Notas iniciais
Os Cavaleiros de Bronze e seus aliados começam a despertar em diversos pontos de um local que parece ser o Santuário.

Isabella sentia o chão abaixo de si. Era quente, e sentia o calor batendo em seu rosto.

Ela abriu os olhos. Inicialmente, o local em que se encontrava não parecia estranho aos seus olhos. Uma arena de treinamentos com arquibancada, se projetando ao redor dela em formato circular. Poderia ser a descrição de vários locais de treinamento do Santuário, mas aquela em particular era facilmente reconhecida. O local em que os Mestre do Santuário anteriores costumavam entregar as armaduras aos cavaleiros novatos, assim que eles finalizavam o treinamento. Também foi o local onde Seiya recebera sua armadura de Pégaso.

Ela se sentou, apoiando ainda as mãos no solo. A garota de quase 1,70m de altura, cabelos castanhos-claros com mechas loiras, olhos cinzentos intensos e pele branca, portando a armadura de Prata da constelação de Taça, que era cinza-claro com detalhes amarelos e roxos, esquadrinhou o ambiente ao seu redor; quase se levantou com o susto que tomou ao divisar um garoto caído no chão próximo a ela.

— Gustavo!

Ela enfim se ergueu e foi em direção a ele. Gustavo era o cavaleiro de Dragão, media pouco mais de 1,80m, tinha cabelos negros que chegavam até os ombros, com uma pele levemente bronzeada e olhos negros; estava usando sua armadura, de cor majoritariamente verde, porém, parecia estatelado no chão, com a cabeça "beijando" o solo da arena.

Isabella virou o corpo dele com cuidado para que seu rosto ficasse voltado para cima. Gustavo não abria os olhos. Porém, ela sentia o pulso dele, e ao se aproximar do rosto dele, sentiu que ele estava respirando.

— Acorde... Gustavo, por favor, acorde!! — disse ela, tocando e mexendo no ombro e braço dele.

Estava prestes a conjurar uma bola de energia — parte de sua habilidade de cura, um dos dons de sua constelação protetora — quando o garoto enfim tossiu, despertando-se de seu torpor.

— Até que enfim...!

— Argh — resmungou ele. — Tenha calma, mana. Estou bem.

— Como eu ia saber? Você parecia desmaiado. Não estava se mexendo quando eu acordei e vi você aí no chão, claro que eu cheguei a pensar que você pudesse estar por um fio...

— Tudo bem, tudo bem — disse ele, levantando-se aos poucos enquanto Isabella lhe ofereceu a mão, para que ele se apoiasse. — Bom, agora estou de pé. E inteiro. O que está havendo, afinal?

Essa é uma ótima pergunta. Isabella olhou em volta, mas não havia ninguém por ali além deles. Era muito estranho. Não sentia cosmos familiares nem desconhecidos ali por perto. O que também era muito estranho.

Ela sabia que os Cavaleiros de Bronze e alguns outros da turminha dos cavaleiros, assim como ela, haviam sido enviados para diversos pontos da linha do tempo, o que a fazia pensar naquelas inúmeras teorias científicas que ela considerava mirabolantes demais para serem provadas — até aquele momento, pois ela estava vivendo uma delas. Multiverso, universos paralelos, universos alternativos, linhas temporais... tudo aquilo estava se mostrando realidade.

Ela se preocupou com a localização dos demais — mas como Gustavo estava ali com ela, podia presumir que os outros estariam por perto; só não os haviam encontrado ainda. Ela suspirou. Não podia surtar. Um problema de cada vez. Matt estava por ali em algum lugar. Assim como Rina e todos os amigos deles.

Ela sabia que tudo aquilo era culpa de Leandro — como ela gostaria de encontra-lo e surrá-lo até a morte, aquele dramaturgo psicopata, maníaco e de tendências homicidas que havia colocado ela e seus amigos naquela situação — e sabia também que ele gostava de manter seus inimigos todos num mesmo lugar. Pelo menos, depois de semanas lidando com ele, sabiam que esse aspecto do modus operandi dele não se modificara. Pelo menos podia ficar aliviada quanto a isso, se é que podia contar isso como motivo de alívio. Agora precisavam encontrar seus amigos e descobrir qual era a próxima jogada no tabuleiro que Leandro havia montado e forçado eles a jogar...

Gustavo pegou uma pedrinha e ficou mexendo com ela na mão, e tirou ela de seus devaneios.

— Acho estranho que não tenha ninguém por perto, só nós dois estamos aqui, e não sinto o cosmo de mais ninguém. O que você acha? Pelo que estava dizendo, você acabou de acordar, também. Parou para pensar aonde nós estamos? Estou vendo que é a arena, mas já parou para pensar... em quando nós estamos??

Ela deu de ombros.

— Não dá pra saber só olhando. Está sol, mas é quase sempre ensolarado na Grécia, isso vale para qualquer período temporal. Talvez se estivesse de noite, poderíamos nos orientar pelas estrelas... Mas são só ideias soltas que estou tendo.

— Matt. Está pensando nele?

Ela suspirou, como se o cansaço pesasse sobre seus ombros.

— E quando eu não estou pensando nele, menino??

— Eu sei. — Gustavo ergueu a mão, como se tentasse fazer um gesto apaziguador. — Estou dizendo que ter Matt por perto funcionava quase sempre como um porto seguro para nós dois. Estarmos aqui, e termos acordado no mesmo local... mas ele não está por perto, e nenhum de nós sentiu ou sabe onde ele está. Geralmente, um de nós é sempre o primeiro a encontra-lo em qualquer que seja o local desses desafios. Agora está tudo mudado. Fico me perguntando se é algum plano novo do Leandro, e se ele colocou o Matt num local diferente...

— Matt tem que estar aqui — insistiu Isabella. — Tem que estar. Precisamos acreditar nisso.

Gustavo assentiu.

— Leandro gosta de nos manter todos no mesmo campo minado. Provavelmente Matt está zanzando pelo Santuário e só não o vimos ainda. Mesmo assim... está tudo muito estranho. Primeiro, por estar tudo tão silencioso...

— Eu estava pensando nisso — admitiu ela. — Nunca soube de uma época em que o Santuário estivesse tão deserto. Não dá pra ver muita coisa de longe. Talvez devêssemos subir e dar uma olhada, para o mar, para a cidade... Talvez isso nos dê pistas.

— Parece uma boa ideia. Me sinto mais seguro se tivermos um plano para nos orientar. E então, me diz, para onde olharemos primeiro? Para o mar ou...

— Gustavo, olhe!

Isabella apontava, alarmada, sem que nenhum dos dois tivesse sequer saído do lugar para colocar em prática o plano de observar a encosta ou a cidade para se situarem acerca de em que época estavam.

O garoto se virou. Na direção para onde ela apontava, um outro adolescente estava de pé, olhando para eles. Tinha mais ou menos 1,70m de altura, de aspecto asiático, olhos de cor topázio e cabelos castanhos de uma tonalidade quase pendendo para o vermelho. Para completar a descrição inusitada, o garoto usava a armadura de Pégaso dos pés à cabeça — com exceção do elmo, que segurava na mão direita.

O pior de tudo é que Gustavo tinha praticamente certeza de quem ele era — mas se estivesse certo, aquilo só gerava mais dúvidas sobre a época para a qual Leandro os havia mandado.

— Seiya...? É você mesmo? — disse Gustavo, sem pensar, andando em direção ao adolescente recém-chegado.

Mal Gustavo dera cinco passos direito, o outro estendeu a mão na direção deles, como se estivesse dizendo-lhes para não se moverem mais um único passo.

— Seiya? Seiya? Do que está falando? Com quem é que você está me confundindo??

Isabella ofegou, cobrindo a boca com uma das mãos.

— G-Gustavo, acho que ele não é o...

— Ora! — exclamou o tal garoto. — Eu sou Tenma. E vocês, quem são afinal? Na certa, invasores querendo prejudicar o Santuário. É meu dever detê-los e manda-los embora daqui!!