— …“Então é isso que eu tenho a dizer. Talvez possa soar um pouco exagerado pra quem ouvir, mas é como eu estou me sentindo agora. É isso…”


​O chiado da estática que antecedeu os minutos finais parecia ocupar todo o espaço do quarto, mais denso que o próprio ar. Meghan mal conseguia respirar. Na tela, o contador do arquivo de áudio avançava implacável, mas era a voz de Victor que distorcia a realidade ali dentro. Não era mais o tom firme que ele usava para desafiar o mundo; era um som fragmentado, embargado por um peso que ninguém tinha sido capaz de aliviar. Ele não usou a palavra "fim", tampouco mencionou o que planejava fazer.



— Eu estou… literalmente em prantos agora — comenta Meghan secando as lágrimas dos olhos.


— Nossa, que coisa doida ouvir isso. Dois anos depois e receber algo assim pra se ouvir é muito emocionante. Não tem como não se emocionar — diz Nat, incrédulx.


— Vocês viram que ele disse “as cores de Atelis estão sumindo”? A gente jamais imaginava que Victor passava por uma coisa dessas. Na época não vimos nada disso e quando fomos ver já era tarde demais, ele já tinha ido — você declara.


— Você encontrou isso debaixo da cama do Victor? Como isso pode ser possível, S/N? Como que ninguém nunca pensou em olhar debaixo da cama? Isso é um tesouro. Você não vai mostrar pro senhor e senhora Walsh? — Meghan questiona.


— Eu quis mostrar primeiro pra vocês. Pra eles eu mostro depois.


— Vai ser um presente e tanto pra eles. Eu acho — Nat comenta.


Você guarda os objetos rapidamente em sua mala que está posicionada ao pé de sua cama.


— Espera! Por que você guardou aí? Eu achei que…


— Depois eu vou até à casa dos Walsh, mando uma cópia, pelo correio ou alguma coisa assim. Eu só não quero que a Lavínia veja. A qualquer momento ela pode sair do banho. Com certeza ela vai querer saber o que é — você explica.


Nat só confirma dando um sorriso de canto de boca.


— Sua mala já tá pronta. Nem acredito que hoje já é o último dia de vocês aqui — Meghan fala.



Lavínia adentra o quarto ainda secando os cabelos na toalha quebrando a estática do ambiente.


— O que foi que aconteceu? Por que estão com essas caras? Alguém morreu além do Victor? — ela pergunta.


— Nat e Meghan estão tristes porque vamos embora — você fala.


— Hoje é o nosso último dia aqui. Amanhã à tarde Atelis será apenas uma rica lembrança e eu e S/N vamos voltar pra realidade para os subúrbios de Nevinny. E é por isso que vamos aproveitar o máximo hoje como se a gente tivesse acabado de chegar. Ainda tá de pé a visita nesse tal de píer, né?


— É claro. Faremos a melhor despedida possível — Nat responde.


— Certo. Então, a Lavínia já tá pronta. Quem ainda mais falta se arrumar? — você pergunta.


— Você, eu e Meghan.


— Certo. Então Meghan vai primeiro. É a que mais demora pra ficar pronta. Eu e Nat se arrumamos por último.


— Hmm, vão se arrumar por último? Vão tomar banho no mesmo banheiro também? — Meghan insinua dando uma piscadela para Lavínia.


— Nem comece com essas brincadeiras. Tá muito coisa de adulto — você reclama.


— Se Ash ouvisse uma coisa dessas eu não estaria mais aqui pra contar história — Nat comenta.


— E até parece que você não gosta, né? — Lavínia brinca.


— Certo. Eu vou tomar banho primeiro e, por favor, não se matem antes de eu voltar — Meghan fala logo saindo.



Horas se passaram e, finalmente, o quarteto fica pronto para curtirem uma última noite na cidade dourada de Atelis. Como dito antes, o local escolhido foi o píer que se localiza na região costeira ou melhor dizendo, praiana, em um dos limites da cidade. Mesmo no inverno rigoroso, as águas não se congelam, pois, além da localização, isso se deve também graças à tecnologia usada para evitar a formação de gelo marinho.


O centro das atenções do píer é a conhecida roda gigante, que, totalmente diferente daquela encontrada no parque de diversões abandonado, é super viva e repleta de cores vibrantes que vão alterando a cada segundo.


— Ahh, então tá ótimo. Eu pensei que a gente viria pra um lugar só pra ver uma roda gigante, mas tem mais coisas aqui. Tem umas barraquinhas, comida que eu adoro e vou já ver o que tem lá, e…


— Garotos. Ricos e solteiros — Meghan fala completando a frase de Lavínia.


— Eu ia falar dos brinquedos e da barraquinha de maçã do amor, mas… acho que isso também serve — Lavínia diz — Eu ainda não acredito que você veio com essa bota. Pra que um salto desse tamanho na neve?


Lavínia fala explicitamente julgando o calçado de Meghan. Realmente ela tem razão. É um salto finíssimo não parecendo muito confortável pra se andar no tipo de local que estão.


— Eu já disse que adoro essa bota. Por sinal, ela é bem confortável. Eu sei muito bem andar na neve com ela — Meghan dispara.


— Já vão começar — você fala revirando os olhos.


— Será que vocês só pensam em paquerar, namorar e em garotos? Tem tanta coisa legal pra gente fazer aqui. Essa é a nossa última noite juntxs. Vocês duas não vão deixar eu e S/N aqui pra vocês irem ficar com garotos — Nat reclama.


— Calma, Nat. A gente não vai deixar vocês aqui. Fique tranquilx em relação à isso — Meghan diz.


— Até porque minha última experiência com um garoto não foi lá essas coisas. Mas eu pude me sentir como uma membra de uma família russa e rica por algumas horas — Lavínia fala.


— Juntem aqui — Nat ordena pegando o celular.


— O que você vai fazer? — você pergunta.


— Quero tirar uma foto da gente juntxs, antes que vocês se desmembrem e sumam do nada.


— Nós não vamos sumir do nada. A Meghan já disse — diz Lavínia.


— Até que isso seria uma boa. Fazer tipo um capítulo de uma história de amigxs em Atelis que somem misteriosamente. Ia ser demais — Meghan fala.


— Eu não ia gostar de uma coisa monótona e sem graça do tipo… eu vou mudar a minha voz agora pra fazer uma fala melancólica e dramática…“Ah, é o último dia de férias do grupo de adolescentes na cidade. Eles só vão ficar conversando em frente ao mar e relembrando os dias felizes que tiveram”. Dia assim é muito sem graça, não presta.


— É, mas não precisa exagerar e a gente ter um último dia em que alguém de nós some. Eu já tive experiência com último dia, adolescentes e o final da história não foi tão legal — você dispara um pouco incomodadx.


— Tá, então vamos andar, visitar alguns dos brinquedos, comer e conversar sobre alguma coisa. Aproveitar esse tempo que resta — Nat sugere.


— Eu quero ir na roda gigante primeiro. Companhias? — Meghan diz.



Em unanimidade, todxs do grupo concordam em visitar a roda gigante a princípio. Depois comeram maçã do amor, algumas outras guloseimas, chocolate quente e visitaram alguns dos outros brinquedos. O lugar não está tão cheio como esperado por ser o último dia de férias de grande parte dos estudantes, mas ao mesmo tempo soa confortável em saberem que há mais espaço.


— Eu vou sentir muita falta daqui. Será quando vou vir de novo? — Lavínia pergunta.


— Se depender de S/N, talvez nunca — Meghan comenta.


— Então que bom que eu fiz amizade com vocês, porque assim eu já não vou depender de S/N.


— Nossa, que climão você acabou de criar. Não poderia deixar mais quente pra amenizar o frio dessa noite? — Nat brinca.


— Ah, que graça — você diz, debochadamente.


— Podemos vir no aniversário de morte de Victor. Os pais dele iriam adorar nossa visita — Lavínia fala.


— Eu não se vai dar. Nós vamos estar em aula, Lavínia — você diz.


— Victor ia adorar estar aqui com a gente. E ia adorar te conhecer, Lavínia — Meghan fala.


— É, ia mesmo — Lavínia fala dando um gole de licor de chocolate — Quando vocês vão mostrar a fita pros pais dele?


— Er… de qual fita você tá falando?


— A que vocês estavam ouvindo antes de eu entrar no quarto mais cedo.


— ‘Tava escutando atrás da porta? — você pergunta.


— É claro que eu ‘tava. Não sou idiota pra não perceber que vocês estavam de segredinho — ela fala dando uma breve pausa — Só não entendi por que vocês me deixaram de fora dessa.


— Não entenda mal, Lavínia — Nat inicia — É só que…


— Eu sei, eu sei. Vocês eram amigos dele, não eu. Realmente foi uma grande barra pra vocês. Do nada alguém tirar a própria vida assim por causa de comentários de internet.


— Eu não tive coragem ainda pra mostrar a gravação pro senhor e a senhora Walsh. Eu acho que eles estão bem assim. Não precisam ficar revisitando as coisas de Victor — você fala.


— É, mas eles são os pais. Não vão conseguir desgrudar das coisas dele. Isso leva um tempo. Nem você conseguiria — Nat fala.


— Na verdade, sim. Eu superei, na verdade. Sei que Victor era meu melhor amigo, mas eu tenho certeza que ele iria preferir que eu seguisse em frente. É mais prático, vida que segue.


— Quanta frieza. Não sei como consegue ser assim. Na verdade, não me espanta já que ficou meses sem falar com a gente quando foi pra Nevinny — Meghan declara.


— E fez o mesmo com o pessoal de Nevinny quando veio pra cá — Lavínia complementa.


— Peraí, vocês vão voltar nesse assunto? Por que decidiram me atacar assim do nada? — você questiona, indignadx.


— Ninguém vai começar nada, S/N. Elas se expressaram mal — Nat fala.


— Na verdade, não. Elas se expressaram muito bem. E estão certas. Ninguém nunca permanece. Quando estamos distantes as coisas não são a mesma coisa, tudo muda. Então não tem porque ficar fingindo e forçando nada. As pessoas sempre prometem que a distância não vai mudar nada, mas, no fundo, todo mundo sabe que isso não é verdade.


— Me desculpa, S/N. Desculpa, desculpa, desculpa. Eu não quis falar isso. Não sei o que me deu. Eu acho que já tô começando a surtar com a ideia de que tudo vai ser como antes. Tudo normal, parado e… chato demais — Meghan fala.


— Como assim? Eu ainda vou estar aqui com você, Meghan — Nat diz.


— Não vai, não vai. S/N vai embora, Nat vai estudar na NASA e tudo vai voltar a ser como era antes. Eu vou ficar sozinha de novo.


— Meghan, calma. Relaxa. Respira comigo. Não precisa ficar desse jeito. Repete comigo — Nat respira fundo e solta o ar lentamente indicando para Meghan seguir o seu ritmo de respiração.


— O que tá acontecendo? — Lavínia pergunta.


— Ela tá tendo início de crise nervosa e ansiedade. Acho melhor vocês mudarem o rumo da conversa — Nat sugere.


— Mas foi ela quem começou — você diz — Ela tá fazendo a mesma coisa de quando eu cheguei. Jogando verdades na minha cara.


— Não importa quem começou! — Nat rebate com o tom de voz subindo carregado de uma autoridade que raramente usava. Os olhos fixos em Meghan, as mãos espalmadas no ar, subindo e descendo para ditar o ritmo da respiração. — Só... para, S/N. Por favor.


— Tudo bem. Daqui a pouco eu volto — você diz, logo saindo.


— S/N! — Lavínia fala logo indo atrás.




Após alguns minutos…



— Tá melhor? — Nat pergunta.


— Er, eu acho que tô. Foi só uma coisa passageira — você fala respirando fundo.


— Não liga pra isso. É o nosso último dia. Não precisava das coisas terem ido pra esse lado. Pegou todo mundo de surpresa.


— Será que eu exagerei? Você acha que eu peguei pesado?


— Talvez um pouco. Nada a ver vocês terem falado desse assunto.


— Eu espero que isso não acabe com a nossa amizade outra vez — você fala com preocupação.


— Não vai. Daqui a pouco vocês estão aí sorrindo de novo.


— Meghan? — uma voz ecoa ao longe.


— Quem tá me chamando? — você pergunta.


— É a Lavínia. Mas ela não tá com S/N — Nat fala — Aqui, Lavínia! — elx diz, acenando.


Lavínia que está um pouco distante corre em suas direções. Ela parece atordoada.


— E aí, como você tá? — ela pergunta.


— Acho que melhor. Só tive um pico de ansiedade como Nat falou. Foi um diagnóstico pela internet.


— Onde está, S/N? — Nat pergunta.


— Foi andar por aí. Tá super tranquilx. Não quis muita conversa comigo. Só espero que não volte a escutar som de trilho de trem de novo — Lavínia responde.


— Qualquer coisa a gente dá aquele suco mentolado outra vez — Meghan fala.


— É, mas tenho certeza que isso não vai ser necessário — Nat diz.


— Eu já pedi desculpas. Acho que você deveria fazer isso também. Por que fomos aporrinhar S/N num dia como hoje? Eu apenas segui seu ritmo — Lavínia fala.


— Não tem explicação para o que vocês fizeram. Do nada começaram a trocar farpas? — Nat repreende — Meghan o que deu em você? Está com medo de S/N ir embora?


— Não só de S/N irá embora. Eu já falei — você inicia — Tudo vai voltar como antes. Você daqui a algum tempo vai estudar na NASA, não vai ter tempo pra mim. S/N vai embora e vai sumir outra vez, eu sei que vai. E Lavínia foi a amiga que eu nunca tive. Ela não é patricinha, é bem diferente das amigas que eu tenho aqui. E já estou super farta de aguentar as mesmas conversas das patricinhas daqui.


— Mas você também é patricinha — Lavínia diz com expressão confusa — Tá, tudo bem. Eu tenho a solução. Por que você não vai embora pra Nevinny com a gente? — Lavínia diz.


— O quê?! — Nat exclama — Mas isso é…


— É ótimo. Assim não vai ficar sozinha. Agora… será que aguenta a pressão de estudar numa escola suburbana?


— Não, Meghan nunca iria — Nat declara.


— Deixa ela responder, Nat. Isso seria uma ótima opção, já que você também vai deixar ela aqui.


— Mas essa é a oportunidade da minha vida. Eu não posso deixar de ir.


— E essa é a dela. Vai ser muito melhor.


— Nat está certx. Eu não poderia ir. Na verdade eu nunca iria. Não pra morar lá. Você não vê? Minha mãe também nunca concordaria. A nossa vida é aqui. Vocês acham mesmo que vamos mudar assim de uma hora pra outra por qualquer motivo? A cidade de Atelis é luxuosa, temos tudo aqui. Por que iríamos mudar? — você fala finalizando com uma risada sarcástica.


— Bom, eu já falei o que eu tinha pra falar. Se não quiser ir, você que sabe. Não é obrigada, não é?


— ​Mas por onde S/N foi andar? — Nat insiste, olhando ao redor. O movimento no píer está calmo, quase íntimo, com poucas silhuetas caminhando entre as barracas de doces e os brinquedos iluminados — Esta parte da praia fica deserta à noite.


— Disse que precisava de ar puro pra respirar perto da água — Lavínia esclarece, apontando para a rampa que dá acesso à faixa de areia escura, logo abaixo da estrutura principal — Acho que não deveria ter deixado elx sozinhx.


​— Vamos dar uns minutos pra elx. Forçar uma conversa agora só vai fazer a gente andar em círculos e estragar o resto da noite — Nat fala.


— Forçar a conversa pode até fazer a gente andar em círculos, mas deixar S/N sozinhx com aquela cara de quem vai cometer um crime, tipo se jogar no mar ou escrever um poema gótico me preocupa — você rebate, ajeitando o casaco com uma urgência dramática — Você não viu o olhar delx? Estava idêntico ao do protagonista daquele filme francês que a gente assistiu, segundos antes de ele pular de uma ponte só porque o café dele esfriou!


​— Meghan, menos, bem menos — Lavínia suspira, massageando as têmporas — S/N só foi andar na praia. No máximo, vai sentar na areia, olhar pro horizonte e fingir que está num videoclipe de música indie. É o processo delx. Se S/N for cometer algum crime, é mais fácil elx te jogar no mar do que se jogar.


​— Tem razão — você suspira, limpando uma lágrima borrada de rímel com a ponta do dedo — É que eu sinto que tudo está desmoronando! O Victor se foi, daqui a pouco é Nat, e S/N e você estão prestes a sumir e irem de volta pra Nevinny. Eu vou virar uma solteirona amarga em Atelis, alimentando pombos psicopatas na praça central!


​— Meghan, você só tem quinze anos — Lavínia pontua, arqueando uma sobrancelha.


​— Mas o meu emocional é de uma viúva vitoriana de oitenta! — você rebate, dramaticamente jogando as costas contra o corrimão de madeira do píer.


O problema é que o corrimão, umedecido pela maresia e pelo frio rigoroso de Atelis, está consideravelmente escorregadio. Em um segundo perde o equilíbrio, soltando um guincho agudo que ecoa chamando atenção de quem está próximo.


​— MEGHAN! — Nat grita, tentando segurá-la pelo capuz do casaco, mas só conseguindo arrancar um punhado de pelos sintéticos.


Com um baque surdo seguido de um som plástico e oco, você cai direto em cima de uma enorme pilha de boias infláveis de flamingo que o dono de uma barraca fechada havia empilhado na rampa de acesso à areia. Um flamingo rosa gigante esvazia lentamente com um som de apito agônico sob suas costas.


​— Ai, ela quebrou a espinha! — Lavínia se desespera, correndo rampa abaixo, quase escorregando também — Meghan, fala comigo! Quantos dedos tem aqui?


Você continua estirada sobre os flamingos infláveis, olhando para o céu estrelado de Atelis com os olhos arregalados.


​— Me deixem aqui. A terra me acolheu. Este flamingo agonizante é o meu novo lar. É uma metáfora perfeita para a minha vida acadêmica.


​— Levanta daí, sua maluca! — Nat diz, descendo as escadas correndo, alternando entre o terror absoluto e uma vontade incontrolável de rir — Você quase se matou!



​Enquanto Nat e Lavínia tentam lhe içar de volta à realidade, — e desenroscar a sua perna de um cisne inflável — um vulto emerge contra à luz de uma das barracas caminhando lentamente pela areia com as mãos nos bolsos.


É S/N.


Na mesma hora em que vê a situação em que vocês se encontram, elx para no mesmo instante apenas observando a situação enquanto dá uma risada.


— Eu pretendia fazer uma entrada triunfal, digna de alguém que ‘tava tendo momentos de reflexão na areia da praia. E aí eu saio por dez minutos e vocês estão assim nesse estado. O que foi que aconteceu aqui?


​— S/N! — você clama, estendendo a mão dramaticamente deitada no chão — Você voltou! Eu achei que a distância já tinha nos separado pra sempre!


— Quanto drama! — Lavínia fala.


— Tá melhor? Quer dizer… dá pra ver que tá, né? Eu perdi muita coisa durante a minha caminhada? — S/N pergunta.


— Só a chance de ver essa menina dando um show de videocassetada. Praticamente todo mundo olhou pra ela — Nat diz conseguindo, finalmente, lhe levantar.


— Eu não dei um show de videocassetada! Eu sofri um atentado arquitetônico por culpa desse píer superfaturado! — você reclama enquanto passa as mãos na bainha da calça.


​— Ah, claro. A culpa é do píer, não das suas botas de salto quinze no meio de uma rampa de madeira úmida — Lavínia provoca segurando o riso enquanto arranca uma pena sintética que está grudada na sua calça.


S/N anda em sua direção com um singelo sorriso. Inesperadamente lhe dá um abraço. Ele é extremamente reconfortante e, por algum motivo, por causa dele, parece que tirou um peso das suas costas e ombros.


Meghan olha para você, com os olhos meio caídos, sem o pânico de antes, porém parecendo envergonhados.


— Desculpa por ser essa idiota insuportável. Eu apenas… surtei. Não quero que as coisas mudem.


— Mas as coisas não vão mudar, Meghan. Só vão voltar a ser o que era antes — você diz.


— Mas é exatamente isso que eu não quero. O que estava antes era muito chato.


— Olha, Nevinny não é distante daqui. Eu vim te visitar, você pode ir lá também. Sei que vai ser meio difícil, mas é o que a gente tem por enquanto. Nat ainda vai estar por aqui. Você pode mandar áudios pra mim, longos, se quiser, aqueles de dez minutos reclamando da vida. Não prometo escutar, mas eu vou responder assim que der.


— Eu sei que não vai. Você vai inverter os papéis — ela diz — Mas só de pirraça eu vou mandar vários por dia.


Vocês ouvem um suspiro logo ao lado como de alguém bem impaciente.


— Ah, por favor. Vocês querem parar desse momento melodramático? Vocês estão fazendo tudo que eu pedi pra não fazerem.


— Lavínia, elxs estão fazendo as pazes. Por que você foi estragar esse momento? — Nat repreende.


— Eu preciso de açúcar. Isso tá entediante demais. Por que não fazem isso quando a gente chegar em casa? A gente não vai se separar por aqui — ela fala revirando os olhos — Vamos, eu tenho uma missão pra vocês.


— Que missão? — Meghan pergunta.


Ela intervém, passando o braço pelo seu pescoço e o de Meghan, lhes puxando para perto.


​— Eu quero… ostentar como se fôssemos herdeiros de uma dinastia russa até o nosso dinheiro acabar, ou… até o píer fechar, pelo menos — Lavínia decreta apontando para as luzes brilhantes da roda-gigante — Nós vamos comer aquela maçã do amor brega, vamos subir naquela roda gigante e, se a Meghan chorar de novo, a gente joga ela na água.


— Eu apoio — você diz.


— Ei! — Meghan protesta, mas já rindo.



​O restante da noite pareceu correr em um ritmo desacelerado, como se o próprio inverno de Atelis tivesse decidido congelar o tempo para protegê-los. A brisa que vinha do mar já não parecia tão cortante; era apenas o cenário de fundo para as risadas que ecoavam entre as barracas de lona colorida.


Esqueceram as fitas de áudio, esqueceram as malas prontas que esperavam nos quartos da mansão e a inevitabilidade do relógio. Nat acabou gastando o equivalente ao preço de um jantar de luxo em uma barraca de tiro ao alvo só para conseguir um urso de pelúcia vesgo para Lavínia. Você e Meghan competiram para ver quem conseguia tomar o chocolate quente mais rápido sem queimar a língua — um desafio que ambxs perderam miseravelmente, resultando em caretas e risadas altas no meio do deck.

Quando a meia-noite se aproximava e o movimento do píer finalmente minguou até restar apenas o quarteto, caminharam até a ponta mais extrema da estrutura de madeira, onde o oceano se estendia infinitamente sob o céu estrelado.


Por último se sentaram lado a lado na amurada, deixando as pernas balançarem no vazio acima das águas escuras que dançavam lá embaixo. O som do mar quebrando nos pilares era a única música no ambiente.


​— Vai ser estranho acordar depois de amanhã e não ver essa vista — você comentou baixo, quebrando o silêncio confortável, os olhos fixos nos reflexos dourados e neon que flutuavam na água.


​— Vai ser estranho não ter você para reclamar do meu café da manhã — Nat rebate, encostando o ombro no seu, um gesto simples que carrega todo o peso da despedida que evitavam verbalizar.


​Meghan limpou o canto da boca sujo de açúcar, os olhos brilhando refletindo a iluminação da roda-gigante que começava a piscar, indicando que o parque iria fechar.


​— Não importa o que aconteça amanhã quando o sol se puser — Meghan começa, a voz firme, sem o drama exagerado de antes — Esta noite é nossa.


​Ninguém respondeu, porque não era necessário. Então, permaneceram ali, ombro com ombro contra o frio, guardando na memória o calor daquela última madrugada em Atelis, sabendo que, independentemente da distância que o dia seguinte traria, a imagem de ambos contra a imensidão do mar jamais seria apagada.