Os Contos de Cinco Pontas Olliver Hickens
1 I - Diálogo
"Mas o que se pode ainda fazer?" perguntou o homem. "Aconteceu. Como a agonia de uma folha em branco, sua nova vida está para começar — é inevitável".
O poderoso companheiro riu.
"De todas as coisas que a humanidade procurou, a mais parca é a redenção. Não se ofenda, amigo: não digo isto por algum aspecto onde há um intento impensado, talvez, de compensar algum saldo inacessível — e sim pela beleza do desespero, envolvendo como uma aura. Uma vez que o tenha conhecido, ele não se vai, e a redenção busca justamente o contrário. O jovem vai conhecê-lo, se é que já não o fez".
Decerto, o mais jovem estava correto. Sendo a arte considerada mera forma de expressão — e por tanto, possuidora da maior significância encontrada — jamais se encontraria lá o desespero presente nas religiões como um todo. O estoque de novidades para a arte era limitado. A perenidade das religiões e sua força criativa eram insultantes a um artista.
"Ora, Wells, eu nunca disse que pretendia me sobrepor a algum novo desespero. Minha arte — tomando aqui eu a liberdade de assim chamá-la — não detém tal poder. Minhas realizações são fruto de experimentações. Violentas, como a força da natureza. A maior força que me encanta aqui, acima da tristeza inevitável em minha relação com ele, é a impunidade das relações, especialmente eclesiásticas. Meu filho vai conhecer mais coisas do que um velho como eu poderá narrar, de ambas as formas e de qualquer maneira".
"Isso só se você se considerar talentoso, Hickens. Não deveria cometer esse erro — todos os artistas talentosos são desprezíveis, no fundo. A vida não foi feita para a arte, é a realidade. Todas as suas manifestações voltam, frequentemente e através dos séculos, a ser recarregadas com um infinito ardor passional — e isso é mais divino do que a humanidade pode conceber".
Hickens soltou o fumo do cachimbo que ainda segurava em mãos. Por muito tempo essa foi sua maior tarefa reflexiva — entender as paixões humanas. Em todas as suas relações, a insensibilidade das pessoas para com suas paixões lhe assombrou, e desde então, ele se recolheu e acolheu-se — em arte. Passara por todas as fases e a todas abandonara, não completamente sem razão, mas com certeza desmotivado. Não haveria de negar, portanto, tal forma de aproximação de Olliver, que ainda tão jovem, agora em seus recém-completados 17 anos, decidia conhecer o divino, com a aparente impressão que ascenderia aos céus. O rapaz
sonhava, embora jamais fosse ouvi-lo admitir, inclusive por possuir total desconhecimento, em uma situação exatamente igual a que ele decidiu tentar realizar em sua juventude. Ele fracassara, e portanto, desacreditava profundamente o sucesso do filho.
"Eu não seria tão soberbo. Espero o retorno de Olliver com ansiedade e tristeza — pois estou certo de que falhará; não impedindo, contudo, que eu sinta que não deveria tê-lo educado tão bem. A fins de estudo, meu caro, eu jamais imaginei que a ciência pura suscitaria a impressão do divino — embora a intenção de meu filho não seja, afinal, a Igreja. Ele vai muito além".
Ele apoiou o charuto na mesa ao lado da cadeira em que se sentava. Levantou-se e olhou para a paisagem tão tristemente verde — onde não havia lugar para o seu filho.
"Deixemos, porém, de falar de Olliver. Buscaremos ambos — eu e ele — descobrir e comprovar novas teses. Isso já está decidido".
Com um último riso, ele esqueceu o nome do menino.
"Agora, deveremos retomar nossas atividades,não concorda?"
Esse diálogo, tal qual este momento, lacraria coisas eternas — e marcaria uma nova era.
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