Era de tarde e o ar estava quente devido ao sol que estava no meio do céu. O lado de fora da estalagem tinha uma varanda. A varanda era feita com pilastras de madeira bem clara, com telhas de barro marrom e tinha quase dois passos de largura e uns nove passos de comprimento, que cobria o lado da frente inteiro do estabelecimento. As telhas forneciam sombra para toda a varanda, e o ar que entrava refrescava as pessoas que ali estavam. Na varanda, preso pela parede da frente da estalagem, havia bancos feito de pedra bem lisa e acinzentado em contraste com a cor branca da parede da estalagem. Na parede frontal, havia cinco janelas grandes, na largura de um homem de braços abertos e na altura de meio corpo, com venezianas de madeira rústica. Essas venezianas estavam todas abertas, sendo possível ver o movimento de gente e as coisas lá dentro.

Da rua que passava em frente era possível ver as paredes e as janelas das casas do outro lado, algumas pessoas esparsas com a cor verde e amarelo predominando nas roupas de seus cidadãos, e ouvir os piares dos pássaros sobre os telhados das casas, os latidos de alguns cachorros de vez enquanto e das conversas vindo da janela os das pessoas que passavam pela rua.

Sokka estava sentado nesses bancos da varanda, ao lado de uma das janelas, e próximo da porta de entrada, com os cotovelos sobre o joelho, e o queixo sobre as mãos. Ele olhava para baixo e suspirava chateado pelo seu fracasso em descobrir o paradeiro dos papeis. Seus lábios estavam dobrados como um n, enquanto pensava:

- Droga! Com quem será quem está os meus desenhos? Se eles caíssem nas mãos dos meus amigos, eu seria caçoado. E eu não quero ser caçoado. Mas não tenho a mínima idéia de quem pegou.

Neste momento, uma garota apareceu pela porta da estalagem e viu o garoto. Era Toph. Ela estava vestida com o seu vestido verde musgo, com o colete amarelo claro sobre ele e a sua faixa verde amarela com duas pequenas bolas peludas e brancas, que lhe prendiam o cabelo. Como sempre, ela estava descalça.

- Olá Toph – disse com pouco ânimo o garoto, após virar o rosto para a ver, mas ainda com a cabeça sobre as mãos.

Toph sorriu e sentou ao seu lado, enquanto perguntava:

- Sokka, eu estou te achando tão abatido. Se eu pudesse de ver, acho que veria um rosto horrivelmente horrível agora. O que aconteceu?

- Não foi nada não – disse o garoto, escondendo o fato de ter perdido os seus desenhos.

- Você está mentindo – comentou a garota com as mãos e pés bem fixos na superfície de pedra e sentindo a respiração e a batida do coração dele através da dobra de terra.

- Não, não estou – respondeu o garoto, e então deixou de ficar com o corpo curvo, com o rosto sobre as mãos, para colocá-las ao lado do corpo e o rosto virado para a esquerda, onde a Toph estava sentada.

- Está sim. Eu sinto que algo o incomoda – confirmou a menina, enquanto balançava as mãos, como se quisesse o lembrar de suas capacidade.

- A ta. Bem, é que eu perdi umas coisas minhas ai. – falou Sokka, tentando desconversar.

- Que coisas? – perguntou a garota. Ela tinha os olhos brilhantes devido à curiosidade.

- Umas coisas pessoais... – respondeu Sokka. Ela dobrou o corpo para o lado oposto de onde a garota estava sentada, com as sobrancelhas arqueadas.

- Pessoais como? – insistiu a menina.

- Como assim "pessoais como"? Oras, pessoais, coisas que não queremos ficar falando sobre isso – falou Sokka enquanto cruzava o braço e tinha o tom da voz mudada de sem ânimo para agitada.

- Fala o que é? Quem sabe, eu não posso ajudar! – explicou a menina com um estranho sorriso no rosto.

- Eu perdi uns papeis, que estavam debaixo da cama – revelou Sokka, enquanto colocou a mão no rosto e segurava a cabeça como o cotovelo sobre a sua coxa.

- Aaaa, eu encontrei esses papeis – revelou a garota de vestido verde. Ela sorriu após a revelação.

Sokka arregalou os olhos e começou a tremer por todos as partes dos músculos. Ele então engasgou para falar, tossiu para liberar do engasgo e por fim falou:

- Você encontrou os meus PAPEIS PERDIDOS? Você não os viu? Você não os espiou não é?

A garota permaneceu parada, sem resposta, olhando para Sokka como se não acreditasse no que ouvia. Então disse para ele, balançando a cabeça de um lado para o outro:

- Às vezes eu acho que você tem problema mental, Sokka. Não sei se deu para perceber, mas eu sou "cega".

- É que você anda para um lado e para o outro, fala conosco, agem normalmente... pô Toph, as vezes você não parece ser cega, e eu esqueço – respondeu Sokka.

Fez um silêncio de um minuto. O garoto batia os dedos um contra o outro, ansioso. Ele ficou olhando para a Toph, esperando que ela continuasse a falar sobre mais detalhes do papel. Ela, por sua vez, estava distraída, com uma das pernas cruzadas e sobre a outra perna, mãos atrás da cabeça e corpo encostado relaxadamente sobre o banco.

Por fim, Sokka perguntou com a voz fina por estar quase se matando de curiosidade:

- E então Toph?

- E "então" o que? – respondeu a garota totalmente distraída.

- Onde está os papeis? – perguntou o guerreiro com a voz totalmente alterada. Ao falar, ele colocou as mãos sobre a testa e puxou os seus negros cabelos em desespero.

- Os papeis? A ta, eu rasquei e os joguei fora.

O caipira do sul ficou com um misto de alívio e braveza. Como é que ela poderia ter rasgado e jogado fora algo que era dele, sem ela perguntar para ele? Por outro lado, ao menos foi uma cega quem achou aqueles papeis comprometedores...e os destruiu.

O menino ficou olhando estressado para a menina durante algum tempo, e então, respirou aliviado e voltou a olhar para a rua.

- O que tinha nos papeis? – perguntou a mulher.

Sokka franziu a testa e respondeu constrangido:

- Nada.

- Você está mentindo – falou Toph com a cara totalmente séria e com o rosto virado para a rua, músculos relaxados e mãos e pés bem apoiados na pedra.

- Tinha uns textos meus – falou Sokka.

- Você está mentindo.

Ele cruzou os braços e respondeu:

- Tinhas uns planos meus.

- Você está mentindo.

Ele ficou com o rosto vermelho de raiva. Ele ventilava pelas narinas, não podia chamar de respiração aquilo que acontecia. Ele então falou:

- Eram uns desenhos que eu comprei.

- Hum, agora você falou a verdade – falou Toph.

Sokka respirou profundamente e acalmou-se em seguida. Ele ficou calado por alguns segundo, passando a mão sobre a testa, enxugando o suor que havia aparecido por causa da situação.

Ela então virou o seu rosto para o Sokka e perguntou em seguida, com a voz totalmente despreocupada:

- E o que tinha desenhado nos papeis?

Ele se levantou em um pulo. Tinha os punhos fechados e os músculos dos braços completamente contraídos em raiva. Seu rosto era um vermelhão só. Ele então respondeu aos gritos e completamente fora de si:

- Eu não vou falar o que era. Você é muito enxerida. Ta louco, não posso ter um pingo de privacidade. Que negócio é esse.

Sokka foi na direção da entrada da estalagem, jogando as mãos para trás sobre o ombro. Ele resmungava, reclamava enquanto passava pela porta da entrada e ia à direção de seu quarto:

- Não acredito nisso, tive meu desenho rasgado e ainda quer saber o que era. Pior, pegaram minhas coisas sem permissão e ainda ficam fazendo perguntas...

A garota ouvia as reclamações de Sokka sumindo aos poucos, conforme ele ia distanciando da varanda que ela estava. Quando não conseguia mais ouvir o garoto, Toph gargalhou como nunca havia gargalhado antes:

- Hahahahahahahahahahaahahahaahahahahha. Foi muito engraçado isso. Eu gostaria de ter olhos bons só para ver o rosto de desespero dele. Uhahahahahahahahahahahahaha.

Ela se deitou sobre o banco e colocou a mão sobre a barriga, pois esta doida de tantas risadas que ela dava. Lágrimas escorriam de seus olhos por causa destas gargalhadas.

- Nunca mais na vida dele irá querer ver mulher nua em desenho ou em qualquer outra forma. A não ser, quando for adulta é claro – na última frase, ela corou o rosto.

- Mal sabe ele que com a minha dobra, descobri que havia estranhos papei na cama dele. Eu os peguei e pedi para a moça da recepção me contasse o que estava escrito neles. A coitada quase teve um troço quando viu o que era. Haha. Ele aprendeu a sua lição.

Então ela se levantou do banco com os músculos do rosto doloridos devido às gargalhadas, e foi para o seu quarto, com a alma lavada.

FIM

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