Os Amores De Luzia
3 Capítulo 3
Luzia apareceu para nós dois ao mesmo tempo, há uns três anos atrás. Tínhamos 15 anos na época, e o Helio andava meio triste porque o cachorro da mãe dele tinha morrido louco de idade. Engraçado pensar que o Helio quase nunca chorou, mas as poucas vezes são para mim as imagens mais vivas em todos os nossos anos de amizade. O cachorro, no entanto, nem sequer ligava para ele. Aproveitava os momentos de diversão, mas não tinha apego. Era um vira lata gordo e babão que vivia atrás e para servir a mãe do Helio. Mesmo assim Helio insistiu em conduzir o enterro com palavras em lágrimas sofridas por ter perdido alguém que ele acreditava ser seu companheiro nas tardes em que passavam brincando juntos. A mãe do Helio então sugeriu que eu fosse com ele escolher um novo bicho de estimação, que poderia ser só dele. Quando ele disse que nenhum cão substituiria seu antigo companheiro, falei sobre meus pensamentos de que o cachorro nem ligava pra ele. Tomei um soco que me jogou no chão. Depois, ele estendeu a mão pra mim e me ajudou a levantar, passando o braço em volta do meu pescoço.
– Companheiro de verdade é só você, irmãozinho.
Fomos procurar cães para adotar, por fim. Chegamos à um abrigo que acolhia bichos de rua. Helio foi claro ao dizer que queria um filhote. Em pequenas jaulinhas, com olhos chorosos, os cachorros ganiam desesperados disputando a escolha. Na esperança de ajudar, fui dizendo os que mais gostava, falando bobagens sobre detalhes de cor e pelo diferença de macho e fêmea e coisas que tinha lido em revistas de raças. Eu só queria ajudar. Foi quando percebi que o Helio não tinha ouvido uma palavra do que eu estava falando. Os olhos estavam vidrados no outro lado da sala, onde ficavam os gatos. Uma garota olhava encantada, agarrando todos os bichinhos na dúvida de qual levar. Fiquei puto com a desatenção do Helio aos meus esforços. Como se estivesse hipnotizado, caminhou em direção às jaulas dos gatos.
– Helio, porra, você é alérgico à gatos.
Eu sabia que ele já estava decidido à aproximação. E jogou baixo. Ficou na surdina, fingindo que olhava os gatos. Percebi que ele esperava o momento que não demorou muito pra chegar, em que os olhos da menina cruzaram-se com um gato numa das jaulinhas mais altas. Um gato laranja e preguiçoso, que ficava se esfregando na grade, alheio à barulheira que seus irmãos de raça faziam para serem adotados. Vi o amor nascer nos olhos da menina e quando seus braços finalmente teve forças para levantar, Helio agarrou o gato.
– Achei, Dan! É esse!
O filho da puta me incluiu na merda de conquista dele. Eu estava horrorizado com o que o Helio havia feito e envergonhado. Os olhos da menina brotaram em lágrimas, mas ela se esforçou para não chorar na nossa frente. Tentei, perdido, pedir desculpas e já ia argumentar com o Helio quando ela virou as costas e saiu, pisando firme.
– Que belo idiota você, Helio.
– Calma irmãozinho, segura o gato aí. É esse mesmo que eu quero. Me encontra em casa.
E ele saiu atrás da menina. Eu estava de saco cheio do Helio. Peguei a porcaria do gato e esperei, como ele havia perdido. Na saída do abrigo, ví que ele seguia discretamente a menina. Não queria pensar o que ele iria fazer. Fui pra casa dele, entreguei o gato, não expliquei nada para a mãe dele e dormi no quarto dele jogando vídeo game. Acordei com ele entrando quando o relógio em réplica do foguete Apollo 11 dele marcava meia noite. Tinha nas mãos gato com um grande laço vermelho no pescoço.
Não sei como ele me convenceu à fazer aquilo, mas na manhã seguinte, aparecemos com o gato e um buquê que fizemos com as flores que encontramos até a porta da casa da menina. Quando a porta abriu, senti nascer em meu peito aquela mesma sensação que havia registrado nos olhos dela no dia anterior. Os mesmos olhos com que Helio a percebeu pela primeira vez. Quando nos viu, abriu uma grande gargalhada, as lágrimas emocionadas brotando nos olhos diante de uma armação tão cretina e tão bonita só para ganhar uma única coisa:
– Prazer, meu nome é Luzia.
Luzia!
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