Os Cavaleiros do Zodíaco: de volta a 1747
4 Capítulo 4
Enquanto tentava organizar suas planilhas e outros documentos, Verônica suava frio.
Mesmo debaixo do confortável ar-condicionado de sua sala, as preocupações tomavam conta dela. Ela contava com pouco mais de 30 anos, apesar de aparentar ter alguns anos a menos. A moça de pouco mais de 1,70m de altura, cabelos encaracolados pretos, olhos escuros e pele preta, responsável pelos setores de Psicologia e de RH do Santuário, olhava para os diversos nomes que havia em seus papeis — que eram ou já haviam sido seus atendidos durante o acompanhamento dos jovens cavaleiros. No entanto, a maioria dos jovens encontrava-se desaparecida, vítima do caminho das dimensões, conjecturado por Leandro de Escultor.
Verônica se culpava por não ter percebido as intenções e os malogros de Leandro antes, mas, acima de tudo, se preocupava em como os atendidos poderiam estar se virando ao trilhar o caminho das dimensões.
Tinha confiança na capacidade deles, mas em seu íntimo, temia que Leandro fosse desleal com eles ou armasse uma arapuca grande demais, de onde eles não conseguiriam sair — pelo menos tão cedo ou facilmente. Não estava conseguindo sequer se concentrar em seu trabalho, de tão corroída de preocupação como estava. Pensava em consultar alguma de suas amigas, como Lina ou Susana, entre outras, que também conheciam sobre os universos paralelos — Verônica tinha ela própria certa experiência com o assunto, mas ainda assim sabia que não tinha condições de bater de frente com Leandro.
Suas inquietações foram temporariamente interrompidas com uma batida na porta de seu consultório, localizado na escola Palaestra, a instituição de ensino anexa e pertencente ao Santuário.
— Entre — disse ela, se aprumando. Tinha que assumir uma postura profissional e não transparecer suas preocupações; mesmo em meio àquela crise, o trabalho na escola e no Santuário continuava.
A porta se abriu e Joana, a amazona de Águia, entrou; ela contava com pouco mais de 1,60m de altura, cabelos ruivos, olhos castanho-esverdeados, e pele branca, e vinha portando sua armadura, majoritariamente prateada/ cinza-clara, com detalhes em verde e em roxo.
— Oi, tia — saudou ela.
Verônica relaxou um pouco e deixou os ombros caírem. Achava que fosse algum outro aluno querendo marcar atendimento ou resolver alguma outra pendência. Joana era muito próxima ao Grande Mestre do Santuário, devido à sua habilidade com visões e com leitura das estrelas, e vinha trazendo sempre atualizações quanto à crise atual para Verônica, devido à psicóloga ter que continuar com sua rotina e não poder sair muito durante seus horários de trabalho.
— Joana — Verônica retribuiu a saudação, tentando parecer calma e relaxada. — Alguma novidade, minha querida?
— Por ora, não, tia. O mestre Shion continua aflito, pensando em alguma coisa para que possamos fazer. Estão ele e o senhor Gomes em reunião, já faz mais de hora. Há tempos que não vejo o mestre Shion tão perturbado ou nervoso.
— E vocês? Continuam com suas tarefas corriqueiras, imagino. Como foi orientado... inclusive para os funcionários, como eu.
— Mais ou menos. — Joana baixou a voz uma oitava e se aproximou mais de Verônica. — Dizem que há um portal escondido em algum lugar por perto do Santuário, que o Leandro havia aberto. Parecido com o portal que existia para levar até o Templo de Poseidon, sabe? Acho que o Leandro se esqueceu de fechar, ou imaginou que ninguém seria capaz de encontra-lo e, por isso, não se deu ao trabalho de limpar esse rastro. Qualquer que seja o caso, os garotos estão liderando as buscas por esse portal, para que, caso o encontremos, consigamos atravessar e ir ajudar a Rina e os demais.
— Como sabem que o portal os levará direto para a dimensão na qual se encontram, e não para alguma dimensão anterior aonde eles tenham estado, ou mesmo para alguma posterior?
— O senhor Gomes tem uma teoria de que Leandro quer manter seus inimigos todos no mesmo lugar. Por isso, só uma das dimensões deve estar aberta, que é aonde Rina, Betinho e os outros devem estar no momento. Desse modo, se acharmos o portal, cairemos nessa mesma dimensão.
Verônica registrou que a voz da garota vacilou brevemente ao mencionar Betinho, e que talvez ela estivesse se esforçando, antes, para não menciona-lo na conversa. Entendia que os dois estavam começando um relacionamento.
— Estou entendendo. E quem são os meninos que estão liderando isso?
— Bom... todos eles, tia Verônica. Para ser sincera.
— Todos??
— Todos querem ajudar e se fazer úteis — explicou Joana. — Betinho, Matt, Rina e os outros sempre lideraram e sempre nos salvaram. Eles querem retribuir. Marcolino, Laurindo, Jadiel, Pedro e Marcelo estão liderando a busca pelo portal... alguns dos outros, como Ítalo, Beatriz, Chiara, Inácia... estão explorando outras partes do Santuário, algumas ruínas de Atenas e até a Vila de Rodorio, em busca de um sinal desse portal. Estão todos mobilizados. Bianca, Karla, Camilla, Júlia, Ilana, Lírcia, Karol, Amanda... Quando encontrarem, todos pretendemos ir.
Verônica refletiu sobre o que as palavras de Joana queriam dizer.
— Todos, mesmo? Você também? E seu posto como auxiliar do mestre e do senhor Gomes?
Joana se empertigou antes de responder.
— Eu também preciso ir, tia. Além disso, o mestre Shion me autorizou. Ele sabe mais do que ninguém de que quero salvar Betinho e nossos amigos.
Verônica a estudou. Era uma crise, mas ele se surpreendia cada vez mais com as resoluções. Especialmente, do mestre. Já era pouco comum que um grupo seleto de cinco cavaleiros de Bronze liderasse com frequência as missões do Santuário, ainda que, antes, contassem com a bênção e confiança irrestritas do grupo de Seiya e seus companheiros. Em tempos de crise, as regras vinham sendo flexibilizadas. Era menos comum ainda que todos os jovens do Santuário — os cavaleiros de Bronze, de Aço, alguns recrutas, aspirantes, e mesmo alguns cavaleiros de Prata mais novos — tomassem assim a frente em uma missão de busca, de "resgate". Porém, Verônica admirava o ímpeto e resiliência dos meninos. Era uma crise, e para resolvê-la, era preciso lançar mão de todos os recursos e alternativas possíveis. O empenho dos jovens era admirável.
— Eu lhes desejo sorte — disse ela, por fim. — Quero que tenham êxito na busca e na missão. Atena sabe o quanto desejo que os cavaleiros sejam resgatados... e que Leandro seja detido. Lamento que eu não possa fazer muito para ajudar, minha querida. Alguns de nós precisam ficar e segurar as pontas aqui no Santuário. É, vocês são os jovens de agora... A esperança de um futuro para todos nós reside em vocês.
Joana foi até a psicóloga e a abraçou.
— Obrigado, tia. Eu a manterei avisada, até que consigamos enfim encontrar esse portal.
— Obrigada — disse Verônica. Ela sentia, pela voz de Joana, que ela segurava a emoção com todas as forças. Queria, precisava encontrar e resgatar Betinho e seus amigos. Sem sequer saberem em que dimensão ou período histórico seus amigos se encontravam. Era admirável como a garota conseguia segurar o emocional daquela forma.
Joana se encaminhou para a porta do consultório e fez uma breve referência para Verônica antes de sair. A psicóloga notou os olhos da jovem, que começavam aos poucos a lacrimejar.
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