Matt sentia o sol na cara enquanto estava deitado no chão quente e desconfortável, mas sua preguiça estava levando a melhor no momento; isso o impedia de despertar por completo e de levantar imediatamente. Ter um corpo invulnerável vinha com sua quota de efeitos colaterais — ele se cansava com mais frequência do que os outros cavaleiros e, com isso, sentia uma enorme necessidade de dormir, em diversos momentos do dia.

Não vou resolver nada nem ganhar nada se continuar cochilando, pensou ele consigo mesmo depois de alguns momentos a mais com os olhos fechados. Não serei de ajuda nenhuma para ninguém se continuar deitado aqui.

Ele abriu os olhos, ao mesmo tempo em que suspirava, resignado com o fim de seu período de preguiça. O garoto media 1,75m de altura, tinha cabelos pretos revoltos, pele levemente bronzeada, algumas cicatrizes ao redor dos braços, peito e rosto, e olhos negros. Sua armadura de bronze, de cores majoritariamente azulada e prateada, tinha detalhes pontuados em laranja, assim como as penas de fênix que pendiam, em três fileiras, das costas da armadura. Como esperado, o sol escaldante o cumprimentou intensamente assim que abriu as pestanas. Estava deitado de mau jeito sobre uma escadaria — uma que lhe era incrivelmente familiar. Os degraus das Doze Casas do Zodíaco.

O que Leandro irá aprontar conosco dessa vez?

Ele já estava ciente de que o cavaleiro de Escultor os levava a cada nova dimensão, linha temporal, mundo paralelo ou universo alternativo, conforme o seu próprio bel-prazer, à medida que eles superavam algum desafio imposto por ele, apenas para um novo desafio surgir diante deles originado da imaginação tresloucada e distorcida do Escultor.

Matt olhou em volta. Só pelo visual do Santuário, não dava para determinar em que época ou linha temporal ele havia ido parar. O sol da Grécia era intensamente quente em qualquer período histórico.

Ele se sentou sobre um dos degraus. Podia deduzir que estava ainda no início da trilha — algum ponto após a Casa de Áries, mas não conseguia divisar entre quais casas ficava localizado exatamente o trecho no qual se encontrava no momento.

Não conseguia sentir o cosmo de seus amigos. Aquilo o deixou alarmado. Mesmo em outra dimensão ou seja lá qual fosse o local daquele novo desafio projetado por Leandro, sempre sentira os cosmos dos companheiros rapidamente, tão logo despertara em cada novo ambiente. Seus amigos podiam estar em qualquer parte do Santuário ou das Doze Casas — ou mesmo, até, em outros lugares.

Por fim se levantou por completo. Já repousara por tempo demais. Sentiu um leve incômodo nas costas. Não se lembrava de ter caído com força no chão, mas não importava. Agora que estava quase que 100% desperto, precisava achar uma maneira de encontrar seus amigos e descobrir qual desafio Leandro conjurara para eles dessa vez. Muito bem, Matthew, disse para si mesmo. Ninguém o chamava de Matthew a não ser Isabella — e ela passara a chama-lo assim com muito mais frequência desde que, além de se dedicar mais à restauração, passou a ficar mais tempo trabalhando e estudando na biblioteca. Muito bem. Chega de dormir. Pense, seu grandessíssimo idiota. Estabeleça prioridades.

Ele desejou que já tivesse encontrado Isabella; em missões juntos, ele sentia que funcionava melhor conversando com ela ou só em tê-la por perto, quase como se seus cérebros funcionassem melhor juntos, também. Não sentia o cosmo dela nem mesmo à distância em lugar algum por ali. Precisava tomar a iniciativa, criar vergonha na cara, sair logo dali e encontra-la. Além disso, ela provavelmente o censuraria por chamar a si mesmo de "grandessíssimo idiota" ainda que apenas em pensamento — o que não era grande consolo, pois Isabella conseguia ler pensamentos. O garoto pôs-se a pensar.

Olhou para a escadaria tanto na direção que descia quanto na direção de subida. Talvez, se seus amigos estivessem ainda entrando no Santuário ele poderia esperar na Casa de Áries para recebê-los. Contudo, se ele próprio acordara num ponto qualquer da escadaria entre as casas, podia imaginar que algo parecido teria acontecido com seus amigos.

Olhou para os degraus que subiam. Talvez tivesse mais chance de encontrá-los se subisse as casas. Além disso, em geral, se reunirem era mais propício se estivessem num local como o Templo de Atena, abaixo da estátua, ou mesmo no Salão do Grande Mestre. Se resolvessem se aglomerar em frente à casa de Áries, ficariam expostos, sem falar que algum inimigo em potencial poderia surgir e se aproveitar disso para segura-los na Casa de Áries enquanto iam até as outras casas, tencionando provavelmente matar os Cavaleiros que estivessem ativos naquele período histórico e iniciar uma invasão em larga escala ao Santuário.

Ele estremeceu só de pensar nessas conjecturas.

Torceu para que sentisse o cosmo de seus amigos em algum ponto do horizonte cedo ou tarde, e pôs-se a subir a escadaria, decidido. Tentou olhar em volta, mas só viu as montanhas que cercavam o Santuário. Nenhum sinal de cidades ou vilarejos visíveis por perto. Não dava para saber ainda em que época ele se encontrava.

Mal dera cinco passos direito quando ouviu um farfalhar, como asas batendo, e uma voz o chamou.

— Pequeno Fênix!

Ele parou e olhou para os lados.

Um pouco acima na escadaria, com a mão apoiada em uma pilastra, um rapaz o observava com olhar divertido. Parecia ser um adolescente prestes a entrar na idade adulta, mas também poderia ter já seus vinte e poucos anos. O rosto parecia esculpido em mármore, belo e atemporal e, por isso, era difícil divisar sua idade apenas olhando-o. Tinha uma barba rala, cabelos negros, olhos escuros, e uma pele branca já começando a ganhar tons bronzeados. Usava uma camisa escura, de botões e com manga longa (escolha estranha para o clima da Grécia), calça jeans, e tênis de corrida. Olhava para Matt como se fossem velhos conhecidos. Sua voz tinha um leve sotaque, que o cavaleiro de Fênix imaginou ser oriundo da Irlanda.

O garoto se deu conta de que já o tinha visto sim antes — mas a lembrança era antes tão nebulosa que lhe parecera imaginada.

— Eu já te vi em algum lugar — disse o cavaleiro de Fênix. — Talvez em alguma visão? Mas achei que você só fosse um personagem inventado, uma ilusão ou coisa do tipo.

Ou um vislumbre de outro universo, pensou ele apenas para si mesmo. Não tinha coragem ainda de verbalizar aquele pensamento em voz alta, muito menos diante de um cara que ele mal sabia dizer quem era. As visões em que o tal cara havia aparecido haviam começado (um efeito colateral do uso do Golpe Fantasma de Fênix era que o garoto começara a ter visões enquanto dormia com uma frequência alarmante) a surgir depois que eles haviam entrado no labirinto interminável de dimensões, conjecturado por Leandro.

— Eram visões, sim, pequenino — disse o rapaz, fingindo bater palmas. — Mas eram muito reais, caso esteja tentando se convencer do contrário.

— Você se chama Scott — disse o cavaleiro de Fênix, se recordando das visões. — Não é mesmo?

— Bravo. — Mais palmas simuladas. — Sou Scott... pode me considerar como um mensageiro, se preferir.

Nota mental: parar de usar o Golpe Fantasma com tanta frequência, pensou Matt consigo mesmo. As visões eram úteis em alguns casos, mas, em outros, estavam se tornando apenas um peso e um fardo.

— Mensageiro? De quem?

— Ora, dos deuses, é claro — disse ele, como se fosse óbvio e ele estivesse explicando aquilo para uma criança.

— Os deuses já possuem um mensageiro, pelo que sei — retrucou Matt. — É Hermes.

O outro riu.

— Acredite, meu bom rapaz, Hermes é tão ocupado, com suas inúmeras outras atribuições, que, para certos assuntos, os deuses necessitam de outro tipo de mensageiro, alguém mais direcionado, focado... alguém como eu.

— Que mensagem você tem, então?

— Tudo no devido momento — respondeu Scott. — Primeiro, você já sabe o paradeiro de seus amigos?

Matt cerrou os punhos.

— Não.

— Já sabe pelo menos onde e quando você está no momento??

— Estou no Santuário, mas não sei em que momento histórico estou.

Scott deu-lhe uma piscadela e riu de leve.

— Você vai amar descobrir — afirmou ele. — Vai ficar tão surpreso... Mas, ao mesmo tempo, vai fazer tanto sentido, você até irá se culpar por não ter percebido antes.

— E você não irá me ajudar a descobrir — Matt supôs.

— Não preciso. Você é esperto. Vai encontrar a resposta, logo, logo. Eu vejo e sei de muitas coisas. Afinal, além de mensageiro, eu também sou um deus.

Matt se recordou da visões. Scott exibira tanto poder nelas que ele até mesmo desconfiara que ele se tratava de um deus que apenas passava a maior parte do tempo ocultando sua verdadeira natureza. Mesmo assim, vê-lo admitindo isso daquela maneira, do modo dramatúrgico com que ele falava, tinha adquirido outra conotação — ainda mais por Matt se encontrar em um território "novo" e desconhecido, potencialmente hostil, onde Leandro podia observa-lo e talvez tentar lhe fazer de peão. Na pior das hipóteses, Scott estaria mancomunado com Leandro ou apenas sentado em cima do muro, se divertindo com a situação de Matt e de seus amigos, sem interferir, mas também sem ajudar.

— Um deus, você diz.

— É claro. Fico feliz que esteja escutando e que esteja entendendo tudo direitinho.

— Bom, então, deus praticamente inútil que não está dizendo nada que venha a me ajudar concretamente — vociferou Matt -, o que faz aqui então? Se não vai me ajudar, por que veio? Ao menos, não me atrapalhe. Preciso encontrar meus amigos e descobrir qual é o novo plano de Leandro.

Scott riu; parecia estar achando mesmo muita graça daquela situação.

— Inútil? Eu, meu caro jovem? Você sabe que sou poderoso. Sou muito útil, isso sim. Você perceberá quando se der conta de quem eu sou de verdade. Talvez você só precise enxergar um pouco mais. Talvez, só precise de um empurrãozinho, um incentivo...

Scott estalou os dedos. Uma aljava surgiu nas suas costas, e uma flecha se materializou na sua mão direita. Um arco pendia da mão esquerda.

Com um sobressalto, Matt começou a reconhecer aqueles itens. A ponta da flecha que Scott segurava tinha um formato singular... Algo parecido com um coração, como o de um jogo de cartas.

Ele pôde notar que algo mudara, também, nas feições de Scott. Seus olhos, antes escuros, estavam vermelhos — como a cor do sangue, como se alguém tivesse espremido e destilado vários coraçõeszinhos de Dia dos Namorados em uma mistura perigosa, venenosa, agora embutida na íris, na córnea e na esclera de Scott. O rosto dele ainda era belo, mas agora se apresentava também em uma forma dura, quase tão difícil de se olhar quanto como se estivesse-se olhando para um holofote. Matt arquejou levemente enquanto a verdade sobre a real natureza de Scott se apresentava, nua e crua, diante dele.

— Você é Eros — disse o garoto, por fim. — O deus do amor.