Notas iniciais
Esse é comprido, hein.
Mas foco, força e fé que a gente chega ao final, hahaha.
Espero que não seja tanto sacrifício lê-lo.

II

Foi mais difícil do que parecia para alguém com a minha constituição, mas depois de mais ou menos 20 minutos, eu realmente estava chegando a algum lugar, pois eu podia enxergar fogo. Com a luz, eu enxergava bem melhor. O rapaz que eu alcançava parecia um índio americano, ou descendente, e reparei que usava um cordão. Quando ele parou de andar, virou-se e disse:

- Agora, vamos encontrar os outros.

Quando avancei, eu vi uma fogueira. Uma das primeiras coisas que reparei era que tinha um porco assando ali. Não tinha reparado até aquele momento, mas eu estava faminta. E logo após isso, pessoas, mas eu não conseguia ver nada, exceto suas formas. Eu precisaria me aproximar mais para reparar neles.

E justo quando eu iria fazer isso, o indiozinho que me encontrou fala:

- Aí, pessoal. Encontrei-a. Graças a Deus, tinha acabado de entrar na floresta... Não sei por que não foi procurar os humanos, mas foi bom que ela não tenha feito isso – ele se vira para mim e continua – Obrigada, Theodora. Isso poderia ter-nos trazido problemas. E eu ainda não me apresentei. Meu nome é Lobo em Pé, e esse é o nosso grupo. Aproxime-se, nós vamos explicar tudo para você.

Ao me aproximar, a primeira figura que eu reparo é em um ancião, mas alto, bem forte e de cabelos longos – e grisalhos — presos num rabo-de cavalo para trás, e embora não estivesse com blusa, estava usando bermudas e algumas peles de animais pelo corpo. Tinha uma cicatriz gigante no rosto, três riscos de um lado, apesar de seu olho não ter sido machucado, e parecia perigoso, pois era o único que portava armas. Um facão e um machado pendurados na cintura e um embrulho comprido ao seu lado, o qual ele parecia guardar com o próprio corpo e que eu não pude identificar o que era; um cara vestido de preto, de cabelos curtos e de olhar penetrante, com um sobretudo, botas, camiseta e calça preta coladas e com um crucifixo no pescoço, uma mulher, loira, bastante bonita e com roupas de motoqueira, incluindo a jaqueta. Sua constituição talvez fosse até mais forte e musculosa que a minha, o que não é tão comum em mulheres; ao lado, um soldado, claramente. Cabeça raspada no estilo militar, camiseta verde oliva, calça camuflada, coturnos. Um que parecia malandrinho, bem despojado, com uns óculos escuros na cabeça contendo os cabelos que certamente cairiam na testa, uma blusa de gola V, uma bermuda quadriculada e um tênis da Nike, que ficava olhando constantemente um aparelho muito pequeno e fino, mas que parecia um celular mesmo assim.

- Sente-se. Não quer se sentar?

-Obrigada, mas eu fico em pé – mais fácil de manter a guarda alta.

-Isso aí, Theodora, sente-se, vem ficar aqui com a gente, a gente pode até curtir o jantar! Vem, bora aproveitar! – o despojado comenta, de um modo alegre e inocente. Eu desprezo isso, mas creio que deveria ficar feliz com ele ter levantado os olhos do aparelhinho e falar comigo (seus olhos são azuis, claros, contrastando com o cabelo castanho). Mas para não romper o fio da meada, já que eu ainda achava que eles fariam algo comigo, eu só olhei para ele, e virei novamente para o Lobo em Pé, que olhava apreensivo, como se estivesse pensando “puts, isso vai ser difícil”.

-Por favor, comece a falar.

Ele parece surpreso, ou constrangido, com meu pedido (como se qualquer outra pessoa não fosse fazer exatamente o mesmo), mas se recupera rápido e consegue articular uma resposta.

-Eu não saberia explicar. Mas há alguém nesse grupo que saberia, e por isso eu lhe trouxe aqui.

Ele dá um passo para trás e olha fixamente na direção do ancião, que cruza os braços, com uma expressão severa e dá alguns passos adiante na minha direção. Com os olhos em mim, me pergunta:

-Você é criança?

Eu levanto as sobrancelhas.

-Dezessete.

-Sim, você é criança. – E parece refletir — Theodora, não é? Seja bem vinda. Prazer, o meu nome é Hank. Preciso te esclarecer, pois você parece duvidar, que você se encontra entre boas pessoas.

-Isso eu prefiro decidir por meu próprio julgamento.

Ele franze as sobrancelhas.

-Mas ninguém faria nada com você. Eu não deixaria.

-Outro fato que prefiro decidir por mim mesma – ele parece achar alguma graça nessa minha declaração, embora estivesse sério. Talvez a tivesse achado curiosa.

-Então, para não termos segredos e para você não julgar nada como... anormal, – ele hesita, e sorri, nessa palavra – eu vou fazer algo. Chuva de Sangue! – ele fala mais alto, como se estivesse chamando — Pode sair daí.

Nem meio minuto depois, escuto um farfalhar de folhas, que parece vir das folhas de árvores e plantas atrás da fogueira. E de lá, sai um lobo, selvagem mesmo, hirsuto e negro, que começa a rondar a área da fogueira, como se não quisesse se aproximar. E de repente, esse mesmo animal selvagem, ele... Ele parece, hm, falar.

-É essa a criança? – Com uma voz gutural e bem rouca, como se raramente fosse usada. Coincidentemente, o lobo me encara enquanto fala isso.

Hank assente.

-É, é essa sim.

Durante essa breve conversa com nós três como participantes – eu, Hank e Lobo em Pé – eu já reparo, em segundo plano, que o pessoal mantém conversas aleatórias e em baixa voz, embora ainda prestem atenção na maior parte das coisas, principalmente para me julgar, imagino. Mas essas conversas são em alguma língua que não o inglês, mas que por algum motivo, eu consigo captar o sentido de algumas coisas. Não é fácil, nem fluente, mas eu consigo captar coisas cotidianas como “Essa comida não sai” ou “Lá vamos nós outra vez”. Não reparei o sentido exato, mas só o teor, o assunto das conversas. Mas o homem de sobretudo preto era o único que não participava, e coincidentemente, o único que me encarava fixamente todo o tempo. Mas realmente fixamente, de uma maneira que me deixava meio desconfortável e irritada. Sentia-me invadida, e aquela raiva dos últimos dias crescia. Mas apenas por teimosia, sustentei o olhar.

E mesmo enquanto Hank termina qualquer comunicação com o lobo que ele chamou de Chuva de Sangue e inicia novamente nossa conversa, meu olhar continua no dele.

-Hm... Theodora, é uma pergunta delicada, mas você se lembra do que aconteceu? Sabe o porquê você apareceu aqui, no estado de Dakota do Sul, coberta em um sangue que não é seu e de roupas rasgadas? Sabe o que houve?

Eu levanto a sobrancelha ao ouvir “Dakota do Sul”, mas não é como se fosse o suficiente para me fazer desistir de encarar o homem de preto de volta. Acho que Hank repara isso, pois justo quando vou articular uma resposta, ele suspira – embora não parecendo nem um pouco mais fraco, ou cansado, por causa desse suspiro, tenho que admitir – e comanda:

-César, pare de olhar para ela.

Ele parece reagir com surpresa, visto que seu corpo dá um leve pulo, um sobressalto, como se tivesse saído de um transe, ou de uma contemplação sombria. Ele dá um último olhar fixo e entra na conversa dos parceiros, embora não parasse de olhar algumas vezes, de tempos em tempos.

-E então, Theodora, retomando, você sabe como veio parar aqui? – Diz Hank, retomando a conversa anterior.

Odeio admitir.

-Não, eu não sei – tento não parecer frustrada por isso, e acho que consigo, tenho muita prática em manter meu rosto com uma expressão ameaçadora (ou fria).

- Hum... — De braços cruzados, ele parece pensar bastante. – Theodora, o quanto você acredita em lendas? Sobre lobisomens?

- Acho que a maioria delas, ou todas que já escutei, pelo menos, uma grande palhaçada. Uma maneira de enganar e negar. Mas não entendi a pergunta.

- Palhaçada? E por quê?

- Eu não acredito no que é considerado sobrenatural. Eu nunca vi, nem julguei alguém que tivesse visto.

- Você é uma lobisomem. – silêncio mortífero, de repente. Todos os outros parecem surpresos com a declaração, ou talvez só tivesse achado muito direta – E você acabou de passar por sua experiência da primeira transformação.

Bufo.

- Tudo bem. E como você pretende me fazer acreditar em você?

- Eu vou te convencer. Eu posso tomar medidas drásticas, mas antes... Primeiro: Foi você que matou aqueles caras; e você matou também o seu pai.

Eu o quê? Tudo bem, eu desprezava muito o Anthony, mas eu não creio que o mataria.

- Eu matei Anthony? Meu pai? Anthony está morto? – Ele está tendo o efeito contrário ao que ele queria. Eu não faria isso.

- Sim, Theodora, e você o matou.

- Não, pois eu não faria isso. A raiva já estava me consumindo havia dias, dias nos quais eu convivi com ele, e nem mesmo isso me fez matá-lo. Você está errado, porque não posso ter feito isso.

Hank cruzou os braços novamente, que havia descruzado ao falar com Chuva de Sangue.

- Um aviso para você. Se você não acredita... ok. Lobo em Pé?

Eu o vejo assentir, e andar para frente da fogueira. Lá, ele para e me encara. Fixamente, mas não do modo que César olhou.

-Theodora, olhe para mim. E não se desconcentre.

E ele sorri. Ele está se concentrando, ao que parece. Olhos fechados, os punhos fechados, a cabeça baixa. Depois de uns poucos minutos, sua respiração muda, seguida logo por um tremor em seu corpo. Esse tremor aumenta, e ele começa a se curvar. Sua forma vai baixando. Curva-se mais e mais, ou melhor, até eu reparar que na verdade, ele não está se encurvando, está encolhendo. E, por incrível que pareça, ficando peludo. Até que ele me lembra da mesma situação no bosque, quando eu jurava que era um lobo e era um homem, e de repente, há um lobo em seu lugar.

Notas finais
E aí, chegaram aqui?
Pessoal, se vocês gostarem, digam algo!
Obrigada pela atenção :)