Notas iniciais
Anjos!!!! Quanto tempo, não? Já estou com o capítulo pronto faz alguns dias, mas não tinha como postar. Falta mais ou menos uns quatro ou cinco capítulos para o fim do livro 1. Já escrevi o epílogo e espero impressionar muito vocês no final. Beijos de Luz!

O trabalho de Landon e Michael não era estritamente lutar em campo embora pudessem fazer isso muito bem. Sua principal atividade no momento era levar as vítimas feridas para a enfermaria. Landon franzia a testa, mesmo em meio a sua corrida. Tinha ouvido o grito de uma garota a pouquíssimo tempo e começado uma corrida desenfreada pela floresta, tendo o barulho de seus passos, de tiros e muitos outros sons de batalha ecoando pela floresta como som de fundo.

Ele se sentia em meio a um filme de ação no estilo Missão impossível misturado com um filme qualquer de aventura.

Sentiu nojo assim que avistou o daimon agarrado aos ombros da garota, fitando os olhos dela. Era monstruoso.

Mal tocou a pistola em seu cinto e ouviu o som muito próximo de tiros. Michael. Ele tinha disparado contra o daimon sem que o monstro sequer notasse a presença deles. Bom.

Se apressaram até a garota e Landon checou o pulso dela, que batia, quase fracamente. Ela estava inconsciente, o que não era uma surpresa. Parte da alma dela obviamente havia sido levada.

– Rennata vai ter ainda mais trabalho, pelo que vejo. – disse Michael pegando a garota em seus braços.

– Infelizmente. – concordou Landon pegando, no chão, as facas curvas que a garota havia deixado cair e suspirou. – Agora, vamos levá-la. Isso não vai demorar muito mais tempo para acabar.

Michael franziu a testa.

– Como pode ter tanta certeza?

– Porque – ele disse. – a nossa querida humana preferida, vai dar um jeito de encerrar a parte principal. Eu espero.

***

Quando os daimons apareceram, Rennata ficou quase alegre. Quase.

Ela se sentia exausta. Não materialmente falando, mas seu coração estava pesado em seu peito e uma sensação horrível continuava a persistir, fazendo morada ali.

E estava exausta de se sentir exausta.

O barulho de tiros cortava o ar e a cada vez que um daimon era eliminado uma sementinha de esperança ganhava cada vez mais vida em seu peito, eliminando um pouco daquele peso estranho. Daquela sensação de derrota.

Pela visão periférica podia ter ocasionalmente um breve vislumbre de Thomas. Ele era implacável com suas Katanas recém-conjuradas e parecia descontar todo o ódio que sentia em quem quer que cruzasse seu caminho. Rennata se perguntou se ao menos parte do ódio se relacionava ao fato de que ele já tinha sido derrotado por daimons antes, ou se era apenas todo para ela.

– Pyrus. – sussurrou e uma coluna de fogo devorou um daimon por um momento, no entanto logo este saiu sem parecer dar a mínima para as chamas que lambiam seu corpo.

Rennata odiava ver a verdadeira face deles por baixo do glamour, tanto quanto odiava tudo que estava acontecendo. Teve apenas um instante para sentir uma movimentação estranha no ar antes de se desviar, mas a dor intensa que se espalhou por sua perna esquerda gritava que a lâmina de vento a atingira. Lançando um breve olhar para seu membro viu que não tinha sido tão grave, mas a visão do sangue escorrendo a deixou nervosa.

Chutou no peito o daimon que ainda pegava fogo, sem ser afetada pelas chamas e girando bateu com força com uma das extremidades de seu arco no rosto dele, então puxou a arma rapidamente e deu-lhe um tiro sem culpa no peito. Não teve um segundo sequer de descanso pois outros daimon já estava em cima dela novamente. Por reflexo Rennata se afastou, tencionou seu arco e soltou a flecha com uma mira perfeita. Assim que a flecha de luz perfurou o peito do daimon este explodiu em milhares de fragmentos brilhantes.

– Mas que droga é essa?! – questionou a si mesma baixinho e sem perder tempo atirou num outro com quem Thomas lutava.

Pelo olhar do namorado, Rennata percebeu que ele também estava incrédulo, mas decidiu deixar as perguntas para depois. Lançando uma flecha atrás da outra – agora sem tanta facilidade de acerto quanto antes considerando-se o fato de que os daimons também estavam bastante conscientes do resultado. – e com a ajuda de Thomas, bastou pouco tempo para que restassem apenas eles de pé.

Respirando com dificuldade ela olhou para os corpos no chão, a maioria vítimas de Thomas, sendo que boa parte dos que ela matou tinham sido reduzidos a fragmentos.

– Você não disse que a única fraqueza dos daimons era prata? – questionou erguendo uma sobrancelha.

– Sim, mas isso é de conhecimento geral.

– Então pode me explicar o que aconteceu aqui? – gesticulou com as mãos no ar, sem saber o que estava querendo representar realmente.

– Tem uma explicação bastante razoável para isso. – ele guardou com destreza as espadas nas bainhas que cruzavam suas costas. – Eles são invocados das mais profundas trevas e você é luz pura. Considerando o fato de seu poder ser bem superior ao deles não é de se surpreender muito o fato de ter tido esse resultado contra eles. Principalmente porque esta usando uma arma divina.

– Mas você ficou surpreso. – não era uma pergunta.

Ele assentiu.

– Momentaneamente. Nunca soube que algo assim era capaz de acontecer e não acreditava que realmente pudesse já que eles foram invocados principalmente com o poder que Marise utilizou da Selena. Mas vocês são duas Escolhidas com poderes opostos, tendem a neutralizar uma a outra.

Você nem imagina o quanto, querido.

– Certo. – disse ela desviando o olhar. – Vamos continuar procurando.

***

O chão firme e plano sob os pés de Marise a alertou de que ela já não mais se encontrava na floresta. Ao abrir os olhos procurou assimilar o ambiente ao seu redor. Estava no Salão Principal e diretamente a sua frente se encontravam alguns dos membros do Conselho dos Feiticeiros, que uniam as mãos formando um círculo e mantinham os olhos fechados recitando um feitiço.

Ela havia esperado encontrá-los ainda em meio ao processo de evacuação, fazendo com que os alunos atravessassem o portal para um lugar onde estariam seguros, mas eles claramente já tinham cumprido esse dever.

Eles haviam conseguido teletransportar pouco mais de metade dos moradores da Academia, o que a fazia sentir-se um pouco na obrigação de admitir que eram eficientes, no entanto, não eram suficientemente habilidosos. Ela era melhor. Ou Selena, dependendo do ponto de vista em que se olhasse, mas nada daquilo importava diante da ligação das duas. Elas eram uma só agora.

Marise, que antes reprimira sua presença, libertou-a de rompante e deixou que os outros a sentissem ali. Deixou que sentissem sua raiva reprimida, seu ressentimento e todo poder que havia adquirido sem que quase ninguém tivesse conhecimento.

Todos eles abriram os olhos rapidamente e ao mesmo tempo, voltando suas atenções para ela. E foi nesse instante que Marise começou a rir. Não de um jeito histérico, como seria de se esperar, mas de uma maneira que poderia deixar claro que ela estava se divertindo. Só de vê-los olhando-a como se não acreditassem que ela estava de pé em frente a eles, era algo impagável.

Marise caminhou em direção a eles, vendo seus olhares de ódio. Ele havia parado de rir, mas era tentador voltar a fazê-lo. Ódio. Ela era a pessoa mais carregada de ódio ali. Tudo que eles fizeram… Ela iria fazê-los pagar.

– Quer dizer que a causadora de tudo isso foi você. – Sophie White deu um passo a frente, analisando-a com o olhar, como todos os outros também faziam. Espertos. – Como conseguiu entrar? Você foi banida. Não deveria ser capaz de ter qualquer influência na barreira.

– Hum… a barreira que vocês estão inutilmente tentando reerguer? – questionou com deboche. – Obrigada por dizer o óbvio, Sophie. Sempre perspicaz. – Ergueu uma mão no ar, sem desviar o olhar da outra feiticeira, demonstrar qualquer sinal de fraqueza ou cometer algum deslize. – Agora temos algumas contas a acertar. – um leve movimento de mão fez com que as cortinas dispostas sobre as janelas de cada lado do salão fossem consumidas por chamas. – Que se dê início ao inferno.

***

Em algum momento Rennata tinha começado a correr. Já fazia algum tempo que ela tinha sentido a energia de Selena se intensificar, como se ela estivesse em algum combate e mesmo esse pensamento a fez temer por quem quer que estivesse lutando com ela.

Tentava fazer seus passos soarem o mais silenciosos possível, embora não tivesse muito sucesso nesse quesito, ao contrário de Thomas. Ela tinha certeza de que ele devia estar manipulando o ar de alguma maneira ao seu favor, mas estava muito nervosa para fazer o mesmo.

Quando sua mente a alarmou de sua proximidade em relação a quem ela procurava, como se tivesse encontrado uma grande marca X de um mapa do tesouro, ela se obrigou a parar e respirar um pouco. Aos poucos e pacientemente procurou desconectar cada um de seus sentidos de Selena, pois já começava a se sentir sobrecarregada estando tão próxima de tanta energia.

Suas costas estavam coladas no tronco de uma grande e robusta árvore. Thomas estava a sua frente, com os braços a cada lado de seu corpo, mantendo-a quase imóvel, o rosto dela estava ao nível do peito dele. A árvore onde estavam localizava-se em um lugar com boa vista para o lago de onde ela podia ouvir os sons de luta vindo. Risos, explosões de poder, gritos. Gritos. Ela poderia reconhecer um deles de qualquer lugar. Era de total desagrado, como de uma menininha que não estivesse feliz com alguma decisão que os pais tivessem tomado e resolvesse fazer birra. A certeza dela se tornou ainda mais certa ao olhar a expressão de assombro de Thomas, que mantinha o olhar fixo, sem piscar na luta a sua frente.

Rennata se virou devagar em seus braços, querendo ao máximo que ninguém percebesse sua presença e se focou no que estava vendo.

O susto foi tanto que ela quase gritou, mas contentou-se em arregalar os olhos de espanto e cobrir a boca com a palma, temendo que seu grito fugisse.

Isabella.

Ela não soube o que mais a impressionou. O ato de sua irmã estar lutando com Selena, ou o fato de Isabella estar usando poderes. Manipulação da água.

O que diabos está acontecendo aqui?, perguntou-se, confusa.

Seguiu com o olhar cada movimento de Isabella, questionando-se mentalmente como sua irmã pode ter aprendido a lutar com tanta leveza, velocidade e maestria. Não poderia ter sido apenas uma habilidade adquirida pela breve aula que teve com Ethan mais cedo.

Num determinado momento as adagas de ambas se chocaram e Selena empurrou Isabella para trás, rindo arrogantemente.

– Até que você serve como um bom treino. – disse ela.

Zangada Isabella empurrou uma mão para frente e várias pequenas estacas de gelo se solidificaram no ar e foram lançadas na direção de Selena, mas estas pararam antes de encostarem na feiticeira, caindo no chão e se liquidificando. O escudo de energia reluziu em púrpura na frente de Selena enquanto ela sorria.

– Tente novamente. – debochou.

– Não se mexa, Ethan. – Isabella disse duramente. – Fique paradinho bem aí.

Rennata se surpreendeu novamente, pois não tinha notado a presença de Ethan até aquele momento. Ele observava a uma certa distância, com expressão de raiva e parecia pronto para atacar a qualquer momento. Ele não retrucou sobre o que Isabella disse, no entanto não parecia contente. Rennata viu a luta entre sua irmã e Selena se iniciar novamente e suspirou.

– Agora chega. – sussurrou.

Passou por baixo do braço de Thomas e pegou seu arco, tencionando-o. A flecha de luz surgiu. Ela sabia que estava agora em campo aberto e que para ser vista, bastava apenas que Selena se virasse, tal qual pensou aconteceu. A feiticeira se afastou de Isabella e se virou para ela. Rennata soltou a linha e a flecha disparou na direção de Selena.

A arrogância é o fim dos fortes, Selena.

Tudo pareceu entrar em câmera lenta do instante em que a irmã de Thomas compreendeu o que estava acontecendo ao que um escudo surgiu a sua frente. Mas era inútil. A flecha atravessou o escudo como se ali não houvesse nada e penetrou o peito de Selena, enviando-a ao chão, de joelhos.

Ela ergueu uma mão ao peito no momento em que a escuridão se dissolveu completamente de seus olhos. Rennata pensou ter visto um pequeno sorriso no rosto da amiga antes que essa desabasse completamente, exaurida.

Isabella gritou, jogando-se de joelhos ao lado de Selena e lançando um olhar assustado a Rennata. Ethan também se apressou até onde elas estavam e Rennata sentiu uma pressão em seu braço direito quando Thomas o agarrou, virando-a.

– O que você pensa que fez? – ele não estava gritando ainda, mas parecia bem próximo disso.

– O que era preciso. – respondeu sem nenhum tom em particular na voz.

Estava entorpecida. Mesmo a raiva nos olhos de Thomas não foi capaz de lhe trazer qualquer emoção, fosse de tristeza ou medo.

Como se acreditasse que não fosse conseguir nada de qualquer forma ao discutir com ela, Thomas a largou e correu em auxílio da irmã.

Rennata caminhou lentamente até todos eles, que pareciam bastante abalados e esperou até que Thomas voltasse a fitá-la.

– Ela está viva, certo? – perguntou e Isabella assentiu.

– Ela ainda não desmaiou, mas parece estar quase perdendo a consciência.

Rennata notou que os olhos da irmã estava verdes, diferente do castanho habitual, mas nada comentou sobre isso.

– Antes que fiquem com ainda mais raiva de mim, saibam que foi Selena que me instruiu a fazer isso. Agora, Thomas, pegue-a no colo e Ethan, crie um portal que dê no andar subsolo da Academia. Ainda tenho uma parte da missão a cumprir. E Isabella – acrescentou. –, nós precisamos conversar sobre o que aconteceu aqui.

Pegou o celular e percorreu a lista de contatos, a procura do número de Landon.

– Lindinha? – ele perguntou assim que atendeu. – Já aconteceu?

Ela assentiu, então lembrou que ele não podia vê-la.

– Sim. Ocorreu tudo de acordo com os planos de Selena. Você está nos esperando? Seria melhor que explicasse tudo a eles depois que eu cuidar do resto.

– Claro. – disse ele. – Cheguei aqui faz pouco tempo. Como está a Sel?

Rennata a olhou.

– Ela desmaiou. É melhor assim, isso significa que Marise… Você sabe.

– Eu sei. – concordou. – Vamos logo terminar com isso.

***

Tudo tinha acontecido rápido demais.

Logo que houve qualquer menção de que um deles fosse pedir o auxílio dos que estavam fora do salão, Marise selou todas as passagens, impedindo que qualquer um entrasse ou saísse, no entanto, suas chamas haviam sido reprimidas rapidamente por Karian Hunter, um feiticeiro do ar, membro do Conselho. Ela não se incomodou com aquilo, pois havia usado a magia de fogo apenas como uma provocação e logo estava em meio a uma luta com Sophie e uma outra feiticeira que havia entrado fazia pouco tempo no Conselho, sobre quem Selena havia lhe falado, Melissa.

As duas em conjunto não chegavam a ser um grande desafio, mesmo com qualquer ajuda prestada pelos outros a distância. Sophie prosseguia com cada vez mais brutalidade, embora com disciplina, e certamente aproveitaria qualquer brecha que aparecesse para causar algum dano, no entanto, tais brechas não existiam. Marise manipulava a lança em suas mãos de tal modo que o instrumento parecia ser uma extensão de seu próprio corpo.

Ela estava chegando a conclusão de que deveria finalizar a luta, quando, de repente a dor atravessou seu corpo. Foi rápido. Excruciante. Seu peito queimava como se seu coração estivesse em brasas, de um modo tão doloroso que não teria sido muito diferente caso alguém estivesse rasgando seu coração com garras afiadas.

Ela tropeçou para trás, afastando-se de suas oponentes com um alarme soando freneticamente em sua cabeça. Tudo que ela menos queria naquele momento era fugir, porém, estava consciente de que nem mesmo se aguentava mais em pé. Sua ligação com Selena havia enfraquecido de um instante para o outro e agora era uma linha tênue, quase invisível para ela.

Com o máximo de esforço conjurou um escudo de energia ao seu redor e deixou que a magia frágil de Selena fizesse seu trabalho ao abrir um portal. Então, sob fortes ataques que abalavam o escudo, deixou seu corpo ser engolido pelas sombras, enquanto seus olhos nada mais viam.

***

Mesmo que se perdesse como ninguém nos andares superiores da Academia, o subsolo passara a ser praticamente o território de Rennata. Nos últimos quinze dias Selena havia se certificado de que ela aprendesse o caminho para a sala delas e ela tinha aprendido. Seria difícil esquecer onde aquele lugar estaria, considerando-se para que iria servir.

Quando o portal se abriu em um local qualquer entre os corredores, ela logo tomou a frente, guiando a todos os outros e falando apenas o necessário. O que incluía quase nada.

Landon já estava a porta quando ela chegou e os fitava com o semblante preocupado. Ele a abraçou assim que ela estava perto o bastante. E foi aí que todo o entorpecimento foi embora e ela teve vontade de chorar.

– Lan, pegue a Selena. – ela disse e ele assentiu.

– Deixem que eu a leve. – disse Thomas.

– Você não pode entrar nessa sala. – Landon explicou. – Nenhum de vocês. O máximo que vocês podem fazer é observar do lado de fora. Não vai acontecer nada de ruim, é só magia branca. Como eu estive envolvido com isso desde o começo, minha passagem foi permitida por Rennata, mas se qualquer outro atravessar essa porta poderá estragar tudo. Confiem em nós, não faríamos nada que pudesse machucar a Selena.

– Exceto atingir o coração dela com uma flecha? – Thomas questionou, ácido, mas deixou que Landon pegasse sua irmã.

Rennata rompeu o selo mágico na porta e a abriu, entrando logo depois de Landon. No instante em que pôs os pés na sala, as runas que tinha passado um longo tempo desenhando no chão se iluminaram com energia e a sala assumiu uma cor branca luminescente. Landon pôs Selena no centro do círculo mágico e foi até Rennata que se ajoelhou a pouco mais de um metro a feiticeira. Ele tocou seus ombros e ela sentiu uma leve sensação de paz se espalhar.

– Você pode fazer isso, Lindinha. Nós acreditamos em você.

É claro que quando ele disse 'nós', estava se referindo a ele e a Selena.

– Certo. – ela assentiu e só então Landon se afastou.

Rennata ergueu o olhar para o teto, onde outro círculo mágico menor havia sido desenhado com menos, mas considerável esforço. Estendeu as mãos com as palmas viradas para cima e iniciou o feitiço.

***

– Um feitiço de selamento. – Thomas disse surpreso. – É claro.

Isabella não estava entendendo nada. Nenhuma das ações de Rennata pareciam ter vindo realmente dela. Sair atirando flechas de luz em garotas momentaneamente más pela floresta? Nem pensar. Encher uma sala se magia e começar a murmurar coisas sem sentido? É, não.

Exceto que as palavras tinham sentido, ela apenas não as compreendia. Felizmente – ou seria o contrário? –, Poseidon estava traduzindo tudo em sua cabeça.

“Rogo, oh deuses, a benção para acabar com o sofrimento. Aquela que antes trilhava na luz, hoje caminha inconsciente pelas trevas, sendo devorada, consumida por dor e sangue…”

– O feitiço está diferente. – comentou Ethan.

– Acho que Selena o modificou. Rennata manipula a luz muito mais facilmente que as trevas. – explicou Thomas. Ele parecia felizmente mais calmo.

“Sou a Portadora de Luz. Levo a paz, esperança, e conforto para os corações que sangram em meio a dor da guerra…”

– Isso não parece um feitiço para mim. – Isabella disse sem que realmente tivesse a intenção de fazer aquilo.

– O que você esperava? – indagou Ethan, apenas com a sugestão de um sorriso. – Rimas? Somos feiticeiros, não poetas.

Ela deu de ombros, mas também sorriu um pouco. E voltou a realidade do momento quando Poseidon voltou a traduzir o feitiço em latim. Ao menos parecia latim. Ela notou surpresa que longas correntes de luz se formavam entre as duas garotas em meio ao círculo.

“Ordeno-lhes pelo direito que possuo, o aprisionamento deste coração obscuro. Elementos de luz que me servem por dever, apaguem esta dor rubra com esperança…”

Uma das correntes se enrolou no braço direito de Selena e Rennata caiu de joelhos.

“… Paz…”

No esquerdo.

“… Compaixão. Amor. Harmonia. Perdão. Certeza. Pureza…”

A medida que cada uma das palavras eram pronunciadas, uma corrente a mais prendia Selena.

– Essa foi a parte do feitiço que minha irmã sempre achou triste. – disse Thomas. – Cada uma das correntes possuem um nome e alimentam a pessoa de acordo com seus significados, no entanto, quando uma feiticeira das trevas faz o feitiço, as correntes usadas são principalmente: Dor, ódio, desesperança e dúvida. Ela pode ter sempre usado a magia das trevas para algo bom… bem, exceto por hoje. – Corrigiu-se. –, Mas sempre odiou esse feitiço.

“E nestas correntes firmo meu poder e mente com fé. Neste círculo, desfragmento estas duas almas atormentadas que dividem um único corpo. Na consciência da preciosidade de cada vida, detenho minha certeza de que ela se reerguerá recebendo perdão por seus pecados. Mostrará sua verdadeira face, porque cada alma é uma esperança. Porque ela é a nossa esperança. Porque é o que ordeno e minha lei é absoluta enquanto ainda residir luz nesse corpo. Oh, deuses, nos deem auxílio na purificação desse pobre espírito. Correntes, aprisionem este corpo liberando as trevas contidas e tirando-o do berço negro da alma.”

E como no fim de um espetáculo, a luz da sala diminuiu, centrando-se suavemente apenas em Rennata e nas correntes que, agora Isabella percebia, brotavam do chão e do teto, dentro do círculo mágico. Duas correntes, aprisionando cada um dos braços e pernas de Selena.

“E que se dê fim a esse triste período de trevas.”

***

Missão cumprida.

Respirando profundamente Rennata engatinhou para ainda mais perto de Selena. Apenas o ato de erguer o braço e tocar gentilmente nos cabelos da feiticeira exigiram muito dela. Estava drenada. Aquele feitiço – que na verdade era mais uma oração. – ainda não tinha sido dominado completamente por ela. Rennata optou por fazer o encantamento por meio de uma língua morta, o latim, para conferir mais poder a ele, mas não era estritamente necessário. E de qualquer forma, Selena era mais poderosa que ela, então, por todo treinamento que haviam feito antes, já tinha uma ideia que ficaria tão esgotada. Ela já chegou a desmaiar outras vezes, mesmo que nunca tenha finalizado o feitiço na prática.

Mãos tocaram suas costas e ela se deixou relaxar enquanto Landon a pegava e erguia em seus braços.

– Você fez bem, pequena heroína. – ele deu uma breve risada. – Já deve ter resolvido boa parte dos problemas lá em cima. Agora tenho que te tirar daqui.

– Eu sei. Mas eu e Selena precisamos conversar.

– Não acredito que ela vai acordar tão cedo. – mencionou ele, olhando para a amiga inconsciente no chão frio.

– E não vai. – concordou Rennata, fechado os olhos. – Mas, você sabe, tenho outros meios.

Ela bateu uma dedo ao lado da cabeça para enfatizar o que dizia.

Ia entrar na mente de Selena.

– Me desculpe, gracinha, mas isso vai ter que esperar. Você precisa de um bom descanso e depois, há trabalho na enfermaria para você. Há algumas vítimas dos daimons.

Ela se remexeu em seus braços.

– O mesmo que aconteceu com Thommy?

– Sim, você vai estar bem ocupada depois que tirar um cochilo. Agora durma e deixe que nos preocupemos com o resto.

Ela assentiu devagar e se deixou levar pelo súbito sono.

***

Ela parece uma pequena boneca Barbie, pensou Landon enquanto se virava para a porta. Uma Barbie que com certeza me ameaçaria se sequer soubesse que pensei nela assim.

Mas era verdade. Ela era uma pequena garota loira, bonita e corajosa.

– Espero que você tenha se arrependido pela fase babaca pela qual você andou passando. – comentou ao passar direto por Thomas, que desviou o olhar da irmã e o fitou. – Rennata não merece tanto mau humor vindo de sua parte, queridinho, ela já tem suportado demais.

– Você precisa compreender meu lado. Ao mesmo tempo, minha namorada e minha irmã começaram a guardar segredos e agora isso? Depois de tudo, isso também é demais para mim.

– E…?

– E você tem razão. – ele suspirou. – Eu fui um babaca.

– Que bom que você sabe. Agora, vamos subir. Rennata vai descansar, vamos dar uma olhada em tudo para ver se as coisas se acalmaram e depois virão as explicações. Isabella?

– Sim?

– Você sabe – começou. –, depois disso tudo já está liberada para contar as coisas ao seu pseudo-namorado, quero dizer, Ethan e o resto, fica por minha conta. Agora, vamos nos apressar porque nossos problemas estão apenas começando. O Conselho não deve estar feliz.

– E a Selena? – perguntou Isabella.

– Não há nada que possamos fazer agora. – disse Ethan.

– Exato – concordou Landon. – Exceto esperar a Nat acordar. Deixem a Selena aí.

Ele se encaminhou pelo corredor a procura do elevador mais próximo, pensando que mesmo que tivessem bastante problemas, passariam agora pelo que seriam o máximo de um período de paz que conseguiriam, antes que o fim realmente chegasse.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.