usou o impulso para se levantar, me jogando no chão em seu lugar. Caí de costas, meu cabelo essa altura já estava destruído o suficiente, e ele ficou de pé.

Fiz o possível para me levantar o mais rápido para que ele não tentasse fazer nada comigo enquanto estivesse no chão, contudo ele usou isso em seu favor. No momento em que dei um pulo para levantar, fui recebida com o braço dele disparando um soco na lateral direita do meu rosto.

— Ai! – Exclamei, colocando as mãos na ferida. Aquilo tinha doído bastante. – Isso doeu!

— Desculpa, não foi minha intenção te machucar. Você quer que eu chame uma ambulância?

— Idiota.

Sem antecedência, coloquei as mãos na frente do corpo e girei meu corpo para pegar impulso e dar um chute na direção de sua cabeça, mas ele se esquivou se agachando, quando voltou a se levantar, fiz o mesmo que ele havia feito comigo e dei um soco no meio de sua cara. Não satisfeita, dei outro soco na mesma hora quando ele voltou a olhar pra mim.

Depois disso, ignorando o impacto, ele forçou minhas costas pra baixo com o punho e deu um chute em minha barriga com o joelho. Doeu, mas eu não caí, voltei a me estabilizar no chão e fui com a mão na direção de sua face. Ele se defendeu do golpe e tentou me dar um chute, porém eu fui mais rápida e chutei sua barriga, dessa vez com o pé, o empurrando e o jogando para longe. Finalmente ele caiu no chão.

Minha raiva momentânea tinha diminuído, mas quando ele se levantou e veio pra cima de mim, voltamos a nos empurrar até dado um momento em que ele bateu em meus braços e abriu minha guarda, me segurou lateralmente e me jogou no chão, sentando em cima de minha barriga logo em seguida e segurando meus braços para eu não conseguir me levantar.

— Você fica estressadinha fácil. – Ele me disse, em cima de mim, soltando um riso irônico.

— Tsc, cala boca! – O que me fez ficar ainda com mais raiva. Por algum motivo, esse jeito debochado dele me dava muito ódio.

Ele usou um dos meus próprios braços para me sufocar, apertando-o contra meu pescoço, e me obrigando a bater no chão por falta de ar. Depois disso, ele só se distanciou de mim e se levantou.

— Desse jeito você não vai aguentar as trinta rodadas.

— Para de falar como se fosse superior a mim. – Me levantei, limpando meu rosto com o polegar e o encarando com a sobrancelha franzida.

— Não tô falando, foi só porque você nem se deu ao trabalho de cumprimentar antes de vir pra cima de mim.

— Eu não tenho essa obrigação! – Corri na direção dele, afastando o meu braço e pegando impulso, me preparando para desferir um soco em sua face.

Contudo, ele ficou parado e conseguiu desviar, segurando meu braço e me prendendo. Ficou bem perto de mim, não deixando que eu me movimentasse e me encarando, forçando seus olhos contra os meus. Confesso que estava mais nervosa que o costume.

— Ei. Não vai adiantar nada você ficar atacada assim.

— Tsc, você é um saco. – Não dava pra fazer nada com ele me segurando daquele jeito.

— Fora três partidas só, tá dois a um. Se continuar assim não vai dar pra chegar na trigésima.

— Vai ficar me dando lição de moral agora?

Ele ficou me segurando e esperando eu me acalmar como resposta. Precisei bufar e parar de tentar soltar meu braço.

— Eu te odeio...

— Viu? Não é difícil se acalmar. Agora os cumprimentos.

Estendi minha mão quando ele me soltou e Máxim bateu nela para me cumprimentar e começarmos a luta. Dei logo um soco no meio da cara dele depois.

Ele se desequilibrou no início, mas depois ficou curvado vendo qual era a melhor forma de me atacar. Fiz o mesmo, esperando que ele tomasse alguma atitude. Primeiro ele tentou me dar um soco pela esquerda, o qual me esquivei, depois um pela direita, que foi quando eu segurei sua mão e a girei, colocando-a nas costas dele. Depois, apenas o empurrei até fazê-lo cair no chão.

— Não é fácil não ficar ansiosa pra te bater. – Subi em cima dele, sentando em sua barriga e imobilizando seu braço do mesmo jeito que ele havia feito comigo. – Você me deixa com raiva.

— Por que eu te deixo com raiva? – E era incrível como ele parecia não emitir emoções.

— Porque você virou... “isso”.

— “Porque eu virei 'isso'”? Virei o quê?

— Esse fascista que bate nos meus amigos.

— Você acha que eu virei? Quem te garante que eu não sempre fui assim?

— Você não foi.

— Como você afirma isso?

Fiquei olhando em seus olhos por alguns segundos, sentindo principalmente pena por ele ter ido pra esse lado. Depois, saí de cima dele e voltei a ficar em pé. Segurei o braço dele pra que ele se levantasse também.

— Se passou trinta segundos já, agora tá dois a dois. – Disse.

— Essa deve ter sido a coisa menos rude que você já fez por mim desde que nos conhecemos.

— Que pena saber que tem alguma coisa não-rude agora.

— Por que você me odeia tanto?

— Tá brincando? Você quase matou o meu melhor amigo, me deixou no hospital e vai no meu ambiente de trabalho me infernizar. Fora as vezes que você me chamava por aquele nome escroto.

— Ok, eu admito que talvez tenhamos começado pelo pé esquerdo.

— Máxim, você é um neonazista, não tem “pé esquerdo”. Não tem como nós dois termos algum tipo de conversa civilizada.

— Eu discordo, se fosse por ideologia eu não estaria nem falando com você pra começar.

— Então por que você insiste em ir me ver no bar? Por que você fala comigo?

— Ei. – Ele estende a mão pra mim. – Você veio pra ter a sua revanche ou pra ficar conversando?

— Vamo logo com isso então.

Bati na mão dele e no mesmo segundo, com a outra, ele tentou me dar um soco no rosto. Me defendi com o antebraço e logo fomos trocando mais socos; ele defendia-se dos meus golpes e eu dos dele, tentava destilar mais murros, mas era sempre defendida. Até que chegou em uma parte em que eu consegui segurar o braço dele quando ele veio em minha direção.

Quando o segurei, logo o forcei contra sua barriga e o joguei no chão, fazendo Máxim cair de costas. Aproveitei a oportunidade para levantar minha perna com intenção de chutá-lo na barriga, porém, ele acabou me dando uma rasteira no chão mesmo estando deitado. Caí, e ele logo se levantou antes que eu pudesse fazê-lo.

Ele subiu em cima de mim novamente, sentando em minha barriga e segurando minha garganta, apertando-a. Com minhas mãos, segurei o braço dele, contudo Máxim quase estava conseguindo tirar meu fôlego e quanto mais eu apertava sua pele, mais ele me sufocava. Chegou uma hora em que eu pensei que fosse desmaiar, minha pressão havia caído.

— Trinta segundos. – Mas ele me soltou e saiu de cima de mim. Fiquei no chão por alguns segundos, tentando recuperar o fôlego.

— Eu achei que você fosse me matar por um segundo...

— Ué, as regras diziam que só pode matar no último turno, não?

— Você não parece ser do tipo que segue as regras.

— Você não confia em mim?

— Eu preciso responder?

— Cê que sabe, mas levanta daí. Ou já cansou?

— Tsc. – Levantei do chão, ficando de frente pra ele. – Já foram cinco turnos.

— Faltam vinte e cinco.

— Se eu chegar atrasada no trabalho a culpa é sua.

Batemos as mãos de novo, eu tinha que acabar logo com isso. Tenho que admitir que é divertido esse tipo de batalha, até me traz algumas lembranças nostálgicas envolvendo o Máxim, quero relembrar a amizade que tivemos desde a infância até o final da adolescência, mas têm muitas fronteiras políticas entre nós. Mais do que eu posso contar.

Ficamos nos encarando, ambos com a guarda fechada. Ele tentou me dar um soco pela esquerda, mas me esquivei; tentei socá-lo pela direita e ele fez o mesmo, tentando retribuir com outro. Quando ele tentou me atingir com o punho, me abaixei e aproveitei para me aproximar dele, dando vários repetidos socos com ambos os braços em seu peito.

Ele foi sendo empurrado para trás à medida que eu o atingia, não conseguia se esquivar. Foi quando ele conseguiu me abraçar, me segurando pelas costas e impedindo que eu usasse meus braços. Em seguida, usou sua força para me erguer do ar, me empurrando em direção do chão. Consegui não cair e me estabilizei, agora um pouco longe dele.

Voltei a me aproximar e ficamos nos rodeando, esperando para ver qual seria a melhor forma para atacar. Dei um chute em sua canela esquerda e ele devolveu com um soco pela minha direita, que consegui me defender com o antebraço. Ele veio para cima de mim em seguida, me abraçando pela cintura e me levantando; jogando-me em direção ao chão e me obrigando a dar um mortal no ar antes de cair.

Tentei me levantar rapidamente, mas ele veio com chutes e socos em minha direção. Ia me defendendo enquanto levantava e consegui ficar de pé novamente, retribuindo os socos em direção à sua face. Ele tinha braços rápidos e eu também, aproveitamos para aproveitar estas nossas habilidades. A defesa dele também era tão boa quanto a minha.

Tive êxito em conseguir segurar sua camisa quando ele deixou sua guarda aberta. Rapidamente me agachei, o puxando junto e o fazendo tropeçar no meu corpo, caindo em cima de minhas costas e depois rolando até o chão. Continuei segurando sua camisa para ele não escapar, coloquei-o de lado, entre minhas pernas e comecei a socá-lo na cabeça, fazendo-a bater no chão junto.

— Trinta segundos. – Depois saí, deixando que ele ficasse deitado por um tempo, descansando. Deu pra ver que a cabeça dele ficou bem machucada.

— Definitivamente isso passou de trinta segundos... – Disse, segurando sua cabeça e esperando recobrar sua consciência.

— Foi mal, eu não tava contando, chegou uma hora que eu esqueci que tinha esse tempo.

— Tudo bem, eu também tinha esquecido.

— Consegue levantar ou vai ficar aí dormindo um tempo?

— Idiota, não fica se sentindo por isso. – Levantou-se, fingindo que nada tinha acontecido. – Você só conseguiu empatar comigo, grande coisa.

— Então vamos desempatar agora.

Era engraçado brigar com ele, parece que eu estou brigando comigo mesma. Eu não sei como ele não consegue perceber quem sou eu, nós tivemos exatamente o mesmo treinamento! Temos o mesmo tipo de faixa e sabemos os mesmos tipos de luta.

Independente de eu sentir saudades ou não do tempo em que eu só o conhecia por lembranças e não tinha tomado conhecimento da sua “nova forma de viver”, nós iniciamos outro turno. Batemos nas mãos um do outro e seguimos com nossa revanche.

Começamos a nos empurrar mais uma vez. O joguei o mais forte possível para trás, mas ele não cedeu, veio para cima de mim e também me empurrou enquanto me encarava fervorosamente. Em um desses movimentos, fingi que ia o empurrar de volta, mas aproveitei para destilar um murro bem forte no meio de sua face. Com sorte, acabou pegando e sua guarda foi momentaneamente aberta.

— Huh–! – Então aproveitei para ir até suas costas e o agarrei bem forte pela cintura, ele soltou um pequeno chiado como se eu tivesse agarrado em um ponto fraco ou sensível seu, porém, assim que consegui levantá-lo do chão pelo quadril, logo o fiz girar a 180º no ar e o atirei no chão, fazendo-o cair de cabeça.

Ele ficou deitado no chão, sem conseguir mover-se direito, somente rangendo os dentes e segurando sua própria cintura, como se estivesse doendo especificamente nesse área. Não hesitei, aproveitei que ele estava no chão e ergui minha perna, tomando impulso para pisar em suas costas.

Máxim não conseguiu se levantar, exatamente como eu havia previsto, então utilizei disso para começar a chutar a área onde ele estava segurando, um pouco abaixo de suas costas, mais ou menos onde estava localizada sua cintura.

— Tsh..!

Parei de chutar quando percebi que já haviam passado-se trinta segundos, mas percebi que ele parecia ainda pior, como se não fosse mais conseguir se levantar. Ele estava com os olhos cerrados e continuava a segurar sua própria cintura.

— Tá tudo bem? – Indaguei, tudo bem que eu possa ter chutado forte, mas sinceramente não era pra ele estar naquele estado. Era como se ele já tivesse machucado antes.

— Ai, não... não tá tudo bem...

Me aproximei dele. Será que eu tinha exagerado? Ele continuava segurando o mesmo local, abaixei para ver o que estava acontecendo e levei um susto. Uma espécie de poça vermelha se formava na região da cintura dele, e cada vez o líquido escorria de forma mais intensa.

— S-S-Sangue? – Me assustei, uma das coisas que eu não suporto ver nessa vida é sangue. – V-Você tá sangrando?!

— Ah... – Ele se deitou virado pra cima, como se a dor tivesse passado pelo menos um pouco. – Eu deveria saber que isso ia acontecer... droga.

— O que houve? Fui eu quem fiz isso com você? – Tampei meus olhos com as mãos pra não precisar ver aquilo, eu sei que provavelmente o certo a fazer é meio que ajudar, mas não dá. – P-Por favor, diz que não.

— Não foi você, eu fui esfaqueado... a ferida deve ter abrido.

— Esfaqueado, como assim?

— Eu tava torcendo pra você não acertar essa área… eu vou ter que dar uma pausa. Me ajuda a levantar.

— Pausa? Ajudar a levantar? – Continuei com meus olhos tampados, espero que ele esteja tomando alguma atitude contra o sangue. – Claro que não, você tem que ir ao médico!

— Eu não preciso de… você tá com nojo do meu sangue?

— Não é nojo, é agonia… você já tampou?

— Sério isso? Que frescura.

— Não é frescura!

— Anda logo e me ajuda a levantar, tem um lago ali.

— Você já tampou o sangue?

— Já, já tampei o sangue.

— Ótimo, ent… – Abri meus olhos calmamente, mas logo voltei a fechá-los. – V-Você não tampou nada!

— Eu vou tampar quando você me ajudar a levantar e ir até o maldito lago, que saco!

— Ai, como você é grosso.

— Isso é o cúmulo da frescura. Como alguém que luta tão bem quanto eu tem medo de sangue?

— Eu não tenho medo.

Tentei fazer o máximo que podia para ajudá-lo. Desde que eu me entendo por gente não consigo ver sangue de perto, começo a tremer por dentro. Meu pai odiava essa característica em mim, dizia que eu era fresca, que ‘homem não podia ter essa frescura’. Com meu professor de artes marciais foi o mesmo, até o próprio Máxim costumava estranhar isso em mim.

Mas fiz o possível. Abri os olhos com muito receio e o ajudei a levantar, fazendo-o se apoiar no meu ombro, e o levei até o lago que tinha ali na praça. Máxim tirou a camisa quando chegou e voltou a sentar, molhando o pano e estancando a ferida.

— Isso deve ter doído bastante… – Comentei, com um pouco de pena. Ele parecia sentir bastante dor, apesar de não admitir.

— Isso não foi nada. – Apenas enrolou sua camisa envolta da cintura, foi quando eu reparei nas inúmeras tatuagens que ele tinha no peito, nas costas e no começo do pescoço. Todas, claro, com temática e símbolos defendendo o nazismo.

— O que aconteceu com você? Te deram uma facada?

— Não vem ao caso o que aconteceu. Esquece isso, a gente precisa voltar pra nossa luta.

— Até parece que eu vou voltar com você nesse estado.

— Deixa disso, já parou de doer. Foi só um cortezinho.

— Aah… – Soltei um suspiro de cansaço e deitei no chão gramado da praça, olhando pro céu. – Eu não acredito que mesmo ferido, você conseguiu lutar tão bem quanto eu.

— Para de falar como se eu tivesse ficado mais fraco por causa disso! – Ele exclamou com raiva, era bem fácil ferir o orgulho dele. E nem foi isso que eu quis dizer.

— Não te deixa mais fraco, mas te limita de fazer certos movimentos. Esse é o ponto.

— Eu não tava limitado, eu nem sentia esse corte, tanto é que eu esqueci dele e de defender essa área.

— Fala o que você quiser, o seu corpo não estava tão disposto quanto o meu, esse é o ponto.

— Isso não é verdade.

— Mas que saco, e pensar que você quase me venceu desse jeito… eu devo estar mais fraca mesmo.

Continuei olhando pro céu, estando deitada no chão. Ele estava sentado ao meu lado e ficou em silêncio por alguns momentos. Estava de noite, o céu se encontrava bem escuro e com poucas estrelas, mas a lua estava bem perceptível. Quase cheia, somente com uma pequena área coberta.

— Isso não é verdade. – Depois de ficar em silêncio, ele se deitou do meu lado e disse, também olhando pro céu.

— O que não é verdade? – Perguntei.

— Você estar fraca. Dizendo isso faz parecer que eu perdi pra alguém que não valia nada. Na verdade, eu nunca tinha lutado com alguém como você.

— É? E o que esse “alguém como eu” quer dizer agora?

— Quer dizer que quando eu arranjo briga com alguém, eles sempre ficam com medo antes de começar alguma luta. Até mesmo as pessoas que andavam comigo, eles não sabiam fazer nada além de segurar armas.

— Então você admite que eu sou tão forte quanto você?

— E também consegue lutar que nem eu. Sério, teve alguns momentos em que eu pensei estar lutando comigo mesmo.

— Você acha..?

— Sim, a gente teve o mesmo professor ou coisa do gênero?

— Não, não, impossível… eu tive aulas particulares com o meu pai. – Menti, acho que não é hora de contar que nós dois já nos conhecemos há tempos.

— Então foi coincidência mesmo.

— Mas teve uma coisa que você falou errado.

— O quê?

— Eu não ganhei de você, nós estamos empatados. E pelo visto não vai dar pra desempatar hoje.

— Não, não, foram sete partidas. Você tá ganhando de mim por quatro a três.

— A última não contou, eu atingi o seu ferimento.

— Deixa de bobeira, claro que contou. Eu não me defendi direito.

— Você não poderia se defender ferido.

— Será que dá pra parar de dizer que eu tava ferido? Você me fez usar toda a força que eu tinha, não teve nada a ver com esse corte de merda.

— Você acha mesmo?

— Claro que eu acho, eu não teria nem aceitado lutar com você se eu te achasse fraca.

— Então eu ganhei. Minha vingança por você ter ferido o meu amigo foi feita, é isso?

— Pode se dizer que sim.

— E agora? A gente se despede, cada um segue sua vida e nunca mais nos vemos?

— É o que você quer, né? – Ele me pergunta, passando a dirigir sua visão até mim. – Você odeia quando eu vou até o seu bar.

— É, eu… acho que é.

— E se a gente se esbarrar algum dia, talvez dê pra continuarmos a revanche.

— Sim! Ainda faltam vinte e três partidas.

— Então a gente se esbarra algum dia, e vê se dá pra remarcar.

— É uma ideia.

Voltei a olhar pro céu, chega a ser um pouco solitário essa ideia de nunca mais nos vermos, apesar das diferenças e tudo mais. Eu ainda não consigo parar de ver o rosto do antigo Máxim quando olho pra ele, não consigo parar de lembrar das vezes que saíamos juntos na infância e treinávamos juntos com o mesmo professor. É difícil depois de passar doze anos juntos.

— Ei. – O chamei, nós dois já estávamos meio distraídos deitados ali.

— Hm?

— Você ainda não me disse por que te deram uma facada.

— Ah, isso...

— Não pode falar?

— Não, é que... foi meio que culpa minha. Eu acabei sendo meio grosso.

— O que você disse?

— Eu te falei que eu não encontrava as pessoas que andavam comigo desde aquele dia em que nós dois brigamos, e nos conhecemos, pela primeira vez.

— Foram os seus amigos que te deram uma facada?! – Me surpreendi. Por mais que os amigos deles fossem meio tipo pombo, eu achei que eles não atacassem uns aos outros.

— Eu disse a eles que ia sair do grupo, que nunca mais queria vê-los de novo, que eu não precisava disso. Eles viram como traição, por eu ser como um 'líder' pra eles.

— Eles te viam como um líder e te esfaquearam porque você decidiu largar eles? Não dá pra entender mesmo, desculpa.

— É o que acontece quando você decide deixar um grupo pra trás sem maiores explicações, eu deveria ter previsto que isso ia acontecer. Essa facada foi um aviso que os nossos caminhos não são mais os mesmos.

— Entendi... e por que você decidiu sair agora?

— Porque daqui a pouco eu faço trinta anos, eu preciso começar a fazer alguma coisa útil com a minha vida, não comandar um bando de animais. Não dava mais pra mim, só isso.

— Então você decidiu largar a vida como skinhead caçando os fracos e oprimidos, é isso? Que bom.

— É, mais ou menos isso.

— E essas tatuagens que você tem? – Olhei pra elas e ele me acompanhou com o olhar. – Vai tirar também? Deve doer bastante.

— Nah, elas eu vou deixar. Combina comigo e eu não tenho vergonha de ter tido uma gangue, muito pelo contrário, foi bem divertido.

— Idiota... eu sabia que você ia dizer isso.

— Fora que eu tenho dezenove tatuagens, ia demorar bastante pra tirar.

— Todas nazistas?

— Não, uma delas não. – Ele senta no gramado e me mostra suas costas, tinha uma flor de vidro tatuada no ombro com seis pétalas azuis esverdeadas rodeadas por ouro envolta e no centro, o fruto dela em vermelho brilhante.

— Eu já vi essa flor em algum lugar... – Disse, um pouco intrigada.

— Gostou?

— Com certeza, de longe, é a melhor tatuagem que você tem.

— Eu tirei a figura dessa flor de um livro que tem o seu nome, aliás.

— Ah, Anastácia? Sim, eu lembro, esse é o amuleto que a avó dá à neta dos Romanov antes deles se separarem, junto com aquela caixinha de música. É isso?

— Você conhece bem esse livro pelo visto.

— Você fez uma tatuagem em homenagem a mim? Que gracinha.

— Definitivamente não foi por sua causa, foi a primeira tatuagem que eu fiz. – Ele voltou a se deitar do meu lado e a olhar pro céu. – É por causa de um amigo que eu tive.

— Um amigo?

— Ele gostava desse livro porque os pais tinham dado o nome dele em homenagem ao filho dos Romanov, inclusive ele tinha ganhado o mesmo amuleto que a Anastácia usava de presente. Daí eu acabei tatuando esse simbolo, porque ele sempre usava em forma de colar.

— … – Ele tava falando de mim? Ele fez uma tatuagem pra mim? Calma, esse é o momento em que você precisa se controlar pra não demonstrar que sabe da história... e eu tenho o amuleto até hoje... – E... o que houve com esse seu amigo?

— Eu não sei, eu fui morar com o meu pai quando eu tinha uns doze, treze anos. Depois disso eu não o procurei mais, mas ele mora nessa cidade. O nome dele é Alexis.

Droga, eu não sei reagir quando eu ouço esse nome... céus, como eu odeio isso.

Já faz um tempo desde que eu sei que Máxim é a mesma pessoa que eu conheci no passado, aliás, eu soube desde que o revi depois de séculos. O problema é que ele não sabe quem sou eu, e vai continuar sem saber porque eu não faria ideia de como contar. Nem o que vai acontecer quando eu contar.

Mas, realmente, eu nunca iria desconfiar que ele tatuaria alguma coisa relacionada a mim. Tudo bem que éramos bem grudados, mas faz tanto tempo que não nos vemos... eu achei que ele tivesse esquecido, depois do que acabou se tornando. Mas não. Eu não sei como reagir a isso.

Então eu me levantei sem dizer nada a fim de tomar um ar fresco e esquecer que tinha ouvido-o dizer esse nome. Ele estranhou eu ter saído dali e começado a andar pela praça, mas foi só me seguindo com os olhos. Me aproximei até a área do chão de areia, onde estávamos brigando, e também onde ele havia deixado jogado sua jaqueta preta.

— Toma, bota isso. – A peguei e voltei pra onde ele estava, jogando a jaqueta em cima dele. Ele se sentou no chão e ficou me olhando estranho.

— Por que você saiu pra pegar a minha jaqueta?

— Tá frio aqui, eu não sei como você tá aguentando ficar sem camisa, me dá um pouco de agonia.

— Ah, não gosta de me ver sem camisa?

— Não com essas tatuagens estranhas.

— Então tá.

Ele colocou a jaqueta, ainda com a camisa branca amarrada à sua cintura. Me afastei um pouco dali, tinha uma fonte d'água desligada. Me sentei envolta dela, nas pedras que a cercavam, e fiquei me distraindo chutando um pouco o gramado que tinha nos meus pés. Máxim veio até onde eu estava depois de um tempo e ficou sentado do meu lado.

— Sua dor diminuiu? – Perguntei.

— Eu não sinto dores.

— Ah, é? Não foi o que pareceu mais cedo.

— Antes eu só queria ver se você se preocuparia comigo ou se iria aproveitar a chance pra me matar.

— Idiota, eu não começo uma briga pra matar pessoas. Eu aprendi a lutar por defesa.

— E se essa “defesa” envolver sangue?

— Ah, vai ficar me zoando por causa dissoa agora?

— Pior que você não é a primeira pessoa que eu conheço que luta e tem medo de sangue, mas mesmo assim é engraçado te zoar.

— Chato, não fala assim. E eu aqui achando que você tinha se tornado um ser humano um poquinho melhor quando deixou aqueles seus amigos.

— E eu me tornei um ser humano melhor, eu até veio cuidado daquela garota que você conheceu com mais frequência.

— Ah, a Lilia! Como ela tá?

— Ela me perguntou de você e do seu poodle um dia, os pais dela pediram pra eu levá-la aqui na praça esse final de semana.

— Ela é um amor, muito diferente de você. Você deveria aprender coisas com ela.

— Você quem diz isso. Aliás, você só fala coisas pra deixar bem claro que não gosta de mim mesmo.

— Eu deveria dizer o oposto?

— Eu nunca fiz nada contra você.

— Só me deixou em um hospital quando nos conhecemos. Eu espero a conta dele até hoje, tá?

— Pelo visto você guarda mesmo rancor.

— Eu guardo rancor? Você nunca nem demonstrou arrependimentos, nem pediu desculpas por ter batido no meu amigo nem nada.

— Você aceitaria as minhas desculpas se eu pedisse?

— Não sei, por que você não tenta?

— Ok então. – Ele respira profundamente, suspirando, preparando-se para dizer algo importante. – Anastácia...

— Sim?

— Me desculpe por você bater como uma garotinha fraca e não conseguir proteger seu amigo direito.

— Hã?! – Não acredito que ele disse isso! Dei um tapa na cabeça dele e comecei a bater várias vezes repetidas em Máxim. – Eu não acredito que você disse isso, eu não sou uma garotinha fraca!

— Ai, não me bate! – E ele ficou rindo enquanto eu batia nele. Que raiva, que ódio. – Hahaha, você se irrita muito fácil.

— Cala boca, não me irrito não! – Continuei a bater nele.

— Se irrita sim! – E depois ele se defendeu, segurando os meus braços e me impedindo de continuar. – E ainda bate fraco, como eu havia dito.

— Tsc, não bato não. – Virei meu rosto pra não precisar ficar olhando pra ele. – E larga meus braços.

— Foi mal. – Finalmente, ele largou as minhas mãos. Fiquei com uma cara emburrada, mas voltei a olhar pra ele, resmungando.

— Você não serve nem pra pedir desculpas e admitir seus erros.

— Eu disse.

— Disse o quê?

— Foi mal.

— “Foi mal”?

— Foi mal por ter te conhecido da maneira errada e continuar indo te ver no bar mesmo depois de ter feito aquilo contra o seu amigo. E foi mal também por ter te batido forte e ter xingado vocês dois.

— … – Ele pediu mesmo desculpas? Acho que não entendi direito, acabei ficando sem palavras.

— Eu não vou te culpar se você, sabe, não quiser me perdoar.

— Você... é sério que você tá pedindo desculpas?

— É pra isso que você veio até aqui, né? Pra ter a sua vingança por esse dia. O mínimo que eu posso fazer é me desculpar.

— … sério?

— Sério.

— Então tá. – Me surpreendi, mas pelo menos ele mostrou que não é tão orgulhoso quanto eu pensava. Fiquei batendo as pernas e olhando pra frente, com ele do meu lado.

— Me odeia um pouco menos agora?

— Não sei. Talvez.

— Eu vou refazer a pergunta. Me odeia menos o suficiente pra não precisar ficar irritada sempre que me vê?

— Por quê, você pretende ir visitar o bar mais vezes?

— Você quer tanto que eu desapareça de vez assim?

— Não é que eu queira que você despareça, Máxim, é que você sabe. Não dá pra ficar falando com uma pessoa que acredita que a melhor saída é o fascismo. O que eu diria pros meus amigos?

— Você não acha errado se afastar de alguém por ideologia?

— Não quando essa ideologia é a que você segue, né. Eu tenho medo do que você possa ficar pensando quando vem me visitar ou quando olha pra um dos meus amigos na rua.

— Eu te disse que eu não faço mais parte de gangue nenhuma.

— Mesmo assim, eu não sei no que você acredita. Eu nem sei o que você quer! Quer dizer... você quer ser meu amigo?

— Se eu quero ser seu amigo?

— É, eu não sei quais são as suas intenções quando você aparece lá no bar pra me ver, parece que você me odeia sem me odiar. Não tem nada de errado se for isso que você quer.

— Eu não sei o que eu quero.

— Então por que você insiste em ir me ver?

— Eu não sei, tá? Desde que eu te conheci, eu não sei, mas eu senti algum tipo de ligação contigo. Alguma coisa me fazia querer ir até você pra conversar ou só encher o seu saco, eu só sei que eu precisava te ver. Era como se eu já te conhecesse, sabe? E sentisse saudades.

— … é isso que você sente?

— Eu sei que parece idiotice. Talvez seja só curiosidade em saber como alguém como você vive.

— Ah, porque eu sou um ser muito exótico. Você ficaria espantado em saber como a minha forma de viver é normal.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Se você sente que precisa ir me ver, você pode até ir no bar, mas sem ficar me provocando e me chamando por aqueles nomes horríveis que você me chama. Eu não vou tolerar que ninguém faça isso de graça, nem por qualquer motivo.

— Entendi...

— Entendeu mesmo?

— Entendi, foi mal. Eu não sei direito como fazer isso, eu vivi a maior parte da minha vida com o meu pai e desde a família do meu avô ele sempre foi mais conservador e ligado a esse regime. Ele pagou a maior parte das minhas tatuagens inclusive.

— É assustador pensar em uma família assim...

— Eu sinto ódio pelos outros muito fácil, mas por algum motivo eu não consigo sentir isso por você. É horrível.

— É horrível não me odiar?

— Sim, é completamente horrível não te odiar. Eu não suporto isso.

— Que pena, deve ser angustiante estar comigo agora então.

— Sim, com certeza. Completamente angustiante.

Estávamos sentados, olhando um pro outro. Foi naquele momento em que ele segurou meu rosto com uma das mãos, por debaixo do meu cabelo, e me trouxe para perto dele, tocando firmemente seus lábios contra os meus e, com os olhos fechados, tirando um beijo deles.

Foi em uma parte da praça onde não havia ninguém, somente nós dois sentados em uma fonte com a lua brilhante e céu negro. Ele me beijou de modo lento, explorando cada milímetro de meus lábios por dentro, tocando minha língua e o céu da minha boca. Acabei retribuindo, naturalmente, mesmo sem ter percebido o ato na hora, o que fez o beijo durar ainda mais.

Acho que naqueles segundos não conseguia pensar em mais nada atual, todos os meus problemas diários e ideológicos sumiram, como se eu voltasse à minha infância, onde eu e Máxim saíamos e brincávamos juntos, lutávamos quando precisávamos por nossos pais mandarem, assistíamos televisão, visitávamos a praça e estudávamos em conjunto.

Nosso beijo continuava, sabe-se lá por quanto tempo, cada vez mais intenso, misturando algumas mordidas fracas e chupões na língua. Foi quando tudo, em um súbito momento repentino, começou a ficar meio molhado...

molhado?

— Aaaaaaaaaaah! Q-Que isso?!

— Aí, que droga é essa?!

Do nada, sério, no meio do nada, vários esguichos de água que surgiram do gramado começaram a nos atacar. O praça, que estava seco como deserto, começou a chover pelo chão em um passe de mágica! Molhou tanto a minha roupa quanto a minha cara e nós dois fomos obrigados a nos separar, dando um pulo de susto.

— Q-Que que tá acontecendo? – Eu saí correndo do gramado, com medo de me molhar ainda mais.

— Que saco, devem ser dez horas. – E ele veio me seguindo.

— Dez horas? O que tem dez horas?

— Dez horas esses esguichos de água ligam automaticamente pra regar a grama da praça. Você não sabia disso?

— Lógico que eu não sabia disso! Eu não teria ficado aqui se eu soubesse que ia chover pelo chão.

— Ah, agora sim vai ficar frio... que legal.

— Que legal o caramba, eu preciso ir trabalhar! Como eu vou fazer isso estando toda molhada desse jeito?

— Coloca uma blusa branca. Você trabalha em um bar, é só molhar um pouco dela depois e fingir que foi de propósito.

— Idiota, eu tô falando sério aqui.

— Eu também tô.

— Mas se são dez horas já eu preciso ir logo antes que eu me atrase, no caminho eu deixo os ventos me secarem. – Disse, indo embora da praça.

— Posso ir com você? – E ele veio me seguindo com as mãos no bolso, como quem não quer nada da vida.

— Claro que não, é pra você ir pro hospital resolver essa sua ferida, não pra um bar.

— Eu posso curar ela com álcool.

— Não, não pode.

Parei de andar. Notei que ele estava atrás de mim, me seguindo, então me virei para vê-lo.

— Que foi? – Ele me perguntou.

— Não me segue, sério. Meu chefe já acha que você é um stalker.

— Eu não sou um stalker, seu dono deveria se preocupar com as vendas. E eu só vou te deixar lá, é perigoso pra você andar sozinha na rua essa hora.

— Tem razão, algum dos seus amigos pode me atacar.

— Ex-amigos.

— Desculpa, eu não preciso de ninguém pra me defender. Principalmente alguém que não está em condições de defender a si mesmo.

— Ah, eu não tenho condições me defender agora?

— Não, não tem. Você precisa ir ao hospital.

— Então tá, já percebi que eu não sou bem vindo no seu estabelecimento. Eu vou pra casa.

Antes de me virar e ir embora, andei alguns passos até ficar de frente pra ele. Até que foi divertido encontrá-lo, não posso negar, até deixei um sorriso escapar no canto dos meus lábios e notei que ele fez o mesmo, do modo que havia feito quando nos despedimos da última vez aqui na praça.

Segurei a nuca dele e ele minha cintura, voltamos a nos beijar, não tão demorado dessa vez, mas o suficiente pra uma despedida rápida. Me deu vontade de fazê-lo, apenas isso, e também porque cansa só viver dando fora nos outros.

— Eu vou pensar se eu vou aceitar seu pedido de desculpas algum dia. – Disse e me afastei, dando de costas e indo embora da praça. Ele ficou parado sem me seguir dessa vez, e também sem dizer mais nada, como se estivesse me esperando desaparecer dali.

E foi exatamente o que eu fiz, voltando para o meu local de trabalho, completamente encharcada.

Notas finais
O que acharam do capítuloooooooo? Desde a cena do começo da facada até a da luta e o final =P (céus, cês não imaginam o quão difícil é escrever uma luta, aja criatividade) Espero que tenha ficado bom o resultado xD Tô pensando em fazer um capítulo com o ponto de vista (POV) do Máxim. Só não sei se vai ser o próximo. Vai saber néan. Comentem aí o que cês tão achando! =D