Os Amuletos das Trevas - O Diamante das Neves
1 O Registro
Notas iniciais
Sttrack ainda estava saindo do banho quando ouviu o barulho da suas gavetas estarem sendo abertas. Revy! Pensou Sttrack, já furiosa.
– O que você está fazendo no meu quarto? – Ela saiu do banheiro já com a sobrancelha esquerda levantada demonstrando sua ira.
O grito de Sttrack foi tão alto, que Revy derrubou tudo que estava na mão dele e gritou de susto.
– No que você está mexendo? – disse Sttrack, irritada com uma das mãos na cintura – Eu espero que você não esteja lendo meu diário, seu Zé povinho.
Zé povinho é uma gíria vinda do Brasil. Significa que a pessoa é curiosa, que ela está querendo saber algo que não diz respeito a ela.
– Eu juro que só estava procurando pilha para colocar no meu joystique – Revy respondeu com a voz tremula ainda se recuperando do susto que levou.
– Da próxima vez que precisar de algo, venha e pergunte para mim, não saia procurando nem mexendo nas coisas das outras pessoas – Ela estava furiosa – isso é feio, e eu vou contar para a mamãe.
– Não! – Ele correu em direção a Sttrack, já se ajuelhando – eu te imploro. Ela já está brava o bastante comigo. – seus olhos estavam marejados, ele estava quase chorando.
Revy tinha 11 anos, mas todos ainda o tratavam como se ele fosse um bebê. Até parecia um bebê, pois ele sempre estava de camiseta muito bem passada branca, com um suspensório preto e de bermuda jeans. Ele fazia tudo que queria, e quando queria.
– Tá – ela não resistiu à cara de choro que ele fez há convenceu de não contar. – Mas saia daqui logo antes que eu mude de idéia.
Antes que ela terminasse a frase, já não podia mais ver rastros de Revy no local.
Ela começou a recolher tudo do chão, colocando dentro de uma caixa que ficava dentro do seu guarda-roupa. Ela guardava várias lembranças que ela recebia de sua mãe, Rennée, dentro daquela caixa.
Logo, ela já estava sentada com um livro na mão, treinando e tentando decorar feitiços de autodefesa.
Sttrack faria 16 anos naquele ano, e ela já seria chamada para Scxioslli, a cidade dos Bruxos, para começar a treinar e a estudar. Ela só pensava em estudar, para que um dia ela fizesse parte do governo dos Bruxos.
– Prafdak – disse a menina, estalando os dedos e abrindo a mão em seguida. Uma bola de fogo se formou em sua mão, e ela sorria como se estivesse descoberto aquilo naquele momento. Esse era um dos melhores feitiços que Sttrack sabia fazer, já que ela executava poucos com sucesso.
– Para de brincar e vá ler – uma voz sepulcral soou da porta – A não ser que você queria ser apenas mais uma escrava sexual de Bruxos igual a mim. – era Rennée, mãe de Sttrack. Ela tinha participado do treino há muitos anos, e não passou. Por ser uma bela feiticeira, ela foi escolhida diversas vezes para satisfazer o desejo de Bruxos.
– Mãe, me conta um pouco sobre o que acontece quando não consegue entrar para o governo? – perguntou Sttrack suavemente, com sua voz meiga. Sttrack era muito curiosa, e por mais que Rennée sempre se recusasse a falar do governo, ela sempre insistia em perguntar. Sabia muito pouco sobre o que acontecia com as feiticeiras quando elas não ingressavam no governo.
Rennée entrou, ela estava belíssima como sempre, mesmo estando em casa. Com um vestido de couro cor de vinho bem justo, o seu cabelo negro e longo estava trançado, e ela estava com uma bota que quase chegavam ao joelho.
– É bem simples – sua voz era fria – Quando você não passa no teste, você se torna apenas mais uma feiticeira normal. – parecia que ela tinha terminado de falar.
– Só isso? Eu queria... – Ia dizer Sttrack, até que ela ouviu novamente a voz forte e alta de sua mãe.
– Ainda não terminei! – disse com firmeza. – Antes de ir para Scxioslli, você precisa saber de algumas verdades. Nós feiticeiras fazemos parte da e3, a estirpe três, conhecida como casta menor. Existe a e1, estirpe um, que são os Bruxos e as Bruxas. Existe a e2, estirpe dois, que são os Magos. E existe a e4, a estirpe quatro, que são os humanos. – ela tossiu, como se precisasse de água, mas prosseguiu – E quando nós vamos fazer o teste, e não passamos, somos registradas como renegadas, continuamos com nossos poderes, mas não podemos usá-los fora de Scxioslli. Quem utilizar é morto. Somos a única casta que se não passar no teste, é expulsa de Scxioslli, e só pode retornar de novo, com um Bruxo. – ela olhou para baixo, como se estivesse incomodada.
– E por que você vai frequentemente para Scxioslli? – ela estava neutra, mas sabia que algo estava errado.
– Não seja tola minha filha. Bruxos só querem transar com Feiticeiras renegadas. – ela olhava para o chão, e não levantava a cabeça, como se aquilo que ela fosse contar envergonhasse-a. – Quando vou a Scxioslli, é apenas para dar prazer a Bruxos, e ganhar dinheiro para sustentar você e seus irmãos. As Leis de Scxioslli são rígidas, elas impõem que Bruxos só possam se casar com Bruxas, para manter o sangue. Feiticeiras só podem ter relações com Bruxos para procriação, assim, se eu engravidar, minha filha pode nascer, Feiticeira ou Bruxa, e meu filho pode nascer Mago ou Bruxo. – Rennée parecia estar sendo forçada a contar aquilo, sua voz estava fraca e sem firmeza. Algo incomum para ela, que era uma mulher muito forte.
Sttrack olhava para ela sem reação, o seu rosto dizia o quanto ela estava surpresa e chocada.
– Então... – sua voz estava fraca, sua garganta estava tão seca que parecia que há anos não passava um gole d’água. – eu poderia ter nascido uma Bruxa? – parecia que aquela frase nunca iria acabar.
– Sim – aquela voz sombria e forte voltara a ser executada por Rennée.
– Então Revy e Marshall poderiam ser Bruxos? – ela parecia querer chorar, mas era muito orgulhosa e não gostava que ninguém a visse chorar. Nem mesmo sua própria mãe.
– Isso mesmo. – Rennée era tão fria, que ela voltou a agir como sempre, estava com uma postura impecável, e uma voz forte e sepulcral. – Mas pela minha linhagem, era muito difícil que vocês nascessem Bruxos. Só se o pai de vocês fosse um Original.
Sttrack estava sem reação, estava se recompondo, a vontade de chorar estava passando aos poucos. Mas mesmo assim ainda estava curiosa
– O que é um Original? — Disse Sttrack, com tom de curiosidade, mas ainda bastante surpresa.
– Já está na hora de você saber das coisas, faltam poucos dias para você ir para Scxioslli – ela falava como se fosse continuar – mas chega de histórias por hoje. Tudo que você quiser saber eu te falo amanhã. Vá dormir. – ela se inclinou como se fosse beijar a testa da filha, mas recuou logo após.
– Está bem – disse Sttrack, com uma cara de arrasada.
– Tenha uma boa noite. Ti Extrange demt lè’s. Ay Boskurzány Mèjur – disse Rennée, em uma língua que Sttrack não entendia muito bem.
– Que Extrange me proteja. A Feiticeira Maior. – sentada, Sttrack viu sua mãe sair do quarto e fechar a porta.
Ela apenas deitou a cabeça no travesseiro, com o intuito de pensar, mas em poucos minutos, já estava dormindo.
Uma névoa de fumaça toxica se formara no quarto escuro, e Sttrack tentava tampar o nariz. Quase sem sucesso, ela estava fraca e quase desmaiando, até que uma luz surge em sua frente, uma voz sombria toma conta da sala – Fale onde está sua mãe! – a voz era tão sombria ao ponto de arrepiar a espinha.
– Não sei do que você está falando – a voz da garota era fraca, seus olhos estavam quase fechados, a única coisa que a sustentava era a parede onde ela estava encostada
– Santuex – disse a voz. Sttrack podia sentir sua pele começar a queimar, uma dor insuportável, mas sem forças ela não conseguia nem gritar. Aos poucos, em meio a dor e a sonolência, a voz ficava cada vez mais forte repetindo diversas vezes – Santuex. Santuex. Santuex. – mesmo sentindo uma dor insuportável, ela continuava acordada, e assim, pode ver o dono da voz perto de você, e logo ela levantou a cabeça para ver o rosto daquele que a fazia quase chorar...
– Acorda – a voz era de sua mãe. – Um Bruxo veio te registrar em Scxioslli.
– Mãe! – ela abraçou a mãe como se tivesse aliviada em vê-la. Mas ela estava muito aliviada em vê-la, já que o em seu pesadelo Rennée era o foco principal. – Você está bem?
Rennée franziu o rosto, surpresa com o abraço da filha. Sttrack e Rennée não tinham costume de se abraçarem, ambas eram de personalidades fortes e eram muito orgulhosas, não gostavam de demonstrar sentimento.
– O que aconteceu? – disse Rennée
– Eu tive um pesadelo, aonde uma pessoa te procurava, queria saber de qualquer jeito onde você estava, e ele começou a me torturar com uma espécie de feitiço das trevas – ela estava nervosa, era imperceptível não ver sua mão tremer. – Santuex. Conhece?
Rennée arregalou os olhos. Olhou para baixo, como se estivesse escondendo algo, e sempre fazia isso quando não queria contar.
– Conheço. E isso não é feitiçaria, é Magia Negra. – ela estava incomodada. – Era uma Magia comum usado no inicio do ciclo Bruxo, antes da concórdia, para matar Feiticeiras. – Rennée não olhava para a filha, ela mexia na unha olhando para o chão. – onde você ouviu ou leu essa magia?
Sttrack olhava para mãe, e percebia que ela escondia muitas coisas, e por isso nunca contou para filha, pois ela tinha vergonha, ou talvez medo.
– A primeira vez que ouvi isso foi no meu sonho. – ela falava com um tom de arrogância, como se estivesse brava por não saber de diversas coisas que sua mãe sabia. – por que você não me conta esse tipo de coisa? – ela a interrogou, com uma voz firme.
– Você ainda não está totalmente preparada para ouvir tudo, mas antes de você ir pra Scxioslli eu lhe contarei muitas coisas. – ela olhava para filha como Revy olhava para Melody quando fazia algo de errado. – agora vá escovar os dentes, tem um Bruxo na nossa sala te esperando. E tenho certeza que ele já deve estar impaciente.
– Tá. – ela falou sem olhar para mãe.
Rennée estava saindo o quarto, quando ela virou para falar algo, mas desistiu, apenas respirou fundo e saiu.
Sttrack sabia que sua mãe era uma das melhores Feiticeira que ela já conheceu. Por mais que ela não tenha passado no teste, conhecia sua mãe o bastante para dizer que ela era uma Feiticeira sábia.
Ela não precisava se arrumar tanto para ser registrada, bastava ela tirar a roupa que ela dormir, que na realidade era a mesma do dia seguinte, pois ela apenas deitou e dormiu, não trocou nem de roupa. Mas ela preferiu se arrumar bem. As Feiticeiras são lindas, ainda mais quando querem ser mais lindas ainda. Sttrack não era diferente, era muito vaidosa.
Ela entrou na sala e logo viu Revy sentado no sofá, olhando para televisão fixamente, sem nem pisar, mas logo viu que todos no local direcionaram o olhar a ela. Ela estava linda, mas de um jeito adolescente, um seu cabelo longo e loiro, muito liso e enrolado nas pontas, jogados a frente do seu seio. Ela usava uma camiseta regata preta, que mostrava boa parte do seu sutiã também preto, com uma estampa de uma frase, I Love NY. Uma calça skinning vermelha, e um tênis um pouco desgastado, de cano médio todo preto.
Ela não tinha visto o Bruxo ainda, mas logo viu o mesmo com sua cara emburrada sentado no sofá assistindo o mesmo que Revy. Ele logo a viu, e levantou falando – Pensei que Feiticeiras fossem mais comprometidas com horários. – disse Matic, com um tom carregado de puro sarcasmo e zombaria. Magnetic Khaskzospy, o Bruxo mais jovem a se tornar parte do governo. Talvez o mais famoso fora da Liga dos Bruxos Maiores. – eu não vou registrar nenhuma Feiticeira vestida dessa forma.
Sttrack estava furiosa. Quem ele pensa que é manda dizer o que eu devo ou não vestir? Pensou ela. Foi direto para o seu quarto, e sem pensar, bateu a porta com muita força ao entrar, que caíram todas as roupas que estavam penduradas atrás da mesma. Sttrack ficava dificilmente furiosa, mas aquele Bruxo já tinha há deixado o bastante para ela querer quebrar tudo que via pela frente. — O que eu vou vestir então? Eu não sei com que roupa eu devo ser registrada, nunca fui. – ela gritou com o intuito do Bruxo ouvir. Logo após as provocações, sua mãe entrou no quarto, com algumas peças de roupa nas mãos.
– Vista isso. Comprei para você, mas esqueci de lhe entregar – sem nem olhar para filha, ela saiu do quarto batendo a porta.
Uma camiseta regata branca, simples, o que deixava Sttrack incomodada, pois ela adorava camisetas estampadas com frases, como aquela “I Love NY”, mesmo nunca ter visitado Nova Iorque. Uma calça muito justa preta, que quase não entrou se ela não fosse magra. Uma bota preta, quase igual a uma que seus amigos Roqueiros usavam, só que mais bonita, com fivelas de prata de verdade, o que a deixava surpresa. Uma jaqueta de couro cor de vinho, o que era previsível, já que era a cor favorita da mãe.
Ela retornou a sala com uma cara emburrada, quase que sem vontade – Tá, já tô pronta para ser registrada. Vai logo, não sou obrigada a ficar olhando para essa sua cara ridícula o dia inteiro. – ela olhava para o menino com desprezo, que ainda estava sentado. Mas reparava em seus olhos castanhos, e seu cabelo quase cor de madeira, lisos e arrepiado.
– Bem melhor. – disse Matic, com um ar de deboche para moça. – ridícula? Não parece, pois você não para de olhar a minha beleza. – ele riu, mostrando que estava mesmo debochando da garota.
– Até parece. Estou escolhendo qual é sua parte mais feia do rosto, são tantas... – ela deu um sorriso de canto, levantando a sobrancelha direita.
– Já não podemos dizer o mesmo do seu rosto – ele levantou sacando uma varinha. Tinha cerca de 40 centímetros, era preta e tinha detalhes como se uma cobra estivesse envolvida na varinha – não tem o que escolher... Seu rosto é feio por inteiro. – ele riu, puxando-a para perto com força, levantando a manga da sua jaqueta para começar o registro.
Sttrack nem reparou que ele a insultou, ela estava muito nervosa no que iria acontecer com ela. Sua mãe nunca tinha dito como era feito um registro.
– Peço que todos saiam do local, fique apenas a garota. – ele se sentia superior. Talvez fosse.
– Se for para me pedir desculpa não precisa nem abrir a boca, eu aceito. Aceito tudo para não sentir seu mau hálito de novo. – ela encontrou forças para debochar, mesmo com a sua barriga revirando de nervoso.
Ele encostou seu rosto bem perto do rosto da garota – Cala a boca, Feiticeira – Matic ainda estava sendo sarcástico. Mas logo parou e começou a dizer palavras que Sttrack não estava entendendo. Ele apoiou a sua varinha no pulso da garota, e uma luz branca se formou, queimando a pele da garota, que estava tentando não gritar de dor. Cedrus Reymond, o Bruxo Maior, registre este ser com o seu poder. Foi tudo que ele disse, e depois retirou a varinha de cima do pulso da garota.
– Bom, por hoje acabamos – disse Matic, com um tom suave. – foi bom te conhecer, garota sórdida.
– Por hoje? – ela gostaria de nunca mais vê-lo, mas pressentiu que essa não seria a última vez que eles iriam se encontrar. — Não posso dizer o mesmo, Bruxo imundo.
– Sim, por hoje, pois a partir de agora eu sou o seu Nume, o seu protetor. – disse ele acenando enquanto saia pela porta. – Sei que você me achou atraente. Todas acham! – ele riu sarcasticamente, e logo fechou a porta, não dando tempo de a garota responder, mas dando tempo para ele ver o sinal que ela fez com a mão, mostrando o dedo do meio.
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