“Oi, Lívia. Me desculpa pela demora”


“Tem acontecido tantas coisas”


“Como você ficou sabendo do vídeo que vc viu?”


“Não acredite nele. É um vídeo fake”


“Joseph tá à beira do caos com isso. Mas ele tá resolvendo. Ele sempre resolve tudo.”


“Em breve eu vou te ver de novo. Daqui a pouco as férias acabam e eu vou ter que voltar pra escola”


“Como você está?”



[...]







Não há nada mais absoluto e prazeroso do que contemplar a solitude e ter a possibilidade de tirar pelo menos um dia de sua vida à vontade para se fazer o que bem entender. Diferente da solidão, que é algo doloroso e involuntário, onde a pessoa está sozinha pelo fato de se sentir num vazio ou ser excluída de algo ou por alguém, a solitude traz uma carga poderosa de estar só possibilitando a reflexão e fortalecer a autoconfiança.




— Muito obrigadx por me trazer aqui, Feralício. O pessoal deve estar me esperando. Te agradeço muito.


— Por nada, S/N. Espero que tenha um dia divertido. Com todo esse tumulto acontecendo é bom ter um momento de alegria. Você merece — Feralício fala olhando para fora do carro.


— Dessa vez eu optei pra gente se encontrar no “The Rocco Flamingo”. Vi umas fotos na internet, me deu uma curiosidade, então decidi arriscar — você fala, animadx.


— Tem certeza? Por que você não escolheu o parque de diversões que é aqui perto? Parece bem mais apropriado do que… nesse clube. Parece tão mais adulto. Você sabe que muita gente fresca metida a besta vai nesse lugar, não é?


— Até parece que eu ainda sou criança pra ir em parque de diversões, né, Feralício? Isso é coisa de criança.


— Bom, tudo bem. Achei estranho Joseph concordar com uma coisa dessas, mas quem sou eu pra discordar do patrão, não é?


— Ele disse que eu poderia fazer o que quiser desde que eu não saísse da cidade. Aqui onde estamos tá quase no limite, mas ainda não cruzei a linha.


— A que horas eu devo te buscar?


— Eu mando mensagem quando eu tiver saindo, mas saiba logo que o carro vai estar cheio — você assegura.


— Ótimo, tudo bem, mas não vai se envolver em confusão — ele solicita — Joseph está precisando de mim agora. Até mais tarde.


— Tchau, Feralício. Boa viagem.



Só pra deixar claro, o The Rocco Flamingo é um dos destinos mais exclusivos e comentados da vida noturna e social de Atelis. Ele funciona como uma mistura sofisticada de clube privado, lounge de coquetelaria e espaço cultural. Durante o dia, sua fachada exibe uma elegância clássica com tons pastéis e arquitetura imponente. À noite, ele se transforma em um farol de néon rosa e dourado.


De fato, ele é um local visitado frequentemente por adultos, por isso a desconfiança de Feralício. Mas ele não é restrito e destinado apenas à esse público. Depende dos olhos de quem vê.




📍 Interior do The Rocco Flamingo…




É a sua primeira vez nesse local de puro luxo e toques retrô. O design segue rigorosamente essa estética com influências claras da Art Déco e do Glamour dos Anos 50, criando um ambiente que é, ao mesmo tempo, acolhedor e de um certo modo intimidante.


A música no interior — na qual é “Johnny B. Goode” do Chuck Berry — é contagiante e alguns detalhes de cores néon lhe faz sentir em casa, como em algumas vielas em Nevinny tornando tudo um tanto familiar.


Através de todo o espaço há inúmeras estátuas de flamingos nas mais variadas formas e posições, inclusive muitos deles de paletó da mesma cor da pelagem do animal.




⌚️ Alguns minutos depois…



Apesar de ser um ambiente bem enérgico e agradável, o fato de a maior parte dos que estão presentes serem adultos lhe faz sentir como intrusx no local. O ar parece mais pesado. Há cheiro de tabaco caro, couro e perfumes importados que certamente não são costume do seu mundo adolescente em ascensão. A cada passo que dá no tapete felpudo parece um erro cometido e a dúvida surge: “O que eu vim fazer aqui?”


Ao cruzar com um garçom de colete impecável e bandeja de prata, o olhar do homem é rápido e cortante — uma avaliação silenciosa que parece dizer “você não deveria estar aqui”. Então, assim, põe as mãos nos bolsos do casaco, tentando parecer menor, tentando não ser notadx pelas figuras de terno que discutem negócios obscuros nos cantos mal iluminados. E cada olhar atravessado que recebe parece gritar: “você não pertence a este lugar”.


É então que você para em frente da porta de vaivém que leva ao salão principal. Não foi o medo de ser pegx que impediu a sua ida, mas uma sensação física e avassaladora.


Você olha para baixo. O chão parece estranho por alguns segundos. A sensação é de que a estrutura do local está tremendo. Não é uma vibração sutil e passageira como um relâmpago, mas um solavanco pesado e profundo, que parece vir de metros abaixo do chão de mármore polido do clube.


“É um terremoto?”, você pensa, mas logo conclui que não é, já que, olhando em volta para as pessoas presentes no local não capta nenhuma atividade estranha de nenhum deles.


Você respira fundo e, ignorando mais um garçom que passa ao seu lado, você se ajoelha e começa a palpear o chão. ​A vibração é inconfundível. O ruído também. Uma ressonância de metal pesado colidindo com metal. Esse é o mesmo som que ouvira várias outras vezes. A última delas foi em uma outra noite na mansão.


Seu celular toca uma notificação de mensagem. Você vê que é Meghan que mandou alguma coisa, porém não abre a mensagem. O que acontece fora da tela é muito mais interessante.



“O The Rocco Flamingo não é apenas um clube? É uma fachada.”


Se os trilhos nunca existiram na superfície de Atelis, agora eles existem, sob seus pés.


E é nessa certeza na qual você se apega. Seu coração começa a bater mais rápido que a bateria da música anterior que escutou. A dúvida que teve naquela noite na mansão, agora traz uma pista real. Agora a pergunta é… para onde deve seguir? Até que ponto essa nova pista pode te levar?




⌚️ Um tempo depois fora do The Rocco Flamingo…



Não teve nada no interior do clube que pudesse te levar a crer de que por ali possa existir algo que dê o pontapé na investigação. Uma escada ou uma entrada secreta. Foi estranho procurar por algo do tipo e mais estranho ainda ter a convicção de que o clube é apenas… um clube. Dessa forma, nada mais que propício e lógico se deixar guiar pela intuição e procurar alguma resposta do lado de fora.


Com a questão da neve espalhada pelo chão foi um pouco difícil tentar encontrar algo que possa servir como uma entrada ou qualquer coisa fora do local estranho o suficiente pra dizer “Com certeza é aqui!”.


E foi assim que fez: evitou andar pelas ruas principais e deixou-se guiar pelo instinto, mantendo os ouvidos atentos a qualquer zumbido subterrâneo. Em meio à isso seu telefone tocou algumas vezes, algumas mensagens chegaram, mas nada tirou o seu foco em encontrar o que tanto quer. Em certo tempo de andança, atravessou os limites do distrito leste, onde as construções de pedra começaram a dar lugar a muros baixos de contenção e, finalmente, à vegetação densa que cerca a cidade.

À medida que se afastava da civilização, o barulho mudou. Não era mais o “tunc-tunc” repetitivo e com ritmo, mas um chiado de compressão, como se a própria terra estivesse soltando um suspiro de vapor. Parando em um certo ponto da floresta você olha para trás para se nortear caso tenha se afastado um pouco demais. Ainda dá pra ver algumas casas e prédios ao longe, então não é o caso de se preocupar na hora de voltar pelo mesmo caminho.


Mais uma vez seu telefone toca. Dessa vez é Lavínia chamando. E dessa vez você atende a ligação, prometendo ser a última.


— “S/N, por que você não atende o telefone e não responde as nossas mensagens? Onde você tá agora?”


— Eu disse que não queria ninguém me incomodando no dia do meu aniversário. Mas parece que vocês não entenderam nada do que eu falei naquele dia, não é? O que a Meghan tanto quer que parece desesperada?


— “Nós estamos preocupados com você. Inclusive seu pai. O seu motorista disse que você ia encontrar com a gente, mas quando ele ‘tava voltando pra casa ele encontrou a gente na rua e perguntou. Você mentiu pra ele.”


— Não importa o que eu disse pra ele. O que importa agora é o que eu tô fazendo. Eu estava certx quando falei que tinha escutado um barulho de trem e a Meghan disse que seria impossível e adivinha só. Eu tô bem perto de saber de onde veio aquele barulho.


— “Não acredito que você foi investigar sem a gente. Onde você tá? Me diz que a gente te encontra. Eu não quero ficar de fora dessa vez.”


— Eu preciso ir. Depois conto tudo pra vocês. Até mais — você diz encerrando a ligação em seguida desligando o celular.



Agora, dessa vez o silêncio parece tomar conta. O vento que antes rolava pelos ares para assim também parecendo ter feito com o mundo. O som metálico que o perseguia não era mais um eco subterrâneo, mas um gemido de ferro exposto ao relento. E nesse sentido, em mais uns passos à frente depois da névoa, emerge, então, um parque de diversões abandonado.


O lugar parece uma cápsula do tempo. Na entrada principal tem um arco de ferro batido com o letreiro sujo e mal dá pra ver o escrito nitidamente.


Logo na entrada há uma tenda e atrás uma roda gigante fantasmagórica erguida em contraste com o céu nublado. As cadeiras suspensas fazem barulho devido ao ferrugem dando a sensação de que a qualquer momento possa cair.


Já do outro lado, há uma montanha-russa. Seus ferros parecem retorcidos e enrolados como se fossem de papéis.


Por último há um carrossel, com cavalos de madeira e seus olhos de vidro fixos e sem vida, porém, nada de trilhos de trem até então.


— Eu não conheço esse parque — você comenta consigo.


Olhando pelos lados em volta de todo o espaço você procura com ansiedade alguma brecha ou detalhe que possa indicar que começa algum trilho.


A tenda parece ter algo mais suspeito e com certeza há alguma coisa escondida por lá. Seria perfeito. Olhou pelo tablados e armários espalhados até debaixo das arquibancadas e as fendas abertas no asfalto.


Nada.


Não há um único centímetro de trilho de trem.


A frustração começa a queimar em seu peito. “Como é possível?” O som é tão real, a vibração no clube tão física... mas o espaço em questão é amplo e o solo parece o lugar perfeito para uma estação oculta, mas há apenas o vazio industrial de um parque morto.




⌚️ Um tempo depois…




Após ter ficado um bom tempo atrás de alguma pista e esperando ouvir novamente o tremor, um novo som lhe chama a atenção e ele parece bem próximo.


Gritos…


Ecoando o seu nome.



— Ai, graças você está aqui. O que deu na sua cabeça em ter sumido desse jeito, hein? — Meghan te abraça em seguida dando um tapa em seu ombro com a expressão nitidamente irritada.


— Você vai se encrencar bonitinho dessa vez. É melhor você dar uma boa justificativa pra eles — Lavínia fala baixinho para você.


— Meghan? Nat? Lavínia? O que vocês estão fazendo aqui? Como me encontraram?


— Que ótimo jeito de passar o dia do aniversário, S/N. Contou uma história pra gente que ia ficar sozinhx e pro Feralício você disse que ia estar com a gente e de repente você está aqui? Não sabia que a nossa presença te incomoda tanto — Nat diz.


Você nada responde ao ver Joseph se aproximando seriamente.


— S/N, que susto você nos fez passar. Por favor, nunca mais faça isso — ele passa a mão em sua cabeça te analisando de baixo para cima — Você está bem?


— Eu tô. Eu tô bem, pai — você diz — Lavínia, eu estava certx. Eu ‘tava certx. Quando eu disse naquela noite que ouvi o barulho de trem, a Meghan disse que seria impossível, mas eu ouvi. Eu ouvi no Rocco Flamingo e por isso vim parar aqui. Mas eu não encontrei nada. Pai, você sabia disso? Tem alguma coisa por baixo desse parque, não tem?


Lavínia, Meghan e Nat trocam olhares de condescendência sem dizer uma palavra. Joseph apenas observa ao redor e, te segurando lhe dá um abraço e diz:


— Não há nada aqui, S/N. É só um parque abandonado. Você não deveria estar tão longe.


— Você falando assim acabou de provar que tem alguma coisa aqui. O que o senhor está procurando?


— Não há nada aqui. Esse é um lugar abandonado e de propriedade da prefeitura. Certamente vão construir alguma coisa no lugar… ou demolir tudo de vez — Joseph fala.


— É claro que vão — você diz aproximando-se de Lavínia — Com certeza tem um trilho de trem aqui embaixo. Eu ouvi tudo.


— ​S/N, a gente já te disse — intervém Nat, colocando a mão em seu braço de forma protetora — Não existem trilhos em Atelis. E você sabe disso. Muito menos nesse parque caindo aos pedaços. Tudo aqui é só madeira velha e ferrugem. Você deve estar exaustx, só isso.


— Mas eu ouvi. Eu ouvi tudo, Nat — você tenta afirmar, mas suas palavras parecem vazias ao passo que todxs vão negando suas explicações.


— Chega de trilhos por hoje — sentencia Joseph — Você já teve muita sorte de não ter se machucado por aqui. Tem muitas coisas sujas, afiadas e perigosas. Há um motivo pra esse lugar ficar no limite da cidade. Vamos tomar um café? O açúcar vai colocar sua cabeça no lugar e a gente pode combinar algo normal, tipo ver um filme ou apenas descansar.


— Mas hoje ainda é meu aniversário. Eu ainda quero ficar sozinhx — você diz.


— Pensasse nisso antes. Na próxima você cria um plano mais mirabolante e capricha na execução e nos detalhes — seu pai finaliza bem sério.


Então, o grupo começa a se mover para o carro. Seu pai entra primeiro e senta-se no banco da frente ao lado do motorista que já o espera no interior do veículo. Nat, Lavínia e Meghan abrem espaço para terem a certeza de que você entrará primeiro.


Ao entrar, vê Feralício que lhe olha através do pequeno espelho parecendo decepcionado. Você, envergonhadx, desvia o olhar e prefere mirar sua atenção de volta para o parque com uma questão girando em torno de sua cabeça: se os trilhos não estão realmente no parque, por que os sons lhe enganaram lhe levando até lá?

Notas finais
Oi, leitores. Me desculpem pela demora para publicar um novo capítulo. Eu enfrentei problemas pessoais e de saúde esses últimos dias, o que acabou atrasando a finalização de um capítulo e a publicação de um novo. Agradeço pela paciência e me desculpem mais uma vez. Espero que tenha gostado de "O carrossel". O próximo vem logo. :)