Os Cânticos de Prime
2 O Padrinho I [3.0]
Notas iniciais
— Tempestade maldita — praguejava o mercador cuspindo água.
Devia ter dado ouvidos ao estalajadeiro. Devia ter permanecido na estalagem e esperado a chuva estiar, ela estiaria na mais otimista das hipóteses; e uma hipótese otimista seria melhor do que aquela tempestade de merda. Mas nada garantiria que a chuva estiasse, há dias ela caia em torrentes continuas e furiosas e ventos tempestuosos; e aquele velho poderia ainda tentar roubar suas crianças, já acontecera antes.
Sua capa era como uma flâmula em meio a um vendaval, e não consegui manter a chuva longe de sua pele. A estrada havia se tornado uma maldita armadilha sinuosa e imprevisível, e mesmo com seus anos de experiência, Dévis não podia prever os charcos e buracos pelo caminho à frente, teria que confiar em seus cavalos; que puxavam a carroça há um ritmo vagaroso e metódico demais para seu gosto.
O mercador soltou mais alguns praguejos amaldiçoando-se por ser tão idiota e louco. Os gouzeshs eram pacientes e apreciavam o sabor da chuva, mas ele não. Eram praticamente peixes em forma de cavalo, próprios para o trabalho que exerciam. Diferentes dos cavalos de sangue que percorriam longos caminhos com rapidez, eles eram cavalos lentos, porém fortes, atarracados e resistentes as intempéries, trazidos do outro lado do Mar Negro. Valeram cada moeda, sem eles nunca teria chegado tão longe naquele tempo.
Crianças eram uma mercadoria complicada de se carregar. Sensíveis demais, frágeis demais, ingênuas demais e fracas demais. Mesmo após quase três anos, Dévis ainda custava a acreditar que realmente haviam pessoas boas que pagavam para quem as resgatasse. “Uma ova que exista gente tão altruísta”, mas não questionava aos sacerdotes de branco, se eles queriam pagá-lo por isso, ele receberia a prata de bom grado. O que faziam com aquelas crianças era problema deles. Dessa vez conseguira sete, todas órfãs supunha ele como sempre, era o mais sensato a se concluir. Tempos de guerra geram órfãos de guerra, nada mais natural.
Dévis se considerava um homem oportunista, talvez pelo fato de realmente ser deste tipo. Ganhara seus primeiros tostões vendendo peixes cebolas e melões de um fazendeiro que havia morrido e deixado suas plantações para a sorte. Comprara uma vez a carroça de um viciado em raíz de virgo. Fez sua primeira grande viagem acompanhado da segurança da comitiva do rei do oeste que cruzava Frevor a passeio. Se casara com uma bela donzela filha de um fazendeiro a beira da morte; e ainda nutria amores pela mulher que o trocara por um guerreiro do norte. Agora carregava crianças para a Casa Alva em troca de prata. Tudo uma questão de ver a oportunidade e aproveitá-la; e quem poderia julgar um homem por aproveitar as oportunidades da vida?
Quando se tornou Padrinho, não havia imaginado que o mercado de crianças seria tão rentável. Crianças famintas, esfarrapadas, mendicantes e com o mínimo de aparência semimorta valiam até dez vezes mais do que muitas das porcarias que vendia, e como viajante era comum encontrar algumas por seus caminhos. Claro, como todo nicho de mercado, na “padrinhagem” também havia concorrentes. Homens de “bom coração” haviam aos montes pela Estrada do Mercador e nas cidades em seus arredores, e Dévis sabia que era o responsável por boa parte deles. Por vezes — quando estava levemente bêbado ou com um seio em cada mão — se gabava de como conseguia dinheiro fácil carregando crianças para um tal lugar, não demorou para tavernas, estalagens e bordéis serem preenchidas pela balbúrdia de “padrinhagem para casa a Casa Alva”. Ainda se odiava por isso. Dévis língua solta, Dévis o boca grande. Dévis até suspeitava que haviam aqueles que faziam órfãos para “salva-los” logo em seguida.
A Rota do Mercador por onde sempre viajava era uma estrada que cruzava pelos quatro reinos. Possuía vias que levavam para cada grande centro de comércio de Ellrouh. Lizah, Mirrah, Dantas, Muzurel, Porto Verde, Manta Grande, Manta Baixa, Arh, Isra e até as terras do Reino sem Rei Nenhum. Em seus muitos anos de mercador já havia viajado para cada canto e provado de todo tipo de bebida e comida; e mulher, mas disso não se gabava, um homem não se gaba por pagar para receber prazer. Mas de todos os lugares, o único que dominava seu coração e seus pensamentos ainda era seu lar, Vila Marin. Um vilarejo modesto no extremo oeste de Frevor para onde sempre jurava voltar, mas sua ganância e luxúria nunca permitia.
A chuva continuava a cair em torrentes cada vez mais ferozes. Já estava molhado até os ossos quando se deu por vencido e concluíra que não chegaria a lugar nenhum naquela noite. Saltou para dentro do toldo, aninhou-se junto às crianças e caixotes de mercadorias e deixou o par de gouzeshs parados sob a intempérie; eles sequer pareceram se importar.
Um cheiro de bolor, ferrugem e mijo enchia o interior do toldo. A chuva havia estragado seus pães, peixes, nabos, batatas, repolhos e rabanetes. Também havia enferrujado e embotado o aço que achara pela viagem; tudo que supunha ter o mínimo de valor valia a pena ser carregado, poderia vendir um elmo velho para um cavaleiro pobre, ou para um pobre que queria ser cavaleiro.
Para deixar as crianças mais confortáveis, havia pendurado uma lamparina a um gancho toscamente improvisado no teto. Ao menos elas não pareciam estragadas. Choravam e fediam, mas ainda estavam inteiras, com algum valor.
O piso da carruagem estava úmido e rangia ao mais brando movimento, e a chuva que batia contra a lona encontrava frestas, trazendo para dentro lambidas da tempestade. Sob a luz lúgubre da lamparina — que lutava para permanecer acesa — os pequenos estavam aninhados em seus cobertores fedorentos e pareciam desconfortáveis com a presença de Dévis. Fodam-se com esses seus olhares, eu sou tudo que vocês tem. Pensou. Elas tinham sorte dele as ter encontrado, não durariam muito tempo sozinhas. Ao menos com ele tinham comida, abrigo e um destino em que sonhar.
Duas meninas e cinco garotos. Nenhum dos órfãos parecia ter mais de oito anos, exceto um. Um dos garotos era esguio e um palmo mais alto que os demais, tinha um cabelo louro caindo aos ombros e os olhos de um azul frio como o céu de inverno. Já com onze ou doze anos, supunha Dévis. Este não ficaria muito tempo na Casa Alva, teria que encontrar logo sua vocação. E pela expressão em seu rosto, Dévis tinha a certeza que ele também sabia disso. Era velho demais para ser um órfão e jovem demais para ser homem.
Cada uma estava perdida em seus próprios devaneios. Dévis já estava nesse ramo há tempo suficiente para saber que não devia cutucar os pensamentos deles; não eram seus pensamentos que o interessavam. Mérril, Tonko, Bart, Zogg, Varne e Crispin, eram seus nomes, sabia por que perguntara a cada um; era uma das duas perguntas que fazia à elas quando as encontrava — você deve saber o nome de quem viaja contigo —, e elas respondiam sem cerimônia. Apenas uma não respondera, a menina dos cabelos de verão. Ele a encontrou desamparada à porta de uma estalagem nos caminhos de Frevor. Ela não mendigava e sequer tentava roubar — como era comum entre os órfãos —, ela apenas estava lá, encolhida, suja e faminta, esperando pelo seu destino. Tudo que tinha era uma bolsa de couro velha e corroída que agarrava contra o peito com afinco, se segurava ao objeto como se ele a protegesse, como se ele fosse um escudo. Dévis se aproximou cauteloso, apresentou-se e ofereceu-se para levá-la para a Casa Alva como sempre fazia, ela o olhou com olhos molhados, mas não respondeu com palavras, apenas com um abraço apertado e caloroso; as vezes abraços como aquele compensam a falta de um nome. E ali estava ela, a garotinha sem nome, ainda agarrada ao seu escudo. Dévis nunca tentou descobrir o que havia dentro da bolsa. Cada um tem seus segredos, mesmos garotinhas que lembram a uma romã.
A chuva continuou com todo seu ímpeto durante o resto da madrugada. Dévis dormia um sono leve quando despertou com uma sensação estranha, assim que abriu os olhos viu um raio iluminar a escuridão e ser seguido por um trovão que cruzou o céu e atingiu o chão como o soco de um gigante, a carroça tremeu e as crianças despertaram assustadas. A lamparina havia se apagado e do lado de fora os cavalos relinchavam. Gouzeshs não se assustam com tempestades e trovões, Dévis sabia disso, não eram chamados de cavalos d'água por nada. Meio receoso — e fazendo um esforço tremendo —, colocou a cabeça para fora do toldo e viu o motivo que levara os cavalos ao furor. Uma figura negra e esguia se mantinha inerte logo a frente na estrada. Quase como um vulto no meio da escuridão, era uma sombra quase imperceptível na tempestade. Sobre sua cabeça o céu parecia abrir-se e nenhuma gota de chuva parecia tocá-la.
Os cavalos d’água relinchavam e se erguiam nas patas traseiras. Em suas costas, Dévis ouvia as crianças remexendo-se apavoradas. Ele compartilhava do mesmo pavor, mas tentava controlar sua tremedeira. Sem saber o que fazer, tateou pelas caixas e seus dedos encontraram o punho de uma espada embotada, a agarrou e aguardou. Ele não poderia ser fraco e temeroso, era um homem; era um Padrinho.
A sombra então deu um passo, que foi seguido por outro, e a cada passo dado em sua direção o céu parecia se mover com ela. Os cavalos relinchavam tentando manter distância, teriam corrido se não estivessem amarrados. A carroça balançava com seus movimentos, verduras, caixas e aço caiam e rolavam pelo assoalho. Dévis em um ato de coragem — ou tolice — saltou para fora de espada em mãos, caindo sobre a lama da estrada.
Ventava frio e a tempestade forte turvava sua visão. Lutou para se erguer, manter a postura e não recuar, mas seu corpo não respondeu, estava paralisado e a sombra se aproximava vagarosa. Apertava com força o punho da lâmina, incerto se a usaria da maneira correta, nunca usara uma espada na vida e esperava que a criatura não notasse sua falta de maestria. Também nunca matou nada e nem ninguém, esperava que ela também não percebe-se sua falta de sangue-frio.
A sombra já estava a quatro metros de distância quando ela passou a emitir uma presença estranha, idílica; uma sensação de serenidade que fez os cavalos se acalmarem. Mas Dévis permaneceu resoluto com a espada em mãos enquanto ela caminhava em sua direção. Estacou à um braço de distância. Tinha a forma de um homem, mas Dévis sentia que era muito mais que isso.
A figura fez um movimento suave e um braço pareceu surgir dentre o manto negro. Dévis sentiu o coração saltando pela boca. Ela sacaria uma lâmina e cortaria sua cabeça, sabia disso, tinha certeza. Depois seriam as crianças. As crianças. Buscou forças onde não sabia que havia, buscou coragem para erguer sua espada sem fio e defender-se. Entorpecido, tudo que conseguiu foi se esconder atrás de seu aço como um gato assustado. Fechou os olhos e esperou pelo pior.
Mas o pior nunca veio.
Aguardou o ataque, o som de aço contra aço. Aguardou pela dor e pelo seu sangue deixando seu corpo, mas não houve nem um e nem outro. Reabrindo os olhos — com relutância e medo— viu uma criança maltrapilha abraçada à uma perna nua sob o manto negro. Ela vestia trapos e estava descalça sobre o barro da estrada.
Dévis abaixou a espada e a fitou. Era um menino esquálido e com a pele de um estranho tom cinzento. Ele o olhava com olhos temerosos e sem esperança. Então Dévis deu-se conta de seu erro, de sua ingenuidade. Era uma armadilha, um ardil das trevas. Reergueu a espada em um último gesto de desespero, mas já era tarde, a criatura ergueu sua voz.
—Dévis! — disse ela calmamente, a voz soando como uma lâmina de trovão. — Filho de Devé e Jalra. Dono dessa carroça. Dono de uma casa em Vila Marin, dos dois gouzeshs à minha frente. Dono de repolhos, cenouras, batatas, peixes, nabos e rabanetes. Dono de caixas, barris, cobertores, pães e leite. Dono de aço, dono de ferro. Dono de prata, dono de cobre. Bom homem. Padrinho.— A última palavra veio em um tom suave como um beijo.
Dévis ficou estático e estarrecido, apenas escutando a voz que lhe cortava e lhe afagava.
—Este é Qain, sem nada, feito de cinzas, o Último. Lembre seu nome, tenha compaixão dele, ele nunca será tão feliz quanto você.
O garoto deu um hesitante passo à frente, ainda agarrado à perna do “homem”. Olhou de viés para ele com olhos suplicantes e ele anuiu com um balançar de cabeça para que ele continuasse.
Dévis olhou para baixo meio aliviado, surpreso e temeroso. O menino era como toda criança que encontrara pela estrada, tão coitado quanto qualquer outro, tão lânguido quanto qualquer órfão. Tinha a tez em um estranho tom de cinza, seus cabelos eram grisalhos e desgrenhados. Tinha os pés descalços e sob o pano velho e molhado que vestia, suas clavículas salientes e seus ossos peitorais eram visíveis. Dévis largou a espada e agachou-se ficando na altura dos olhos do garoto. Olhos de um preto brilhante e belo, mas que soavam tristes e sem vida.
Por um breve momento sentiu o gosto de lágrimas lhe envolvendo os lábios, até chegou a pensar que a água da chuva havia se salgado. Dévis nem havia se dado conta da compaixão que estava tendo por Qain; a criança que nunca seria tão feliz quanto ele, um mercador miserável.
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