Os Doze Espíritos
3 Capítulo 2
Eu teria ficado o dia inteiro na praia se não fossem meus pais.
Aproveitei o máximo que pude na praia – afinal, meus pais me proíbem de ir na praia em dias de semana, e nos fins de semana eles e meus irmãos não ficam e casa e eu não posso sair para cuidar da mesma.
Porque – claro – eu não posso cuidar de mim mesma.
Eles não dizem que me odeiam, mas eu sei disso.
Como eu sei?
Eu sou inteligente o suficiente para saber disso. Afinal, para quem você acha que ficou o dormitório da nova casa? Para mim, é claro.
O dormitório no qual eu nem vou chegar a entrar.
Eu nem falo muito com meus pais, mas isso não me impede de falar algumas vezes. Na verdade, eu quase nem falo: com que conversar no colégio se eu não tenho amigos? Com quem que eu posso conversar em casa se eu não tenho família que fale comigo?
O dia passou assim: eu dentro do hotel assistindo TV (que não tinha no quarto do hotel, só no saguão) – na qual um desenho animado tecnicamente inútil estava passando.
No outro dia, já de manhã, depois de ter tomado um cafezinho com leite e uns quatro biscoitos, eu fui para a praia.
A água do mar estava bem quente.
Como o sol desse dia.
Pedi um guarda-sol para o hotel – eles tinham um? – e – quando ele veio – eu o trinquei no chão, de modo que não iria sair. Aluguei uma cadeira de praia para não sentar na areia, mas não tinha nenhuma – pelo o que o cobrador disse, pois eu vi mais cinco delas só atrás dele. Então, o jeito, foi sentar na areia – quente – mesmo.
Meus pais, Brittany e Edward também foram à praia, só que eles sentaram a uma distância enorme de mim, e claro, com o guarda-sol deles, as três – e únicas – cadeiras deles. Mas se fosse para comprar mais uma, eles compravam. Mas não para mim.
E claro – acho meio difícil de não desconfiar disso – eles estão bebendo bastante. Cerveja – eu vi meu pai colocando três dúzias na geladeirinha de isopor dele. Que provavelmente vão beber todas. A maior parte, o meu pai.
Dá para vê-los bebendo e cantando – super felizes – de onde eu estou. E provavelmente – daqui a uns 5 minutos – meu pai bêbado entrando no mar.
E foi isso o que aconteceu: meu pai – bêbado (tomou mais de 10 latinhas de cerveja) – entrou no mar. Mas só que, quando desviamos a atenção, ele sumiu – se foi.
Minha mãe e meus irmãos – desesperados como sempre – foram procurar meu pai. Só que não acharam nada – nem um rastro dele.
Perguntei-me porque não fiquei preocupada. Mas depois me veio à cabeça. É óbvio. Eu os odeio assim como eles me odeiam.
Falta exatamente duas semanas para o início das aulas.
Eu não estou nada ansiosa – vai ser a mesma coisa de sempre. Nada de amigos, nada de notas, nada de nada. Infelizmente.
Quando meu pai desapareceu de repente, minha mãe, desesperada, ligou para a polícia e chamou o salva-vidas para investigar o caso.
Mas não deu resultado. Quatro dias depois, o salva-vidas desistiu de procurá-lo.
Três dias depois de o salva-vidas desistir a polícia também desistiu.
Não acharam nada – nem o corpo.
Minha mãe, Brittany e Edward ficaram inconformados.
A minha mãe já tinha reservado uma estadia de mais uma semana, ou seja, há quatro dias mais
Mas tivemos que cancelar.
Dessa uma semana, ficou sendo apenas quatro dias – três de procura e um contado da nossa saída.
Saímos de manhãzinha para pegar o avião de volta para Miami – 9h35 o vôo. Minha mãe cancelou a mudança, a compra da nova casa e a matrícula no novo colégio.
Ainda bem.
Já estou acostumada com a minha vida e não quero mudá-la.
Não mesmo.
O avião saiu de Califórnia na hora. Em ponto. Seriam oito horas – mais ou menos – de viagem.
O que não foi tão pavoroso porque eu acostumei a viajar de avião – mesmo tento viajado apenas uma vez.
E parece que durou menos do que isso – parece que em apenas 2 horas já estávamos em Miami.
Só queria ver à hora em que chegasse à minha verdadeira vida! Faria a festa!
Vai ver eu fique mais feliz, daqui a pouco.
Pois é, a minha sorte já estava começando a mudar.
Um pouco pelo menos.
E para a melhor.
Eu tinha acabado de chegar a minha verdadeira casa em Miami quando a minha mãe veio me dizendo:
--É tudo culpa sua – resmungou ela – Se você pelo menos tivesse prestando atenção nele, nada disso teria acontecido.
--A culpa não foi minha – não hesitei em responder – Não era tarefa minha ficar olhando ele. E nem era EU que estava sentada com ele na praia, afinal. Era você. VOCÊ. Agora não venha colocar a culpa em mim por uma coisa que eu NÃO fiz.
--Você vai se ver comigo, mocinha.
--Obrigada, mas não. Eu não quero. Só estou dizendo a verdade.
--Não me venha com essa.
--Tudo bem, senhora. – forcei o senhora – Pelo menos não sou eu que tenho medo de admitir a verdade.
Ela grunhiu.
--Tudo bem, mocinha. Me chame te senhora, tudo bem? – ela parou para pensar um pouco – E... Você terá que fazer todo o trabalho doméstico, para compensar a morte do seu pai.
--Ele não morreu.
--Como você sabe?
--Não sei, senhora. É intuição.
Ela fechou a porta do quarto.
--Gina.
Nenhum barulho.
Nenhum resmungo.
Acho que ela me ignorou.
Mas por que eu tinha dito aquilo? Digo, sobre ele não estar morto? Eu não sabia se ele estava vivo ou morto... Vai que ele tenha saído da água e nós não os tenhamos visto? Ele pode estar vivo.
Mas por que eu estou me preocupando tanto assim?
Eu o odeio não é? E ele também me odeia, estou certa?
É, eu acho que sim.
Mas minha vida podia estar acabando, não?
Acabou de começar, mas acabou de terminar.
É, eu estava errada.
Minha vida não estava começando a dar certo. Pelo contrário. Não era o começo de uma nova vida, e sim o fim dela. O começo do fim de uma vida.
Se passou apenas um dia – mas eu já estava cansada.
Já estava cansada de ser a escrava da Gina – minha mãe.
Pela primeira vez na vida, queria que meu pai voltasse.
Mas não, é impossível.
Teria eu viver o resto da minha vida assim – ou mudá-la completamente?
É uma pergunta que não quer calar.
Mas também é uma pergunta impossível de se responder.
--Tem uma mancha no vidro da varanda – reclamou Gina da sala de estar, gritando – VENHA LIMPAR AGORA! E não reclame!
Reclamar o quê?
--Estou indo, Gina. – respondi.
--É melhor que venha dentro de um minuto ou eu vou... – reforçou.
--Já disse que estou indo, GINA! – eu a cortei.
--O quê? – indagou Gina – Do que você me chamou?
Apareci na sala de estar, pela porta da cozinha, onde eu estava.
--Gina. Gina,ué. Não é o seu nome?
--Não me chame assim.
--Então como quer que eu a chame?
--Senhora. Ou melhor, madame. – emitiu um ‘hum’ – Não, ama.
--Ou as três coisas – brinquei.
--É melhor você parar de me responder, mocinha
--Não me chame de mocinha e nem force a palavra. E eu não vou te chamar de ama de jeito nenhum.
--É melhor que chame.
--Não. Por que eu iria de chamar assim? Você não tem direito nenhum de se intrometer na minha vida. Eu já tenho 16 anos. Já sou maior de idade. E quer saber? Eu desisto. Desisto de trabalhar sujo nessa casa. Não vou mais trabalhar para você. Você não manda mais em mim. Ninguém nesse mundo manda em mim.
Pela primeira vez em anos ela ficou sem palavras.
E eu respondi para a minha mãe pela primeira vez na minha vida.
É, olha como a minha sorte está mudando.
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