Os Amores De Luzia
2 Capítulo 2
– O foda é que eu estou com medo de bombar de novo.
Eu já nem prestava muita atenção no que o Helio falava e provavelmente ele mesmo não estivesse. Comia seu lanche tranquilamente. Ele não tinha medo porcaria nenhuma. Pra ele tanto fazia o que aconteceria. A única coisa que o Helio queria do seu futuro, nesse momento, era saborear todo o lanche que ele acabara de comprar na cantina da escola.
– Quer um pedaço? — Helio me acordou dos pensamentos enfiando o lanche na minha cara. Mordi. — Você tá muito quieto hoje.
– Faz um tempo que eu estou pensando em umas coisas. — Eu não queria, exatamente, falar com o Helio sobre tudo aquilo, mas também precisava falar. Esse foi um dos maiores problemas da vida: sempre precisei expor para alguém o que eu estou pensando e a única pessoa pra quem eu podia fazer isso não se importava nem um pouco pro que eu tinha que falar. Fui condenado ao Helio desde pequeno e aprendi a me virar com esse melhor amigo que agia o tempo todo com uma irresponsabilidade irresistível.
– Que tipo de coisas, Dan? — Percebendo que a conversa ia entrar num assunto mais sério, Helio já puxou um cigarro para acender e me mostrou sua melhor cara de tédio.
– Estive pensando... Em tudo.
– Que bom! A gente pode matar todas as aulas e falar sobre a vida! — Helio respondeu ironizando.
– Estou dizendo em tudo o que vai acontecer, Helio.
– Como assim? — Helio se remexeu no banco. Ele entendia perfeitamente sobre o que eu estava falando. Tenho certeza que devia, inclusive, pensar nisso tanto quanto eu.
– Pra onde a gente vai, Helio? — Perguntei sério. Helio deu um trago no cigarro, concentrado num ponto qualquer que estava na sua frente.
– Se eu me foder nas provas finais, não vou pra lugar nenhum. — Disse, soltando a fumaça.
– O que você quer fazer da vida, Helio?
Helio engoliu em seco depois da pergunta. Ficou longos minutos em silêncio. Continuei firme, olhando para ele, querendo minha resposta. Por um segundo, mas só um segundo, pensei ter visto lágrimas brotarem nos olhos de Helio. Fiquei comovido. Cheguei até a me arrepender de ter entrado no assunto. Raras foram as ocasiões que o Helio chorou e eu estava com ele em todas elas.
– Artes cênicas, você sabe. — Helio tragou o cigarro novamente, abrindo um largo sorriso.
– E eu...
– Vai fazer cinema!
– Helio...
Helio soltou uma larga gargalhada. Quando tínhamos dez anos vimos juntos um filme do Antonioni, mas já nem me lembro qual. Estávamos extasiados pela mordida num sabor novo, nas imagens que nos consumiam os olhos. Nas atrizes que depois penduramos pelo quarto. Nos encantamos por aquilo. Víamos sempre juntos, na minha casa ou na dele, diversos filmes que nos transformaram pouco à pouco. Numa dessas, decidimos que trabalharíamos com isso. Mais tarde Helio se encantou pelo teatro e fizemos um pacto: eu faria filmes, ele atuaria em todos eles. Esses planos foram ano à ano sendo discutido, mas nunca chegamos a fazer nem sequer um curta metragem. Helio chegou até a trabalhar com teatro. Eu, ficava o dia inteiro estudando numa sala, graças ao sonho de um bom futuro que minha mãe tinha pra mim.
– Qual é, Dan! Você sabe que é isso mesmo que você tem que fazer. — Helio sabia que minha família não apoiaria de forma alguma se, como eu realmente desejava, declarasse que não faria nenhuma Engenharia e sim, Cinema!
– Eu vou fazer Engenharia de Qualquer coisa, Helio! — Era essa a relação que eu tinha com meu destino amaldiçoado.
– E você quer chegar no ponto em que eu viro um eremita, você vai pros Estados Unidos e a gente nunca mais se vê? — Helio abaixou o tom de voz e mudou repentinamente todo seu humor. Helio era para mim o mestre das sensações. Passava de uma personalidade para a outra em um segundo e causava os mais variados tipos de reações. Eu nunca sabia o que esperar do Helio. Em oito anos, eu nunca soube o que esperar do Helio!
– Você não pensa sobre isso? O ano está acabando e é só nisso que eu penso, cara. Eu fico angustiado e você é o único com quem eu preciso e quero falar sobre isso. — Fiquei assustadoramente desesperado. Meus olhos avermelharam-se e soltaram lágrimas quase que instantaneamente. Até o Helio se surpreendeu.
– É claro que penso nisso, Dan. O Tempo todo... — Ele finalmente olhou pra mim. — Você encontrou alguma solução para o problema?
– Não — respondi, desconcertado.
– Sabe por quê?
– Porque não há...
– Porque não há! — Helio deu um salto, parecendo um apresentador de circo. Helio era um idiota as vezes. — Dan... Pra que é que eu vou ficar pensando nisso? Pra ficar triste toda vez que eu pensar sobre isso? Pra ver como a porra do mundo é uma merda e que não há o que fazer pra conseguir deixar isso tudo pelo menos suportável? A única coisa que eu penso, Dan, é dar a minha melhor risada todo dia pra você enquanto a gente pode! E te dar todas as possibilidades que eu encontrar pra evitar que isso aconteça. Vale a pena ficar olhando pra nossa amizade acabar?
– Não acaba...
– Acaba. A gente vai lembrar sempre um do outro, se ligar todos os dias e um dia vai ficar tão difícil... Nós vamos estar tão mudados e vamos saber e ter tão pouco interesse na vida um do outro que a gente vai parar de se falar e vamos ser só lembranças.
O Helio tinha mesmo muitas personalidades. Fiquei quieto até que o cigarro do Helio acabasse.
– Sabe o que é pior nisso tudo? — Perguntei, despertando.
– Não... O quê? — Helio sorriu.
– Eu tenho muita saudade da Luzia, cara.
Helio soltou uma gargalhada e olhou pra mim. Mudou pouco a pouco, vendo que eu falava muito sério.
– Porra... Tarde demais né irmãozinho?
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