Os Escolhidos - Destinos Interligados
3 Capítulo 2 - Mansão Oceano
Notas iniciais
– Você sabe que continuar vivendo entre os humanos nunca vai dar certo. – disse Chloe, pela enésima vez.
– Eu sou humana. – retrucou Rennata.
– Você sabe o que eu quis dizer. – suspirou. A meia hora, desde o desmaio de Selena, vinha tentando convencer a amiga do que era certo. Caminhava de um lado para outro, o celular estava em cima da mesinha de cabeceira, o viva-voz ativado. Christopher observava a cena, sentado na cama ao lado de Selena, parecendo estar se divertindo com a cena que se desenrolava, o que era bom, já que o olhar de preocupação por Selena estava sumindo de sua face aos poucos. – Humanos N-O-R-M-A-I-S.
– Eu não sou uma retardada, chica. Não precisa soletrar. – o sotaque latino da garota estava ficando mais pronunciado, o que normalmente acontecia quando ela começava a perder a paciência.
– Mas é uma das pessoas mais cabeças duras que eu conheço. – porque a outra ainda estava desmaiada em uma cama ao seu lado. – Porque nada pode ser fácil com você?
– Diz a garota que adora falar enigmas. – Christopher abafou uma risada enquanto Chloe poderia jurar que a outra garota estava revirando os olhos do outro lado da linha. – Eu não pedi esses poderes. Se os deuses me deram, nada mais justos que usá-los como me der na telha.
– Você vai para a Academia, Nat.
– Não. Não vou. – persistiu teimando. – Eu quero ter uma vida.
Isso estava sendo mais difícil do que a semideusa tinha imaginado.
– Lembre-se: Você é a Portadora da Luz. Precisa aprender a controlar seus poderes.
– Eu já tenho controle.
– Você lembra do porque de você ter sido expulsa do último colégio humano em que esteve, Nat? – questionou duramente a filha de Apolo.
– Foi um acidente! – defendeu-se Rennata.
– Você inundou o ginásio. – lembrou-lhe. – Duas vezes. E no outro colégio antes desse...
– Chloe. – era praticamente uma suplica.
– Você incendiou o laboratório de química. – completou. – Devo lembrar que haviam vários produtos inflamáveis lá dentro?
A linha ficou em silêncio, e assim a filha de Apolo soube que a batalha estava para ser ganha.
– Você não vai facilitar, né? – Rennata disse derrotada.
– Não. – disse Chloe um sorriso aflorando em seu rosto. – Além do que, eu já mandei te registarem na Academia a algum tempo.
– O quê?!
– Chris? – uma voz fraca pode-se ouvir.
Selena. Ela havia acordado.
Chloe olhou para a garota que considerava uma irmã desde sempre. Ela estava preocupada, sua visão estava para se cumprir em pouco tempo. Apenas pouco mais de um mês até que se concretizasse.
Porquê?!, queria gritar para os deuses. Porquê isso tem que acontecer?!
Mas ela sabia que tudo tinha um motivo. Selena tinha um grande papel a desempenhar no destino de todos que eles amavam. No destino do mundo.
Mas será que ela precisa sofrer tanto até lá?, pensou. Ela sequer terá tempo suficiente?
– Eu tenho que desligar. – disse a Rennata, alcançando seu celular. – Te vejo em breve.
– Mas...
– Sem “mas”. Tchau, Nat.
Desligou o celular.
– Você desmaiou de novo. – Christopher disse a Selena enquanto ela se sentava.
– Eu pensei ter ouvido um barulho enquanto desmaiava, – seu olhar estava um pouco enevoado. – o que aconteceu?
– Você liberou energia de forma excessiva. – ela explicou. – O candelabro caiu do teto, os espelhos se estilhaçaram e a porta de vidro explodiu para fora. Nada que não possa ser consertado! – acrescentou rapidamente abanando as mãos no ar, tentando amenizar a importância do que havia acontecido. Mas, quase que imediatamente, percebeu que não tinha dado certo.
Selena pôs o rosto entre as mãos.
– Eu sou um desastre! – lamentou-se. Então pôs-se a olhar ao redor, parecendo perceber pela primeira vez que estava no quarto de Chloe. – Quanto tempo eu fiquei fora?
– Pouco mais de meia hora. – seu irmão falou.
Selena suspirou, tirou as cobertas de cima de si, pôs as pernas para fora de cama e se levantou.
– Bom – murmurou unindo as mãos. –, eu não tenho tempo a perder.
– Quer dizer que você vai mesmo embora? – indagou Chris.
A feiticeira assentiu.
– Eu preciso. – seu olhar endureceu, como se a menção de meras palavras trouxessem-lhe más lembranças. – Vou apenas me despedir do Thomas antes de ir. Onde estão minhas malas?
Christopher gesticulou para o lado esquerdo da cama. Selena pegou-as e se dirigiu para fora do quarto, fazendo com que os irmãos a seguissem.
Chloe andava um pouco atrás de Selena quando sentiu seu irmão segurar seu braço. Ela olhou de onde a mão dele estava presa até os olhos dele.
– Você não pode fazer nada para ajudá-la? – ele perguntou preocupado.
– Eu já disse, as coisas tem de acontecer assim. – falou em voz baixa.
Ele acenou uma vez com a cabeça, largando seu braço em seguida e se pôs novamente atrás de Selena.
Eu gostaria de que as coisas pudessem ser diferentes, pensou Chloe.
Quando chegaram ao quarto de Thomas, Selena estava sentada na cama ao lado dele, observando com tristeza seu rosto calmo e perdido em um sono profundo. Chloe lembrava vividamente do dia em que Selena perdeu seus pais, conseguindo salvar apenas Thomas. E ainda assim... o garoto de quinze anos alegre e enérgico que ele havia sido, era apenas uma casca dele mesmo agora. Thomas não acordou mais, e Selena nunca conseguiu se recuperar de tamanha perda.
– Eu vou voltar, meu amor. – ela disse beijando a testa do irmão.
Apesar de tudo, Chloe se alegrava em ver Selena assim. Geralmente a mesma age apenas com frieza e ver as muralhas de sua irmã caírem ao menos por pouco tempo, mostravam que a humanidade dela não havia sido perdida. Infelizmente isso era apenas resultado do desmaio recente. A medida que o tempo se passa, penetrar as muralhas de gelo sólido se torna apenas mais difícil.
A feiticeira levantou-se e andou até o centro do quarto. Ajoelhando-se, pousou a mão direita no chão e começou a murmurar baixinho. Dentro de pouco segundos, uma espécie de tinta negra pareceu fluir das pontas de seus dedos, desenhando no chão um pentagrama envolvido por runas.
Quando o feitiço acabou, Selena encarou a Chloe e Christopher.
– Acho que isso é um adeus. – falou.
Ela andou em direção a Christopher e o abraçou apertado por alguns segundos. Ele beijou sua testa e disse:
– Boa sorte.
Ela acenou e se aproximou de Chloe, abraçando-a em seguida.
– Vou sentir saudades. – falou a filha de Apolo.
– Não é como se eu não fosse voltar mais. – disse a feiticeira. – Eu também vou sentir saudades.
Afastando-se, deu-lhes às costas e voltou a pegar as malas. Chloe pode ver a tensão irradiando do corpo de sua irmã, enquanto a mesma entrava no centro do pentagrama.
– Isso não é um adeus – ela disse com convicção. –, é apenas um até logo.
Selena pareceu relaxar a medida em que dava um suspiro profundo. Virando-se de perfil ela disse:
– Eu sei.
Chloe pode apenas pegar um vislumbre de seus olhos brilhantes com lágrimas não derramadas e seu sorriso amargo, antes que Selena sumisse diante de seus olhos. Em breve, Selena tentaria reerguer a muralha de frieza atrás do que sempre se esconde.
***
Selena estava em pé no meio do pátio de Oceano, uma mansão moderna de frente para o mar, ao leste da Califórnia, olhando o desenho do pentagrama se desintegrar e tentando decidir o melhor jeito de entrar na casa. Materializar-se do nada? Poderia ser divertido assustar algumas pessoas, mas ela não estava com humor para isso. Entrar de cabeça erguida como se fosse a dona do lugar? Entediante, afinal de contas de certa forma ela era. Por fim, decidiu apenas subir os degraus e tocar a campainha. Claro que a pessoa a abrir a porta tinha que ser a última que ela queria ver no momento. Bem, não a última, mas...
– Ora, ora, ora. Não esperava te ver por aqui tão cedo. – disse Ethan, bloqueando a entrada.
Ele estava vestindo camisa azul e calça jeans e Selena tinha que admitir, ele estava tão bonito como sempre. Olhos azuis sorridentes, cabelos louros cacheados e pele bronzeada, sem falar em um físico incrível. Mas Ethan também tinha defeitos, e um deles era um ego de proporções astronômicas, um dos motivos de Selena ter terminado o namoro com ele a quase dois anos. Ele não aceitou a dispensa muito bem.
– Oi, babaca. – ela disse pondo uma mão em seu peito para empurrá-lo, mas ele a segurou no lugar, enlaçando seus dedos com os dela. Selena estreitou os olhos – Eu quero apenas falar com sua mãe.
– Claro, eu te levo até ela. – o garoto pegou a mala que ela havia largado e a conduziu para dentro.
– Não tente me guiar em minha própria casa, White. – ela disse, olhando-o diretamente, enquanto ele começava a guiá-la pelos corredores. – Basta apenas me confirmar se ela está no escritório. E será que em nome de Hades, você poderia soltar minha mão e devolver minha mala?!
Sua voz se tornara fria, mas havia um pouco de raiva presente em seu tom também.
– O cavalheirismo ainda existe, Sel. – ele sorriu. – Aceite-o como uma dama, sim?
Ela travou a mandíbula e rangeu os dentes.
– Não me chame de Sel, você perdeu esse direito. Não sabe receber um não como resposta?
Ele parou, subitamente, aproximando-se ainda mais dela. Selena deu um passo para trás e ele a seguiu. Ela repetiu o movimento e ele fez o mesmo, encurralando-a na parede.
– Eu não vou desistir de você, Selena. – disse próximo ao seu ouvido.
– De um lugar de prestígio no conselho, você quer dizer. Bem, você pediu por isso. – ela disse calmamente e ele a olhou, parecendo confuso.
Quando precisar socar alguém, a lembrança da voz de seu pai reverberou em sua mente. deixe o dedão fora do punho. Você não vai querer quebrá-lo!
Selena inclinou a cabeça para o lado e sorriu, um sorriso travesso, e logo depois desferiu um soco no nariz de Ethan.
– Ahhh! – Ele gritou, a mãos voando para seu rosto. Selena pode ver o sangue jorrar fortemente pelo nariz dele, enquanto flexionava os dedos. Apesar de ter usado bastante força, ela sabia que era apenas uma questão de poucos minutos até que ele estivesse totalmente curado novamente. Mesmo sendo um mestiço, Ethan era um feiticeiro branco bastante forte. Poderia curar a si mesmo com facilidade. Ela se sentiu um pouco culpada por um momento, mais então ele zombou com a voz meio anasalada:
– Selena, minha querida, tão delicada como sempre.
– Para você só o melhor, “querido”. Afinal, eu tenho que me portar como uma dama, não? – respondeu, com um sorriso falso, frio. Pegou a mala que ele havia largado e seguiu seu caminho.
Poucos minutos depois estava batendo na porta do escritório de Sophie White, mãe de Ethan e administradora da mansão. Sem nem mesmo esperar convite, ela girou a maçaneta e parou no portal.
– Senhorita Blake. – Sophie a cumprimentou de sua mesa. Seu semblante estava em branco, sem demonstrar emoção alguma, como se nada pudesse surpreendê-la. Nem mesmo a chegada inesperada de Selena. – É bom vê-la novamente. Por favor, entre.
– Olá, Sophie. – disse sem intenção alguma de entrar. Sophie não era exatamente uma pessoa agradável, e faria quase qualquer coisa para subir sua posição no conselho. Empurrar seu filho para cima de Selena foi apenas uma de suas medidas. Selena não prolongaria sua estada naquele escritório por nem mais um minuto, isso seria extremamente inútil. – Vamos direto ao ponto, sim? Ficarei aqui por mais ou menos uma semana, então não se preocupe com nada. Estou aqui por razões pessoais e não quero ser incomodada por ninguém, e com ninguém, eu quero dizer Ethan, que por um infeliz acaso está com o nariz quebrado nesse exato momento. – Os olhos de Sophie se estreitaram minimamente. Forçando mais um sorriso falso completou: – Acho que fui bem clara não é mesmo? Agora, pode me mostrar onde está meu quarto?
– Claro, princesa. – levantou-se – Siga-me.
Princesa. Apenas os membros do conselho e os gêmeos a chamavam assim. Ela não sabia por que o faziam, mas por algum motivo parecia certo. E errado.
Pouco tempo depois subiram uma escadaria que levava para o andar seguinte e então outra para o terceiro e último andar. Após virar alguns corredores Sophie parou e abriu a porta de um quarto.
– Você ficará aqui. – ela disse, a voz sem tom.
– Obrigado. – falou Selena, entrando no quarto e lutando para manter seu rosto sem expressões. – Pode se retirar agora.
Ela assentiu e se virou. Selena a assistiu caminhar por alguns segundos, até que ela virou em um corredor e saiu de seu campo de visão. Fechou a porta sentindo um grande alívio. Deixou a mala e a maleta caírem ali mesmo no chão, foi até a grande cama King size e sentou-se. Teletransportar-se até ali, e agir de maneira dura, reprimindo suas emoções, tomou-lhe uma grande quantidade de energia, deixando-a exausta. Sem nem mesmo retirar as botas, deitou sua cabeça em um travesseiro e caiu em um sono profundo.
Quando abriu os olhos novamente, acordando de um sonho, uma luz suave despejava-se em seu quarto. A luz do fim da tarde. Olhando em seu celular, viu que tinha dormido por quatro horas. Hora de cuidar de suas responsabilidades.
Respirou fundo, levantou-se, abriu as cortinas de uma grande janela que ia do chão ao teto e foi pegar as malas que tinha deixado no chão de maneira tão descuidada. Pelos deuses! Dentro da menor havia uma arma! Como ela pôde ter esquecido?!
Agradeceu mentalmente logo que viu que Chloe tinha incluído sua necessaire na maleta, em seguida escolheu roupa limpas e foi em direção ao banheiro. Enquanto escovava os dentes, imaginava que tipo de coisas diria ao conselho para explicar sua presença tão repentina ali. Obviamente eles não a deixariam em paz, mas ela não poderia contar o verdadeiro motivo. Eles poderiam encarar sua situação como uma fraqueza, e os fracos sempre caem. Mesmo que ela fosse a líder.
Após terminar de escovar os dentes, foi tomar um banho. Despiu-se e entrou debaixo do chuveiro, deixando a água morna relaxar os músculos tensos de seu corpo. No entanto, ela não pode impedir seus pensamentos de vagarem para o sonho que havia tido. Neste sonho, estava dançando com o mesmo garoto que tinha visto Marise torturar na visão do espelho. O lugar em que estavam, lhe lembrava o salão de baile em Hekate a um ano atrás. A cada ano, no Sanhaim, – conhecido popularmente como halloween – um baile era organizado para celebrar o dia em que a barreira entre os mundos fica mais fina. O dia em que o mundo dos vivos e os mortos se tornam quase um só. Quando a magia antiga fica mais poderosa que em qualquer outra época do ano. Embora seja uma data sagrada para as feiticeiras, semideuses e humanos estão sempre presentes na celebração. Pode até parecer uma festa cheia de pompa aos olhos de outros, mas, mais do que tudo é uma reunião de negócios.
Selena não lembrava de já ter visto aquele garoto alguma vez, mas por algum motivo ele parecia tão familiar. A segurança que ela sentia enquanto ele a girava pelo salão parecia um sentimento tão vivido, algo que ela não sentia mais. O garoto misterioso não poderia ser fruto de sua imaginação, seus sonhos nunca a enganavam. Não que isso a impedisse de rezar aos deuses para que tudo fosse apenas um engano. Preferia não conhecê-lo, a saber que havia sido mais uma das vítimas de Marise...
Ou que ainda seria.
Três horas depois, voltava levemente frustrada ao seu quarto. Sabia que poderia estar se sentindo pior se não fosse o feitiço que havia colocado em si mesma tanto tempo antes. Ele bloqueava suas emoções intensas e se ela estava sentindo ao menos um pouco daquilo, significava que era tudo muito forte para se conter, ou que ela ainda estava fragilizada pelos desmaios.
Não havia achado nada remotamente útil na biblioteca, que seria capaz de resolver seus problemas. Poderia tentar novamente no dia seguinte, mas, por agora, teria de se contentar com simples feitiços de transferência. Não que eles não ajudassem. Pelo contrário. Estavam sendo a única coisa capaz de mantê-la durante meses, e ainda assim, não eram suficientes.
Contudo, feitiços não eram a sua principal fonte de frustração, e sim o garoto de olhos de ouro que não conseguia tirar da cabeça.
A única coisa boa é que não tinha se encontrado com Ethan novamente, e sim com vários amigos que pareciam felizes em revê-la.
Estava com a mão na maçaneta, prestes a abrir a porta, quando ouviu um arfar atrás de si. Virando-se de costas, encontrou o olhar da pessoa parada na porta do quarto de frente ao seu.
Nesse momento sentiu seus olhos se arregalarem, e todo o ar ser expelido de seus pulmões, devido a surpresa que não deveria ser capaz de sentir. Balançando a cabeça negativamente, tentou se fazer acreditar que tudo não passava de uma alucinação. Tinha que ser. Tentou dizer alguma coisa, uma palavra, ao menos não ficaria ali parecendo uma idiota, mas só conseguia abrir e fechar a boca sem emitir som algum. O garoto parecia estar tendo a mesma dificuldade enquanto fechava a porta do quarto que ocupava.
Selena o viu respirar fundo, e correr a mão por seus cabelos louros. Sua postura continuava tensa, enquanto ele se apoiava na porta.
De repente ele não estava mais lá, e ela pôde sentir o beijo frio de uma lâmina afiada contra a pele delicada de seu pescoço.
Ótimo. De certa forma parecia uma grande ironia do destino. Ela passou meses desejando que ele não existisse, e agora ele iria matá-la em sua própria casa.
Então ele falou, e ela sentiu o hálito quente dele contra sua nuca.
– E então, garota dos sonhos, quem é você?
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