Os Cânticos de Prime

4 A Herdeira I [3.0]


Notas iniciais
Gostou? Não gostou? Comente, sua opinião é importante para essa história ser contada da melhor maneira possível. ;)

Os gritos ecoavam pelos salões, subiam as escadas em caracol, atravessavam os corredores e chegavam à porta de seu quarto como um alarido de guerra.

— Não se assuste princesa — dizia sua aia como se aqueles gritos fossem a coisa mais natural do mundo.

Há horas a mulher gritava, seus gritos enchendo cada canto do castelo, atravessando até mesmo as espessas paredes do castelo.

— Um dia a princesa também passará por isso.

A simples hipótese de sofrer como aquela mulher, causava em Mayen uma sensação de aversão a maternidade.

— Eu nunca serei mãe! — retorquiu ela tapando os ouvidos.

— Não diga isso princesa. As palavras tem poder — disse a aia visivelmente intrigada.

Todos diziam isso. “A palavra tem poder princesa, não diga coisas que não quer que se realizem”. Se elas tinham mesmo poder, desejava mesmo distância da maternidade.

— Pode parecer assustador agora, mas um dia se casará com um belo senhor, e irá querer dar-lhe filhos e filhas.

— Não, não vou — berrou em resposta.

Era feia, gorda e cheirava a gente doente. Nenhum belo senhor a desejaria como esposa. Talvez um velho gordo, fedorento e feio como ela. Se as palavras tinham mesmo poder, assim seria; talvez por isso seu irmão repetia isso tantas e tantas vezes.

De repente lágrimas começaram a escorrer de seus olhos, e nem ela entendia o porquê. Apenas doía, lá dentro. Escondeu o rosto entre os lençóis de ceda, querendo sumir do olhar de pena da aia.

— Não chore princesa. Não chore — a aia tentava consola-la. — Quer que mande chamar Eruel para cantar para você? Uma bela canção espantará os fantasmas da noite e trará conforto para seus ouvidos.

Sim, uma canção, várias canções. Elas abafariam os gritos da cozinheira e a voz de Urfain em sua cabeça chamando-a de Senhora dos Furúnculos e Marquesa dos Sapos. Anuiu com a cabeça e a aia se levantou da cama indo em direção à porta, abriu-a e ordenou para os dois guardas do lado de fora que chamassem o bardo. Um deles saiu e voltou instantes depois com ele, ainda sonolento e vestido com trajes de dormir.

— Minha princesa — disse ele ao entrar no quarto e fazer uma leve reverência. — Eruel O Colibri ao seu dispor.

Eruel era o bardo mais belo que já vira. Tinha cabelos negros em caracóis volumosos, seu rosto parecia ser desenhado a mão, com grandes olhos negros e brilhantes que reluziam às chamas das velas. Sua boca era uma linha de finos lábios rosados e escondia um sorriso que poderia esquentar os salões no mais frio inverno. E sua voz…

— A princesa não consegue dormir — disse a aia. — Cante para ela.

— E quem consegue dormir com estes gritos? O bebê dessa mulher deve estar saindo pela traseira — brincou ele tirando o alaúde do estojo que trazia consigo. Mayen riu apesar da carranca da aia. Eruel tinha além de todas as coisas o dom de lhe trazer risadas.

— O que gostaria de ouvir minha futura rainha? Uma canção para donzelas, sobre príncipes e cavaleiros galantes? Uma canção de ninar? Talvez "Sonho de Rosas" — indagou ele apertando a cravelha do instrumento. Um alaúde negro de cordas douradas que como seus olhos refletia as velas ao redor do quarto.

Mayen recusou, estas eram as canções que Urfain gostava. Não queria lembrar dele.

— Cante-me àquela da mulher das três espadas, também aquela do rio vermelho… e também a da espada na bainha negra — pediu ela.

O bardo olhou-a com um olhar curioso e divertido sob os cachos que caiam pelo rosto. A aia fitou-a com vergonha e espanto.

— Princesa, como conhece tais canções? São músicas de tabernas e vielas. Porque não uma canção digna de uma princesa? — perguntou ela.

— Porque eu não quero — respondeu resoluta. Ela era a princesa e ela escolheria o que queria ouvir. Frente ao seu pai, em festas e em outros momentos, ouviria o que esperassem que ela ouvisse, mas em seu quarto ouviria o que lhe conviesse.

A aia fez uma careta descontente e o bardo sorriu.

— Se minha princesa deseja canções de tabernas e vielas, "porque não?" digo eu. Uma dama tem que ter o direito de escolher a melodia que entrará em seus ouvidos e seu coração — dizendo isso, dedilhou as cordas e o som ecoou pelo quarto.

Iluminado pelas velas sobre os castiçais, ele cantou. Começou com a balada da “Mulher das Três Espadas”, uma canção agitada que falava de uma mulher que vivia em uma casa onde só viviam mulheres, era chamada de A Ousada, pois a noite dormia com três espadas. A aia ficou corada, e Mayen achava graça sem entender o porquê. Depois ele tocou o “Rio Vermelho de Mirrah”. Começava com um tom funesto, falando de uma donzela que queria se tornar mulher, então um dia conheceu um cavaleiro que a levou para nadar em um rio de águas escarlate. Nesta a aia ficou ainda mais ruborizada. Por último cantou “A Espada na Bainha Negra”. Nesse ponto sua aia já estava tão corada que parecia que explodiria a qualquer momento como um mamão muito maduro.

Mayen se divertia com a expressão de Dária e se encantava com a voz do bardo.

O capitão se apaixonou, ho ho ho

pela mulher que no norte encontrou.

Grande era a bainha,

cabia sua espada.

Yo ho ho, achou sua amada

Assim era o refrão. Era sua canção favorita, falava de um capitão de navio que se apaixonara por uma mulher de Qirarr. Uma guerreira qaeregui que estranhamente não tinha uma espada, mas tinha uma bainha. Mayen não entendia o motivo que levaria uma guerreira a não ter uma espada, apenas uma bainha. Achava estranho também uma mulher qaeregui, os livros diziam que apenas homens passavam pelo Passe do Sangue para se tornarem Guerreiros da Madrugada; mas era apenas uma canção, e nem sempre canções se baseiam no que é de fato real.

Ao terminar a canção, Mayen já se sentia sonolenta, e não se ouvia mais os gritos da mulher.

— Minha princesa gostaria de mais uma? — perguntou o bardo com um sorriso matreiro.

“Sim, mais duas, três, dez, cante para mim todas as músicas que conhece.” Pensou, mas antes de abrir a boca para responder, a aia impeliu-se a dizer:

— Acho que a princesa já está satisfeita por hoje — e olhou para ela com um olhar censurador. Mayen concordou. — Pode-se retirar para seus aposentos e obrigado pelas canções.

— Se é assim, que assim seja. Caso minha princesa deseje, não tarde em me chamar, estou aqui para servir, além de sempre ser uma honra acalmar seu espírito — disse Eruel fazendo uma reverência profunda. Guardou o alaúde e saiu quarto à fora.

A aia ofegou aliviada.

— Majestade não deveria ouvir tais canções, é uma dama, possui sangue nobre — disse ela lhe cobrindo com o cobertor.

— Mas eu gosto, são divertidas — respondeu ela ponderada.

— Existem outras canções igualmente divertidas, que falam de coisas boas de serem ouvidas e não de uma mulher que dormia com três espadas.

— Mas… eu não entendo qual é o problema, são só espadas — disse ela ingênua.

— Um dia entenderá minha princesa, quando for mais velha.

Dizendo isso ela se levantou da cama e se foi em direção da porta.

— Boa noite minha princesa, durma bem — então saiu do quarto.

Mayen ficou sozinha no quarto iluminado por velas em todos os cantos. Virou para um lado e permaneceu fitando as grandes sombras que se esticavam na parede como espadas. Os gritos da mulher ainda continuavam, mas pelos menos já não se lembrava da história de casar-se e ser mãe. No silêncio do recinto, quase podia ouvir a voz do bardo cantando em seus ouvidos, como se ele ainda estivesse ao seu lado, ainda cantando. Em sua imaginação ele cantava uma música sobre um bardo que viera do oeste e raptara sua amada princesa e a levara consigo pelo mundo para serem um só corpo e uma só alma.

— Talvez eu seja mãe um dia — concluiu sorrindo antes fechar os olhos e dormir.

Acordou fitando o dossel azul-turquesa, trazido do outro lado do Mar Negro.

— Bom dia princesa — saudou a aia abrindo as cortinas rubras compradas de tecelões eremitas das terras do Reino sem Rei Nenhum. Os raios de sol entraram pela janela lhe tocando a pele como brasas recém apagadas.

O céu era azul e sem nuvens e sobre ele a cidade de Sodorah agitava-se ao som de carroças e mercadores que vinham de todos os cantos para venderem seus produtos. No pátio do castelo, cavaleiros treinavam com estardalhaço.

Mayen cobriu a cabeça com os lençóis de ceda.

— Só mais um pouco — disse para a aia.

— Me perdoe princesa, vossa majestade, o rei, ordenou-me diretamente para acordá-la.

Seu pai nunca mandava que a acordassem, na maioria das vezes sequer parecia lembrar que tinha uma filha.

— Por que?

— Parece que temos visita, alguém importante chegou esta manhã.

Visita? Era raro terem visita, no máximo nobres puxa saco, fazendeiros e mercadores em busca de justiça por suas terras saqueadas, animais roubados ou colheitas incendiadas. Mas nunca visita no sentido mais correto da palavra.

— Visita? Visita de verdade? — perguntou curiosa.

A aia andava pelo quarto apagando as velas nos castiçais com um leve sopro.

— Sim princesa, visita. Você deve estar bem bonita hoje, já mandei trazerem a água do seu banho.

Bonita? Será que serei bonita algum dia?, pensou se desvencilhando das cedas. Sabia que não era bela, tinha um espelho para se ver todos os dias e um irmão para lembrá-la. Seu rosto era redondo como um melão, as bochechas grandes e rosadas, os olhos grandes e afastados. Seus lábios eram carnudos como os do povo do norte e suas sombrancelhas chegavam quase ao ponto de se tocarem. Seu nariz não tinha nada demais, mas era muito pequeno naquele seu rosto gordo e oleoso; em poucos anos teria espinhas, sabia disso, por mais que o doutor Orleus dissesse o contrário. Estava um pouco à cima do peso, e com frequência tinham que ajustar seus vestidos.

Não se importava em ser feia, já se habituara a ser quem era, o que lhe doía eram os comentários e falácias que ouvia pelos corredores quando achavam que ela não estava ouvindo. Sempre ouvia pessoas cochichos e comentários. Falavam de seus cabelos castanhos, curtos e quebradiços que pareciam nunca serem lavados — por mais que os lavasse todos os dias —, e parecia ser um consenso geral de que seu rosto lembrava a aparência de um sapo; dai viera o apelido de Marquesa dos Sapos que Urfain insistia em lhe chamar quando tinha a oportunidade.

“Como é possível que exista uma princesa tão feia? Achei que o sangue real fosse melhor do que isso.”, ouvira um cavaleiro comentar com o cavalariço certa vez. “Minha filha é mais bela que isso, talvez ela devesse vestir uma coroa.”, disse outro certa vez. Mayen apenas ouvia tudo e chorava em seu quarto na torre — ao menos fora assim até seu coração calejar e não sentir mais as feridas que aquelas palavras lhe causavam. Se seu pai, o rei, ouvisse este tipo de comentários, na certa mandarei que cortassem a língua e a cabeça dos infelizes que proferiram tais disparates. Por muitas vezes ela teve vontade de contar à ele, mas sempre julgara que ninguém poderia ser castigado por dizer a verdade.

Duas servas entraram no quarto sem bater, carregando baldes de água para seu banho. Sua aia lhe ajudou a retirar as vestes de dormir e então dispensou as duas assim que a banheira de prata se viu cheia. Pela grande janela, Mayen podia ver toda a cidade logo a baixo da colina.

Sodorah era a capital de Farauel, a maior cidade de Ellrouh e o único lugar que conhecia no mundo. O castelo ficava no topo da colina e era cercado por uma pequena muralha, enquanto a cidade mais à baixo era ladeada por muralhas que pareciam se perder no horizonte; de tão altas escondiam parte das montanhas ao leste. “Muralhas construídas por gigantes”, diziam os ignorantes, mas Mayen sabia que a verdade era bem menos fantasiosa. Àquelas muralhas levaram mais de um milênio para serem erguidas, foram construídas por pedras arrastadas das montanhas, e homens nasceram e morreram antes mesmo dela estar em sua metade. Sodorah fora construída para ser uma fortaleza intransponível, uma cidade protegida de todo o mundo à sua volta — de toda coisa lá fora —, se Arfiel Tiburê estivesse certo em seus escritos, a cidade fora construída para proteger os homens das sombras-vivas que foram soltas no mundo ainda na época do Primeiro Rei. Haviam discordâncias entre os historiadores, alguns insistiam que as muralhas nada mais eram que um projeto do Primeiro Rei para provar sua capacidade e vaidade. E claro, haviam os ignorantes que citavam os gigantes; Mayen ria sempre ao pensar nessa hipótese, de tão absurda.

— Vamos princesa, a água irá esfriar — chamou a aia. Mayen ignorou o chamado por um instante e continuou vislumbrando as ruas, vielas e edifícios lá embaixo. Bordéis, tavernas, padarias, açougues, serralherias, forjas, podia ver tudo de sua torre.

— Dária, você já foi lá fora? — perguntou à aia.

Ela caminhou em sua direção, a segurou gentilmente pelos ombros nús e a levou para a banheira.

— Ora, claro que sim princesa. Os jardins estão lindos hoje, podemos passar por lá após seu banho — respondeu ela.

— Não é isso. Quero saber se você já foi lá fora, além da Pequena Muralha, na cidade mesmo, nas ruas.

Esticou uma perna para dentro da banheira e depois a outra; a água estava morna e aprazível.

— Claro princesa — respondeu ela com desconfiança enquanto desembaraça os nós de seu cabelo.

— Você pode me levar um dia? — pediu com doçura, mas sem muita esperança. Já sabia a resposta.

A aia êxitou em responder. Mayen sabia que isso não dependia dela.

— Desculpe princesa, isso é algo que somente vossa majestade, seu pai, pode lhe permitir — respondeu. — E não há nada de belo na cidade para se ver. Os jardins sim são lindos, faz tempo que não os visita, as rosas brancas estão nascendo, posso levá-la para vê-las.

Mas não era os jardins que queria, não gostava de flores, da fragrância que emanavam e da beleza que vestiam. Queria andar pelas ruas tortas, ver as pessoas feias, visitar os mercados barulhentos, sentir os cheiros do mundo de verdade. Queria entrar em uma taverna e ouvir as canções que os “homens rudes” cantavam, queria ir aos bordéis e saber o que tanto fascinava os homens. Queria expandir seu quintal para além da Pequena Muralha, queria sair de sua torre, de sua gaiola. Queria ver as coisas feias como ela.

— Não, tudo bem. Não gosto dos jardins — respondeu secamente.

Após o banho escolheu o vestido lilás tecido por algum tecelão da cidade; era o único que lhe cabia bem sem nenhum ajuste no quadril. Depois a aia trançou seu cabelo e lhe passou pó de arroz no rosto para tirar um pouco da oleosidade natural de sua pele.

— Está linda princesa — disse ela.w Mas nem precisava se olhar no espelho para saber que ela só queria lhe agradar.

Era feia e já se habituara a isso, só queria que as pessoas não comentassem. Não queria ouvir a verdade; pois já a conhecia bem. Não queria ouvir as mentiras; pois elas em nada a faziam mais bela. Mentirosos eram piores que os sinceros, tentavam convencê-la com palavras vãs de que aparentava ser algo que não era, aos que optavam pela sinceridade, ao menos diziam a verdade; por mais que doesse. Ao menos a verdade pode fortalecer, enquanto a mentira aprisiona a pessoa em um cubículo de fantasia.

Saíram pela porta seguidas por dois guardas. Sir Edwin Rorge, ao qual chamavam de Caninos de Fogo e sir Marcos de Lunarval, ao qual chamavam de Filho do Aço. Ambos faziam parte da guarda real, vestiam as armaduras negras com escamas douradas nos braços, o elmo negro e uma capa carmesim com o brasão do rei estampado — a espada cercada por uma coroa dourada, como uma muralha —. Eles revezavam com outros cavaleiros em vigiá-la. A não muito tempo atrás, andava por todo castelo sem ser seguida, mas um dia se socara nas masmorras e passara ali dois longos dias, quando fora encontrada estava em um estado de pavor que levaram dias para reverter. Não se lembrava disso, mas era o que diziam. Desde então era seguida e vigiada por ao menos um guarda, dia e noite; não entendia por que haviam vezes que dois ficavam em seu encalço, um par de olhos já não era o bastante? Quão perigosa achavam que ela poderia ser?

Desceram pelas escadas em caracol e caminharam por corredores largos que levavam ao pátio. Haviam quadros enfeitando as paredes, também haviam flâmulas, espadas e “troféis” da família. Seu pai se orgulhava de bradar que eram a única casa real em toda Ellrouh que se mantinha de pé desde que fora dado aos reis o direito de reinar. “Somos os únicos de sangue de reis nesta terra”, dizia ele com orgulho. Os quase cinco mil anos da casa Dorahster lhes trouxeram muitas conquistas e troféis. Em todos os corredores do castelo haviam escudos e estandartes de casas rebeldes que tentaram derrubá-los e usurpar suas coroas. Variedades de leões, lobos, cervos, águias, ouriços, raposas, peixes, torres, estrelas, castelos e outras imagens enfeitavam cada parede, alguns tão velhos que mal dava para se discernir o símbolo que traziam. Seu pai era um grande general — sabia disso pelos comentários que ouvia —, além de ter consigo cavaleiros renomados e vassalos possuidores de grandes exércitos. Assim também fora com seu avô, e o avô deste, e de todos os Dorahster desde que o Primeiro Rei fora derrubado. Mas Mayen sabia que não eram as estratégias, habilidades em combate e alianças que os fizeram estar de pé até os dias de hoje, mas as muralhas. As muralhas de Sodorah que protegem a dinastia Dorahster.

Seguiram pelo castelo e cruzaram o pátio, Mayen à frente com a aia e os dois cavaleiros em seu encalço. Por onde passava Mayen recebia reverências dos servos e cavaleiros; sabia que assim que se distanciasse falariam de sua beleza singular, pouco se importava, andava de cabeça erguida como a princesa que era. Seguia em direção à sala do trono, onde estaria seu pai, seu irmão e possivelmente o raro convidado que lhe fizera levantar da cama.

Passou pelos estábulos onde os cavalariços estavam alimentando e escovando os cavalos. Era um de seus lugares favoritos. O cheiro dos estábulos enchiam suas narinas como a mais doce das fragrâncias; mesmo sabendo que o cheiro que tanto adorava era puro estrume. Gostava de afagar suas crinas e imaginar-se montada sobre eles; seu pai nunca permitiu que montasse, mesmo quando demonstrou ter bastante jeito com os animais, ele sempre dissera que cavalos não foram feitos para mulheres, assim como vestidos não foram feitos para os homens. Sentia inveja de Urfain por isso, a ele era dado os cavalos e a ela os vestidos, a ele era dado a espada e a ela as bonecas, a ele era dado o direito a coroa e a ela o direito de um dia dar filhos a um velho.

Observava os guardas e suas bestas e arcos nas ameias da Pequena Muralha quando trombou com alguém e foi jogada para o lado.

— Princesa, perdão — disse uma voz doce que ela reconheceu.

Antes de recompor-se já via sir Edwin o erguendo no ar com uma mão encouraçada e desferindo para ele uma cara de cão raivoso.

— Largue-o — ordenou para o cavaleiro.

E ele o largou.

Aruel O Colibri fora solto e firmou as pernas no chão com brusquidão e ajeitou a gola do seu gibão de veludo azul escuro como se aquilo não fosse nada além de uma brincadeira. Não tinha expressão de medo no rosto, pelo contrário, sorria como sempre; seu sorriso de canto de boca, dando-lhe um ar matreiro e galante.

— Sou grato princesa, achei que seria hasteado no topo de uma torre e viveria com os pombos — disse ele sorrindo.

Seus olhos pareciam ter um brilho próprio, fosse no escuro da noite ou ali na luz da manhã, seus olhos brilhavam como um par de pérolas negras.

— Não precisa agradecer — respondeu para ele com um fulgor lhe crescendo no peito. As palavras pareceram lhe faltar e não soube o que mais dizer.

Foi sua aia que lhe salvou do momento de silêncio.

— Desculpem-nos mas a princesa tem pressa para uma reunião com o rei — disse ela direta. Dária mesmo sendo apenas uma aia, tinha uma certa autoridade para falar por ela quando preciso; e quando Aruel estava por perto.

— Oh sim, eu não quis atrapalhar, desculpem-me. Continuem seu caminho e finjam que aqui nunca estive. Creio que gostarão do visitante, tem um quê de bom trovador, apesar de lhe faltar um pouco de prática — disse ele encenando com as mãos de forma desengonçada, como se tocasse um alaúde invisível.

Mayen percebeu que ele estava sem seu alaúde.

— Seu alaúde, sempre tem ele consigo.

Aruel sorriu com um desdém que no fundo, demonstrava certa melancolia.

— O rei pediu-me que o emprestasse ao convidado. O homem parece ter sido roubado no caminho para cá, ora essa, um bardo que permite ser roubado não é um bardo, antes morresse protegendo seu amor.

Mayen sabia como um artista é capaz de amar seu instrumento como se fosse uma mulher, lera “As Canções de Hihan”, a história de um bardo que atravessara toda Ellrouh em busca de sua harpa roubada, um objeto de madeira grotesca que ele chamava de Elenna. Se um homem poderia amar algo tão rudemente talhado, o quão Aruel poderia amar seu belo alaúde negro que era como uma extensão de seu corpo?

Mayen não percebeu mas ficara um certo tempo apenas observando o vento dançando nos cachos do cabelo dele, foi a aia que se pôs a falar.

— Até mais senhor bardo.

Ele respondeu com uma meia reverência e saiu para o lado com um sorriso matreiro dirigido à princesa.

— Vamos princesa, não convém que o rei e seu convidado fiquem esperando — disse envolvendo seu braço no dela.

Mayen acentiu e as duas seguiram em direção à sala do trono como duas amigas muito íntimas; Dária crescera com ela, mesmo sendo alguns anos mais velha, era o mais próximo que tinha de uma amiga — ou quem sabe irmã — por isso não se importava quando por vezes ela se interpunha.

— Minha princesa não devia dar tanta ousadia para este bardo, ele já se dá bastante liberdade — cochichou ela em seu ouvido. — Homens só querem uma coisa de uma donzela.

Até parece que Aruel iria querer algo comigo. Um homem tão belo na certa buscaria uma mulher bela como ele e não uma menina feia com cara de sapo.

— Ele só é gentil Dária… e canta bem… e é bonitinho. Ele não iria querer nada com uma menina como eu — só tinha treze anos, mas sabia do que Dária falava.

— Princesa, você é uma princesa. Só de ter o sangue que tem já é motivo para que todos a queiram — retorquiu a aia.

— Sim, por que se não fosse pelo meu sangue, ninguém iria me querer não é?

Dizendo isso desvencilhou-se do braço da aia e saiu a passos largos pelo pátio. Ouviu a aia falando alguma coisa, mas não deu ouvidos e foi em direção ao seu pai.

Se não nasci com a beleza, ao menos nasci com o sangue certo!, matutava consigo mesma enquanto caminhava na passarela cercada por fileiras de abetos que levavam em direção a sala do trono. Subiu uma longa e exaustiva escadaria de pedras antigas e chegou frente à grande porta maciça que se encontrava aberta, abrindo caminho para a sombria sala do trono. Podia ver a movimentação de vultos de várias pessoas dentro do salão e o som de uma rude melodia entoando em algum lugar lá dentro.

Atravessou o arco seguida pelos dois cavaleiros reais.

A sala do trono era um grande salão sem janelas, todo o ambiente era iluminado por centenas de archotes que ardiam dia e noite, pendurados nos pilares e nas paredes de maneira que espalhassem as sombras certas no lugares certos; castiçais emitiam sombras como de árvores em chamas em paredes vazias, cavaleiros em guarda lançavam sombras como de gigantes esguios empunhando lâminas gigantescas, miríades de sombras de pessoas dançavam pelos cantos como em um festival. O festival das sombras. Na parede do outro lado do salão, o grande trono de ouro fulgurava como o sol nascendo na manhã.

Cada detalhe da sala do trono fora pensado para dar um aspecto medonho ao lugar, como se tudo estivesse na mais profunda perdição e desesperança, como se o mundo ainda vivesse a Era das Trevas e aquele homem sentado no brilhante trono dourado fosse o última luz de esperança das pobres pessoas. Quando pequena Mayen sentia medo do lugar — assim como qualquer criança sentiria do escuro — mas aprendera rápido que tudo aquilo nada mais era que um truque, um feitiço para fazer do homem sobre o trono de ouro alguém que deveria ser temido e adorado.

Atravessou a profusão de servos e suas sombras. Nunca antes vira tamanha euforia no salão, servos se apressavam a encher mesas e mais mesas de comida, como se aquilo fosse uma celebração real. Ninguém pareceu notá-la, tão aprofundada estavam em suas tarefas. Podia sentir olhares postos em si, mas sabia que eram os olhos da horda de cavaleiros de seu pai. Não podia ver a todos, mas sabia que haviam dezenas deles ocultos nas sombras do salão, como feras atentas escondidas na noite.

— Minha princesa e minha filha.

— Meu rei e meu pai — respondeu com uma reverência torta; era péssima em reverências.

Seu pai estava sentado no trono, um grande pedaço de ouro maciço esculpido para ter a forma de algo digno de um rei se sentar. Não haviam muitos detalhes sobre ele, apenas o símbolo de sua família cravado onde o rei apoiava a cabeça. Cintilava e refletia a luz dos archotes como se ele próprio fosse a fonte de luz do salão.

Em suas costas havia um enorme quadro que cobria toda a extensão da parede. Por causa da baixa iluminação do ambiente, Mayen nunca pode observar muito bem o que fora pintado, pelo pouco que podia discernir, parecia uma sequência de imagens disformes e aterradoras. Em um canto podia ver algo como um homem em forma de cavalo saltando sobre um campo em chamas — mas também podia ser só um cavalo saltando uma cerca — , próximo ao trono podia ver algo que lembrava à um homem armado com uma besta que disparava dardos em chamas, um pouco mais à cima parecia haver uma montanha caminhando com uma nuvem montada em seu ombro. Aquela pintura sempre a encheu de curiosidade, mas ninguém no castelo parecia saber ou querer explicar seu sentido. “É uma pintura antiga minha princesa, coisas antigas não fazem sentido” lhe respondeu a aia certa vez, mas ela não era uma pessoa sabida e que pudesse lhe dar uma resposta. Mas, aqueles que poderiam saber algo sempre lhe respondiam com indiferença ou pouca informação, mesmo os doutores do conhecimento que lhe passavam os ensinamentos que devia saber. “Não cabe a você esse conhecimento minha princesa.”, lhe respondera doutor Lethros, “De que isso importa?”. Até aquilo que lhe era ensinado era medido, filtrado, selecionado. Será que a Urfain é dado o saber do quadro?

— Está linda irmã — sussurrou uma voz. Virando-se para o lado pode ver Urfain caminhando em sua direção, parecia brilhar na escuridão. Vestia um gibão de veludo branco cravejado de pedras preciosas, tinha os cabelos castanhos bem penteados e presos na altura dos ombros por uma presilha de ouro, trazia aquele sorriso cínico que Mayen tanto repugnava.

— Você também meu irmão, parece tão másculo — respondeu ao cinismo dele com mais cinismo.

Urfain por mais que se vestisse sempre de forma elegante, nunca passava a virilidade de um homem; por vezes ao olhar para ele, era difícil acreditar que ele era um, de tão vistosa que era sua forma de vestir. Alguns pelo castelo chamavam-no de o Príncipe Delicado quando achavam que não estavam sendo ouvidos, mas Mayen ouvia tudo, estava sempre atenta aos burburinhos à suas costas.

Reluzindo rente ao brilho dourado do trono, estavam os dois cavaleiros mais valorosos de seu pai e rei. À sua direita sir Auror Briqqs, o Cavaleiro Negro e Braço Direito do Rei. Segurava seu grande martelo pelo cabo com a cabeça repousando entre seus pés. Ele era um homem alto, o cavaleiro mais alto que já vira. Tinha a pele negra do povo do norte e uma barba hirsuta que cobria quase todo seu rosto, seu cabelo era cortado rentemente nas têmporas, deixando no meio um cabelo crespo e volumoso como a crina de um cavalo. Vestia uma armadura de ferro negra e sem entalhes, à luz do ambiente até parecia feita de carvão.

Do lado esquerdo do trono estava sir Waron das Dunas, Águia do Oriente e Braço Esquerdo do Rei. Era um homem com metade da altura do outro e de rosto aquilino e pele acobreada. Tinha olhos pequenos e afiados, bigode fino e barba uma barba comprida e penteada. Não vestia armadura, mas um roupão de seda vermelho com calças largas. As vezes trazia consigo uma espada esguia e comprida, outras vezes — como agora — , se escorava em uma longa alabarda enfeitada com penas rente à lâmina.

Os Braços do Rei eram conselheiros, generais e amigos do rei. Eram a força e a sabedoria quando estas lhe faltavam. Todo rei de Farauel tinha seus dois Braços, e cada Braço era para o rei como seu próprio irmão.

Ambos lançavam sombras compridas no quadro em suas costas, sombras que cintilavam junto as figuras sem forma na pintura. Entre eles sentava-se o rei no trono de ouro. Seu pai, rei Urthas era um homem de rosto rude e escanhoado. Seus olhos verdes brilhavam como duas pedras de jade. Seu cabelo castanho descia pelos ombros e ainda não haviam perdido a cor para o tempo. Vestia um gibão vermelho e preto com pequenas estrelas douradas costuradas no peito e uma pele de raposa branca ao redor do pescoço.

Sentado no trono ele era uma figura austera e imponente — ate Mayen sentia-se intimidada e apreensiva quando o via sentado daquela maneira. Perguntou-se se quando chegasse a vez de Urfain, ele iria passar ao menos metade da imponência que seu pai passava. Mayen sabia que não.

De repente, Mayen percebeu que um silêncio se instalara no salão, cortado apenas por uma melodia que tocava em meio as sombras. Olhando ao seu notou que os criados que serviam a longa mesa vertical que fora posta frente ao rei haviam terminado o trabalho e se retiravam. Sobre a mesa havia bolos, tortas, garrafas de vinho e garrafas de leite. Frutas do campo e frutas das florestas, também havia um javali com uma maçã na boca que Mayen não entendia o por que de estar ali, era uma refeição um pouco excêntrica para o desjejum da manhã.

Ao lado do javali um homem tocava um alaúde com metade da formosura de Aruel — e era o alaúde dele. Ele olhava com olhos famintos para o javali, mas se mantinha firme em sua melodia; uma melodia romântica que parecia desafinar entre um acorde e outro.

Todos o observaram ate que por fim ele se deu por satisfeito, repousou o instrumento sobre a mesa e sentou-se numa cadeira, mas não antes de fazer um aceno para que os demais se unissem a ele em sua refeição.

— Um momento que eu ansiei por muito tempo, a estrada é pouco amistosa com viajantes. Já peço perdão caso venha a me faltar os bons modos — disse se jogando na cadeira e cortando com uma faca um naco do javali.

Mayen olhou para seu pai e ele anuiu, erguendo-se e se dirigindo à mesa de refeições. Mayen e Urfain o seguiram. Os dois Braços continuaram em seus postos.

Seu pai sentou-se frente a frente com o homem e serviu a si mesmo uma taça de vinho; o rei nunca servia a si mesmo, o que Mayen estranhou. Urfain sentou-se do lado esquerdo de seu pai e ela do lado direito. Olhando para os lados podia ver inúmeras cadeiras sem ninguém para preenche-las e ninguém para servi-los, ninguém. Isso nunca acontecera antes, nunca um bardo fora motivo para se montar uma mesa farta e se dispensar os servos.

O que está havendo aqui?

Confusa, olhou com atenção para o homem do outro lado da mesa. Iluminado pela luz das velas, archotes e do próprio trono, ele parecia… alguém comum. Um fidalgo talvez, ou um bardo conhecido. Mas que bardo teria a estima de seu pai a tal ponto?

Era um sujeito quase simplório. Barba e cabelos desgrenhados e tingidos de laranja que na escuridão tomavam um tom de vermelho aceso. Tinha olhos grandes e de um tom de verde escuro. Uma pequena cicatriz sob o olho esquerdo e um brinco de prata na orelha direita enfeitavam um pouco seu rosto comum. No oeste, na terra dos bardos, homens eram meio excêntricos e tingiam os cabelos de cores alegres e furavam a pele para pendurar coisas, mas isso em nada a ajudava a descobrir a identidade daquele bardo. Mesmo suas vestes não indicavam muita coisa. Uma cota de malha escondida sob um gibão vermelho aveludado encardido. Nada demais, viajantes precisam se proteger.

O homem comia com as mãos, espalhando migalhas sobre si mesmo e sobre a mesa. Se serviu um copo de vinho e o bebeu de imediato, voltando a pegar um pedaço de torta sem cerimônia. Seu pai também provava de uma pedaço de torta, totalmente indiferente aos modos do homem, ou ao menos fingia indiferença, como cabia a um bom anfitrião. Urfain ao seu lado parecia repetir cada movimento do pai.

Tudo ocorria com um monótono silêncio, até que o homem notou seus olhos sobre ele.

— Princesa, não sou um pedaço de bolo, por mais que possa parecer agradável ao paladar.

Mayen sentiu as bochechas corarem e logo pegou uma maçã sobre a bandeja de frutas tentando se esconder por trás de cada mordida.

Passado algum tempo, o homem dado por satisfeito, lambeu os dedos e teceu alguns comentários.

— Não há coisa melhor do que a primeira refeição após tanto tempo de viagem.

Seu pai deu um sorriso e respondeu repousando os talheres sobre a mesa.

— Somente explicações. Não há nada que mais me satisfaça.

O homem deu uma gargalhada que reverberou pelo salão sombrio.

— Impaciente e direto — apontou para o trono.— Deve estar muito ansioso para voltar e se sentar sobre sua cadeira de ouro. Quando era criança e me disseram que em Farauel o trono era de ouro, eu não acreditei.

Pegou o alaúde ao seu lado com os dedos gordurosos e dedilhou as cordas fingindo uma canção.

— O grande rei Urthas de sangue dourado, brada aos ventos seu direito ao reinado. O filho de uma grande casa ancestral, cercado por muralhas, assim ninguém o faz mal. Quer saber o motivo que me trás aqui? — cantarolava o bardo.

Seu pai se manteve calmo e paciente, mas podia ver uma veia querendo estalar em seu pescoço.

— Sem rodeios, lhe dei o que me exigiu, agora diga-me seus motivos de vir sozinho para tão longe.

O homem ergueu os olhos e parou com a melodia.

— Impaciente e direto. Impaciente e direto. Isso ainda vai lhe custar caro vossa majestade. Mas te direi rei do sul, o que me trouxe tão longe das minhas terras do poente, mesmo que seja algo que você deveria saber — fez uma pausa e voltou a dedilhar as cordas. — Mas, é assunto que não deve se soltar aos ventos, e tem muitas janelas neste lugar, as palavras podem muito bem voar para fora de nossa vontade.

O rei ergueu a mão e deu ordem para que os homens deixassem o salão. Sua voz ecoou pelas sombras e uma marcha de cavaleiro deixando a escuridão se fez. Urfain se preparou para se retirar quando seu pai ordenou:

— Você fica, não tenho que guardar segredos do meu próprio sangue.

Mayen se preparava para se levantar quando ele a tocou na mão.

— Não me ouviu? — disse à ela. Mayen sentiu-se alegre por ser incluída naquilo, fosse la o que fosse.

— Os dois ali, também são do seu sangue? — observou o bardo se referindo aos dois cavaleiros ao lado do trono.

— Sim! — respondeu seu pai.

— Ora, então você tem muitos em que pode confiar. Me pergunto se isso é uma dádiva ou uma maldição.

— Não se preocupe com aqueles em que deposito minha confiança. Apenas me responda o que te trouxe aqui — retorquiu seu pai já demonstrando sua impaciência.

— Ora, você que sabe, se o segredo for espalhado, é sobre você que caíra o julgo.

Dizendo isso o homem levou uma mão para dentro da roupa e tirou dali um pequeno saco toscamente amarrado por uma corda dourada. Depositou-o sobre a mesa e o empurrou para seu pai, que olhou com insegurança o saco que se retorcia com debilidade.

— Não se preocupe, não é nada que morda ou que te enfeitice, como vocês do sul tanto crêem.

Seu pai pegou o saquinho com uma mão e ele parecia que pulsava entre seus dedos.

O rei puxou a cordinha que amarrava o saco e um cheiro pútrido subiu no mesmo instante. Ele olhou lá dentro com cuidado e fez uma careta. Ergueu a mão com e virou-o sobre a mesa. A coisa caiu fazendo um baque surdo, como de um pedaço de carne podre.

Mayen quase vomitou , Urfain não conseguiu se segurar.

— Isso é… — seu pai estava boquiaberto ao ver a cabeça diminuta e desfigurada fazendo caretas de agonia.

— Sim, lembrou-se agora? A cabeça encolhida do Primeiro Rei, ainda viva, como contam as histórias. Faz séculos que o Conclave Real não é convocado. Alguma merda muito grande aconteceu ou está por acontecer, acho bom você levar logo essa coisa para o rei no leste — disse o bardo dedilhando as cordas do instrumento e tentando esconder o próprio medo na voz.

Sobre a mesa, a pequena cabeça viva e em decomposição parecia gritar em sofrimento, mas não tinha cordas vocais para isso, sequer poderia dizer que estava viva.

Mas estava.