Os Exilados de Nothridame
2 O Mirante
Notas iniciais
– Calma, quem é Henry? Aquele menino que você falou hoje mais cedo?
– Sim, ele mesmo! – disse, impaciente. Respirou fundo. – É uma história complicada, mas nós precisamos acha-lo.
– Para onde você acha que ele foi? – Julie perguntou.
– Tenho quase certeza de que ele está nas Ruínas. – respondeu, já descendo as escadas a cem por hora.
– Art! Espera!
O menino só foi parar na porta de casa. Ele pegou um capacete que encaixava perfeitamente em sua cabeça e um agasalho.
– Vamos, você pode usar o da minha mãe.
– Para onde estamos indo? Onde fica “as Ruínas”?
Art abriu a porta e uma rajada de vento frio e úmido invadiu a casa sem pedir licença.
– Uma tempestade está vindo. Nós temos que achá-lo o mais rápido possível. – anunciou o menino.
Julie já tinha desistido de fazer perguntas. Agora, sua curiosidade era maior do que qualquer coisa, maior até do que o seu bom senso de sair na rua com uma criança quando uma tempestade está se aproximando. Estranhamente, ela sentia que não era tão perigoso assim e que Art falava a verdade.
A dupla correu até a garagem, onde quatro bicicletas estavam estacionadas.
– Seus pais deixam você andar de bicicleta pela cidade? – perguntou impressionada Julie.
– Aqui não é Nova York. Charlotte deve ser uma das mais pacatas cidades do mundo.
Ela deu de ombros e imitou o que Art estava fazendo. Quando ambos estavam montados em suas respectivas bicicletas, o menino deu a primeira pedalada que os guiou até uma beira de estrada que terminava ao entrar em contato com uma floresta de pinheiros. Não muito longe, avistava-se um mirante feito de pedra, de uns oito metros de altura, engolido diante das altas árvores.
Eles estacionaram as bicicletas no passeio e adentraram na mata. Julie não podia estar mais fascinada com a sua volta. A umidade do ar era tão grande que se formava neblina, ofuscando a visão do horizonte. Se ela estivesse ali sozinha, provavelmente iria se perder.
– Julie! Por aqui! – chamou Art, que já estava parado perto da construção desgastada. Ela seguiu o som da voz do garoto. Havia uma portinha de madeira bem na frente deles, que só dava para passar agachado. – Ele está aqui dentro.
Julie olhou com curiosidade para Art.
– Como você pode ter tanta certeza?
– Eu conheço o Henry. – disse, soltando o ar dos pulmões. – Melhor do que ninguém, aliás.
Ele abriu a portinha de madeira e entrou primeiro. Ela foi logo em seguida. Uma lanterna recarregável estava fixa na parede logo após a porta, iluminando o ambiente à volta. Um círculo com uns cincos metros de diâmetro se estendia na frente deles. Era vazio e frio ali dentro. Havia apenas algumas cadeiras de madeira sem acolchoamento e uma escada em forma de espiral grudada à parede.
– Ele está lá em cima. – Art sussurrou e apontou para as escadas.
Movida pela tensão e mistério de momento, Julie começou a caminhar na direção que Art tinha apontado. Subindo cada degrau de cada vez, aos poucos, ela alcançou um espaço aberto, com muros de pedras um pouco maiores que sua cintura e um teto feito de madeira revestida de verniz. Ficou chocada quando percebeu que Henry não era um menino na faixa dos 10 anos rebelde que tinha fugido de casa porque tinha ficado de castigo. Ele estava mais para um rapaz com seus 18 ou 19 anos vestido todo de preto, usando óculos escuros, mesmo estando nublado e com uma faca na mão, virado de frente para a floresta.
– Oh meu Deus! – exclamou de horror.
– Henry! – Art gritou. – O que você está fazendo aqui?
Ele se virou e Julie pôde ver que, na outra mão, ele segurava uma maçã pela metade. Aquilo foi um alívio para ela. Por outro lado, o rapaz estranhou sua presença, deixando até escapar sinais de que não gostava daquilo.
– Oi, Art. E ai, garoto? – ele o cumprimentou.
– Você me deu um susto. Por que você sumiu daquele jeito? – o menino perguntou, chateado.
Henry deu de ombros. Olhou de relance para Julie e notou que ela o examinava da cabeça aos pés.
– Oh, me perdoe. Eu sou Julie, a intercambista. – ela percebeu que estava encarando-o fazia um tempo e não tinha falado nada.
– Hum. – murmurou só para não deixa-la no vácuo, pois era óbvio que ele não se sentia confortável na presença dela.
E Julie sentiu isso.
– Bom, eu vou esperar lá em baixo, até porque eu preciso que alguém me guie se não eu me perco. – disse enquanto descia as escadas, deixando Henry e Art a sós.
– Algum problema, Henry? – o menino perguntou, novamente.
– Não. – respondeu, comendo mais um pedaço de maça.
– A faca foi realmente necessária? – questionou, encarando o instrumento mortal.
– Não. – riu. – Mas, a reação dela foi muito engraçada.
– Você conseguiu assustá-la.
– Não era esse o objetivo? – perguntou Henry.
– É o melhor para ela. – falou num tom pensativo.
– Claro que é o melhor para ela. – repetiu, porém com um quê de ironia.
Art se virou para encarar seu amigo.
– Vamos voltar para casa antes que a tempestade comece.
– E quando você acha que vai acontecer?
– Assim que chegarmos em casa, quer apostar? – brincou Art.
A ida de volta para a casa dos Evans foi silenciosa e fria. Os ventos estavam cada vez mais fortes, balançando as folhas das árvores. Não havia praticamente ninguém na rua, deixando a caminhada ainda mais desoladora. Todos foram a pé, Julie e Art levando suas bicicletas e Henry, num canto, isolado. Chegando em casa, estacionaram os veículos na garagem e entraram em casa. Segundos depois, a tempestade iniciou-se.
Já eram seis e meia. O jantar estava sendo preparado. A Sra. White revezava entre a sala de jantar e a cozinha para preparar a comida. A Sra. Evans estava no seu quarto, tomando banho, depois de ter saído com seu marido, que estava na sala.
– Aonde vocês foram? – ele questionou ao trio assim que entraram na residência.
Henry fez cara de deboche, como se não se sentisse na obrigação de dar satisfações a ele.
– Art foi me mostrar um antigo mirante perto da floresta de pinheiros, Sr. Evans. – respondeu Julie.
– Art e Henry, para o meu escritório, já. – ordenou Dante.
– Você só pode está de brincadeira comigo. – resmungou o mais velho antes de se virar.
– Com licença, senhorita Milles.
Julie se perguntou o que havia de errado no que eles fizeram. Como acabou não achando nada, resolveu deixar o assunto de lado. Subiu as escadas e foi para seu quarto. Terminou de arrumar os últimos detalhes como o porta-retratos com uma foto dela e de seus pais no Central Park. Ela ficou deitada na cama, esperando o jantar e repassando os momentos do dia em sua cabeça. Pensou em telefonar para sua mãe, mas o cansaço foi mais forte e ela acabou pegando no sono. Acordou no meio da noite com a barriga roncando. Levantou e ligou o interruptor da luz, mas não acendeu. Achou estranho, mas depois se lembrou da tempestade e ficou menos preocupada.
Ela teve que se virar com a luz da tela de seu celular. Estava com a ideia de ir até a cozinha e ver se tinha alguma coisa pronta para comer, mas sentiu que isso seria muita invasão de privacidade já que ainda era seu primeiro dia na casa. Então, foi até sua mochila à procura das suas barras de cereal que sempre levava para as viagens.
Sentou-se na cama e começou a comer. Quando seus suprimentos acabaram, teve que se contentar com a barriga mais ou menos cheia. Deitou e dormiu novamente.
Cinco minutos depois, Henry voltava para o seu quarto. Quase que ela o tinha visto, observando-a. Assim que Julie acordou, ele se escondeu de baixo da cama e ficou lá até ela adormecer de novo. Ainda estava tentando entender o que aquela garota tinha de estranho.
Fale com o autor