Os Cânticos de Prime
6 O Padrinho II [2.0]
Notas iniciais
O sol frio e tímido escondia-se por trás das nuvens, mas não havia nenhum sinal de chuva; o que para Dévis já bastava.
Haviam parado à beira de um regato que surgira dentre as árvores como uma serpente, e passeava sem pressa sob a pequena ponte de madeira que ligava um lado ao outro da Rota do Mercador. Os dias ainda soavam úmidos, mas não fora difícil encontrar gravetos e lenha seca para acender uma fogueira para cozinhar o desjejum. As crianças haviam ajudado-o a montar a fogueira. Varne e Bart empilharam algumas pedras, Mérril e Tonko procuraram por gravetos e lenha seca, Crispin e Zogg o ajudaram a cortar os legumes. A garotinha de cabelos de verão permanecia absorta em seu canto sobre a carroça, abraçada ao seu embrulho, enquanto Qain passeava desatento lavando os pés no regato.
— Por que a pele dele é cinza? É tão estranho — ouviu Crispin cochichando aos pés da orelha de Zogg.
Dévis não tinha como censurá-lo, Qain realmente era uma criança de aparência bastante singular; mesmo que nos outros aspectos parecesse igual a qualquer outra criança órfã. Mas Dévis não queria falar sobre isso, não era esse seu trabalho. Só tenho que levá-las ao templo branco, não é meu trabalho conversar com elas. Por isso deixou que cada um se habituasse a Qain do seu jeito, e no seu ritmo. O que não deu muito certo.
Quando o caldo de legumes ficou pronto e ele reuniu todos para comer, pôde perceber claramente no esgar das crianças, a aversão que tinham ao menino de pele cinza. Ninguém queria sentar-se próximo a ele. E isso viera se repetindo desde o dia que o recebera da figura noturna.
— Posso me sentar aqui? — pediu a Qain, forçando um sorriso amigável.
O menino o olhou com um ar de desconfiança, mas acabou anuindo com a cabeça. Dévis sento-se ao seu lado à beira do regato, e os dois tomaram seus caldos em um monótono momento de silêncio. Isso se repetiu na refeição seguinte no meio da tarde, na refeição da noite e em todas as refeições dos dias seguintes ao longo da Rota do Mercador.
Durante uma noite em que a lua cheia iluminava toda a estrada à frente, Dévis ouviu uma discussão à suas costas que quebrou a tranquilidade da viagem.
— Sai pra lá. — A carroça balançou e ouviu o baque surdo de algo caindo.
Puxou a rédea parando o par de gouzeshs.
— Que merda vocês estão fazendo ai atrás? Não estraguem minhas mercadorias — esbravejou colocando a cabeça para dentro do toldo.
Bart estava apertando Qain contra um grupo de caixas, uma delas havia caído e esparramado repolhos por todo o chão da carroça. O menino cinzento ostentava uma expressão de medo. Dévis nem precisou abrir a boca para Bart soltá-lo.
— Ele estava grudado em mim — disse ele, tentando se justificar.
Lágrimas saltavam dos olhos de Qain, e Dévis achou por bem deixar que ele sentasse ao seu lado na frente da carroça, o que pareceu deixar as crianças bastante satisfeitas; mas não antes de obrigar Bart a catar todos os repolhos espalhados pelo assoalho da carroça.
Qain ficou ao seu lado pelo resto da noite, em silêncio e aninhado ao cobertor bolorento. Taciturno como era, mais parecia um fantasma. Mantinha os olhos baixos e distantes de olhares curiosos, não fazia movimentos bruscos, não pedia por nada, não falava nada, e até sua tosse era silenciosa. Dévis percebeu que ainda não havia escutado sua voz, e sentiu-se mal ao cogitar a hipótese dele ser mudo; havia pensado o mesmo da garotinha ruiva, até que um dia a ouviu cochichar algo como uma prece.
Cada um com seus segredos e suas feridas, lembrou a si mesmo.
Os cavalos puxavam a carroça em um passo manso e agradável. Dévis imaginou se estariam insatisfeitos com a falta de chuva, mas era difícil imaginar o que os cavalos pensavam, mesmo gouzeshs. Os dias sem chuva haviam sido uma benção para a estrada, que agora serpenteava ao horizonte sem nenhum charco profundo. Em todos seus anos como comerciante, Dévis nunca havia tido uma roda quebrada, ou maiores problemas com a carroça; ao menos não naquela rota.
A noite se alongou e a lua fora coberta pelas nuvens, tendo seu brilho prateado escondido da terra, que agora se encontrava em uma discreta escuridão. Dévis segurava as rédeas com ambas as mãos calejadas, que a muito tempo haviam perdido a sensibilidade, e que agora não se importavam mais em passar uma longa noite guiando os cavalos.
As crianças já se aninhavam umas às outras, dormindo em um profundo sono. Qain ao seu lado parecia uma estátua de mármore, daquelas que encontrava aos montes nas terras de Farauel. Agora, como muitas vezes, só lhe restava as antigas lembranças como companhia e distração, e disse uma praga por isso.
— Ao menos vocês dois poderiam falar alguma coisa — disse, referindo-se aos cavalos.
Uma voz lhe respondeu, quebrando o monocórdio silêncio que se instalara.
— Eles não parecem cavalos.
Dévis olhou para o lado, surpreendido. Também tem problemas para dormir é garoto? Ao menos não é mudo. Fingiu não estar surpreso e respondeu normalmente, em um tom de voz divertido.
— Cuidado com o que fala, eles já são muito convencidos de serem peixes, se ouvirem isso talvez não puxem mais a carroça.
Qain emanou um sutil sorriso.
— Eles são diferentes dos cavalos que já vi, por quê? — perguntou ele.
Curioso, como qualquer criança.
— Não são cavalos comuns, são gouzeshs. Já ouviu falar de gouzeshs? — Qain balançou a cabeça em negativo. — São cavalos trazidos de longe, do outro lado do Mar Negro.
Qain arregalou os olhos, parecendo assustado com aquelas palavras, como se elas representassem alguma hipótese. Dévis pensou que ele falaria algo, mas manteve-se em silêncio. Quando achou que ficaria sozinho com seus pensamentos, Qain voltou a perguntar.
— Onde é o Mar Negro? — perguntou ele com inocência.
Dévis pensou por um momento, e deu a melhor resposta que pôde imaginar.
— Bom, fica ao nordeste, ao leste, ao sudeste, ao oeste… Em todas as direções, milhas além do litoral, abraçando toda Ellrouh.
— Toda Ellrouh? — o garoto ficou estupefato.
— Não toda — se corrigiu. — Dizem que além do norte há terras brancas ao invés de águas negras.
A resposta não pareceu agradar muito ao menino. Aninhado ao seu cobertor, ele voltou a fechar os olhos e ficar a sós consigo mesmo. Era o que Dévis menos desejava, ficar a sós consigo mesmo, queria distância de suas próprias lembranças. Cada um com suas feridas. Mas não queria mais um longo silêncio.
— Garo… Qain — chamou ele, dando tempo a si mesmo para pensar em algo para dizer. O garoto levantou o rosto do cobertor e abriu os olhos. — Você já… montou um cavalo?
O menino fez uma cara como quem se esforçasse para se lembrar, então balançou a cabeça em negativo.
— Amanhã posso montar os guzeshis? — pediu.
— Gouzeshs — corrigiu-o. — Desculpe, eles não são cavalos para montaria, apenas para tração, e nem acho que gostariam de serem montados.
Qain pareceu decepcionado.
— Se não gostam que monte neles, realmente eu não devia montar neles. Eu também não gostaria se fizessem comigo algo que eu não queria que fizessem.
Dévis sorriu melancólico.
— Não, eu também não.
— Qual o nome deles? — completou Qain logo em seguida.
Dévis nunca dava nomes aos seus cavalos, mesmo aqueles que lhe custaram uma boa bagatela. Nunca se sabe quando vai se perder um cavalo, e é mais fácil desapegar-se quando não se dá um nome e não o repete toda vez.
— Eles não tem nomes — respondeu ponderado.
Qain pareceu assustado.
— Todos tem um nome. Talvez só não tenham te contado… devem ser tímidos.
— Talvez sejam — respondeu Dévis achando graça. — Eles não são mesmo de falar muito, isso ou realmente eles não tem nome.
— Elcaná disse que todos os seres que vivem tem nome.
Elcaná?
— E quem é Elcaná? — perguntou Dévis.
Qain refletiu por um momento antes de responder.
— Não tenho certeza — ponderou por um momento. Sorriu. — Meu amigo.
A manhã veio com uma neblina densa que ocultava a estrada, as florestas e as pequenas fazendas ao sul. Dévis esperava que o mal clima não trouxesse consigo más pessoas. Conhecia na pele que a oportunidade criava os oportunistas.
Sentia-se cansado e dolorido pela longa noite sentado às rédeas. E sono, um maldito sono que o perseguia há dias. Se recusava a dormir, não podia. Após estacionar a carroça em um canto a beira da estrada e deixar os cavalos pastando, tirou do bolso um saquinho e mastigou uma das sementes que ali guardava. A semente estalou entre seus dentes e o gosto amargo se espalhou por sua boca e deslizou pela sua garganta. Aquilo lhe deixaria insone por mais um dia, talvez dois.
Acordou as crianças que dormiam sobre a carroça; inclusive Qain que cedera ao peso dos olhos e dormira ao seu lado durante a noite. Todos se levantaram mal humorados, mas o padrinho estava pouco se lixando para humores matutinos. Colocou todas para catarem pedras, galhos, lenha e o que conseguissem achar para montar uma fogueira. No meio daquela neblina qualquer uma das crianças poderia desaparecer, então Dévis manteve-se atento e bradando ordens para que não se distanciassem demais.
— Varne, onde você está indo? Volte aqui.
— Você mandou buscar lenha — retorquiu o menino com um muxoxo.
— Não tão longe, Jack da Floresta anda por ai carregando crianças em nevoeiros.
Jack da Floresta, Dévis se divertiu lembrando desse conto. Jack da Floresta, Jack dos Cem Braços, Jack O Fantástico, era uma das histórias que contavam em Frevor para assustarem crianças levadas e desobedientes. Um bruxo sem braços que andava por florestas e roubava os franzinos braços das crianças, deixando o resto de seus corpos para os animais se alimentarem. Em algumas versões levava suas pequenas vítimas para sua cabana em algum lugar e fazia experimentos com elas. Ele surge na cerração, lembrava-se Dévis. Ou quando contam histórias em bosques sombrios.
Varne pareceu assustado e recuou apressado para próximo das outras crianças; que procuravam por galhos próximos das árvores à beira da estrada. A garota de cabelos vermelhos estava sentada junto aos caixotes na carroça, aninhada ao seu cobertor e abraçada ao seu embrulho.
— Ei pequena filha do verão — Dévis disse ao subir na carroça para catar algumas verduras. — Não precisa ter medo, a neblina logo passará, fez frio a noite passada e as árvores estão cozinhando uma sopa para aquecer seus troncos.
A menina sorriu, um sorriso discreto e quase imperceptível, mas sorriu.
Dévis pegou algumas batatas, um bocado de carne seca em conserva e alguns pães duros. Boa parte do que tinha depositado ainda não estava madura; não era bom viajar com legumes e verduras maduras demais, sempre estragavam no caminho. Alguns tomates haviam estragado e jogou-os para os gouzeshs, que pouco rigorosos como eram, aceitavam tudo que lhes era dado.
Passado o desjejum, e quando tudo fora guardado e a fogueira extinguida, Dévis deu por falta de Bart e Varne. Perguntou aos outros onde eles estavam, mas ninguém soube responder. Fez com que todos subissem e esperassem em cima da carroça e saiu a esmo os procurando entre o nevoeiro. Após gritar até sentir a voz arranhar sua garganta, encontrou-os entre a cerração.
— Suas pestes, falei para não se afastarem — esbravejou com os meninos que brincavam de guerreiros nas brumas, cada um com um pedaço de galho que usavam como espada.
Puxou-os pelas orelhas de volta para a carroça, fazendo-os largar suas espadas improvisadas. Mas onde antes havia apenas a figura da carroça e o par de cavalos azulados, uma nova silhueta havia surgido.
— É o Jack da Floresta — sussurrou Varne ao ter sua orelha solta.
Não seja idiota, Jack é apenas um mito. Ou não?
Conforme se aproximava, mais e mais figuras criavam forma, algumas ostentando braços com dedos longos e afiados, outras com braços em forma de foice, uma outra que só poderia ser um homem-besta (das lendas do poente).
— Parado ai — ordenou a figura com o braço de dedos afiados apontado para seu rosto.
É apenas uma mulher. Concluiu Dévis de imediato.
Eram oito pessoas, fazendeiros desafortunados e suas mulheres, pelo que Dévis podia observar. Empunhavam foices, forcados, enxadas e outras ferramentas do campo. Um deles estava montado em um kawiki, uma ave do leste com um longo pescoço, um longo bico em forma de lança escarlate quase roçando o chão e um longo par de patas como patas de cavalo.
— Venham para cá crianças, subam na carroça — disse uma mulher arrastando Varne e Bart pelos pulsos.
Dévis em um reflexo tentou segurá-los.
— Parado ai — ordenou novamente a mulher com o forcado à sua frente, ela fez um gesto brusco que fez uma das pontas do forcado acertar seu nariz. Sentiu como se um marimbondo tivesse o picado com força.
— Ladrões malditos — rosnou o mercador baixinho.
Pior do que as intempéries que atrasavam as viagens e estragavam os produtos, eram os ladrões. Se achavam no direito de tirar dos outros aquilo que eles não tinham. Dévis já havia sido roubado, mas não ali na Rota do Mercador.
— Essa estrada é protegida pela Lei Vermelha — lembrou aos assaltantes. — Quando a Ordem da Lei souber que salteadores andam por essas bandas, não restará um de vocês com uma cabeça sobre o pescoço.
Os homens que vasculhavam suas coisas pareceram indiferentes a sua ameaça, enquanto as duas mulheres pareceram visivelmente preocupadas em terem suas cabeças cortadas.
— Nós só temos que matar ocê, ai não restará quem nos denuncie para a lei — respondeu calmo um homem que mastigava um de seus tomates.
— Nós não somos assassinos — retorquiu a mulher à sua frente. Tinha cabelos negros presos em um nó emaranhado, seus olhos fundo e bochechas descarnadas revelava que havia passado fome. Reparando bem, todos eles pareciam ter passado por necessidades semelhantes.
Não ter nada não lhes dá o direito de tirar o tudo dos outros.
— Então você sugere que o levemos com a gente? — sugeriu o homem esguio que montava o kawiki.
— Não, claro que não — respondeu a mulher pelos ombros. — Podemos só deixá-lo, não precisamos matá-lo, ele nunca vai conseguir ir tão longe mesmo.
— Ora, e que diferença há entre aquele que mata e aquele que deixa para morrer? — disse um outro homem, era austero e sua cabeleira crespa era como uma sarça. Era negro como a noite. Um qirarriano. — Eu mesmo posso matá-lo se esse for o problema.
— Já temos as crianças, a carroça e até os cavalos, não vejo por que matá-lo — disse a outra mulher que afagava a crina de um dos gouzeshs.
Enquanto discutiam sobre seu destino, um dos homens, um gordo desajeitado de rosto macilento e bochechas rosadas, encontrou um meio-elmo entre as caixas e vestiu-o com certa dificuldade.
— Olhe, sou um cavaleiro — disse ele. O elmo parecia apertado naquela cabeça grande e redonda. — Ei garotinha, o que é que você tem ai? — disse ele reparando na menina ruiva. Levou a mão ao embrulho e tentou arrancá-lo dos bracinhos dela. Entre a neblina, Dévis só pôde notar que ela estava assustada.
— Me dá isso aqui — insistiu o homem agarrando o embrulho.
Ela agarrava ferozmente ao seu pequeno tesouro, então gritou com uma voz tão aguda que fez gouzeshs e kawiki se assustarem e saltarem em seus lugares. O homem esguio que montava a ave quase desequilibrou-se, mas com uma certa pericia conseguiu se manter firme agarrando-se ao longo pescoço da ave. O homem homem gordo e desajeitado não teve o mesmo destino, e no momento que a carroça balançou, ele perdeu o equilíbrio e tombou para trás indo de cara no lamaçal. Entre as gargalhadas de seus companheiros, ele ergueu-se com uma expressão grave sob o rosto sujo de lama, a fúria pareceu subir pelo seu peito e desatar em um punho que voou em direção à garotinha.
Dévis não havia entendido, aconteceu muito rápido e entre a cerração. Ouviu os grunhidos de dor do homem, que se afastava da carroça com algo pregado em seu olho esquerdo. Sangue escorria por seu rosto como uma máscara vermelha. A mulher que estava próxima dele gritou, e depois disso tudo pareceu inacreditável demais para ser verdade.
Uma das crianças — Varne —, havia apunhalado o homem enquanto esse tentara bater na garotinha de cabelos vermelhos. Ao verem seu companheiro sangrando como um porco, os demais homens se assustaram. O qirarriano esticou seu braço para cima da carroça em direção aos cabelos da garotinha ruiva, mas teve a mão mutilada com um golpe da espada de Mérril. Como uma miragem, Dévis vislumbrou as crianças saltarem de cima da carroça armadas com as lâminas de aço e ferro que trazia junto as caixas. Os salteadores pareceram tão surpresos e apavorados quanto ele; mas não se conteram à atacá-las.
Foi uma ceia de sangue.
Quando Dévis deu-se por si, estava rodeado de tons de vermelho e a neblina parecia carregada com o cheiro da morte. Partes de corpos estavam espalhados ao redor da carroça. Não havia mais nenhum homem de pé, não havia mais nenhum homem com vida. Os animais estavam assustados e inertes — exceto o kawiki que desaparecera em algum momento —, a mulher que empunhava o forcado à sua frente, agora estava abraçada à outra que jazia no chão com um corte abrindo seu pescoço. As crianças estavam em pé ao redor da carroça, posicionadas como sentinelas, erguendo suas espadas e adagas como exímios guerreiros. Tonko estava escorado à roda com um forcado preso ao peito e os olhos abertos em uma expressão vazia. Zogg, estava de bruços na lama, agonizando com as estranhas saltando de sua barriga. Os demais, Mérril, Bart, e Crispin ainda brandiam suas armas permanecendo firmes e resolutos, seus olhos estavam fechados como se estivessem em um profundo sono. Como guardiões sonâmbulos. Sobre a carroça, a garota de cabelos vermelhos se mantinha em pé, erguendo com ambas as mãos um grande livro aberto. Um vento que Dévis não sentia soprava em seus cabelos, e em seus olhos brumas giravam nas órbitas vazias. Qain estava agachado ao seu lado, camuflado à neblina. Era difícil enxergá-lo, mas ele não parecia estar ferido ou armado com uma lâmina. Para Dévis, parecia que ele estava consciente, apenas assustado; ou apático, era difícil ter certeza.
Então, quando o silêncio já imperava por tempo demais, a garotinha fechou o livro em um gesto solene — quase ritualístico —, seus cabelos pararam de bailar e seus olhos retornaram ao seu rosto. As crianças ao redor da carroça largaram os punhais e espadas e tombaram uma à uma de forma suave, como se seus corpos fossem uma folha de árvore caindo ao leve balançar dos galhos.
Logo, o sol brilhou no céu, dissipando o nevoeiro e iluminando as poças de sangue que escorria sob os corpos.
Era apenas o começo da manhã.
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