Os Exilados de Nothridame
3 Capítulo 3
Notas iniciais
– Bom dia, senhorita Milles. – disse Sr. Evans assim que ela desceu as escadas.
Julie olhou ao redor e viu a mesa posta para o café da manhã. Sua barriga roncou.
– Bom dia. – respondeu sorrindo, não só para o Sr. Evans, mas para todos que estavam na mesa, inclusive Henry.
– Bom dia, Julie. – falou Art, devolvendo o sorriso.
Henry, usando os mesmos óculos escuros, não demonstrou nenhum tipo de emoção. Apenas continuou brincando com a comida no prato.
– Julie, querida, estávamos pensando em levá-la para ver sua nova faculdade, conhecer seus professores e o espaço que terá aula. – anunciou Sra. Evans.
– Parece uma ótima ideia. – respondeu, sentando na cadeira em frente a Art.
Nesse mesmo momento, Henry se levantou.
– Henry. – disse Dante com uma voz de autoridade. – Fique pronto para irmos à faculdade da senhorita Milles.
Ele não disse nada, como era o de se esperar. Virou-se em direção a escada e subiu os degraus de dois em dois.
Em questão de dez minutos, toda a família Evans estava preparada para partir. Uma vez que nem Natalie nem Dante usavam carro ou moto, eles tiveram que ir a pé, o que parecia não incomodar ninguém, por isso Julie não comentou nada. Depois de alguns minutos ao contato com o ar livre, ela percebeu que a caminhada era agradável, ainda mais numa manhã ensolarada e azul como aquela.
O Sr. Evans, junto com sua esposa, andava na frente, de mãos dadas. Seu filho estava a alguns passos atrás, sempre atento a tudo o que acontecia a seu redor. Henry, na extrema esquerda, mantinha a cabeça baixa, com os fones nos ouvidos. Julie começou a se perguntar se ele era cego, porque aqueles óculos nunca saíam do seu rosto, mas então, se lembrou dos seus reflexos rápidos e precisos. Ele parecia ter um sexto sentido. Deveria ser, provavelmente, aquela habilidade que os cegos desenvolvem, seus outros sentidos ficam mais aguçados. Mesmo assim, Julie não conseguia se contentar. Além disso, ela tinha certeza que ele a encarava lá no mirante. Ela pôde sentir. Era uma sensação estranha, mas sentia.
Depois de segundos analisando Henry, Julie previu o movimento da sua cabeça e desviou seu olhar no mesmo instante. Ele lançou um olhar para ela certeiro, sem errar um centímetro. Então ela teve mais certeza ainda: Henry não era cego, mas usava os óculos por algum motivo.
– Veja, senhorita Milles. – o Sr. Evans interrompeu seus pensamentos. – Ali é a biblioteca municipal. Você irá encontrar todos os livros que precisa para seus estudos lá. – ele apontou para uma estrutura antiga, mas elegante. Era enorme e possuia vitrais do estilo gótico.
– Você deve estar pensando que parece mais uma igreja do que uma biblioteca. – Sra. Evans se aproximou dela. – Isso é porque, antigamente, o lugar era uma igreja, realmente.
Todos os cinco pararam no passeio oposto ao da biblioteca e ficaram admirando-a.
– E o que aconteceu? – perguntou Julie.
– Houve uma época – começou Dante. – em que Charlotte era nada mais que uma floresta de pinheiros. Um grupo migratório veio parar aqui e a primeira coisa que fizeram foi constrir essa igreja, mas parece que a situação não ficou muito boa e as pessoas começaram a evacuar o pequeno vilarejo que havia se formado aqui. – ele parou um momento para ver se tinha a completa atenção dela. – No século XVIII, tentaram povoar a cidade mais uma vez e os moradores restauraram a igreja, mas acharam mais prudente transformá-la em uma biblioteca.
Julie adorou a pequena aula de história sobre a cidade e queria saber mais, porém conteve a sua ansiedade, pois ainda teria muita coisa para ser vista ainda hoje.
– O senhor nasceu aqui? – ela perguntou.
– Não, mas mudei para cá assim que Natalie ficou grávida. – respondeu de prontidão.
– Queríamos uma cidade calma para criar nosso filho. – complementou a Sra. Evans.
Julie assentiu, cessando as perguntas. Depois da biblioteca, que ficava na praça principal, cinco quarteirões a frente, a Faculdade de Charlotte os esperava. Ela era dividida em cinco seções: música, literatura, artes cênicas, artes plásticas e dança. Por causa disso, havia cinco prédios, uma para cada curso, e a secretaria, que ficava no centro do campus.
– Mãe. – Art a chamou assim que chegaram na portaria. – Eu posso ficar esperando aqui com o Henry?
– Claro, querido. – respondeu. – Eu e seu pai não vamos demorar.
Antes de adentrar, Julie deu uma olhada rápida para os dois que decidiram ficar. Art a olhou de volta, com os olhos dizendo que estava tudo bem. Ela nem atreveu a tentar contato visual com o outro.
Tinha que admitir, aquele lugar parecia uma floresta de conto de fadas. Cheio de árvores e flores coloridas na entrada. Havia uma estreita estrada feita de paralelepípedos que levava para a secretaria.
Um senhor de mais ou menos quarenta anos veio cumprimentá-los assim que entraram.
– Bom dia, Sr. e Sra. Evans. – falou. – O que devo a satisfação?
– Nós viemos apresentar a nossa intercambista a faculdade onde irá estudar. – respondeu Dante.
– Prazer, meu nome é Julie. Julie Milles. – ela apertou sua mão.
– Uma americana. – comentou. – Qual seu curso, senhorita?
– Literatura inglesa.
– Bom, eu ficaria muito feliz em apresentar-lhe o campus. – falou. – Meu nome é Antony McGold.
– Nós ficaremos esperando aqui, querida. – avisou Sra. Evans. – Aproveite.
– Obrigada. – agradeceu ela.
Julie e o Sr. McGold saíram por uma porta do outro lado da secretaria. A primeira ficou impressionada ao seu primeiro contato com o ambiente. Era magnífico. Os prédios tinham três andares, feitos de tijolos pintados de marrom. Entre eles, havia terrenos verdes, com árvores frutíferas, proporciando sombras agradáveis.
– O primeiro prédio é o de dança. – Sr. McGold parou em frente a ele. – O térrio tem quatro salas de ballet e um auditório para apresentações. O resto dos andares são para as aulas didáticas.
Ele recomeçou a caminhar até chegar à segunda construção. Parou de baixo de uma macieira, onde fazia uma sombra fresca.
– Aqui é o de música. Os alunos em todos os finais de simestres exibem uma orquestra composta por eles mesmo para toda a cidade. Vale muito à pena assistir. – disse ele num tom amistoso. – O seu é o próximo.
Os dois foram caminhando até a porta de entrada, que estava destrancada.
– No térrio, temos... Ah! Quase ia me esquecendo de te avisar! – excalmou ele enquanto andava junto com Julie. — Em todos os prédios, há uma diretora. A sala fica no terceiro andar. Você gostaria de visitar algumas das salas?
– Sim, adoraria. – respondeu, concentrada mais nos detalhes internos do prédio.
No primeiro andar, havia seis salas – três em cada lado do corredor – e dois banheiros, um masculino e outro feminino. Os alunos também tinha direito a um armário até o fiim do curso. Estes ficavam no térreo junto com outro auditório, um pouco menor que o da dança.
– Sr. McGold, antes de continuar com a tuor, eu preciso ir ao banheiro. – disse Julie.
– Ah, sim, claro. Fica no final do corredor.
– Obrigada.
Na verdade, ela não estava com vontade de ir ao banheiro. Apenas precisa de uma desculpa para uma pausa. Ela ligou a torneira e lavou seu rosto. Isso sempre a ajudava a pensar direito. Pegou seu celular na bolsa e viu que tinha cinco chamadas perdidas da sua mãe. Julie se repreendeu por não ter ligado para ela ainda desde que chegou. Que tipo de filha faz isso? Decidiu ligar agora.
– Oi, mãe. Desculpe por não ter falado com você antes. As coisas aqui estão acontecendo muito rápido. Você nem imagina onde estou agora. – o telefone começou a chiar. – Alô, mãe? Calma, deve ser o sinal.
Julie saiu do banheiro e acabou se batendo com alguém. O choque foi tão inusitado que ela se assustou mais do que se irritou. Seu celular foi parar a um metro de distância. No mesmo instante, ela levantou a cabeça para ver quem foi.
– Me perdoe! Nossa, como eu sou desastrado! – o rapaz se desculpou.
Mas, ela não conseguiu ficar brava com ele.
– Está tudo bem. – mentiu.
– Seu celular... – ele o pegou do chão e viu que a tela estava toda rachada. – Mil desculpas! Eu... Eu pago o concerto...
– Tudo bem, não precisa.
– Melhor! Eu vou comprar um novo. – disse.
– Não precisa. – Julie só conseguia se concentrar nos incríveis olhos azuis que ele tinha.
– Claro que precisa! – disse, rindo. – Ahn, eu me chamo Harry.
– Eu sou Julie.
– Então, Julie, você tem alguma preferência de marca?
– Eu já disse que não precisa. – insistiu, mas só para ser educada, porque ela, realmente, precisava de um novo. – Eu... eu me viro...
– Por favor, deixe-me comprar um celular novo para você. – falou, encarando-a nos olhos.
Ela não conseguia encontrar mais palavras para tentar dissuadi-lo, então acabou desistindo.
– Eu não sei como agradecer.
– E nem precisa. – ele lhe devolveu o celular quebrado, permitindo um rápido toque entre suas mãos.
– Finalmente te achei, senhorita Milles! – exclamou Sr. McGold. – Pensei que tinha se perdido.
Harry e Julie se afastaram um pouco no mesmo instante, quebrando a estranha conexão que havia se formado entre eles.
– Bom dia, sr. McGold. – disse Harry.
– Sr. Cooper, o que faz aqui tão cedo? Pelo o que eu sei, as aulas começam segunda.
– Eu sei, senhor, mas eu vim aqui para pegar uns materias que esqueci no armário.
– Os armários ficam no térreo, sr. Cooper. – respondeu com um pouco de arrogânica.
Harry deu uma última olhada para Julie, como se estivesse se despedindo e depois foi embora.
– Perdoe o sr. Copper, senhorita Milles. Ele adora arranjar confusão.
Ela sorriu ao se lembrar da tela do celular.
[...]
No caminho de volta, Art não parava de fazer perguntas sobre o que Julie tinha achado da nova faculdade. Ela parecia não se cansar de responder, mas, internamente, estava um pouco cansada. Já chegando perto da casa, Art segurou sua mão para chamar sua atenção.
– Você está diferente, Julie. – ele disse tentando não parecer subjetivo.
– Como assim? – ela pergunta, intrigada.
Ele dá de ombros.
– Alguma coisa aconteceu? – ele quis saber.
Foi então que a fixa caiu. Seu celular tinha quebrado e agora, ela ganharia um novo.
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